↫─História Paralela 14
↫─História Paralela 14
A área com cicatriz no peito esquerdo de Shinu, onde ele havia sido mordido por um devorador, agora abrigava uma baleia elegante. As marcas e protuberâncias que a baleia não conseguia ocultar totalmente haviam se transformado em planetas de vários tamanhos, fazendo parecer que a baleia estava nadando pelo espaço.
No dia em que Taebaek tingiu o cabelo de loiro, Shinu fez a sua tatuagem. Taebaek havia entrado em contato com um tatuador que conhecia no exterior para criar um desenho personalizado, e foi assim que o pequeno universo passou a adornar o peito de Shinu.
Quando a tatuagem ficou pronta, Shinu olhou para ela no espelho e perguntou:
— Por que uma baleia? Um dragão ou uma carpa não seriam mais descolados?
— Isso seria muito estilo mafioso. Eu queria algo elegante e foda.
— Uma baleia é foda?
— Com certeza. É o rei do mar. Além disso, me lembra você.
— Eu? Eu te lembro uma baleia? … Eu por acaso tenho um focinho comprido ou algo assim?
— Não, do que você está falando? Não o seu rosto, a sua personalidade. Você é forte, mas silencioso, gentil com aqueles que não são presas, implacável com os inimigos. Você sabia que as baleias às vezes ficam com a boca aberta para deixar as criaturas que elas não comem escaparem?
— ….
— E elas vivem por muito tempo. Tipo, muito mesmo. As grandes podem viver mais de 100 anos, e algumas espécies passam até dos 200. Espero que você tenha uma vida longa. Comigo.
Ao ouvir aquilo, Shinu percebeu o quanto Taebaek havia se dedicado ao desenho que ficaria eternamente marcado em seu peito. Essa percepção fez com que a baleia de repente parecesse profundamente preciosa para ele. Dava a impressão de que Taebaek sentia o mesmo, já que frequentemente depositava beijos no peito de Shinu sempre que surgia uma oportunidade.
Relembrando a memória de quando fez a tatuagem, Shinu olhou para baixo, para Taebaek, que havia pegado no sono novamente em seus braços. Observando-o dormir, Shinu sentia como se estivesse segurando o mundo inteiro em seu abraço — tão quente, tão grande e tão pleno.
Para ajudá-lo a dormir mais profundamente, Shinu começou a acariciar suavemente as costas largas de Taebaek. O movimento parecia natural agora. Confortar, abraçar e amar alguém — era algo a que ele havia se acostumado. Bem, não “alguém”, por assim dizer. Era algo que ele fazia apenas por Taebaek.
Enquanto continuava a acariciar as costas de Taebaek, os olhos de Shinu pesaram. Observar o rosto sereno de Taebaek o embalou em um estado de sonolência. Ele não se deu ao trabalho de lutar contra isso. Afinal, eles estavam em férias prolongadas, e ninguém iria reclamar se acordassem tarde.
Sempre que abrissem os olhos, ainda encontrariam um ao outro ali, bem ao lado.
—
Shinu sentou-se no sofá do escritório, correndo a tela do celular distradamente enquanto um telejornal sem som passava na TV. Do outro lado do cômodo, Taebaek estava sentado em uma mesa ampla, digitando freneticamente em seu teclado.
As tardes eram sempre agitadas para Taebaek, repletas de e-mails de trabalho, reuniões por vídeo e tarefas intermináveis.
A Corporação HW, que já não era viável em sua totalidade, havia sido reorganizada. Os setores impossíveis de salvar foram abandonados, e os restantes foram reestruturados. Ocasionalmente, antigos funcionários da Coreia entravam em contato, e Taebaek os recebia calorosamente, designando-lhes funções. Isso o mantinha, como presidente, excepcionalmente ocupado.
Shinu tentava não atrapalhá-lo. Ele admirava como Taebaek conseguia equilibrar sua carga de trabalho com o papel de um dono de casa atencioso. Às vezes, Shinu lhe trazia lanches, arrumava a casa que já estava impecável ou cogitava arrumar um emprego para preencher suas horas ociosas.
Tendo vivido uma vida de atividade constante, o lazer recém-descoberto parecia estranho, mas não era desagradável.
No entanto, Taebaek não era particularmente fã do tempo livre de Shinu — pelo menos não quando isso o tirava de sua vista.
Não importava se Shinu estava relaxando, cochilando, dançando ou cantando, Taebaek insistia para que ele ficasse por perto, ao alcance dos olhos. Inicialmente, Shinu encarou as reclamações dele como brincadeira, mas quando Taebaek começou a carregar o notebook para trabalhar onde quer que Shinu estivesse, ele não teve outra escolha senão ceder.
É por isso que Shinu estava agora ocupando silenciosamente um espaço no escritório de Taebaek, alternando entre a leitura, a navegação na internet e as notícias. De vez em quando, ele tirava um momento para se maravilhar com Taebaek em seu modo “executivo corporativo”, embora o efeito ficasse um pouco prejudicado pelo fato de o paletó de Taebaek estar combinado com calças de moletom. De alguma forma, porém, ele conseguia fazer aquilo parecer elegante.
Enquanto Shinu observava, Taebaek ergueu brevemente o olhar do monitor e cruzou com os olhos de Shinu. Ele piscou de forma brincalhona e mandou um beijo no ar com os lábios.
Shinu sorriu de lado e desviou o olhar. Por mais fofo que ele fosse, ceder aos seus caprichos só traria problemas. Conhecendo Taebaek, ele abandonaria o trabalho por completo e avançaria em Shinu como um animal faminto.
Shinu voltou sua atenção para o noticiário. A tela exibia uma multidão de manifestantes. Ao contrário dos protestos antivacina do início do ano, essas manifestações foram desencadeadas pela recente revelação de um escândalo.
Como Shinu suspeitava, o surto de devoradores naquela cidade rural, que prendeu a atenção do país durante todo o verão, não havia sido um acidente. Uma empresa farmacêutica, frustrada com as taxas de vacinação inesperadamente baixas, havia liberado o vírus deliberadamente. Oficiais do governo de alto escalão e executivos da mídia aceitaram subornos para orquestrar o pânico público.
Ironicamente, as ações deles alcançaram o efeito desejado. As taxas de vacinação, antes estagnadas em 20%, dispararam para 90%. Agora, as pessoas com orelhas vermelhas superavam as que não tinham.
O escândalo também desviou o ressentimento do público de cima dos asiáticos e o direcionou para as corporações e o governo. Instabilidade política, queda nas ações da bolsa e protestos em memória dos cidadãos massacrados da cidade rural foram algumas das consequências. Até mesmo aqueles que haviam sido enganados a tomar a vacina estavam furiosos agora.
Apesar de tudo, Shinu e Taebaek viviam em tranquilidade. Ninguém os incomodava por serem coreanos, e ninguém ficava encarando suas orelhas vermelhas. Eles podiam correr ao ar livre, fazer piqueniques na praia e até mesmo visitar os enormes parques temáticos de LA sem problemas.
Era a liberdade perfeita.
Shinu, satisfeito, olhou para o celular e começou a digitar. Ocasionalmente, um pequeno sorriso surgia em seus lábios, ou ele fixava o olhar na tela com atenção.
Ele não tinha certeza de quanto tempo havia se passado quando, de repente, uma grande sombra se projetou sobre ele. Shinu olhou para cima e viu Taebaek de pé ali.
Sorrindo, Shinu perguntou: — Você terminou? Vamos jantar?
— ….
Taebaek estreitou os olhos de um jeito sonolento e travesso, com a região macia abaixo de seus olhos inflada em uma falsa indignação. Shinu inclinou a cabeça, curioso. Por quê? O quê? Eu estive sentado aqui como um pedaço de mobília o tempo todo. Qual é o seu problema? O que há com essa cara? Enquanto fitava Taebaek, tentando decifrá-lo, Taebaek de repente estendeu a mão.
Shinu lhe direcionou um olhar questionador. Em resposta, Taebaek falou em um tom baixo, rápido e quase sinistro, como um detetive interrogando um suspeito.
— Estou há dias pensando se deveria perguntar ou não. Mas a confiança é a coisa mais importante em um relacionamento, certo? Então, eu não disse nada. Mas agora eu preciso saber.
— … Sobre o quê?
— Com quem você está trocando tantas mensagens? Quem é? Como você conheceu essa pessoa? É do exército?
Uma enxurrada de perguntas veio à tona, deixando Shinu piscando de surpresa. Ele bateu com o dedo indicador na borda do celular enquanto avaliava Taebaek.
Será que isso é mais uma das brincadeiras dele?
Mas não, Taebaek parecia genuinamente desconfortável. Ele realmente achava que Shinu poderia estar de conversa boba com outra pessoa.
Shinu deu tapinhas no espaço do sofá ao seu lado. Taebaek sentou-se imediatamente ali.
Sem dizer uma palavra, Shinu lhe entregou o aparelho. Era o celular que ele havia comprado assim que chegaram aos EUA, embora raramente o usasse para falar com Taebaek. Por que eu precisaria mandar mensagem para ele? Nós estamos praticamente colados o dia inteiro. Talvez por isso Taebaek estivesse se contorcendo como um cachorro inquieto.
— … Eu posso olhar mesmo?
Taebaek encarou o celular em sua mão, cauteloso.
— Vá em frente.
Sem hesitação, Shinu assentiu.
Mesmo com a permissão, Taebaek hesitou em desbloquear o aparelho. Ele sabia que era mesquinho e infantil bisbilhotar o celular de um parceiro. E considerando a facilidade com que Shinu o havia entregado, obviamente não havia nada de comprometedor. No entanto, a curiosidade venceu.
Olhando alternadamente entre o celular e o rosto de Shinu, Taebaek finalmente pressionou o botão de início. O celular nem sequer tinha uma tela de bloqueio. Ao deslizar para cima, revelou o último aplicativo que Shinu estava usando.
Era a interface de mensagens do Instagram.
Taebaek franziu a testa e inclinou-se para a frente, cerrando os olhos para a tela.
— O quê? Você criou uma conta no Instagram sem me contar?
— Sem te contar? Não era um segredo.
— Se eu não sabia, é um segredo.
— … É assim?
Shinu coçou a nuca, percebendo que aquilo poderia ter parecido dissimulado. Ele ofereceu um pedido de desculpas direto.
— Desculpa.
Ele não havia escondido isso de Taebaek de propósito, mas, olhando para trás, conseguia entender como parecia daquela forma. Taebaek era mais sensível do que ele, afinal.
— ….
Taebaek olhou para ele e, em seguida, aproximou-se um pouco mais, como se o pedido de desculpas tivesse resolvido as coisas. Ele não disse nada, mas sua proximidade dizia muito. Quando se tratava de Shinu, Taebaek era simples e fácil de acalmar.
— Com quem você estava conversando por mensagem direta?
— Com a Hye-in.
— … Hye-in?
A menção de um nome antigo fez os cílios de Taebaek se erguerem de surpresa. Hye-in era a caçula das três irmãs que eles haviam conhecido em Yongin, aquela que havia demonstrado interesse em Shinu abertamente, chamando-o de “oppa” a cada oportunidade.
— Como vocês voltaram a se falar?
— Ela me deu o perfil dela naquela época, lembra?
— E você ainda lembrava disso?
— Sim. Enviei uma mensagem para agradecer e saber como ela estava. Ela está criando um cachorro agora. Muito fofo. Olhe, aqui está uma foto.
Shinu tocou na tela algumas vezes para navegar até o perfil de Hye-in. Fotos dela, de suas irmãs e de um Border Collie de orelhas grandes preencheram a tela.
— Ela está na Holanda agora. Disse que tem um namorado. Um cara bem bonito, na verdade. Pelo visto, o padrão dela é alto.
Ele passou pelas fotos, explicando alguns detalhes sobre elas. Taebaek escutava atentamente, embora seu interesse não fosse lá muito grande. Parecia que Shinu vinha trocando mensagens com Hye-in há alguns dias, atualizando as novidades de suas vidas.
Lendo as conversas, Taebaek não viu nada de paquera ou suspeito. Era algo saudável e direto, mais parecido com um professor e uma aluna brilhante mantendo contato após anos separados. O tom era casual, respeitoso e totalmente inocente.
Hye-in ocasionalmente reclamava do namorado, apenas para elogiá-lo um momento depois. Shinu respondia de forma ponderada, como um irmão muito mais velho cuidando dela com um carinho divertido.
Não havia uma única coisa naquela troca de mensagens com que Taebaek devesse se preocupar.
↫─☫ Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna