↫─Capítulo 58
ᯓ ✈︎ Capítulo 58
A cozinha, onde estávamos reunidos em cinco — meus pais, minha tia, Saheon hyung e eu — era pequena, mas estava sempre movimentada. Desde que eu era pequeno, havia uma tradição não escrita em nossa casa: quando fazíamos carne na grelha, os homens ficavam responsáveis por tudo.
Normalmente, meu pai ficava responsável por grelhar a carne, enquanto eu lavava os vegetais e preparava os acompanhamentos. Quando fiquei velho o bastante para mexer com fogo, também passei a preparar doenjang-jjigae e acompanhamentos simples com cebolinha e vegetais.
Enquanto minha mãe e minha tia riam e conversavam, meu pai tirou a chapa elétrica para a carne e a ligou na tomada. Mesmo ainda me sentindo como se tivesse sido enfeitiçado por uma raposa, meu corpo se movia no automático, seguindo velhos hábitos. Quando percebi, já estava lavando as cebolinhas na pia.
A água que enchia a bacia estava gelada. Enquanto despejava a água fria sobre as folhas verdes, precisei conter a vontade de jogar um pouco no rosto também.
Assim como meu pai e eu naturalmente assumimos nossas tarefas, seguindo a divisão de funções com a qual havíamos crescido, Saheon hyung também pareceu sentir que precisava fazer alguma coisa. Senti uma presença atrás de mim e, em seguida, uma mão grande envolveu delicadamente minha cintura.
Inspirei fundo sem perceber. O suspiro agudo que escapou de mim chegou a me surpreender. Virei-me depressa, como uma criança pega fazendo algo errado, e, depois de confirmar que felizmente ninguém estava prestando atenção em nós, lancei um olhar afiado para ele.
— Tem alguma coisa que eu possa fazer?
A pergunta veio com a maior naturalidade. Dei um passo para trás, mas ele avançou dois, abrindo um sorriso largo. Encurralado contra a pia, lancei um olhar para meus pais e indiquei em voz baixa:
— Pega o kimchi na geladeira.
— Tá bom.
A mão que deixou minha cintura roçou de leve minha bunda. Meus ombros se contraíram. Fiquei olhando para as costas dele, sem saber se tinha sido de propósito ou por acidente.
Ele começou a procurar dentro da geladeira, curvando o corpo alto. Vê-lo usando minhas roupas me causava uma sensação estranha. Como ele era mais de um palmo mais alto que eu, tinha escolhido roupas largas, mas, depois que ele as vestiu, elas acabaram ficando um tanto desajeitadas.
A parte de cima era uma camiseta de manga curta que eu havia comprado em um tamanho grande quando cresci de repente no ensino médio, esperando crescer ainda mais. No fim, não cresci tanto quanto imaginava e nunca cheguei a usá-la. A parte de baixo era uma calça de dormir que ficou curta, deixando os tornozelos à mostra.
Era uma combinação que não fazia sentido nem pela estação, nem pelo comprimento das peças. Os cantos da minha boca se ergueram levemente, e minhas preocupações anteriores sobre hyung ser um pervertido sexual de repente pareceram ridículas.
Não era exatamente engraçado. Era mais como um sorriso difícil de conter, parecido com quando alguém fazia cócegas na minha barriga. Rapidamente forcei os cantos da boca para baixo e tirei as cebolinhas, já quase congeladas pela água fria da pia colocando-as sobre a tábua.
Cortei as cebolinhas crocantes em pedaços pequenos, do tamanho de uma mordida. A cada vez que a faca tocava a tábua, um som ritmado ecoava pela cozinha.
Saheon hyung fechou a geladeira e voltou na minha direção, segurando o pote de kimchi.
Com medo de que ele tornasse a envolver minha cintura, ainda por cima com meus pais logo atrás, continuei cortando rapidamente, mantendo os cotovelos bem junto ao corpo. Mas não eram apenas os braços que podiam me envolver.
Ele simplesmente passou um braço pelos meus ombros. O jeito carinhoso como se grudava em mim, mexendo de leve no meu braço, parecia íntimo demais para uma relação entre vizinho e irmão mais novo.
— Pronto, querido.
Ouvi sua voz baixa, quase num sussurro. O jeito prolongado como pronunciou a palavra, como se estivesse tentando ser manhoso, junto com aquele tratamento carinhoso que nunca havia usado comigo antes, quase fez com que eu cortasse meu próprio dedo com a faca.
— Aaah!
