↫─Capítulo 57
ᯓ ✈︎ Capítulo 57
Independentemente do que a tia dizia, Saheon hyung não dava nenhum sinal de que pretendia me soltar. Sentia sua respiração áspera enquanto ele baixava a cabeça e apoiava a testa no meu ombro.
O cheiro de sua colônia, que costumava ficar ainda mais forte quando estava trabalhando, misturado ao cheiro do vento e a um aroma exótico que lembrava o interior de um avião, chegou até mim.
Pisquei sem entender, envolvido pelo abraço do hyung, que estava gelado por causa do ar frio do lado de fora.
— Por que… você está…
A voz rouca de Saheon hyung chegou baixinho aos meus ouvidos. Mal dava para escutá-la, era apenas o suficiente para mim escutar. Mesmo com as palavras interrompidas, consegui imaginar o que ele queria dizer.
Aquela voz pesarosa tão perto do meu ouvido fez meu coração bater ainda mais rápido. Tive a sensação de que as batidas seriam visíveis até por fora do meu peito.
Foi então que um baque surdo percorreu o corpo do hyung. Não doeu, mas fiquei sem entender o que estava acontecendo. As palavras da tia logo acabaram com a minha curiosidade.
— Kwon Saheon, você não consegue nem ouvir sua mãe? Criar um filho para isso! Ah!
— Calma, calma.
Ouvi a voz da minha mãe, acompanhada por um leve traço de riso, enquanto tentava acalmar a tia. Mas ela já havia começado a bater com força nas costas de Saheon hyung.
— Esse moleque apareceu aqui no verão passado e depois some sem dar nem sinal de vida!
A cada palavra, a tia golpeava as costas de Saheon hyung. Depois de aparentemente se cansar de bater nele, mudou sua estratégia de bronca e passou a gritar:
— Olha só! Descubro que meu filho, que eu nem sabia se estava vivo ou morto, foi direto para a casa dos vizinhos!
Olhei para Saheon hyung pelo canto dos olhos. Ele continuava com a testa enterrada no meu ombro. Estava tão imóvel que eu poderia ter pensado que tinha dormido, se não fosse pela respiração pesada contra meu ombro.
— O que você está fazendo abraçando o Cheongmyeong desse jeito, seu gigante?!
Finalmente, a tia gritou, furiosa.
Mal consegui mexer o braço, que estava firmemente preso no abraço, e o cutuquei. Só então hyung, que permanecera imóvel como se estivesse morto, endireitou lentamente os ombros. Como se nada tivesse acontecido, passou um braço ao redor dos meus ombros e cumprimentou as duas com toda a tranquilidade:
— Como vocês estão? Estão ainda mais jovens desde a última vez que nos vimos. Já faz uns seis meses?
A tia encarou o segundo filho com uma expressão de incredulidade. Eu, espremido desajeitadamente contra o lado do hyung, apenas olhei para as duas com uma expressão desconfortável.
Saheon hyung apertou o braço ao redor dos meus ombros. Endireitei o corpo como alguém que acabara de entrar em estado de alerta.
Com uma atitude que não tinha absolutamente nada a ver com a pessoa que, poucos instantes antes, murmurava com uma voz tão sofrida, Saheon hyung ainda cumprimentou minha mãe:
— Como a senhora tem passado, mãe?
Minha mãe caiu na gargalhada, como se tivesse acabado de ouvir a coisa mais engraçada do mundo. A expressão de incredulidade da tia ficou ainda maior. Eu, preso no meio dos dois, levei um susto como se tivesse me queimado.
《Mãe?》
Saheon hyung tinha chamado minha mãe como alguém chamaria a mãe de seu namorado ou de sua esposa. Comecei a pensar, hesitante, no significado daquela palavra que hyung havia usado. Por mais que eu procurasse outro sentido, em coreano eu só conhecia um significado para aquilo.
Uma sensação estranha se infiltrou no meu coração acelerado. Era uma espécie de cócega leve, como se alguma coisa estivesse tremulando dentro do peito. Comprimi os lábios e olhei para Saheon hyung.
— …Você já tem idade para ter juízo, não é mais nenhuma criança…
A tia balançou a cabeça, como se já não soubesse mais o que fazer com ele. Minha mãe, que ainda ria baixinho, aproveitou para provocar:
— Pelo visto, ele quer virar filho desta família a partir de hoje. Por mim, tudo bem, Saheon.
