↫─Capítulo 50
Talvez devido ao sentimento evocado pela expressão “usado e jogado fora”, uma imagem da pessoa em quem eu estava pensando me abandonando formou-se na minha mente. Mas eu sabia que isso era apenas uma imagem simples, e o significado escondido por trás dela era diferente.
Mordi o lábio com o rosto sombrio. De repente, a ansiedade começou a se espalhar. E essa ansiedade conectou-se naturalmente à pergunta que vinha me atormentando durante todo o fim de semana.
Que tipo de relacionamento eu e o hyung tínhamos?
— Não. Ei. O que… você está dizendo?
Choi Hyun-oh resmungou com uma voz claramente confusa, balançando as mãos, mas eu estava distraído com outra coisa.
Ao contrário da minha expectativa de que as coisas ficariam estranhas com o hyung após a minha confissão aos dezessete anos, conseguimos voltar a ser como antes. Como vizinhos próximos, hyung e dongsaeng. Como alguém que não era diferente de um irmão mais novo que ele conhecia desde a infância, um dongsaeng querido.
No entanto, enquanto eu hesitava, algo diferente se infiltrou em nossa relação. Eram ações que iam muito além do que irmãos próximos fariam.
Não era como se fosse ruim. Mesmo que fosse avassalador acompanhar o ritmo dele, eu gostava de tudo o que fazia com o hyung. Eu gostava quando ele acariciava meu cabelo me chamando de bonito, gostava quando ele me beijava com ternura. Embora fosse difícil, eu também gostava daquela sensação inexplicável de realização que vinha depois de ficarmos juntos.
Eu gostava tanto do Saheon hyung que estava disposto a ignorar todas as minhas filosofias sobre namoro. Mas a frase “dar tudo de si para depois ser jogado fora”, esgueirou-se pelas brechas da minha mente já confusa na pior hora possível.
— Sabe…
— Ei, Lee Cheongmyeong. Não diga besteiras. Yoo Do-jin, você não vai para suas aulas? Xô!
Choi Hyun-oh ergueu o punho com um tom ameaçador. O hyung Yoo Do-jin, que havia se escondido atrás de mim, abriu um sorriso brincalhão. Assim que sua respiração irritante roçou minha orelha, Hyun-oh agarrou meu braço e me puxou com força.
— Até mais tarde!
O hyung Yoo Do-jin acenou amplamente em despedida. Em vez de responder, Hyun-oh ergueu o dedo médio. Eu, que segurava firmemente a alça larga da minha mochila, fui arrastado enquanto Hyun-oh liderava o caminho.
— Por que ele vem até aqui fazer confusão logo de manhã?
Hyun-oh resmungava sem parar enquanto subia as escadas após entrarmos no prédio. Eu fui praticamente escoltado por Hyun-oh. Ainda segurando com força o tecido áspero da alça da mochila, mantive os lábios firmemente fechados.
Uma vez que o trem de pensamentos começava a descarrilar, ele não dava sinais de parar. Tentei me esforçar para organizar meus pensamentos, mas não foi uma tentativa muito bem-sucedida.
— Você… por que a sua cara está assim?
Hyun-oh, que vinha reclamando do hyung Yoo Do-jin por toda a escadaria, perguntou com o rosto sério. Respondi, erguendo ligeiramente os cantos da boca.
— Não é nada.
— É por causa do que o Yoo Do-jin disse agorinha?
Era verdade, mas balancei a cabeça negativamente em silêncio. A expressão de Hyun-oh, que estava um tanto quanto ansiosa, relaxou um pouco. Parecia algo próximo a uma sensação de alívio.
Depois de me encarar por um momento, Hyun-oh deu de ombros levemente e abriu a porta da sala de aula. Vi os rostos já totalmente familiares das minhas colegas. Enquanto olhava ao redor em busca de lugares vazios, meu olhar encontrou Min Iseo.
Mais uma vez, a situação anterior veio à mente naturalmente. Parecia que a investida romântica de Hyun-oh com Min Iseo não estava indo bem, e ele havia recebido a provocação preocupada de não ser usado e descartado.
Apertei meus lábios ainda mais. Sentei-me logo ao lado de Hyun-oh, tirando o livro da faculdade e o estojo quase por hábito, mas minha mente já havia voado para longe.
Eu não conseguia afastar facilmente a frase que tipicamente significa “aproveitar enquanto for benéfico e depois descartar”. Se não fosse sobre mim, não haveria motivo para me importar tanto. Mesmo tentando ignorar, era um fato inegável que eu estava projetando a minha própria situação naquelas palavras.
Mensagens, beijos, dormir na mesma cama. Eu estava fazendo com o Saheon hyung coisas que casais normais faziam, mas o hyung nunca havia pronunciado uma única palavra para definir o nosso relacionamento.
Além disso, se um amigo estava dando conselhos sobre relacionamento, significava que aquilo não era uma ocorrência incomum.
Imaginei duas pessoas hipotéticas no lugar do Saheon hyung e de mim mesmo. Dois amigos próximos que um dia começam a morar juntos e evoluem para um relacionamento sexual. Mas ainda não há nenhuma conversa sobre namoro.
Cobri inconscientemente minha boca aberta com a mão. Não podia existir situação pior do que aquela.
Fiquei chocado ao perceber que o hyung, a quem eu conhecia há mais de vinte anos, era um pedaço de lixo irremediável. Todos os relacionamentos românticos deveriam começar com a intenção de assumir a responsabilidade através do casamento, e ainda assim eu não podia acreditar que o hyung havia me devorado antes mesmo de definir a nossa relação.
Seria ele capaz de ter relações casuais com qualquer um? Mesmo sem namorar, simplesmente do jeito que bem entendesse? Meus pensamentos, girando cada vez mais intensamente, caminhavam em direção à conclusão de que o Saheon hyung era promíscuo.
O hyung bondoso, gentil e bom que eu conhecera até agora simplesmente não existia? Para cobrir minha boca que se abria ainda mais em choque, tive que usar a outra mão também.
— O que foi?
A voz de Hyun-oh veio de ao meu lado. Ainda incapaz de escapar do choque, apenas balancei devagar a cabeça, depois mudei de ideia. Quando meu balanço de negação parou, o rosto de Hyun-oh ficou ainda mais perplexo.
— Ah, é só… um pouco…
— O que é?
Hyun-oh perguntou, aproximando-se de mim. Seus olhos brilhavam de curiosidade enquanto ele quase sussurrava. Após ficar momentaneamente distraído por seu cabelo loiro descolorido, hesitei por um instante antes de murmurar.
Apesar de ter percebido que o Saheon hyung era um lixo, estava tudo bem falar abertamente sobre isso com um amigo? E eu era o único que tinha ficado com aquele lixo porque gostava dele. De repente, a vergonha tomou conta de mim. Eu estive tão cego pela exceção que abria para o hyung, de quem gostava tanto. Depois de tatear com os lábios algumas vezes, abri a boca com cuidado:
— É que eu estava pensando em alguém que eu conheço…
Mas a minha preocupação com o que eu estava prestes a compartilhar foi dissipada quando o professor entrou na sala de aula. Hyun-oh, que havia arqueado as sobrancelhas, sussurrou baixo o suficiente para que apenas meus ouvidos pudessem ouvir:
— Vamos tomar uma depois que a aula acabar.
Desnecessário dizer que eu não consegui me concentrar durante toda a aula. Fiquei apenas olhando fixamente para a frente, como alguém que havia perdido a razão.
A pronúncia francesa monótona, que soava como uma língua alienígena, foi o bastante para me empurrar para um mundo de fantasia. Em minha mente, agora livre de distrações, as perguntas continuavam se acorrentando umas às outras.
Que tipo de relacionamento eu e o hyung tínhamos? Ele fazia isso com as ex-namoradas dele também? O Saheon hyung já tinha namorado alguém antes?
Sim, ele tinha tido várias namoradas. Mas eu nunca tinha visto nenhuma delas diretamente. O Saheon hyung nunca me apresentou ninguém com quem estivesse saindo.
Quando eu era mais jovem, havia muitas coisas que eu via, mas não entendia, embora não fosse exatamente por não conseguir adivinhar. Seria mais exato dizer que eu sentia que algo estava estranho, mas não sabia exatamente o quê.
Porém, conforme fui crescendo, desenvolvi naturalmente a capacidade de deduzir situações mesmo sem vê-las. Por exemplo, coisas como estas: o hyung, que costumava voltar antes do último trem mesmo quando bebia com amigos, chegando em casa bem depois das 3 da manhã; ou sumindo de repente no meio da diversão para fazer uma ligação; ou enquanto lia uma mensagem de texto e sorria levemente; ou trazendo presentes em certas datas; ou o relógio que ele costumava usar com bastante frequência desaparecendo repentinamente de um dia para o outro.
Eram pontos muito triviais que seriam difíceis de notar se você não estivesse interessado na pessoa, mas o problema era que o meu interesse pelo hyung era maior do que o de qualquer outra pessoa.
Ainda assim, tudo isso não passava de especulação minha. Em toda a minha vida, exceto pela vez em que esbarrei acidentalmente na namorada do hyung, eu nunca tinha visto uma única pessoa que o Saheon tivesse apresentado como sua parceira.
O que poderia ser mais doloroso do que saber que a pessoa por quem você tem uma paixão secreta tem um amante? Eu, que só havia gostado de uma única pessoa em toda a minha vida, sempre vivi com ansiedade no meu coração, mas costumava me consolar com a auto-racionalização de que “o hyung nunca confirmou diretamente que tinha namorada”.
Essa racionalização que continuava desde a infância tornou-se uma espécie de hábito, o qual me permitia ignorar os fatos até certo ponto.
Eu não podia negar que esse hábito havia sido a base que me permitiu conviver bem com o hyung até o acidente que ocorreu no inverno entre os meus dezesseis e dezessete anos.
No entanto, essa também era uma história de antes de eu saber o que era ter relações com o hyung.
O pensamento “Por que o hyung nunca me apresentou a uma namorada dele? Não tinha motivo para não fazê-lo, eu era apenas o irmão mais novo filho do vizinho” de repente, de forma inesperada e incontrolável, espalhou-se para uma suposição desconhecida que me levou a uma certa conclusão.
E se as pessoas que eu pensava serem namoradas do hyung na verdade não estivessem na categoria de pessoas que poderiam ser chamadas de namoradas?
Havia apenas uma resposta. E, naturalmente, essa resposta parecia se sobrepor à minha própria situação.
— …myeong. Cheongmyeong.
Uma mão balançou meu ombro. Eu, que estava perdido em pensamentos olhando para a frente, assustei-me e olhei para o dono da mão. Era Choi Hyun-oh.
— A aula acabou.
— Hã? Oh…
— Você está bem? Sua cara não está muito boa.
Ainda imerso em meus pensamentos, perdi o momento certo para responder. Vendo meus lábios endurecerem, Hyun-oh deu tapinhas na região do meu ombro e continuou falando:
— Você está doente? Talvez seria melhor apenas ir para casa e descansar hoje.
— Eu estou bem, mas…
— Escute o hyung. Vá para casa e descanse.
Como Hyun-oh estava bastante irredutível, acenei com a cabeça. Na verdade, eu já estava ocupado demais com pensamentos sobre o Saheon hyung para convencê-lo de que estava bem.
Dei carona a Hyun-oh de volta exatamente como quando viemos para a escola. Minha expressão refletida no retrovisor não parecia boa nem para mim mesmo. Depois de deixar Hyun-oh na estação perto da casa dele, já estava escuro quando cheguei em casa.
Após executar perfeitamente uma baliza de ré, tranquei a porta do carro com uma expressão amarga. De repente, um suspiro profundo escapou. Encarei o carro desalentado antes de cambalear em direção à casa.
O apartamento estava escuro, pois o hyung ainda não tinha voltado. Conforme acendia as luzes uma por uma, trazendo gradualmente o calor humano de volta ao ambiente, dirigi-me à geladeira. Minha garganta estava seca desde o caminho de volta. Ao abrir a porta para beber um pouco de água, acabei descobrindo latas de cerveja na prateleira superior.
Enquanto encarava a cerveja em silêncio, minha mão estendeu-se naturalmente em direção à uma lata gelada.
“Vamos beber apenas uma lata. Se eu beber uma lata e adormecer antes dele voltar, talvez consiga espantar essa sensação miserável um pouco.” Em pé na frente da geladeira, abri a cerveja que estava bem na frente. Um som claro de chiado ecoou.
Enquanto engolia o líquido dourado, franzi o cenho diante da sensação forte que atingiu minha garganta. Eu devia estar com bastante sede, pois a bebi rapidamente e a lata já parecia mais leve.
Ao fechar a porta da geladeira, decidi beber apenas duas latas. Fui para o sofá da sala e tomei alguns goles da cerveja restante enquanto pegava o meu celular para verificar se havia alguma mensagem.
A janela de mensagens estava vazia. Eu sabia que era porque ele estava trabalhando, mas para mim, que passara a aula inteira pensando nele, aquilo só servia para alimentar ainda mais a minha ansiedade.
Para suprimir meus sentimentos que flutuavam estranhamente, eu bebia cerveja sempre que minha garganta parecia seca. Pensei que estava apenas tomando um pouco, mas antes que percebesse, mais uma lata estava vazia e fui pegar outra.
As solas dos meus pés pareciam macias. Achei aquilo engraçado de alguma forma, soltei uma risadinha e sentei-me no chão, encostado no sofá. Minha bunda também parecia macia. Ficou claro que algumas almofadas haviam sido colocadas no chão.
Quando foi que eu pus almofadas ali? Aquilo também parecia engraçado. Enquanto dava um gole na cerveja gelada que acabara de abrir, apertei os olhos ao som de alguém digitando a senha.
A senha familiar de quatro dígitos foi pressionada, e o som fraco de rodinhas de mala rolando atravessou o ambiente. Parecia que o hyung havia retornado. Eu queria ir até a entrada para recebê-lo, mas ao mesmo tempo, não queria me mover.
— Cheongmyeong.
O som de passos chamando o meu nome aproximou-se. Tomei mais um gole, esperando-o se aproximar. Ele, carregando o cheiro do ar da rua, finalmente apareceu.
— Você estava aqui?
“Você voltou, seu lixo!”
Tentei dizer “Saheon hyung”, mas, com a língua pesada, não consegui articular a frase direito.
— Saheon… uh.
☆ Continua…
◆ Tradução, revisão e raws Nat ◆