Surpreso com as palavras e com o quase acidente, soltei um grito. Dessa vez, todos voltaram a atenção para nós. Envergonhado e desnorteado por estar preso ao abraço dele, empurrei-o para longe e gaguejei:
— Minha mão, a mão… Eu me assustei… Quase cortei…
— Kwon Saheon, pare de brincar e venha pra cá.
Minha tia o chamou em tom severo. Ele fingiu não ouvir e continuou assobiando baixinho enquanto acariciava meu pulso, que ainda segurava a faca. Seus dedos deslizaram até a cavidade no dorso da minha mão, acariciando-a de leve.
Senti o rosto esquentar. Mesmo com todos olhando para nossas costas, ele se inclinou e sussurrou, com os lábios quase tocando minha bochecha:
— Assim não dá. Quer que eu faça?
Estremeci e virei o corpo em sua direção. Não tinha intenção de apontar a faca para ele, mas, assombrado com a pergunta, levantei a mão e, de algum jeito, aquilo acabou parecendo uma ameaça.
Meus pais, sentados à mesa, caíram na risada. Pareciam entretidos, como se estivessem assistindo a um espetáculo interessante. Constrangido, coloquei a faca sobre a tábua.
Meu pai, que esperava a chapa elétrica esquentar, colocou a barriga de porco sobre ela e disse:
— Isso mesmo, o capitão Kwon é visita. Venha sentar.
— Mas o Cheongmyeong precisa de ajuda.
— …Pode ir…
Murmurei tão baixo que a voz quase não saiu. Mesmo com o delicioso chiado da carne assando, ele pareceu me ouvir. Baixou um pouco a cabeça para encontrar meu olhar.
— A gente não deveria fazer isso juntos?
Naquele dia, a consideração dele estava começando a passar dos limites. Olhei para onde os adultos estavam sentados. Talvez por causa do grito que eu havia dado antes, eles ainda continuavam de olho em nós.
— Eu consigo fazer sozinho…
Murmurei baixinho, inquieto.
A sensação de estar enfeitiçado por uma raposa persistia. Antes que eu pudesse pensar melhor sobre as preocupações que haviam me trazido de volta para casa, ele continuava me provocando, sem me dar espaço para pensar em outra coisa.
— Sério?
Ele prolongou a palavra e arqueou as sobrancelhas, formando um V invertido. Parecia absolutamente abatido, mas outra cena se sobrepôs àquela na minha cabeça.
Era uma daquelas cenas que apareciam com frequência nos dramas matinais que eu assistia com meu pai durante as férias escolares. O marido, completamente alheio ao clima, ajudava ou demonstrava carinho sem qualquer pudor diante da sogra que morava com eles, deixando a nora sem saber onde enfiar a cara.
Naquela época, eu achava que seria melhor para todos se ele simplesmente ajudasse. Agora, já não parecia tão simples.
Saheon hyung me olhava como se não entendesse nada, mesmo depois de eu ter recusado sua ajuda daquele jeito.
Pais, marido, nora, drama, Saheon hyung… As palavras e as cenas se misturaram na minha cabeça, deixando tudo prestes a explodir. Por fim, com o rosto vermelho, empurrei suas costas com firmeza.
Passei as cebolinhas cortadas para uma tigela e despejei o molho de tempero que estava no armário. Só quando comecei a polvilhar a pimenta em pó consegui olhar para ele quase o encarando. Ele estava tirando arroz da panela elétrica e distribuindo nas tigelas.
Uma ideia me atravessou de repente. Será que ele estava fazendo aquilo de propósito? Olhei para Saheon hyung com desconfiança, mas logo balancei a cabeça e misturei a salada de cebolinha. Até para mim, aquilo parecia uma especulação exagerada. Ainda assim, as situações ambíguas continuaram.
Era como se ele estivesse determinado a não me dar nem um instante para pensar. Usando como desculpa o fato de faltar uma cadeira para a mesa de quatro lugares, sugeriu que eu me sentasse em seu colo — acabamos trazendo a cadeira da minha escrivaninha —, ou ficava colocando pedaços de carne bem assados na minha colher, ou tentava me dar ssam* enrolados por ele, ou até queria limpar minha boca pessoalmente, dizendo que havia alguma coisa nela.
*NT: Ssam é um preparo coreano em que a carne e os acompanhamentos são enrolados em uma folha de verdura para comer.
A cada atitude estranha, eu me pegava olhando ao redor ainda mais. Meu rosto naturalmente se fechava sempre que percebia que suas ações pareciam muito mais apropriadas para um casal de namorados.
