↫─❀ Capítulo 15.2
Capítulo 15 Parte 2
O hotel onde se realizava a recepção era o principal cenário de eventos internacionais e a hospedagem favorita de dignitários estrangeiros que visitavam Ronen; por isso, sua imponência e esplendor eram indiscutíveis. No entanto, o contingente de convidados ali fora reduzido a praticamente metade do que comparecera à catedral. A grande maioria das figuras públicas e convidados de protocolo já havia se retirado, deixando o salão preenchido quase que exclusivamente por aqueles que mantinham uma estreita intimidade com os noivos.
Assumindo o papel de anfitriões em nome dos recém-casados, Joshua e Erich desdobravam-se pelo vasto salão de banquetes, transitando entre os convidados com sorrisos impecáveis, embora desviassem os olhos sutilmente para a entrada a cada minuto.
Já havia se passado um bom tempo desde que Joshua entrara em contato com os assessores que auxiliavam os noivos na suíte presidencial. Quando ele finalmente avistou a entrada do salão, os protagonistas do dia surgiram, lado a lado, cruzando o portal.
No instante em que o casal — agora oficialmente unido pelo matrimônio — pisou no salão, uma onda de aplausos e vivas ecoou pelo ambiente. Alguns assobios mais descontraídos misturaram-se às felicitações, elevando a energia da festa.
Não demorou para que os convidados se aglomerassem ao redor dos recém-chegados. Os primeiros a alcançá-los foram, naturalmente, os duques de Savina, que vinham cobrindo a ausência dos noivos.
— Vocês demoraram — comentou Joshua, com um tom suave.
— Peço desculpas. Não me senti confortável com o traje que havia sido preparado, então precisei trocá-lo de última hora — justificou Damian, mantendo a postura.
— Sei… Trocar de roupa a essa hora? Vocês dois não estavam aprontando alguma coisa lá em cima, não? — provocou Erich, semicerrando os olhos enquanto os avaliava de cima a baixo.
Joshua deu-lhe um leve cutucão na costela, lançando-lhe um olhar de advertência para que contivesse as insinuações.
— O que foi? Olhe só para eles. Estão até desviando o olhar! Vocês estavam mesmo aprontando, não estavam?
Erich já estava profundamente contrariado com o fato de o genro ter engravidado sua preciosa joia antes do casamento; ver Claude ali, ostentando aquele sorriso calmo e imperturbável, apenas intensificava seu ciúme paternal. Ele continuava a encarar o genro com uma indignação cômica.
Os amigos e familiares que cercavam o grupo caíram na risada.
— Duque! O que seria esse “aprontando”? — provocou um dos presentes.
— Parece que o duque ainda não aceitou totalmente a ideia de entregar o Damian!
— Damian, o seu pai está desconfiado. Vamos, conte a verdade para nós!
Diante das provocações dos companheiros, Damian praguejou mentalmente contra a indiscrição de Erich, que criara aquela situação embaraçosa. Sem uma justificativa convincente que pudesse apresentar sem corar, ele optou pelo silêncio. Vendo o embaraço do noivo, Claude interveio com sua habitual segurança.
Com extrema polidez, o duque ponderou que muitos convidados os aguardavam e sugeriu que iniciassem os cumprimentos formais, desarmando a situação com naturalidade.
Ignorando as expressões céticas que Erich ainda esboçava, Joshua empurrou Damian e Claude delicadamente na direção dos demais convidados, garantindo o fluxo do protocolo.
Mesmo com a ausência temporária dos noivos, a celebração já havia começado há algum tempo. Entre taças de champanhe e canapés sofisticados, diversos grupos de convidados já exibiam a descontração típica de quem aproveitava a excelente adega do hotel.
Ao circularem pelas mesas, Damian e Claude expressavam sua gratidão pela presença de cada um, engajando-se em breves conversas. O semblante dos presentes ao parabenizar o novo casal era de genuína alegria. Contudo, como era de se esperar, não faltaram perguntas indiscretas sobre os bastidores do romance. Diante do impacto do anúncio da gravidez antes do casamento, alguns convidados mais audaciosos não hesitavam em tentar extrair detalhes para saciar a própria curiosidade.
Para o alívio de Damian, Claude respondia a cada indagação com uma retórica impecável e maleável, poupando o parceiro de qualquer saia justa.
Damian sentira um receio secreto de que a tensão que quase os levara a consumar o ato na cobertura transparecesse para os convidados. No entanto, Claude agia como se absolutamente nada tivesse acontecido; manteve a mão pousada firmemente sobre a cintura de Damian, com os olhos atentos a cada movimento seu.
Diante do profissionalismo do parceiro, Damian esforçou-se ao máximo para sustentar um sorriso radiante. Sempre que seus olhares se cruzavam, ele sustentava a expressão dócil e natural.
Embora o protocolo de casamentos da alta aristocracia sugerisse dinâmicas interativas para entreter os noivos, tanto Claude quanto Damian haviam optado por suprimir tais rituais do cronograma. Em contrapartida, certificaram-se de que a oferta de alimentos refinados e bebidas de alta estirpe fosse inesgotável.
Considerando o prestígio e a influência política de grande parte dos presentes, não demorou para que o foco de alguns convidados mudasse das felicitações nupciais para a costura de alianças e contatos profissionais nos cantos do salão.
Enquanto observava o vaivém de rostos familiares, Damian notou um grupo cujas posturas e feições destoavam sutilmente da nobreza habitual da corte. Antes que pudesse indagar, um dos integrantes do grupo encontrou seu olhar.
— Comandante!
Com cortes de cabelo curtos e precisos, acompanhados de uma postura ereta que denunciava a rigidez da formação militar, o grupo aproximou-se rapidamente de Claude e Damian.
— Meus parabéns pelo casamento, comandante!
— Nunca pensei que viveria para ver o senhor diante de um altar. Realmente, o mundo dá voltas!
— Agradeço a presença de todos. Este é… — Claude começou a introduzir o parceiro, mas foi prontamente interrompido com entusiasmo.
— Sim, senhor! Nós já o conhecemos pelas notícias. É uma honra, milorde. Sou o Segundo-Tenente Larry Burgess, do Batalhão de Operações Especiais da 13ª Divisão das Forças de Paz.
— Prazer em conhecê-lo. Sou Milo Angel, servimos no mesmo pelotão.
Enquanto se apresentavam, alguns dos militares pareciam momentaneamente deslumbrados pela beleza de Damian, recompondo-se às pressas para concluir as saudações.
— Suboficial Pheron Amira. Meus sinceros cumprimentos ao casal.
— Jace Rocannon. Desejo muitas felicidades nesta nova etapa.
Diante daquela fileira de homens de olhar firme e presença marcante, Damian aceitou os cumprimentos com um sorriso polido, embora internamente estivesse surpreso com a chegada repentina dos antigos subordinados do marido.
— Agradeço imensamente que tenham vindo celebrar conosco — respondeu Damian, oferecendo um sorriso cortês aos veteranos. Uma ponta de curiosidade surgiu em sua mente; talvez ali estivesse a oportunidade de descobrir mais sobre o passado militar de Claude.
Ao verem o sorriso do conde, os soldados pareceram travar por um instante, impressionados, antes de retomarem o tom descontraído.
— Céus… O comandante realmente se superou. Agora eu compreendo perfeitamente o motivo de sua total falta de interesse pelas investidas de terceiros durante o serviço! Seu padrão de exigência era simplesmente de outro nível!
— O senhor não faz ideia do alvoroço que a notícia de seu casamento causou no quartel. O batalhão inteiro jurou que compareceria em peso, mas fomos os únicos que conseguiram liberação de dispensa.
— Já faz algum tempo que deixei a farda ativa. Podem me chamar pelo nome — ponderou Claude, com tom brando.
— Ah, é verdade. Agora o senhor é o Ministro… Céus, cometemos uma gafe protocolar?
— Não há necessidade de formalidades. Vocês não estão mais sob o meu comando direto, fiquem à vontade.
— Hahaha! Como se alguém aqui tivesse a audácia de tratar o comandante com informalidade — brincou Milo, balançando a cabeça antes de acrescentar: — Quando o senhor apresentou sua baixa repentina do serviço ativo, o batalhão ficou sem entender nada. Mas agora, vendo com quem o senhor estava prestes a se unir, tudo faz sentido. Ninguém quer ficar longe de casa nessas circunstâncias.
— Ah, é mesmo? — indagou Damian, captando a deixa.
— Com certeza! O comandante retornou de uma breve licença e, do nada, anunciou que estava se desligando das forças armadas. Foi um verdadeiro choque para a divisão.
Pheron assentiu vigorosamente, endossando as palavras do colega.
— E ainda por cima para se casar! No início, achamos que era algum trote de rádio. O comandante era conhecido no quartel como o próprio “monge de pedra”. Lembro-me de uma ocasião em que um ômega entrou em crise de calor bem diante dele, e o comandante sequer alterou o tom de voz; apenas o imobilizou com técnica e o encaminhou ao departamento médico. Na época, todos nós chegamos a cogitar que ele fosse im… ah, perdão! Não foi minha intenção ser indiscreto — desculpou-se Larry, contendo o riso diante da própria indiscrição.
Os demais militares riram baixo, relembrando o episódio com cumplicidade.
— Parem com as bobagens. Como estão as coisas no quartel? — interveio Claude, cortando o assunto de forma assertiva antes que detalhes desnecessários viessem à tona.
Damian ergueu uma sobrancelha, observando o marido de soslaio. Ele percebeu o esforço deliberado de Claude para redirecionar o foco da conversa.
Os soldados passaram a relatar atualizações sobre o cotidiano da caserna, mencionando transferências e detalhes de uma missão recente de resgate humanitário que resultara no salvamento de órfãos em uma zona de conflito. Enquanto ouvia os relatos de forma superficial, a mente de Damian trabalhava ativamente.
“Por que ele mudou de assunto tão rápido? Será que há algo sobre esse período que ele prefere ocultar?”
Embora os soldados o tivessem descrito como uma figura de conduta irrepreensível, a vida militar reunia indivíduos de diferentes naturezas dinâmicas. Em ambientes de alta pressão, acidentes de compatibilidade biológica não eram incomuns. Damian começou a conjecturar se Claude guardava algum episódio que preferia não ver exposto.
— A proporção de indivíduos de dinâmicas especiais é alta no batalhão? — indagou Damian, aproveitando uma pausa na fala dos militares.
— Não diria que é expressiva, mas há uma presença constante. As Forças de Paz aceitam candidatos independentemente de sua dinâmica secundária — respondeu Jace, com tom técnico. — No nosso destacamento, contávamos com cerca de seis alfas, incluindo o comandante, e quatro oficiais ômegas.
— Compreendo. E isso não gerava riscos de incidentes biológicos? Afinal, os períodos de crise são inevitáveis.
— Damian, essa dinâmica realmente lhe desperta interesse? — perguntou Claude, com um tom de leve estranheza.
— Eu não possuo qualquer familiaridade com a rotina militar. Apenas me pergunto como lidam com essas variáveis sob pressão.
— O controle do departamento médico é extremamente rigoroso — explicou Jace. — Ao ingressar no serviço ativo, o militar é submetido a um mapeamento detalhado de seus feromônios para prever os períodos de vulnerabilidade. Os supressores distribuídos pela intendência são de alta potência. Acredito que o comandante possa detalhar melhor essa parte.
Os olhos azuis de Damian voltaram-se para o marido, aguardando a resposta.
— Quando o período se aproxima, o protocolo exige que o militar faça uso dos supressores de segurança e permaneça em isolamento preventivo nos aposentos designados por alguns dias — explicou Claude de forma sucinta.
— No entanto, falhas de protocolo acontecem, não? Como a que acabaram de mencionar.
— Erros de previsão ocorrem em qualquer ambiente — ponderou Claude. — Às vezes, um militar pode apresentar uma oscilação hormonal imprevista. Nesses cenários, a eficiência do oficial de comando em isolar o indivíduo determina a gravidade do incidente. As punições para infrações de natureza biológica são severas no regulamento, o que desencoraja condutas negligentes.
— Sim, de fato. Naquela ocasião com o Norman, se bem me recordo, a alteração de seu ciclo ocorreu de forma atípica… — comentou Larry, tentando resgatar a memória do ocorrido enquanto buscava a confirmação de Milo.
Foi então que Pheron, levado pelo entusiasmo da conversa, exclamou:
— Ah, sim! O Norman andava tão obcecado pelo comandante que os níveis de estresse emocional dele desregularam completamente a própria atividade hormonal! Foi por isso que… ups!
Ao perceber a expressão que se formou no rosto de Claude, as palavras de Pheron sumiram de sua garganta, deixando-o visivelmente pálido. Os companheiros lançaram-lhe olhares de reprovação silenciosa antes de voltarem os olhos, apreensivos, para o duque.
A expressão de Claude permanecia fria e imperturbável, o que tornava sua presença ainda mais intimidante para os antigos subordinados, que começaram a desviar o olhar, desconfortáveis.
— Ah… Uma obsessão? — inquiriu Damian, inclinando ligeiramente a cabeça com um sorriso que continha uma ponta de ironia.
— Não… Não houve nenhum desdobramento, milorde! — apressou-se Pheron em tentar remediar a situação. — Embora a situação pudesse ter saído de controle, o comandante agiu com uma frieza exemplar. Ele encaminhou o soldado ao confinamento médico imediatamente e acionou a equipe de apoio. Sua conduta foi o próprio manual de conduta de um alfa exemplar…
— Já chega — determinou Claude, encerrando a justificativa de Pheron com um tom de voz que não admitia réplicas.
Os militares contiveram um suspiro coletivo de alívio, censurando mentalmente o colega pela indiscrição.
— Por que tanta tensão? Trata-se de um evento do passado, não há necessidade de desconforto — comentou Damian, exibindo uma expressão leve e compreensiva que desarmou instantaneamente o clima pesado que se instalara.
Usando de seu charme natural, o conde ofereceu um sorriso brilhante que devolveu a descontração ao grupo de militares.
— Hahaha! Com certeza, milorde! Um evento sem qualquer relevância para o presente!
— Exatamente!
— E o que aconteceu com esse soldado após o ocorrido? — indagou Damian de forma casual, aproveitando a guarda baixa do grupo.
— Ah, isso ocorreu há cerca de três anos. Norman sentiu-se extremamente constrangido com o episódio e solicitou transferência imediata para outro setor de operações — respondeu Pheron, sem hesitar.
— Agradeço a presença de todos vocês hoje. Aproveitem a recepção e certifiquem-se de usufruir da estrutura do hotel. Todos receberam as chaves de seus aposentos? — interrompeu Claude, finalizando a interação de forma definitiva.
Embora Damian estivesse focado nos soldados, ele pôde notar o brilho de advertência nos olhos do marido. Os militares despediram-se com reverência, impressionados com o fato de que, mesmo casado, o comandante preservava sua aura de autoridade intocável.
Após reiterarem as felicitações, o grupo afastou-se na direção do buffet de bebidas. Claude conduziu Damian para longe do setor antes que novas perguntas fossem formuladas.
— Se o meu período nas Forças de Paz lhe causava tanta curiosidade, teria sido mais simples indagar diretamente a mim. Não imaginei que nutrisse tamanho interesse por minhas antigas diretrizes de serviço.
— E você teria respondido com total transparência?
— Não vejo motivos para ocultar detalhes de minha rotina anterior.
Apesar da postura impassível do duque, Damian identificara claramente o esforço dele para desviar do assunto minutos antes. Seu olhar permaneceu repleto de ceticismo.
— O que exatamente ocorreu entre você e esse soldado, Norman?
— Você acabou de ouvir o relato deles. Houve um princípio de incidente biológico que foi contido conforme as diretrizes do regulamento. O soldado foi transferido logo em seguida.
— Você tinha conhecimento dos sentimentos dele?
— Nunca dediquei atenção a questões que não estivessem relacionadas ao cumprimento do dever.
— Para que o restante do pelotão estivesse ciente da situação, presumo que a conduta dele não fosse exatamente discreta.
Claude limitou-se a erguer os ombros, demonstrando total indiferença em relação ao destino ou aos sentimentos de seu antigo subordinado.
“Há algo mal explicado nessa história”, pensou Damian.
Embora o duque afirmasse não ter correspondido ao interesse do subordinado, o fato de o ciclo do ômega ter se desregulado apontava para uma exposição direta ou proximidade com os feromônios de Claude. Flutuações hormonais induzidas por questões emocionais não ocorriam sem um gatilho biológico claro. A relutância de Claude em aprofundar o assunto apenas aumentava a desconfiança do conde.
— Realmente…
Antes que Damian pudesse formular sua tréplica, o som nítido de talheres tocando a borda de uma taça de cristal ecoou pelo salão de banquetes, capturando a atenção de todos.
Ao direcionarem o olhar para a cabeceira do salão, avistaram Erich empunhando uma taça, solicitando a atenção da audiência para o início dos discursos formais.
— Peço a atenção de todos por um breve momento.
Como prelúdio para a abertura da pista de dança, Erich posicionou-se para expressar os agradecimentos formais em nome dos anfitriões. Ao seu lado, Joshua gesticulou para que o jovem casal se aproximasse do púlpito improvisado.
— Parece que a transição para a parte festiva da noite vai começar — comentou Claude, oferecendo o braço para que Damian o apoiasse.
Até aquele momento, a recepção servira como um espaço de diálogo cortês e articulação política; a partir dali, o protocolo daria lugar à comemoração aberta.
— Eu ainda preservo na memória as lembranças do nascimento de Damian, a fragilidade daquele instante… Ver a criança que imaginei manter sob minha proteção vitalícia seguir seu próprio rumo e assumir suas próprias responsabilidades é um marco que não previ alcançar tão rapidamente — discursou Erich, com um olhar que parecia buscar recordações distantes.
Ele fez uma breve pausa, permitindo que a emoção contida em suas palavras ecoasse pelo salão.
— Se dependesse exclusivamente de minha vontade paternal, eu o manteria sob os domínios de minha casa indefinidamente. No entanto, o destino dos filhos raramente se alinha aos anseios dos pais, como acabei de constatar.
Erich dirigiu um olhar carregado de zombaria dramática para o filho, soltando um suspiro exagerado que arrancou risadas divertidas da aristocracia presente.
— Embora eu nutra profundas reservas em relação ao indivíduo que utilizou de artimanhas para arrebatar minha joia mais preciosa — mais uma onda de risos espalhou-se pelo salão de banquetes —, o compromisso foi selado diante do altar. Resta-me, portanto, expressar meus votos de prosperidade e estabilidade para a nova casa que hoje se estabelece. Presumo que todos aqui compartilhem deste mesmo sentimento, não?
Um coro de confirmações entusiasmadas ecoou em resposta.
Erich esboçou um sorriso satisfeito antes de concluir seu pronunciamento:
— Sendo assim, creio ser oportuno concedermos a palavra aos verdadeiros protagonistas desta noite.
Percebendo a hesitação de Damian diante da exposição pública, Claude adiantou-se com naturalidade, assumindo a fala com segurança.
— Gostaria de apresentar os agradecimentos do indivíduo que, segundo o duque, utilizou de meios questionáveis para assegurar o maior tesouro de sua casa.
A descontração de Claude e a naturalidade com que aceitou a provocação do sogro provocaram gargalhadas ainda maiores entre os convidados. Seu semblante exibia uma expressão de leve diversão.
— Expresso nossa sincera gratidão pela presença de cada um de vocês hoje, dividindo conosco este momento de transição. Compreendo que todos aguardam o início das festividades, de modo que não irei me estender em formalidades. Desfrutem da estrutura preparada para esta noite; a coordenação do evento assegurará que o atendimento seja impecável até as primeiras horas da aurora. E para aqueles que precisarem se retirar mais cedo, lembrem-se de retirar as lembranças oficiais na saída do salão.
Ao concluir, Claude fez um sinal discreto para o maestro da orquestra. A melodia ambiente cessou, dando lugar aos acordes clássicos e compassados de uma valsa tradicional.
Com o início oficial da dança, a atmosfera do salão de banquetes atingiu seu ápice de sofisticação. Casais começaram a se deslocar em direção ao centro da pista, enquanto os solteiros acomodavam-se nas laterais com suas taças, prontos para apreciar a abertura oficial.
Atendendo ao clamor dos convidados, Damian e Claude caminharam em direção ao centro do salão. Uma roda de espectadores formou-se ao redor da pista, aguardando a primeira dança dos noivos.
Claude envolveu a cintura de Damian com firmeza, trazendo-o para junto de seu peito em um movimento assertivo que arrancou novos aplausos e assobios dos presentes.
— Independentemente de suas ressalvas internas, mantenha uma expressão cordial. Qualquer sinal de descontentamento gerará especulações desnecessárias entre os analistas políticos presentes — sussurrou Claude, próximo ao ouvido de Damian.
— Não subestime meu discernimento. Estou ciente das exigências do protocolo — respondeu Damian, entre dentes, forçando um sorriso perfeito enquanto tentava ignorar o contato físico direto entre seus corpos.
Com o andamento dos primeiros compassos da valsa, o casal passou a se deslocar pela pista com passos precisos e harmônicos. Os aplausos ritmados da audiência acompanhavam cada giro. A cada mudança de direção, a proximidade de suas pernas e o roçar das coxas tornavam-se inevitáveis.
O calor da respiração de Claude contra sua pele começou a despertar uma sensação de torpor que se espalhava lentamente por seu corpo.
A mão do duque, firmemente espalmada contra suas costas, oferecia um suporte inabalável. O contato de seus corpos durante a coreografia parecia anular a presença das dezenas de convidados ao redor, reduzindo o salão apenas à presença de Claude.
O ritmo cardíaco de Damian acelerou visivelmente, repercutindo em seu peito.
Pela primeira vez ao longo daquele dia exaustivo, a realidade jurídica e social do casamento parecia assentar-se definitivamente em sua mente. Ele agora pertencia àquela nova estrutura familiar.
Damian ergueu os olhos para encarar as feições do marido. Percebendo o olhar, Claude sustentou o contato visual; as pupilas douradas do alfa refletiam a silhueta de Damian de forma nítida.
— Por que essa expressão analítica? Há algo que deseja questionar?
— …Durante seu período nas Forças de Paz, realmente não houve outros incidentes relacionados a feromônios além daquele que mencionaram?
Claude franziu levemente o cenho, surpreso com o retorno ao assunto.
— Ainda está focando nessa questão?
— Trata-se de uma dúvida legítima. Como não possuo vivência militar, imagino que o isolamento e o convívio constante em missões de alto risco possam intensificar a atração biológica entre indivíduos de dinâmicas complementares.
— Teoricamente, sim. Há registros de relacionamentos que se estabelecem nessas circunstâncias dentro das divisões. Contudo, isso nunca se aplicou à minha conduta.
— E qual seria o motivo? O vínculo de comando com seus subordinados não deveria, em tese, facilitar essa aproximação?
A persistência de Damian em relação àquele detalhe começou a causar um leve desconforto em Claude. Ele ponderou se deveria detalhar a situação real, mas concluiu que a transparência seria a melhor estratégia para conquistar a confiança do conde.
— Você tem conhecimento sobre as circunstâncias que motivaram meu ingresso nas forças armadas?
Damian balançou a cabeça negativamente. Ele sempre supusera que a decisão de Claude de afastar-se de Ronen fora motivada apenas pelo desejo de distância da corte.
— Minha intenção original era ingressar na vida religiosa. No ano em que as investigações sobre a conduta de meu pai foram expostas, planejei minha matrícula no seminário nacional.
— O quê?!
Damian não conteve a surpresa, elevando o tom de voz antes de recompor-se rapidamente com um sorriso disfarçado para não alertar os convidados ao redor.
— Eu nutria um profundo desprezo pelo ambiente social de Ronen. A exposição pública de minha mãe e a curiosidade mórbida que cercou o escândalo de nossa família eram insuportáveis. E, acima de tudo…
Claude fez uma breve pausa, com o olhar focado em um ponto indefinido acima do ombro de Damian antes de prosseguir.
— Eu abominava o fato de carregar a mesma herança genética e a mesma dinâmica alfa daquele homem. A ideia de vir a repetir sua conduta de negligência e busca por gratificação pessoal era algo que eu não podia tolerar. A vida monástica parecia a única alternativa viável para conter essa herança.
— E você realmente levou esse plano adiante?
— Se o falecido rei Percy não tivesse intervindo pessoalmente para barrar minha admissão, eu teria seguido esse caminho.
Damian assimilou a revelação em silêncio, surpreso com a gravidade do histórico pessoal do marido.
— Minha indiferença em relação ao incidente com o soldado Norman decorria de minha total falta de interesse em estabelecer vínculos de qualquer natureza biológica ou afetiva durante aquele período. O serviço militar funcionou como uma espécie de penitência pessoal. Eu precisava provar a mim mesmo que era capaz de exercer o autocontrole que meu pai negligenciara.
— Eu não tinha conhecimento dessas circunstâncias.
Saber que Claude cogitara a reclusão monástica trouxe a Damian uma nova perspectiva sobre a rigidez e a seriedade com que o duque encarava seus compromissos atuais.
“E eu aqui, questionando suas intenções por conta de uma fofoca de quartel…”, pensou Damian, sentindo uma ponta de arrependimento.
— Suas dúvidas foram devidamente esclarecidas?
— Peço desculpas. Não era minha intenção reviver memórias desconfortáveis sobre sua família.
— Não há necessidade de desculpas. São fatos superados pelo tempo.
Claude aceitou a retratação com um aceno leve, esboçando um sorriso mais descontraído antes de inclinar-se ligeiramente.
— No entanto, sua insistência sobre os detalhes do meu passado… poderia ser interpretada como um indício de ciúme?
O recuo emocional de Damian dissipou-se instantaneamente diante da provocação. Sua reação foi imediata.
— Absolutamente não. Trata-se apenas de zelo pela integridade de nossa imagem pública. Eu precisava certificar-me de que não enfrentaríamos novos escândalos na corte decorrentes de condutas anteriores.
— Compreendo perfeitamente — respondeu Claude, com um tom que deixava clara sua descrença na justificativa.
— Não há nenhum componente de ciúme envolvido, asseguro-lhe.
— Se você afirma que é apenas zelo profissional, aceitarei sua versão dos fatos.
— É a realidade, de fato.
Apesar de sua insistência, o rubor visível nas pontas das orelhas de Damian indicava o contrário, para a óbvia diversão do duque.
Enquanto continuavam o movimento da valsa, Claude relembrou mentalmente os detalhes omitidos daquele episódio com Norman. Conforme explicara a Damian, o soldado fora transferido; contudo, havia um desdobramento que o restante do batalhão ignorava. Na ocasião do incidente, a exposição repentina ao ciclo do ômega havia desencadeado um início precoce de rut em Claude. Mesmo sob o efeito de doses duplicadas de supressores, o duque precisara isolar-se na sala de segurança, onde fora surpreendido pela entrada de Norman.
Fora uma situação limite. A persistência do ômega em liberar feromônios de acasalamento quase rompera as defesas racionais de Claude. Sob a influência do instinto, ele chegara a imobilizar o soldado contra o solo antes de conseguir, com um esforço de vontade extraordinário, afastá-lo.
A tentativa de Norman de justificar a intrusão com base em seus sentimentos apenas despertara a fúria do duque. Claude usara de palavras duras e implacáveis para repudiar a conduta do subordinado, deixando claro que sua presença no batalhão tornara-se intolerável. Diante da severidade da rejeição, Norman solicitara a transferência por iniciativa própria.
Aquela parte da história permaneceria oculta de Damian. Claude sabia que, mesmo sem consequências reais, a menção a um rut induzido por feromônios alheios causaria um desgaste desnecessário na relação que agora começavam a construir.
Claude apertou ligeiramente o enlace ao redor da cintura de Damian, conduzindo-o com precisão pelo salão.
A cumplicidade e a proximidade física que exibiam no centro da pista atraíam os olhares de admiração dos convidados. Para os espectadores, o sutil embate verbal entre os dois traduzia-se apenas em um diálogo íntimo e afetuoso entre recém-casados.
Observando o casal de longe, Joshua finalmente permitiu-se relaxar, soltando um suspiro de alívio ao constatar que o filho parecia ter encontrado estabilidade.
— Aquele sujeito… Ele está encarando o Damian com um olhar excessivamente possessivo. Eu deveria intervir imediatamente e…
Erich esboçou mover-se na direção da pista, mas foi contido por Joshua, que o segurou firme pelo braço.
— Controle seus instintos paternais e me acompanhe na dança. Os convidados estão observando nossa conduta — instruiu Joshua, conduzindo o marido para a pista.
Embora Erich ainda resmungasse algumas palavras de descontentamento, seu semblante suavizou-se rapidamente ao envolver Joshua para iniciar a dança.
Aos poucos, outros casais integraram-se à valsa, preenchendo o centro do salão. Após concluir a dança oficial com Claude, Damian revezou-se entre os convidados de honra, dançando com Erich — que aproveitou a oportunidade para lançar novos olhares de advertência a Claude — e, posteriormente, com Joshua.
A recepção transcorreu em uma atmosfera de celebração e sofisticação que se estendeu até as primeiras horas da manhã seguinte. O casamento do século, cercado de expectativas e tensões, havia se consolidado como um marco impecável para a história de Ronen.
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Fim do Volume x
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello