↫─História Paralela 4
↫─História Paralela 4
— Devemos ir para casa?
Shinu mudou seu olhar de volta para Taebaek enquanto perguntava, mas Taebaek balançou a cabeça.
— Não, vamos jantar antes de voltar. Tem alguma coisa que você esteja com vontade de comer?
— ……
Shinu não respondeu imediatamente e, em vez disso, encarou Taebaek com atenção. Algo nele parecia errado — ele parecia inquieto. Embora estivesse tentando agir normalmente, Shinu o conhecia bem demais. Eles passavam todas as horas de todos os dias juntos; Taebaek não conseguia enganá-lo.
Depois de observar Taebaek por um tempo, Shinu percebeu o que o estava incomodando.
O passado.
O inferno pelo qual haviam passado ainda pairava ao redor deles. Em termos médicos, era TEPT — Transtorno de Estresse Pós-Traumático.
Era uma sequela comum para soldados que viram o combate. Taebaek havia suportado situações que não eram diferentes de uma guerra. Além disso, ele havia enfrentado vários outros traumas — acidentes de carro, desastres naturais, eventos catastróficos e as mortes de entes queridos. Teria sido mais surpreendente se o TEPT não tivesse se manifestado.
Shinu mordeu o lábio inferior em frustração. Isso era algo de que ele não tinha sido capaz de cuidar adequadamente. Ele passara a vida como soldado, realizando missões frequentemente e passando por treinamentos especializados em controle mental. Mas Taebaek não tinha tal preparação. Shinu deveria ter previsto isso, mas não previu. Taebaek, sempre tão brilhante, íntegro e alegre, não parecia alguém que pudesse ser sobrecarregado por tamanha escuridão.
— Vamos jantar em casa — Shinu disse, pegando a mão de Taebaek e puxando-o gentilmente para que se levantasse.
Taebaek hesitou brevemente antes de ficar de pé.
— Tudo bem. Devemos beber um pouco de vinho em casa? Vou fazer uma massa ao molho branco com muito cogumelo e bacon — metade macarrão, metade bacon. Ou poderíamos pegar umas cervejas. Você ama hambúrgueres, certo? Quer que eu compre alguns no caminho?
Taebaek sorriu radiante enquanto falava, seu tom cheio de animação.
— ……
Shinu não pôde deixar de sorrir de volta e assentir. Então, percebendo o milkshake que Taebaek havia deixado para trás, ele o pegou e o jogou em uma lixeira próxima. Taebaek mal havia tocado nele, apesar de protestar mais cedo sobre não desperdiçar. Deixar para trás algo que ele amava tanto, esquecendo-o em um banco, de todos os lugares, dizia muito sobre seu estado distraído.
A preocupação roeu Shinu enquanto ele acelerava o passo, calculando a rota mais curta de volta para casa. Eles precisavam chegar a um lugar seguro — não apenas fisicamente, mas a algum lugar onde Taebaek pudesse se sentir seguro. Um espaço fechado por paredes familiares, silencioso e calmante.
À medida que se aproximavam da saída do Central Park, Taebaek de repente puxou a mão de Shinu , parando-o.
— Por que você está andando tão rápido? Vá mais devagar.
— ……
Shinu examinou Taebaek de perto e notou gotas de suor surgindo em sua testa. Sua pele estava pálida, seus lábios secos. Sem uma palavra, Shinu colocou a mão no peito de Taebaek.
O coração de Taebaek batia desordenadamente sob a palma da mão de Shinu , muito mais rápido do que deveria estar. Mesmo que estivessem caminhando em ritmo acelerado, não havia razão para seus batimentos cardíacos estarem tão elevados.
— O que está acontecendo? Você quer sexo ou algo assim? É por isso que está com tanta pressa de chegar em casa?
Taebaek deu um sorriso malicioso e piscou, retirando gentilmente a mão de Shinu de seu peito.
A expressão de Shinu tornou-se fria.
Havia claramente algo errado. Fosse uma negação instintiva ou uma tentativa de evitar que Shinu se preocupasse, Taebaek estava fugindo da situação.
Estava ficando claro que eles precisavam visitar um hospital. Fosse para terapia, aconselhamento ou medicação, eles tinham que fazer alguma coisa. Mas Shinu se preocupava com a eficácia que isso teria no exterior. Os médicos daqui não entenderiam o trauma único de enfrentar os Devoradores .
Se tivesse sido uma lesão física — algo rasgado ou quebrado —, Shinu poderia ter cuidado disso sozinho. Mas isso? Uma ferida na mente, no coração? Deixava até mesmo ele impotente.