Olhei, sem saber o que fazer, para a tia, minha mãe e Saheon hyung, e precisei admitir que tinha me precipitado. Meu coração, que havia disparado, foi se acalmando aos poucos. Forcei os cantos dos lábios para conter a expressão e impedir que meus sentimentos me denunciassem.
Eu tinha interpretado as palavras de hyung da maneira que mais me agradava. Com uma sensação amarga e constrangedora, afastei-me devagar dele. Saheon hyung, porém, me abraçou ainda mais forte, sorrindo abertamente. Envolveu minha cintura e disse:
— Então nós já vamos. Tenham uma boa noite.
— Hã? O Cheongmyeong disse que ia passar a noite aqui porque não tem aula amanhã. Não foi por isso que vocês vieram? O pai do Cheongmyeong disse que ia comprar carne.
— …Ele não tinha dito que ia comprar alguns acompanhamentos? Precisa de mais alguma coisa?
Saheon hyung mudou de assunto num piscar de olhos. Acho que só eu percebi aquela breve hesitação. Fiquei observando seu rosto atentamente.
— Não, está tudo bem. O pai do Cheongmyeong disse que compraria tudo junto com a carne. Mas você não está desconfortável de uniforme? Parece que veio direto do trabalho…
— Você não tem roupa para trocar na mala?
— Não lembro onde coloquei. Talvez tenha deixado no banco de trás do carro.
— O que você está falando, filho?
— Talvez tenha deixado no avião.
Saheon hyung respondeu à pergunta incrédula da tia com a maior seriedade. Ergui os olhos para ele, pensando que talvez fosse uma brincadeira, mas sua testa estava levemente franzida, como se estivesse realmente tentando se lembrar.
Ele estava falando sério. Eu era o único naquela sala que entendia o que aquilo significava e, por isso, fiquei ainda mais inquieto. Sentindo que minha ansiedade não passaria enquanto eu não fizesse alguma coisa, puxei o casaco do hyung e murmurei:
— Eu empresto uma roupa minha.
De alguma forma, minhas bochechas começaram a esquentar. Mesmo tentando não criar expectativas, não conseguia impedir as fantasias que se formavam na minha cabeça.
Saheon hyung, que havia partido ao amanhecer, tinha voltado às pressas naquela hora. Tinha vindo com tanta urgência que nem sabia onde havia deixado a própria bagagem.
Será que eu podia entender aquilo como um sinal de que ele havia ficado preocupado com o que eu tinha dito? Até para mim isso parecia uma imaginação absurda. Pressionei com força o dorso da mão contra o peito, que começou a bater novamente, tentando mudar meus pensamentos.
Antes que minha mãe e a tia pudessem começar a questionar por que Saheon hyung estava tão distraído, rapidamente o conduzi para longe. Felizmente, ele me seguiu sem dizer muita coisa. Atrás de nós, ouvi a tia lamentando que criar um filho tinha sido em vão, enquanto batia no próprio peito.
Entrei primeiro no quarto. Saheon hyung veio logo atrás e, naturalmente, trancou a porta. O modo como apertou silenciosamente o botão da fechadura enquanto soltava a maçaneta mostrava que não era a primeira vez que fazia aquilo.
Acompanhei seus dedos com os olhos e, aos poucos, ergui o olhar até seu rosto. Assim que a porta se fechou, os sons do lado de fora ficaram abafados. Restou apenas um murmúrio distante.
Um silêncio repentino caiu entre mim e hyung. Só então percebi toda a tensão que havia se acumulado, como se ela finalmente pesasse sobre mim.
Saheon hyung passou a mão pelos cabelos bagunçados, empurrando-os para trás. Por baixo do casaco, a camisa deixava à mostra o contorno firme de sua cintura.
Engoli em seco sem saber porquê e me virei em direção ao armário. Quando fui morar na casa do hyung, trouxe algumas roupas comigo, mas não todas. Ajoelhei-me diante do armário e abri a gaveta de baixo. Comecei a remexer nas poucas peças, tentando lembrar quais roupas largas eu havia enfiado em um canto porque não serviam direito.
Senti uma presença se aproximar por trás. Continuei remexendo nas roupas, fazendo barulho desnecessariamente.
De repente, Saheon hyung se abaixou e aproximou o rosto do meu. Encolhi os ombros e virei lentamente a cabeça. Ele me encarava sem dizer nada. A sombra criada pela porta aberta do armário cobria parte de seu rosto. Seus olhos não demonstravam nenhuma reprovação específica, mas eu me sentia cada vez mais inquieto.
— Por que você não atendeu o telefone?
A pergunta seguinte veio calma. Como se estivesse apenas curioso, sem aquela desenvoltura tranquila que havia mostrado diante da tia e da minha mãe.
— …Não… tinha nenhuma ligação.
Hesitei antes de responder. Embora eu tivesse colocado o celular no modo “Não Perturbe” num momento de raiva, não havia nenhuma chamada perdida. Saheon hyung continuou me encarando e murmurou baixinho:
— Entendi.
Saheon Hyung se endireitou lentamente. Pela presença que se moveu um pouco para trás, imaginei que tivesse se apoiado na escrivaninha ao lado do armário. Levantei-me segurando as roupas que havia encontrado.
— Aqui. Roupas para você se trocar.
Falei o mais calmamente que consegui, mas minha cabeça estava uma bagunça. Desde entregar roupas confortáveis para hyung até empurrar a gaveta e fechar a porta do armário, meus dedos formigavam tanto que precisei abrir e fechar as mãos várias vezes.
Ele tinha ligado. O fato de Saheon hyung ter ficado preocupado com o que eu havia dito me tranquilizava. À medida que meu coração agitado se acalmava, outra pergunta surgiu:
《Como o hyung sabia que eu estava aqui?》
Mas desisti depois de ensaiar algumas vezes o que dizer. Tinha medo de que aquilo soasse como uma cobrança, como se eu estivesse esperando que ele prestasse mais atenção em mim.
Limpei a garganta e engoli as palavras que queria dizer.
Saheon Hyung ainda me observava com o rosto envolto em sombras. Quando não sorria, sua expressão era séria e fria, mas, naquele momento, havia algo além disso. Parecia estar profundamente concentrado em alguma coisa.
O armário e a escrivaninha ficavam perigosamente próximos, separados apenas pelo espaço necessário para abrir a porta sem bater.
Levei as mãos para trás das costas, pressionando desnecessariamente a porta que já estava bem fechada. Nossos corpos, espremidos naquele espaço estreito, pareciam prestes a se tocar a qualquer momento.
Saheon hyung colocou naturalmente as roupas que eu havia lhe dado sobre a escrivaninha. Por causa do espaço apertado, sua mão grande roçou novamente meu corpo.
O hyung estava meio sentado, apoiado na escrivaninha, e suas pernas longas acabavam me bloqueando. As pontas de seus pés chegavam facilmente às dobradiças na parte inferior do armário.
Preso daquela maneira, engoli em seco. Meu pomo de Adão subiu e desceu visivelmente com a tensão. Saheon hyung continuava me olhando com aquela expressão perdida em pensamentos.
— Cheongmyeong.
— Hyung.
Incapazes de suportar o constrangimento, nossas perguntas saíram ao mesmo tempo.
Saheon hyung afastou um pouco a perna que estava próxima à dobradiça, deixando-a encostada na minha panturrilha. O calor sutil daquele contato me atingiu.
— Você primeiro.
— Não… Você primeiro, hyung.
— Eu disse você primeiro.
A voz que ressoou no quarto silencioso era baixa demais. Tão baixa que senti um arrepio percorrer meu corpo. Por fim, continuei, murmurando:
— Só… achei que você viria amanhã, mas você veio mais cedo.
— Foi uma escala rápida.
Saheon hyung respondeu brevemente. Eu não sabia exatamente o que aquilo significava, mas assenti vagamente.
Outro silêncio constrangedor caiu sobre nós. Enrolei inutilmente a ponta da manga dentro do punho. Quando hesitei e não disse mais nada, Saheon hyung chamou meu nome outra vez:
— Cheongmyeong.
Levantei um pouco a cabeça para mostrar que estava ouvindo. Saheon hyung me olhava com olhos que pareciam capazes de queimar. Uma pergunta escapou de seus lábios firmemente cerrados:
— Eu fiz alguma coisa para deixar você chateado?
Não consegui esconder minha surpresa diante da pergunta tão direta. As lembranças dos últimos acontecimentos passaram pela minha cabeça, uma após a outra.
Eu não estava preparado para que hyung viesse atrás de mim tão rápido, muito menos para que me perguntasse aquilo de forma tão direta. Por isso, não conseguia encontrar as palavras certas. Enquanto eu hesitava, Saheon hyung pareceu já ter percebido a resposta.
Murmurei baixinho:
— Eu precisava… de um tempo para pensar.
Ao ouvir minha resposta, Saheon hyung passou os dedos ao redor da boca, como se estivesse esfregando o rosto distraidamente. Mexi nas mangas enroladas dentro dos punhos, mantendo as mãos entrelaçadas. Então, ele fez outra pergunta, como se sondasse cautelosamente a situação:
— Pensar sobre o quê?
Senti a respiração prender diante da pergunta. Dizer aquilo em voz alta tornava ainda mais claro o motivo pelo qual eu havia tentado me afastar.
Saheon hyung sempre tinha sido carinhoso comigo. Era gentil e, às vezes, brincalhão, mas havia sempre aquela sensação de que, no fundo, ele gostava de mim.
Ainda assim, o que mais havia me abalado era perceber que alguém de quem eu gostava e em quem confiava tinha me tratado com tanta leviandade.
Por isso, eu havia decidido me afastar e pensar em tudo com calma. Mas eu tinha vindo para cá apenas com essa decisão em mente, sem pensar no que faria depois.
Diante de Saheon hyung, que parecia esperar uma resposta, gaguejei:
— Eu ainda… não terminei de pensar…
— Entendi. Então pense com calma.
Depois de hesitar por um instante, assenti quase imperceptivelmente.
Após um breve silêncio, Saheon hyung abriu um pouco os braços, como se tivesse entendido. Parecia estar me convidando para um abraço. Sem pensar, dei meio passo à frente e o abracei.
Só depois de abraçá-lo me lembrei de que havia declarado uma guerra fria. Mas Saheon hyung já havia entrelaçado os dedos ao redor da minha cintura, mantendo-me junto a ele de um jeito que não me deixava escapar.
Ouvi sua voz baixa sussurrar junto ao meu ouvido:
— Mas pensa direitinho.
Um beijo rápido tocou meu lóbulo, acompanhado de um leve estalo. A sensação naquela região tão sensível fez um arrepio percorrer minha coluna. Quis olhar para Saheon hyung, mas era impossível com nossas bochechas encostadas.
O que quebrou aquela atmosfera precária foi um barulho vindo do lado de fora. Uma agitação se formou no corredor e, logo depois, ouvi a voz do meu pai:
— Cheongmyeong e o Capitão Kwon estão aqui? Onde eles estão?
— Foram trocar de roupa. Mas já faz um tempo que entraram. Talvez não tenham encontrado as roupas?
— É mesmo? Então vou lá ver.
Ouvi meus pais conversando. Instantaneamente trazido de volta à realidade, tentei escapar do abraço do hyung. Mas Saheon hyung murmurou, brincalhão:
— A porta não está trancada.
Um suspiro agudo escapou da minha boca. Quando arqueei as costas, vi o hyung sorrindo com a maior tranquilidade do mundo. Os passos estavam cada vez mais próximos.
Chamei por ele, quase implorando:
— Hyung, rápido…
Houve uma batida na porta. Arregalei os olhos, incapaz de ficar parado. Era como ser pego fazendo alguma coisa errada. Se meu pai realmente entrasse, encontraria seu filho abraçado daquele jeito ao filho do vizinho.
— Hyung, hyung…
— Cheongmyeong. Você encontrou roupas para ele? Já se trocaram?
A maçaneta foi abaixada com um baque. Assustado, apertei ainda mais os braços ao redor do pescoço do hyung e escondi o rosto em seu peito.
Só alguns segundos depois me dei conta de que, se meu pai entrasse, aquela posição seria uma cena ainda mais estranha.
Mas a porta apenas emitiu um som abafado e não se abriu. Saheon hyung passou delicadamente a mão pela minha nuca e riu baixinho antes de responder com sua voz habitual:
— Já estou quase terminando de me trocar!
Quando ergui o rosto e olhei para Saheon hyung com os olhos arregalados de medo, ele rapidamente pressionou os lábios contra minha testa. O beijo se desfez com um pequeno estalo, e os cantos de sua boca se ergueram levemente.
Enquanto eu o encarava, completamente atordoado, Saheon hyung ainda roubou um beijo dos meus lábios, como se estivesse carimbando sua marca neles. Os dedos que estavam entrelaçados em minha cintura se soltaram tranquilamente.
— Você é tão fofo.
Saheon hyung sussurrou, com a voz carregada de riso.
Então tirou o casaco do uniforme, afrouxou a gravata e começou a desabotoar a camisa, um botão de cada vez. As pernas longas que antes me mantinham preso já haviam se afastado.
Só me restou ficar ali, olhando sem reação enquanto Saheon hyung trocava de roupa calmamente diante de mim.
Eu me sentia como se tivesse sido enfeitiçado por uma raposa.
✈︎ જ⁀➴ Continua ✈︎ જ⁀➴
◆ Tradução, revisão e raws Nat ◆