↫─Capítulo 51
Ouvi a risadinha de Saheon-hyung. Demorou um momento para a palavra “Saheon” que eu havia chamado registrar em meus ouvidos. Só então percebi o motivo de ele estar rindo, e soltei um “ah” estúpido.
Eu não pretendia apenas chamá-lo pelo nome. Tendo omitido o honorífico sem intenção, dei um gole sem jeito no líquido que restava na lata. A cerveja levemente sem gás desceu arranhando o esôfago. Estava deliciosa. Enquanto saboreava o gosto frutado, senti o olhar óbvio dele e me lembrei tardiamente do motivo daquele ar peculiar. Novamente confuso, comecei a balbuciar desculpas.
— Não… eu não queria te chamar só de Saheon…
— O quê, virou a ‘hora de falar sem honoríficos’ do nada?
Saheon hyung, que vinha rindo de canto continuamente, colocou o quepe que segurava ao lado sobre o sofá. Ele, que usava um sobretudo longo na altura dos joelhos, também o tirou e jogou no estofado. Parecia que o hábito de largar as roupas de qualquer jeito havia dado as caras de novo.
Fiquei momentaneamente distraído pela aparência bonita do hyung e fui baixando o olhar devagar. O uniforme de piloto que ele vestia por baixo do casaco ficou à mostra. As três listras amarelas na barra da manga e a camisa perfeitamente branca sob ele pareciam estranhamente eróticas.
As calças sociais logo abaixo do terno abotoado com capricho moldavam as pernas dele. Ao pensar naturalmente no que havia por dentro, senti minhas bochechas esquentarem e soltei um “puf” exagerado.
A mão grande de Saheon-hyung pousou na minha cabeça. Enquanto bagunçava meu cabelo com delicadeza, ele falou com a voz cheia de diversão:
— O que você está fazendo aí, bebendo sozinho desse jeito patético?
— Não, não é nada disso, o que?
— Como não é? Quanto foi que você bebeu? Duas latas?
— …Não, eu bebi, tomei uma… Saheon.
Mais uma vez, deixei de usar o honorífico “hyung” e levei um susto com as minhas próprias palavras. Devo estar louco. Por que continuo omitindo o tratamento? Enquanto me surpreendia com a própria voz, ele riu de novo e respondeu obediente:
— Sim, hyung. É mesmo?
De repente, a vergonha me invadiu. Embora ele fosse um vizinho próximo, ainda havia uma diferença de idade fundamental entre nós. Mesmo sendo íntimos o bastante para não haver cerimônia — já que ele me carregava no colo desde que eu era pequeno —, eu não era tão mal-educado a ponto de ignorar honoríficos básicos.
— Sabe… Kwon Saheon, você…
Apontei para Saheon hyung com a mão que não segurava a lata de cerveja. De repente, um hálito quente subiu pelo meu esôfago e soltei outro “puf”. Minha franja voou com o sopro.
O hyung não conseguia parar de rir. Chegando ao ponto de se ajoelhar na minha frente, agitei a mão devagar, mas como só estava com o dedo indicador esticado, acabou parecendo que eu estava fazendo uma acusação.
Saheon hyung, com seu impecável terno de piloto e o cabelo perfeitamente penteado para trás, ali ajoelhado de forma tão educada e silenciosa, não parecia em nada o completo canalha que ele realmente era.
— Pode falar, hyung.
Por alguma razão, os cantos da boca dele estavam curvados em um sorriso largo de diversão. Lembrei vagamente de Saheon hyung ter mencionado algo sobre “hora de falar sem honoríficos”. Não sei bem quando começou, mas parecia que ele tinha tomado a iniciativa.
De repente, passei a gostar daquela situação. Uma sensação estranha de euforia cresceu pelo fato de eu estar sentado com pose de arrogante na frente dele, enquanto o hyung se ajoelhava diante de mim me chamando de “hyung, hyung”. Era quase um sacrifício profano. Encolhi os ombros de forma exagerada e comecei a falar:
— …Saheon.
— Sim, hyung.
— …Saheon, você não deveria viver a sua vida assim…
Minha mente estava bem lúcida, mas a pronúncia que eu ouvia era terrível. Tive de me esforçar para dar firmeza à língua enrolada.
Mesmo em uma situação em que estava ajoelhado recebendo um sermão de um irmão onze anos mais jovem logo após chegar do trabalho, Saheon hyung parecia encarar aquilo como um acontecimento divertido.
Tudo aquilo devia ser porque eu estava com uma lata de cerveja na mão.Mas, já que eu não estava bêbado, tomei mais um gole para provar que a minha mente ainda estava intacta.
— Acho que seria melhor você parar de beber, hyung.
O mais velho acrescentou com um sorriso largo. Larguei a lata de cerveja com um baque para mostrar que eu estava bem.
— Do que você está falando! Cerveja é suco, é bebida leve!
Saheon hyung finalmente não aguentou e caiu na gargalhada. Fiquei chateado por ele rir em vez de me ouvir e acreditar no que eu dizia.
— Cerveja é fermentada… e tudo o que é fermentado faz bem para o corpo…
Tentei pensar vagamente em exemplos. Iogurte, makgeolli, queijo, kimchi, doenjang… Ah, quero comer doenjang jjigae. Com bastante carne e tofu…
— Eu faço para você amanhã. Vá dormir um pouquinho agora.
Suspirei fundo mais uma vez. Minha franja, balançada pelo ar, fez cócegas nas minhas sobrancelhas de novo. Eu não podia acreditar que ele estava tentando me ganhar com algo como doenjang jjigae. Teria de grelhar algumas costelas de porco junto com a sopa para eu fingir que deixava aquilo passar. No fim das contas, tive de repetir para o hyung o que eu queria dizer:
— Estou muito decepcionado, o hyung é muito… decepcionante, Saheon…
— O que é decepcionante?
Suspiros pesados continuavam escapando. Do que adianta só ter um rosto bonito? Pensando naquele hyung que agia como um lixo, tive de tomar mais um gole de cerveja para evitar que outro suspiro saísse.
— Saheon.
— Sim, hyung.
— Você não deveria viver a sua vida assim… Sério, não deveria…
Murmurei sério enquanto olhava para ele. O hyung continuava sorrindo. Ele, que mantinha as mãos levemente entrelaçadas sobre os joelhos dobrados, conteve os cantos dos lábios que subiam e perguntou:
— O que eu não deveria fazer?
— De qualquer jeito… Você não deveria ficar por aí enfiando a porra do seu pau em qualquer buraco…
Saheon-hyung finalmente explodiu em uma risada. “Está sentindo a culpa, seu lixo?!” O fitei com olhos afiados. Uma respiração bem pesada também saiu com um assobio. Virei todo o resto da cerveja. Embora sentisse que a lata estava vazia, ainda a sacudi sem necessidade, amassei-a com um estalo e a coloquei na mesa.
— Quando você se relaciona, tem de ser sério… Tem de foder com um propósito. Não desse jeito leviano…
De repente, algo quente travou minha garganta. Foi porque me lembrei do que havia acontecido durante o dia e que eu tinha esquecido por um instante. As palavras sobre dar tudo de si e acabar sendo descartado flutuaram em meus ouvidos.
Mordisquei a carne macia do interior da bochecha e levei a lata vazia aos lábios, mas não sobrou líquido nenhum. Acho que vou ter de beber mais uma lata. Eu planejava beber duas desde o começo, então se tomar mais uma agora, vão dar duas.
Tentei me levantar apoiando as mãos no chão, mas falhei porque o piso estava macio demais. Fiz força com um gemido, mas quando meu corpo não quis obedecer, decidi desistir.
— É, desculpa, hyung. Da próxima vez, vou deixar você me foder.
Ergui a cabeça que estava caída. Não sei em que momento ela tinha voltado a tombar, mas a minha nuca doía como se estivesse com os músculos travados. Acho que ele tinha dito algo antes, mas não me lembrava bem, talvez seja porque eu tivesse cochilado por um segundo. Apertei os olhos e o encarei.
Do que é que a gente estava falando mesmo? Ah, eu estava dizendo para ele não ficar por aí transando de forma inconsequente. Porque o Saheon hyung vinha fodendo com qualquer um de um jeito indisciplinado? Mesmo sem namorar, só por transar…
Isso é algo que não se deve fazer. Eu não conseguia acreditar que o hyung, que viveu mais do que eu, não soubesse desse fato que até eu, com vinte anos, sabia muito bem. Tive de apontar o dedo mais uma vez e falar alto:
— …Responsabilidade, quando você pode arcar com ela… tem de estar preparado, entendeu? É nessa hora que você deve meter. O que é essa história de foder com qualquer um? Você não teve educação sexual na escola?
— …Eu assisti às aulas direitinho.
— Então por que você fica assim? As putas… as parceiras que me lembro de o hyung ter são uma, duas, três, quatro…
Saheon hyung mantinha um sorriso sem graça em silêncio. Suspirei fundo outra vez. Não sei como ele vai sobreviver a esse mundo cruel se nem sabe de coisas assim.
Meu rosto inteiro parecia quente por causa do calor que subia do esôfago. Apertei o canto dos olhos por hábito, depois tirei os dedos rapidamente achando que fossem queimar. Olhando bem, minhas pontas dos dedos pareciam meio vermelhas.
O líquido amargo com sabor de cevada arrancou palavras de um subconsciente que eu nem sabia que existia. Fiquei surpreso comigo mesmo por ter tais pensamentos ao dizê-los em voz alta.
— Hyung, você passa dos limites. Você só está me usando porque gosta de me comer. Acha que pode fazer o que quiser porque eu disse que gosto de você. Quer arrumar alguém para…
— Pronto. Chega. A hora de falar sem honoríficos acabou.
Saheon hyung cortou minhas palavras com leveza. Quase por reflexo, fechei a boca com força. Era um hábito que vinha desde a infância. Mas como a insatisfação não tinha para onde ir, mesmo de boca fechada, não consegui esconder o olhar rebelde.
O hyung se levantou e curvou o tronco. Talvez por eu estar sentado, ou porque ele era muito alto, a pressão dele olhando para mim de cima para baixo foi enorme.
Saheon hyung me ergueu com facilidade. Assim que senti meu corpo ser suspenso, após alguns passos, fui acomodado no sofá com um baque. O rosto dele estava bem na minha frente.
Eu estava sentado no sofá, mas ao me perguntar por um instante porque conseguia ver o rosto do hyung na mesma altura, abaixei o olhar de relance. Estava de frente para o corpo dele. Só então percebi que era porque eu estava aninhado nos braços de Saheon hyung.
— Lee Cheongmyeong.
Ergui a cabeça ao ser chamado. Vi o hyung com uma expressão deliberadamente severa. Enquanto encontrava o olhar dele em silêncio, tive o nariz beliscado.
A mão que havia bloqueado levemente o meu ar moveu-se então para a minha cintura. Mas não entrou por baixo das roupas. A outra mão que foi parar na minha lombar — cuja existência eu acabara de descobrir — me abraçou com um pouco de força.
Num instante, minha bochecha tocou perto do peito dele. O hyung, com sua temperatura corporal elevada, era sempre quente. Encostei-me nele, curvando o corpo. Apoiando o rosto contra aquele calor perceptível mesmo através das roupas, meus olhos começaram a pesar.
— Você…
O hyung, que abrira a boca para falar, fechou-a de leve. Senti um suspiro pesado acima da minha cabeça. Piscando os olhos devagar, decidi responder com eles fechados. De qualquer forma, minha mente estava lúcida, e Saheon hyung não saberia que eu estava com os olhos fechados, então parecia seguro.
— Levante a cabeça.
Mas ele parecia ter percebido com um sexto sentido assustador. Ergui a cabeça com dificuldade. Meus olhos estavam meio abertos.
— Vou te dar um beijo, então ande logo.
À palavra “beijo”, fiz bico por reflexo, e o hyung pressionou firmemente os lábios contra os meus. Repetindo o beijo várias vezes como se carimbasse com decisão, ele resmungou brincalhão:
— Até as suas besteiras de bêbado deixam o hyung chateado. Hm?
Meus lábios, agora repousando novamente na região do peito dele, contraíram-se em sinal de insatisfação. Eu tinha muito a dizer, mas estava com preguiça demais para cuspir as palavras. Fechei os olhos de novo, ouvindo as batidas aceleradas do coração do hyung.
— Eu sempre fui sério sobre foder com os outros até agora.
Mentiroso. Mas minha língua já entorpecida estava com preguiça demais para se mover. Então resmunguei insatisfeito. Saheon hyung pressionou os lábios com firmeza no alto da minha cabeça.
— Você acha que eu não ponderei seriamente sobre essa situação em que estou cobiçando o irmão mais novo que ajudei a criar?
Uma voz rouca, mas incrivelmente clara, ressoou perto dos meus ouvidos. Talvez por causa daquele tom grave e profundo, meus olhos se fecharam ainda mais. Saheon hyung beijou o topo da minha cabeça de novo, como se estivesse cobrando uma resposta.
— Você acha que eu ponderei, ou não?
— Acho… que você ponderou…
Movi a boca sem sequer saber o que estava balbuciando. A camisa do hyung cheirava a vento de inverno e colônia. Esfreguei a bochecha e me enterrei mais fundo naquele aroma misturado de forma agradável. A gravata roxa roçou na minha bochecha. Saheon hyung abaixou a cabeça e sussurrou no meu ouvido:
— Se eu só quisesse te comer, você acha que eu teria me contido, ou não?
— Acho que… você não teria se contido.
— …Isso é um alívio. Então, você acha que o hyung está fazendo isso agora só porque quer te foder gostoso, ou não?
— Acho que… você está fazendo…
A voz grave ecoando direto no meu ouvido fez até os pelos do meu corpo arrepiarem. Saheon hyung continuou falando baixinho:
— Então você acha que o Cheongmyeong já tinha me dito isso antes dessa conversa, ou não?
— Acho que… eu já tinha dito…
— E ainda assim você fica desse jeito?
Mastiguei o que o hyung havia dito várias vezes, mas ouvir as palavras e entendê-las eram coisas diferentes. Soltei um som confuso e enterrei a testa no peito dele.
— Esta já é a sua quarta confissão.
Eu mesmo não sabia o que estava resmungando, mas ao ouvi-lo rir de leve, a ficha caiu tardiamente.
Eu, que vinha repetindo “eu gosto de você” como uma fórmula mágica com a voz toda enrolada, parei de choramingar. Minha cabeça, meio fora dos limites da realidade, travou todos os pensamentos por reflexo, como forma de autodefesa, talvez por causa de eventos passados.
— O hyung caiu depois de três tentativas, mas Mungmung parece determinado a destruir completamente o coração do hyung.
A voz misturada com risadas soava irreal. Meu coração apertou dolorosamente com aquelas palavras doces como balas. Ouvir um som tão irreal no meu estado de embriaguez tornava tudo verdadeiramente surreal.
Ah, então isto deve ser um sonho. Minha mente, que chegou a essa conclusão amarga, porém lúcida, desistiu de qualquer outra compreensão.
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☆ Continua…
◆ Tradução, revisão e raws Nat ◆