《Por que ele está agindo desse jeito de repente》
Com a sensação de estar comendo sob vigilância, aceitei a contragosto o ssam que ele havia preparado para mim.
— Está gostoso?
Minha boca já estava cheia com o enorme ssam, então não consegui responder. Como se nem percebesse meu olhar desconfiado, ele ainda passou de leve a mão pela minha cabeça.
Minha tia murmurou:
— Que bagunça…
Meu rosto esquentou de vergonha. Mastiguei o enorme ssam com força.
Mesmo que aquelas atitudes fossem insignificantes para ele, eu havia começado a atribuir significado a cada uma delas.
Eu tinha dito claramente que precisava de tempo para pensar, mas ele não me dava nem sequer essa oportunidade. Cheguei a pensar se ele não estaria com medo de que eu percebesse a verdade e não quisesse mais transar com ele. Uma ideia tão absurda chegou a passar pela minha cabeça.
Depois que meus pensamentos tomaram um rumo negativo, continuei afundando cada vez mais naquele abismo. O arroz branco e macio e a carne saborosa tinham adquirido a textura de borracha.
Com uma expressão emburrada, mastiguei mecanicamente até finalmente largar os hashis, sentindo que poderia ter uma indigestão. A sensação de estufamento no estômago me fez pensar que talvez eu realmente estivesse passando mal.
A atitude estranha de Saheon hyung atingiu o auge somente depois que o jantar desconfortável terminou. Depois de ajudarmos, a tirar as coisas da mesa, minha tia abotoou o casaco, criando aquele clima de quem estava prestes a ir embora.
— Obrigada pela refeição. É tão bom ver o Cheongmyeong depois de tanto tempo.
— Nós também estamos felizes de ver o Saheon depois de tanto tempo. O Cheongmyeong disse que vai passar a noite. Você também vai ficar, Saheon?
— Sim.
Ele respondeu à pergunta da minha mãe como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Ao ouvir a resposta afirmativa, minha tia fez um gesto discreto para ele.
— Você vai dormir em casa? Eu guardei os cobertores de inverno, vou ter que tirá-los de novo.
— Eu vou dormir aqui.
Saheon anunciou aquilo com toda a naturalidade. Minha tia olhou para o segundo filho como se não pudesse acreditar no que estava ouvindo. Ele colocou a mão sobre meu ombro inquieto e continuou:
— Você sabe que eu não consigo dormir sem uma cama, mãe.
Lembrei que, cerca de dois anos antes, minha tia havia se livrado das camas de Chaehun hyung e Saheon. Na época, meu tio planejava voltar a trabalhar na agricultura depois de se aposentar.
Minha tia havia se desfeito da maior parte dos móveis que pertenciam aos dois, que já moravam fora de casa havia bastante tempo. Mas, quando os planos de meu tio de voltar à agricultura não deram certo, os quartos dos irmãos acabaram virando depósitos.
— Desde quando?
Minha tia perguntou, completamente perplexa. Ele fingiu não ouvir outra vez. Minha mãe foi quem resolveu a situação:
— Tudo bem, pode ficar. Talvez seja desconfortável, já que tiramos tudo de lá. Então dorme aqui e passa em casa de manhã antes de ir embora. Que tal?
— Mas ele veio depois de tanto tempo…
— Então nós três — eu, o pai e a mãe — vamos dormir juntos na cama para matar a saudade? Ah, eu já contei que desenvolvi o hábito de dormir pelado depois que comecei a morar sozinho?
Arregalei os olhos. Era a primeira vez que ouvia falar daquele hábito. Minha tia soltou um grito agudo, como se estivesse enojada.
— Faça o que quiser. Faça o que quiser. Ai, não sei mais o que fazer.
Balançando a cabeça, ela saiu sem olhar para trás. Até a porta se fechar, continuei ouvindo-a repetir:
— É por isso que criar filho homem não serve para nada.
Minha mãe perguntou com um sorriso sem graça:
— Quer que eu pegue outro cobertor para você, Saheon?
— Hum, não. Acho que vai ficar tudo bem. Ah, estou cansado.
Ele piscou lentamente, sonolento, e apertou um pouco mais a mão sobre meu ombro. Observei seus movimentos, completamente rígido.
— Cheongmyeong. Pode pegar uma escova de dentes para mim?
— Hã? Ah, tá…
Respondi quase no automático, só percebendo depois que deveria ter parado para pensar com calma. Mas ele já estava me levando para o banheiro.
Graças à disposição idêntica dos cômodos dos apartamentos, ele abriu a porta sem hesitar. Entrei apertado ao lado dele e o vi abrir o armário e pegar uma escova de dentes como se conhecesse aquele lugar de cor.
— Vou usar uma.
Fiquei olhando para ele, sem saber como conseguia ele saber exatamente onde cada coisa ficava em nossa casa.
Ele começou a escovar os dentes tranquilamente. Eu, que estava apenas observando, também comecei a escová-los, como se estivesse hipnotizado.
De repente, pensei que nós dois, lado a lado, escovando os dentes, parecíamos um casal recém-casado. Só de imaginar aquilo, senti as bochechas esquentarem.
Tentei afastar aquele pensamento, mas a ideia continuava voltando à minha cabeça, como se eu precisasse me perguntar quantas vezes teria de repeti-la até me convencer de que não significava nada.
No fim, terminei de escovar os dentes depressa. Parecia que minha própria mente se recusava a pensar racionalmente sobre Saheon, por mais que eu tentasse. Escapei rapidamente dali.
— Já vai dormir?
Assenti com veemência e recuei para o meu quarto. No entanto, logo percebi que, por mais que eu fugisse, só havia um lugar para ele dormir. O som dos passos tranquilos de Saheon, inconfundíveis, foram se aproximando do quarto. Rapidamente, me joguei na cama como se ela fosse um abrigo antiaéreo.
O toque familiar do cobertor, que eu não sentia havia tanto tempo, foi reconfortante. Mas, por mais que eu tentasse me esconder no canto, Saheon hyung podia entrar no meu quarto sem qualquer dificuldade.
E assim foi. O hyung entrou e fechou a porta devagar.
Olhei de relance para ele e voltei a esconder o rosto no travesseiro. Depois de ouvir uma risada baixa e o som de seus passos se aproximando, logo um lado da cama afundou profundamente.
— Você trocou de cama?
Em vez de responder, assenti quase imperceptivelmente. Depois que ele foi para os Estados Unidos, tive um estirão repentino e precisei trocar de cama. A única cama que comportava minha altura depois que cresci era uma king size, grande o suficiente para duas pessoas dormirem nela.
Ele pegou outro travesseiro, que estava colocado atrás daquele sobre o qual eu estava deitado de bruços. Ouvi um leve som de farfalhar e, em seguida, sua voz murmurada, como se tivesse se lembrado de algo de repente:
— Preciso apagar a luz.
A cama, que havia afundado sob seu peso, inclinou-se mais para um lado e depois voltou ao normal. Eram apenas alguns passos da cama até o interruptor. Com um clique, a luz se apagou.
No escuro, meus outros sentidos ficaram mais aguçados. O som do tecido roçando nas pernas dele enquanto caminhava, seu cheiro, o peso de seu corpo ao se sentar na cama com um suspiro suave, até a sensação do cobertor sendo puxado para cima.
Saheon respirou lenta e languidamente. Senti que ele se virou na minha direção, como se tivesse mudado um pouco de posição. Sua mão grande sacudiu de leve minhas costas.
— Já está dormindo?
Como meu rosto estava enterrado no travesseiro, minha respiração naturalmente saía em pequenos suspiros. Sabendo muito bem que eu não estava dormindo, ele deixou de me sacudir e passou a fazer carinho nas minhas costas.
— Já pensou sobre aquilo?
Era ele quem continuava fazendo coisas que chamavam minha atenção, sem me dar tempo para pensar.
Virei o rosto de repente. Depois de soltar uma risadinha, ele me abraçou por trás. Uma de suas pernas se encaixou entre as minhas, prendendo-me completamente. Era como se dissesse que não havia mais para onde fugir.
Sua mão entrelaçada à minha cintura deslizou de leve por baixo da minha blusa. Eu me encolhi. Mas ele apenas acariciou delicadamente meu baixo-ventre.
— Parece que estamos fazendo escondido na casa dos seus pais.
A voz rouca junto ao meu ouvido percorreu meu corpo como um arrepio. Ele realmente poderia fazer aquilo. Assustado, virei o corpo de repente.
Sem deixar aquele movimento passar, ele riu um pouco mais profundamente e me puxou para perto. Minha testa encostou em seu peito. Estávamos tão próximos que já não conseguia distinguir de quem era o coração que batia tão forte.
— Se a gente ficar assim, mesmo que a tia abra a porta, ela não vai pegar a gente se beijando, né?
Ele me envolveu completamente com os braços, apertando-me contra si. E eu acabei ficando ali, preso em seus braços.
✈︎ જ⁀➴ Continua ✈︎ જ⁀➴
◆ Tradução, revisão e raws Nat ◆