↫─Capítulo 49
Embora a figura dele tivesse desaparecido rapidamente, continuei encarando o lugar vazio enquanto segurava o volante. Enquanto observava, distraído, as pessoas em uniformes idênticos ao dele e os comissários entrando e saindo do prédio, lembrei-me da placa de “proibido parar e estacionar” e comecei a mover o carro lentamente.
As coisas que ele disse soavam muito bruscas. Pareciam ainda mais intensas porque ele intercalava frases com beijos. Inconscientemente, acariciei meus lábios com o dedo indicador; a sensação quente daquele contato parecia persistir.
Na minha mente, enquanto eu repassava a cena, ela já estava sendo manipulada a meu favor. Será que eu estava ficando louco por sentir ciúmes no tom de voz dele? Tentei não alimentar esperanças, balançando a cabeça para afastar o pensamento.
Contudo, meu devaneio não durou muito. O celular no meu bolso vibrou, alertando uma chamada. Puxei o aparelho, inclinando o corpo em direção à janela.
O celular branco que saiu na minha mão era da mesma marca do anterior, mas um modelo diferente, por isso parecia estranho ao toque. Eu o tinha ativado no fim de semana passado, quando fui confinado à cama — como prova disso, as marcas roxas e vermelhas que ele deixou em minha pele.
Saheon hyung cuidou do plano com a companhia telefônica enquanto eu estava exausto, então, não lembrava bem dos detalhes sobre o período de fidelidade ou taxas, mas era conveniente ter um telefone de novo.
Verifiquei quem ligava. Era Choi Hyun-oh. Após pressionar o ícone verde, coloquei no viva-voz e prendi no suporte.
— Alô?
— Alô? Cheongmyeong, você está no ônibus 3300 que passa agora?
Como a maioria das minhas aulas coincidia com as dele, geralmente íamos juntos nesse horário.
— Não. Estou de carro hoje.
— Carro? Ah, está frio para um caralho. Que carro? Você tirou habilitação?
O vento gelado assobiava ao fundo, criando ruído na ligação. Enquanto eu mudava de faixa para um retorno, um pensamento me atingiu e rapidamente corrigi o volante.
— Sim, eu tenho habilitação. Ei, quer que eu te busque?
— Ai, querido… — Hyun-oh murmurou com uma voz manhosa. Apesar de estar fungando por causa do frio, sua resposta brincalhona me fez soltar uma risada suave.
— Você está no ponto?
— Estou. Quer que eu vá até a faixa de pedestres para facilitar para você?
— Sim. Valeu. Ah, verdade. Não estou vindo da área de Magok, então venha até a Saída 3.
— Entendido. Anda logo.
Hyun-oh, com a voz carregada de anasalados, desligou. Pouco depois, avistei o bairro familiar. Enquanto pensava no quanto era mais rápido e conveniente se locomover de carro, notei Hyun-oh pulando no lugar, vestindo sua jaqueta acolchoada longa.
Reduzi a velocidade e me aproximei. Mesmo com os vidros bem escuros, ele pareceu reconhecer meu rosto, pois semicerrou os olhos ao se aproximar. Destravei as portas. Quando a porta abriu, o vento frio do inverno invadiu o interior aquecido.
Hyun-oh, que me cumprimentou com um aceno leve, exclamou em admiração assim que se sentou no banco do passageiro:
— Uau, você até dirige. Isso é muito legal.
Ele não parava com os “uau, uau”, enquanto puxava e afivelava o cinto naturalmente.
— Esse carro é do seu hyung? Ah, parece que sim. Acho que ele já veio te buscar com esse carro antes.
Hyun-oh olhou ao redor, girando a cabeça para todos os lados. Mesmo não sendo o meu carro, senti um nervosismo estranho. Ao fazer o retorno, lancei um olhar ao interior e vi que estava impecável. Hyun-oh puxou o assento que estava muito para trás.
Enquanto dirigia ganhando velocidade, perguntei-me se precisaria de um GPS, mas descobri que tinha memorizado a rota de tanto andar de ônibus. Senti-me mais tranquilo com o mapa se formando na minha cabeça. Hyun-oh, que não parava de fungar devido ao frio, perguntou:
— Aliás, tem lenço ou algo assim aqui? Meu nariz não para de escorrer.
— Lenço?
Mantendo a mão esquerda no volante, tateei a área do câmbio com a direita, confirmando que não tinha nada. Perguntei-me se ele era do tipo que não guarda lenços no carro. Hyun-oh, que tinha virado a cabeça para o banco de trás, comentou:
— Não parece ter nada lá atrás também.
Tentei me lembrar. Como nunca precisei de lenços no carro, nada veio à minha memória. Abri o compartimento que continha balas e, quando o porta-luvas chamou minha atenção, sugeri:
— Talvez esteja ali?
— Posso abrir?
Mesmo não sendo meu carro, assenti. Enquanto tirava a mão do compartimento de balas, Hyun-oh pegou uma bala de uva. Desembrulhando-a de uma vez e jogando na boca, ele abriu o porta-luvas enquanto mastigava.
Quando a mão dele agarrou a maçaneta, uma memória brilhou de repente. Foi provavelmente na primeira vez que andei no carro dele. Lembrei-me de como ele me impediu bruscamente quando tentei abrir o porta-luvas.
— Espere…!
Mas Hyun-oh já tinha aberto.
— Ah, aqui está. Minha rinite estava quase me sufocando.
O que ele tirou lá de dentro foi um pacote de lenços de papel, daqueles que costumavam dar em postos de gasolina quando éramos crianças. Hyun-oh puxou algumas folhas, virou o rosto para o lado oposto e assoou o nariz ruidosamente. Ele devia estar segurando aquilo há um bom tempo, pois o som ecoou por muito tempo. Enquanto isso, examinei rapidamente o interior do porta-luvas aberto.
Não havia nada. Apenas um espaço escuro e vazio. Tentei vasculhar minha memória confusa. Eu achei que tinha ouvido algo como um frasco de loção rolando ali naquela época. Com uma expressão confusa, inclinei-me para olhar mais fundo, mas de repente percebi que estava prestes a passar no sinal amarelo e parei bruscamente.
O sinal logo ficou vermelho. Apesar da direção não muito suave, Hyun-oh continuava ocupado assoando o nariz. Depois de usar uns três lenços, ele escondeu o papel amassado e cheio de secreção na palma da mão. Após colocar o pacote de volta, limpou a ponta do nariz com o lenço sujo e o deixou no porta-copos.
— Vou deixar aqui um pouco. Jogo fora quando a gente descer.
— Tudo bem.
Nesse ponto, o cruzamento em frente à escola começou a aparecer. O trajeto, que não levava muito tempo nem de ônibus, foi percorrido ainda mais rápido de carro. Conforme me aproximava do portão principal, perguntei:
— Onde fica o estacionamento?
— Se passar pelo portão principal e seguir por ali, você encontra.
Segui as direções de Hyun-oh. O estacionamento estava relativamente vazio. Parecia que os professores usavam mais do que os alunos. Após estacionar de ré com perfeição em uma vaga vazia, senti um orgulho pessoal quando Hyun-oh aplaudiu.
— Nossa Cheongmyeong é um bom motorista. O melhor!
Com um sorriso envergonhado, peguei minha mochila no banco de trás e desci. Hyun-oh, com as mãos enfiadas nos bolsos, continuava a me cobrir de elogios.
— Graças a você, chegamos rapidamente. Que horas são? Geralmente estaríamos subindo aquele morro agora.
Concordei. Nossos passos em direção ao prédio de aulas eram mais tranquilos que o habitual. Hyun-oh, com os ombros encolhidos contra o vento cortante, disse:
— Estou muito agradecido, então o hyung vai te pagar uma refeição. Não, quer tomar uma cerveja?
— Mas eu vim de carro!
— A gente pode beber na frente da sua casa.
— Certo, parece bom.
— Olá?
Nesse momento, uma voz alegre veio de trás. Ambos nos viramos ao reconhecê-la. Vimos Min Iseo, com as bochechas coradas pelo frio. Refletivamente, chequei a expressão de Hyun-oh.
— Ah, olá.
A garganta de Hyun-oh deu um nó, talvez de surpresa. Ele parecia um pouco estranho. Ao ouvir meu cumprimento, ele abriu a boca tardiamente.
— Oi, Iseo.
A voz dele pareceu, de repente, ter ficado grave e séria. Eu, que vinha pensando em ajudar os dois a ficarem juntos, percebi que era a oportunidade.
— Eu, eu… esqueci uma coisa no carro. Vocês podem ir na frente! A gente se vê mais tarde!
Voltei rapidamente ao estacionamento antes que eles pudessem responder. Conhecendo a geografia do campus, comecei a explorar uma rota até o prédio de aulas, mesmo que fosse um desvio.
Vi o ginásio atrás do beco perto do estacionamento, então pensei que conseguiria me localizar. Comecei a subir em direção ao ginásio pelo beco, que ainda estava congelado porque ali não batia sol.
Porém, não estava sozinho. Um grupo fumando cigarros, vestindo jaquetas longas com o logo da escola, já estava lá. Quando estava prestes a passar, pedindo licença naquele caminho estreito, notei um rosto familiar.
— Oh, Cheongmyeong!
— Olá… sunbae.
Não o reconheci de imediato por estar sem óculos, mas logo percebi que era Yoo Do-jin. Achei que os olhos dele pareciam afiados mesmo atrás de lentes redondas, mas sem os óculos que suavizavam sua expressão, ele emanava uma aura difícil de abordar.
— Eu te disse para falar casualmente. O que faz aqui? Seu prédio não é lá no final?
Do-jin jogou o cigarro pela metade e o apagou com a sola do tênis. De repente, perguntei-me se era certo um atleta fumar, mas respondi honestamente:
— Hyun-oh estava com alguém de quem ele gosta, então deixei eles sozinhos e vim por aqui…
— É mesmo?
Os olhos de Do-jin brilharam de forma maliciosa. Após sacudir as mãos para se livrar do cheiro de cigarro, ele passou o braço pelos meus ombros.
— Vamos lá provocar eles.
— O quê?
Eu os deixei sozinhos para que pudessem se aproximar… palavras como essas subiram à garganta, mas não saíram. Alguém do grupo dele gritou de trás:
— Onde você vai!
— Caçar eles!
O passo de Do-jin era bastante rápido. Mesmo eu, que achava que não perderia para ninguém em termos físicos, já estava ofegante quando chegamos.
Assim que chegamos em frente ao prédio principal, Min Iseo e Hyun-oh subiam o morro rindo alegremente. Claramente fizemos o caminho mais longo, mas, de alguma forma, chegamos quase ao mesmo tempo.
— Ei! — Do-jin gritou alto, apontando para Hyun-oh. Sua voz era tão alta que meus ouvidos doeram. — Não te falei para de bancar o salvador dela?
— Que diabos esse bastardo louco está dizendo…
Hyun-oh xingou, parecendo genuinamente confuso ao lado de quem ele gostava. Min Iseo soltou uma risada clara. Caminhando a uns três palmos de distância de Hyun-oh, ela deu um passo para longe e disse:
— Vou subir primeiro. Vocês dois conversem. Ah, Cheongmyeong, quer subir comigo?
Eu ia aceitar sem pensar muito, mas mudei de ideia rapidamente ao sentir Do-jin apertar meu ombro com firmeza. Não importava a proximidade entre colegas, não parecia certo desaparecer sozinho com a pessoa de quem Hyun-oh gostava.
— Uh, isso… Ah, não. Vou subir com o Hyun-oh. Pode ir.
— Certo. Subam logo.
Min Iseo respondeu levemente e entrou. Ao contrário da minha expectativa de que Hyun-oh atacaria Do-jin assim que ficássemos a sós, ele apenas tirou um maço de cigarros do bolso.
— Sobre o que vocês falaram?
— Por que você quer saber?
Hyun-oh respondeu cinicamente enquanto protegia a ponta do cigarro com a mão para acender. Do-jin inclinou a cabeça exageradamente em minha direção e encontrou meu olhar. Do-jin, com os olhos afiados semicerrados em um sorriso, deu um risinho malicioso e falou de forma afetada:
— Parece que não deu certo, hein?
— Isso é nojento. Seu bastardo filho da puta.
Hyun-oh resmungou, soprando uma nuvem de fumaça cinzenta. Do-jin continuou a falar de forma brincalhona e manhosa enquanto acariciava o meu ombro que ele ainda segurava:
— É que o coração do hyung dói muito. Quando você leva um fora, o coração do hyung dói. Né, Cheongmyeong?
Enquanto ele falava com a cabeça inclinada para mim, até sua respiração tocava minha pele. Hyun-oh levantou a mão ameaçadoramente, como se quisesse queimá-lo com o cigarro.
— Se essa pessoa não percebe quando você está dando sinais, ou finge que não percebe. Isso faz meu coração doer tanto, tanto, sabe?
— Hã? Oh, verdade…
Concordei vagamente, e então me perdi em pensamentos quando um rosto surgiu de repente.
Kwon Saheon.
Mas Do-jin, que não podia saber meus pensamentos, continuou falando com Hyun-oh em tom provocador:
— Você ouviu isso, Choi Hyun-oh?
Hyun-oh olhava para Do-jin com uma expressão de desprezo exagerado. Do-jin, que removeu o braço do meu ombro sem hesitar, disse:
— Não dê tudo de si para acabar sendo usado e jogado fora.
— …A Iseo não é esse tipo de pessoa.
— Oh, estávamos falando da Min Iseo?
Do-jin respondeu sarcasticamente, mas eu, que pensava em “alguém” em minha mente, murmurei distraído, sem nem ter consciência do que estava dizendo:
— Usado e… jogado fora?
☆ Continua…
◆ Tradução, revisão e raws Nat ◆