Embora pudesse oferecer conforto a Taebaek em suas vidas diárias, isso era o máximo que podia fazer. Ele não conseguia ser objetivo quando se tratava de Taebaek. Eles eram próximos demais, o vínculo deles era profundo demais.
Mesmo agora, a preocupação que sentia por Taebaek era suficiente para fazer seu estômago revirar.
— Taebaek, você…
Shinu mal tinha começado a falar quando um barulho agudo ecoou, seguido por uma explosão de comoção. Vozes alteradas, gritos furiosos e buzinas estridentes de carros encheram o ar.
O caos era um som familiar demais. Shinu instintivamente engoliu em seco e moveu Taebaek para trás de si, protegendo-o com seu corpo. Taebaek, segurando firmemente a mão de Shinu , olhou ao redor.
Não era um Devorador; ele tinha certeza disso. Não havia como um devorador aparecer em Nova York, muito menos no meio de Manhattan. A menos que tivesse havido um golpe de Estado nos EUA — e isso era virtualmente impossível.
Enquanto Taebaek organizava sua confusão e se situava na realidade, a origem do barulho ficou clara. A primeira coisa que chamou sua atenção foi um mar de cartazes com letras garrafais e rústicas.
— NÃO À VACINA FORÇADA —
— Nós Dizemos NÃO —
— MEU CORPO, MINHA ESCOLHA —
— NÃO À VACINA —
— LIBERDADE —
Ao verem os cartazes, tanto Taebaek quanto Shinu relaxaram visivelmente, seus ombros tensos cedendo. Era inconfundivelmente obra de pessoas.
Os slogans em inglês nos cartazes de protesto, bandeiras americanas tremulando aqui e ali, repórteres e câmeras registrando a cena, punhos erguidos no ar — era um protesto. Especificamente, um protesto contra a vacinação obrigatória.
Taebaek puxou o gorro de Shinu mais para baixo em sua cabeça. Mesmo isso não sendo suficiente para aliviar sua ansiedade, ele puxou o capuz do suéter de Shinu e amarrou os cordões firmemente. Então, ele envolveu os ombros de Shinu com um braço, puxando-o para perto. Shinu respondeu envolvendo a cintura de Taebaek com os braços e se pressionando ao seu lado.
Os dois ficaram sob uma grande árvore, observando silenciosamente os manifestantes. A manifestação era longa e variada. Alguns participantes exibiam expressões sérias, como generais marchando para a batalha, enquanto outros riam como se estivessem em um piquenique. Alguns dançavam, enquanto outros discutiam calorosamente com os policiais que monitoravam o evento.
— Haa…
Taebaek soltou um breve suspiro, seu peito se apertando diante da cena.
A vacina havia sido concluída, e o governo dos EUA havia proposto torná-la obrigatória para todos os cidadãos. Não eram apenas os EUA; a maioria dos países ao redor do mundo tinha planos semelhantes.
Afinal, Devoradores ainda estavam sendo descobertos por todo o globo, tendo chegado às praias vindos de lugares como o Afeganistão e a Coreia. Na Ásia, particularmente no Japão e na China, os números eram impressionantes. Ilhas remotas e cidades isoladas com defesas fracas estavam supostamente infestadas pelo vírus, de forma muito parecida com a Coreia.
Havia até relatos bizarros de jornalistas estrangeiros, YouTubers ou indivíduos curiosos que entravam secretamente na Coreia, eram infectados e retornavam aos seus países de origem, espalhando o caos. Tudo isso havia acontecido em questão de poucos meses.
O medo continuava a dominar o mundo. Países que antes se julgavam seguros começaram a reforçar suas defesas, recorrendo, em última análise, à vacinação obrigatória.
Mas essa decisão estava longe de ser universalmente aceita.
Por um lado, a vacina causava alterações físicas. As orelhas daqueles que eram vacinados mudavam, tornando-se vermelhas — como as dos Devoradores . Ou, mais precisamente, como a de Shinu .
Uma das orelhas, escolhida aleatoriamente, ficava em um tom vermelho brilhante. Mesmo se tivesse sido uma vacina padrão contra a gripe, teria havido um alvoroço. A mudança visível apenas amplificava a reação negativa. Esperava-se agora que as pessoas vivessem com uma orelha vermelha pelo resto de suas vidas — não era de surpreender que muitos estivessem resistentes.
Grupos religiosos declaravam que era um sinal do apocalipse, enquanto outros protestavam contra a discriminação que poderia surgir pelo fato de se poder distinguir visualmente as pessoas vacinadas das não vacinadas.
O argumento mais comum, no entanto, era de que não fazia sentido tomar a vacina. Devoradores podiam engolir uma pessoa inteira em questão de poucas mordidas. Como a vacina não garantia a sobrevivência contra um ataque de Devorador, por que tomá-la afinal?
Não era um ponto irracional. Ao ser mordido por um Devorador, nove em cada dez vezes, os ferimentos eram fatais — cabeças arrancadas, corpos partidos ao meio. A vacina não mudaria isso.
Mas o objetivo final da vacina não era proteger os indivíduos dos Devoradores — era interromper a criação de novos Devoradores por completo.
Os Devoradores parasitam o corpo humano, fazendo-o apodrecer e se decompor. Em outras palavras, se nenhum novo Devorador fosse criado, o vírus poderia ser erradicado de forma relativamente rápida. É por isso que a vacina estava sendo imposta de maneira tão agressiva, até mesmo obrigatória.
— Eu imaginei que isso aconteceria, mas a reação negativa é intensa — Taebaek murmurou.
— Bem, a maioria deles nunca viu um Devorador antes. Eles provavelmente pensam que é apenas um problema de outro mundo — Shinu respondeu com um aceno de cabeça.
De fato, regiões como a Ásia, onde os Devoradores eram encontrados regularmente, apoiavam amplamente a vacinação obrigatória. O Ocidente, contudo, era uma história diferente. Na América — e até mesmo na Europa, que desempenhou um papel importante na crise global —, o movimento antivacina era feroz.
Taebaek estendeu a mão e deu um tapinha no ombro de Shinu enquanto perguntava:
— E se eles acabarem revogando a obrigatoriedade da vacina?
— Bem, então não haverá o que fazer — Shinu disse com um dar de ombros. Era uma resposta estranhamente vaga para ele.
Shinu conseguia ver os dois lados. Ele entendia a perspectiva do governo, bem como as queixas dos cidadãos subitamente forçados a viver com as orelhas vermelhas. Ele não conseguia apoiar ou se opor totalmente a nenhum dos lados. A liberdade era um valor humano fundamental, afinal. Mais do que isso, a vacina havia sido criada usando seus anticorpos, e sua própria orelha já era vermelha. Ele achava difícil falar de forma decisiva sobre o assunto.
— Não haverá o que fazer? De jeito nenhum. As pessoas têm que ser vacinadas — Taebaek respondeu, com a voz emburrada.
Taebaek era firmemente a favor da vacina. Ele dizia que se essas pessoas tivessem tido sequer um dia de experiência naquele inferno — se tivessem visto pessoas morrendo a cada segundo, visto Devoradores se multiplicando infinitamente, segurado os cadáveres de seus entes queridos enquanto soluçavam ou testemunhado outros abandonando sua humanidade para sobreviver —, não haveria hesitação sobre a vacina.
— Se tivessem visto sangue grudando em seus sapatos como cola ou pedaços de carne espalhados por toda parte, não pensariam duas vezes. Não estariam debatendo o luxo de se vacinar ou não — ele acrescentou.
Então, com um sorriso astuto, ele disse:
— Se eu tomar a vacina e minha orelha esquerda ficar vermelha como a sua, isso significa que fomos feitos um para o outro. Vamos nos casar então, hyung. Seríamos um casal perfeito. Ninguém poderia negar. Teríamos que nos casar — seria o destino.
Shinu balançou a cabeça com um sorriso resignado. A vacina transformava aleatoriamente a orelha direita ou esquerda em vermelha. Dividir “almas gêmeas” em uma probabilidade de 50% parecia um pouco forçado. Além disso, metade de todas as pessoas vacinadas no mundo terminaria com a orelha esquerda vermelha. Isso significava que todos eles eram almas gêmeas destinadas?
Ainda assim, ele não discutiu o ponto.
Destino. Almas gêmeas. Um casal perfeito. O afeto de Taebaek por tais noções era infinitamente fascinante para Shinu . Para alguém que não parecia externamente o tipo, Taebaek era surpreendentemente inocente e inabalavelmente idealista.
Os dois permaneceram em silêncio no lugar até que os manifestantes tivessem passado. À medida que as ruas se esvaziavam, o tráfego recomeçou e a cidade voltou ao seu ritmo habitual.
Taebaek puxou a mão de Shinu .
— Vamos comer hambúrgueres, hyung. Estou com fome.
Shinu o encarou por um momento. A pele de Taebaek havia melhorado — a palidez de antes havia sumido e o suor frio havia secado. O sorriso em seu rosto era natural, não forçado. Shinu soltou um suspiro suave.
— Tudo bem. De qualquer forma, estou com vontade de tomar uma cerveja hoje à noite.
↫─☫ Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna