↫─❀ Capítulo 16
Capítulo 16 Parte 1
O Monte Lemela, densamente povoado por abetos imponentes, era amplamente reconhecido como um dos cenários mais deslumbrantes de Arca. Aos seus pés, uma planície vasta e ondulante se estendia até onde a vista alcançava, enquanto nas profundezas de suas encostas médias, o Vale do Morena cortava a montanha como uma cicatriz antiga e majestosa.
No passado, a totalidade do monte pertencera à família real de Arca. Contudo, assolada por uma severa crise financeira, a coroa fora forçada a liquidar parte de seu patrimônio, vendendo a ala oeste da montanha a um nobre de imensa influência na época. Com a queda da monarquia e a subsequente instauração da república, a metade leste — que permanecera sob controle real — foi convertida em um parque florestal nacional protegido, aberto ao público geral apenas nos finais de semana. O governo de Arca tentara reaver a ala oeste por diversas vezes, mas o território mudara de mãos com tanta frequência ao longo dos anos que o desgaste das negociações infrutíferas acabou por fazer o Estado desistir da compra.
A propriedade do setor oeste transitara de aristocratas a magnatas da mineração, passara pelo portfólio de grandes corporações e, até recentemente, pertencia ao proprietário de um dos maiores conglomerados industriais do país.
O empresário que por último adquirira Lemela decidira demolir a antiga e pretensiosa mansão medieval que ali se erguia — outrora um mero monumento de ostentação — para construir uma residência que, sem agredir a harmonia da paisagem natural, exalasse uma elegância sóbria, acolhedora e atemporal.
A estrutura de dois pavimentos era composta por três blocos interligados que pareciam abraçar a encosta da montanha. Contava com oito suítes, doze banheiros e uma sala de jantar monumental com capacidade para receber mais de vinte convidados. Além do salão principal, cujas imensas paredes de vidro emolduravam a floresta de abetos, a propriedade dispunha de duas salas de estar íntimas voltadas para a planície, um terraço externo equipado para churrascos e, no coração do edifício, um pátio interno projetado exclusivamente para o descanso e a contemplação.
Ao lado da piscina de linhas orgânicas e curvas suaves, um jacuzzi circular fora instalado para momentos de relaxamento. Ao redor da propriedade, trilhas particulares serpenteavam pela floresta, permitindo usufruir de toda a essência que um refúgio de montanha poderia oferecer.
Após o término da exaustiva recepção de casamento, Damian e Claude haviam se deslocado diretamente para lá. Assim que cruzou o limiar da casa, Damian, incapaz de resistir ao cansaço avassalador que o cobria, desabara na cama como se estivesse inconsciente, vindo a despertar apenas quando o relógio já se aproximava do meio-dia.
“Onde eu estou…?”
Damian piscou vagarosamente, encarando o teto desconhecido antes que a memória finalmente organizasse os fatos: ele estava na mansão de Lemela, o destino de sua lua de mel.
À medida que os eventos do dia anterior retornavam em cascata à sua mente, ele tateou o espaço ao seu lado de forma abrupta e sentou-se num solavanco.
“E o Claude? Onde ele está?”
Na noite anterior, o cansaço fora tão extremo que sua única reação após o banho fora se jogar sob os lençóis. Ele sequer sabia onde o marido havia dormido. “Será que… dividimos a mesma cama?”
Para seu alívio, não havia marcas ou vincos no travesseiro ao lado que indicassem que alguém deitara ali. Instintivamente, Damian deslizou as mãos pelo próprio corpo, inspecionando-se sob o tecido da roupa de dormir. Nada parecia fora do comum.
Ao perceber a si mesmo tateando o próprio abdômen com as sobrancelhas franzidas em pura paranoia, ele soltou uma risada anasalada e autodepreciativa.
Era ridículo desconfiar da integridade de um homem que não lhe dera motivos para tanto.
Balançando a cabeça para afastar os pensamentos absurdos, Damian balançou as pernas para fora do colchão alto e macio.
No instante em que seus pés tocaram o chão de madeira, uma careta involuntária repuxou suas feições. Suas pernas estavam visivelmente inchadas devido ao esforço do dia anterior; a sensação de apoio era pesada e dormente.
Até mesmo o seu baixo ventre, agora sutilmente saliente, parecia carregar um peso incomum.
Não era para menos. Entre a cerimônia na catedral e a recepção que se estendera pela madrugada, ele passara horas de pé, sustentando saltos e trajes formais enquanto socializava com centenas de pessoas. O inchaço era apenas a cobrança física de um dia de excessos.
Ele pressionou as solas dos pés contra o piso algumas vezes até recuperar plenamente a sensibilidade das extremidades e, em seguida, arrastou-se até o banheiro. O fluxo de água quente sobre suas costas operou milagres, desfazendo a rigidez muscular acumulada nas últimas vinte e quatro horas.
Após secar os cabelos e vestir um roupão de banho felpudo, ele finalmente se deu ao trabalho de examinar os detalhes do quarto.
A cama de dossel era imensa, larga o suficiente para acomodar confortavelmente quatro adultos. À direita, a parede consistia inteiramente de painéis de vidro que revelavam a imponência dos abetos que pareciam tocar o céu. O restante do mobiliário era composto por uma mesa de chá redonda, duas poltronas profundamente acolchoadas e, diante da cama, uma lareira de pedra que, devido ao calor do verão, encontrava-se perfeitamente limpa e inativa.
O ambiente era desprovido de adornos desnecessários; fora concebido exclusivamente para o descanso. Ao abrir a porta adjacente ao banheiro, Damian deparou-se com um closet espaçoso. Nele, a equipe de governança já havia desfeito suas malas, organizando suas roupas com precisão milimétrica. Contudo, ao passar os olhos pelas araras, ele congelou.
Ali, perfeitamente dispostas ao lado de seus trajes, estavam peças de vestuário masculino que claramente não lhe pertenciam.
“Nós realmente vamos compartilhar o mesmo quarto?”
O fato óbvio o pegou desprevenido. Embora soubesse que estavam casados e que a coabitação era uma decorrência natural, Damian ainda não havia processado a realidade prática de dividir a intimidade diária com Claude de forma tão imediata. Ele aceitara que um dia viveriam plenamente como um casal, mas não esperava que o arranjo começasse na primeira manhã.
Uma inquietação incômoda instalou-se em seu peito, uma profusão de pensamentos colidindo e dispersando-se em sua mente de forma caótica.
Incapaz de organizar a própria mente, ele andou de um lado para o outro no closet antes de finalmente decidir retornar ao quarto.
Consultando o relógio de bronze sobre a lareira, constatou que passava das onze e meia da manhã.
Ele não imaginava ter dormido por tanto tempo. E, como se seu corpo estivesse apenas esperando aquele diagnóstico, uma pontada aguda de fome atingiu seu estômago. Ele não ingeria nada sólido desde a noite anterior.
Se estivessem em seu chalé, Peter já teria invadido o quarto há horas com sua habitual e barulhenta solicitude. Ali, contudo, ele estava cercado por funcionários desconhecidos.
À medida que a percepção da fome se acentuava, seu estômago protestou com mais vigor.
Temendo que o som de seu estômago vazio o traísse diante de qualquer um, Damian caminhou apressadamente em direção às portas do closet. No exato instante em que estendeu a mão para a maçaneta, duas batidas firmes ecoaram na madeira, seguidas pelo som da porta do quarto se abrindo.
— Damian. Você já acordou?
Damian girou o corpo rapidamente, deparando-se com Claude cruzando a soleira.
Por uma fração de segundo, as pupilas douradas do duque percorreram a silhueta de Damian de cima a baixo.
— Notei que você estava dormindo além do habitual e decidi vir acordá-lo, mas vejo que…
O olhar de Claude pareceu escurecer de forma sutil por um milésimo de segundo antes de recobrar a habitual serenidade polida.
“Por que ele está me olhando desse jeito…?”
Damian franziu o cenho, confuso com a intensidade daquele escrutínio, até que a percepção de seu próprio estado o atingiu: ele vestia apenas um roupão de banho entreaberto. Suas bochechas esquentaram instantaneamente.
— O-o que pensa que está fazendo ao entrar no meu quarto sem permissão?!
— Eu bati — respondeu Claude, com naturalidade.
— Mas eu não dei permissão para entrar!
— Como eu disse, vim ver como você estava. Você dormiu por quase dez horas seguidas. Comecei a me questionar se o cansaço havia afetado sua saúde e se seria necessário solicitar a presença de um médico.
Embora as palavras do duque contivessem uma justificativa plausível, a expressão em seu rosto não carregava o menor traço de arrependimento real. Para o desespero de Damian, em vez de se retirar para que ele pudesse se vestir, Claude caminhou calmamente até uma das poltronas e acomodou-se de forma descontraída.
— Por que você está se sentando aí?
— Estou esperando você.
— Saia, por favor. Preciso me vestir.
— O closet fica logo ali, não? Presumo que você não vá se trocar no meio do quarto.
— A sua presença aqui me deixa desconfortável.
— Está preocupado com a possibilidade de eu segui-lo até o closet? Bem, se for do seu agrado, posso desempenhar esse papel de bom grado.
— Ficou louco?! Eu não estou com humor para suas provocações — retrucou Damian, com a voz embargada pela irritação.
Quando Claude esboçou menção de se levantar da poltrona, Damian recuou um passo, tenso.
— Damian, prolongar essa discussão só vai atrasar o seu desjejum. Ou você prefere manter esse traje específico diante de mim por mais tempo?
Dessa vez, o olhar do alfa deslizou de forma deliberada e lenta pelo decote do roupão até a barra que revelava suas pernas nuas. Um sorriso sutil e quase predatório desenhou-se nos lábios do duque.
— Onde pensa que está olhando?!
Damian puxou as lapelas do roupão com força, ajustando o cinto às pressas. Uma dúvida terrível o assaltou: o tecido estaria excessivamente aberto? No instante em que baixou os olhos para verificar o próprio traje…
Clem.
Um som alto, nítido e extremamente inconveniente reverberou do estômago de Damian, quebrando o silêncio do quarto de forma definitiva.
Damian congelou na mesma posição, com os olhos fixos no chão. Sentiu uma onda de calor subir violentamente por seu pescoço, tingindo sua pele de um vermelho vivo.
“Por que agora… de todas as horas possíveis?!”
A vergonha era tanta que ele se sentia incapaz de erguer a cabeça para encarar o marido. O impulso de correr, trancar-se no closet ou simplesmente saltar pela janela de vidro pareceu a única saída lógica para preservar o restante de sua dignidade.
O silêncio que se seguiu foi quebrado por uma risada baixa e rouca de Claude, que se levantou da poltrona com movimentos pausados.
— Vista-se. Se a minha presença o incomoda a esse ponto, aguardarei no salão de jantar. A comida já está servida.
Sem que Damian ousasse levantar os olhos, o som dos passos do duque se afastou, seguido pelo estalo suave da porta ao se fechar.
A sós, Damian cobriu o rosto com as duas mãos, soltando um gemido abafado.
Era humilhante.
A temperatura de suas orelhas e bochechas parecia alta o suficiente para queimar. Ele se sentia a criatura mais ridícula de toda a província de Arca. Considerou seriamente a possibilidade de arrumar suas malas e ordenar que o motorista o levasse de volta à capital imediatamente.
No entanto, a realidade de suas necessidades físicas impôs-se mais uma vez.
Clem… clem…
Seu estômago parecia zombar de sua dignidade, exigindo nutrição imediata.
— O que eu estou fazendo…? — murmurou para si mesmo, deixando os braços caírem ao longo do corpo com um suspiro de pura frustração.
Ele não podia se dar ao luxo de passar o dia trancado em um quarto de hotel apenas por conta de uma reação fisiológica natural. Era hora de agir com a altivez que sua criação aristocrática lhe ensinara.
Recompondo-se, Damian vestiu uma camisa de linho leve e calças confortáveis, ajeitou os cabelos diante do espelho e ergueu o queixo com determinação. Ele cruzaria aquela porta e agiria como se absolutamente nada tivesse acontecido — ignorando solenemente qualquer sorriso ou comentário que Claude ousasse direcionar a ele.
— Solicitei que preparassem um desjejum leve, mas se houver qualquer prato de sua preferência que não esteja à mesa, basta solicitar ao pessoal da cozinha — informou Claude, assim que Damian tomou assento na mesa de jantar.
— Não é necessário. Isto é mais do que suficiente — respondeu ele, mantendo um tom polido porém distante, antes de se concentrar nos pratos dispostos diante de si.
Embora a vergonha ainda estivesse latente, a fome provou ser uma força muito mais poderosa. Inicialmente, ele se manteve atento aos movimentos de Claude, mas a qualidade da refeição logo capturou sua total atenção.
Ele consumiu um pedaço generoso de carne grelhada ao ponto, acompanhado de uma salada fresca com molho cítrico, e não hesitou em se servir de duas porções de uma sopa de frutos do mar com base de tomate fresco que exalava um aroma divino. Para finalizar, montou três fatias de pão de centeio tostado com manteiga artesanal, queijo curado e finas fatias de salame. Quando terminou, sentiu o corpo finalmente recuperar a energia perdida.
— O que gostaria de fazer agora? — indagou Claude, que acompanhava o final da refeição do marido com uma xícara de café preto, enquanto Damian saboreava uma torta de uvas verdes como sobremesa.
— É obrigatório que façamos alguma atividade? — questionou Damian, cujo humor havia melhorado consideravelmente após a refeição. Ele encarou o duque com o semblante visivelmente mais relaxado.
— Gostaria de fazer uma caminhada pelos arredores?
Damian estreitou os olhos por um instante, buscando algum duplo sentido na proposta, mas a expressão de Claude era de pura cordialidade.
— Passaremos os próximos dez dias aqui. Seria um desperdício permanecer confinado ao ambiente interno durante todo o período. Além disso, ontem você não teve a oportunidade de conhecer as instalações da propriedade.
A ponderação fazia sentido. Devido ao esgotamento físico, ele sequer se lembrava dos detalhes da fachada da mansão ao chegar. Se teria de conviver com Claude naquele isolamento pelas próximas semanas, o melhor seria familiarizar-se com o território.
— Está bem. Vamos caminhar — consentiu Damian, levantando-se da mesa.
Contudo, ao notar que Claude recolhia os pratos vazios e os talheres com naturalidade, Damian parou, confuso.
— Por que você mesmo está retirando a mesa? Não há funcionários encarregados disso?
— Naturalmente. No entanto, você se esqueceu de que solicitei que mantivéssemos apenas o contingente mínimo de funcionários para garantir nossa privacidade? A equipe de serviço já foi dispensada para seus aposentos após preparar a refeição.
— Ah…
Nascido e criado sob a tutela constante de dezenas de empregados no Condado de Grave, Damian jamais precisara mover um copo de lugar ao longo de sua existência. A ideia de que as tarefas domésticas precisavam ser executadas manualmente pelos próprios moradores era um conceito puramente abstrato para ele.
“Será que eu deveria ajudá-lo?”, questionou-se, permanecendo estático ao lado da mesa.
Percebendo a hesitação do conde, Claude esboçou um meio sorriso compreensivo.
— Não há necessidade de se preocupar com isso. É um processo simples.
Com movimentos fluídos e sem qualquer sinal de hesitação, o duque empilhou a louça, descartou os resíduos orgânicos e organizou os utensílios na máquina de lavar pratos com a destreza de quem realizava aquela rotina diariamente.
— Você parece… extremamente habituado a esse tipo de tarefa — comentou Damian, genuinamente impressionado. Afinal, em termos de linhagem e privilégio, a origem de Claude era tão nobre quanto a sua.
— Durante meus anos de serviço ativo nas Forças de Paz, a manutenção dos alojamentos e das refeições individuais era de responsabilidade de cada oficial. Admito que o período de transição após deixar a casa de minha mãe foi complexo; compreender a diferença entre ter cada aspecto de sua rotina gerenciado por terceiros e assumir a própria subsistência é um choque que levei cerca de um mês para processar após ingressar na academia militar.
— Um mês? Esse me parece um período razoavelmente longo para uma constatação tão óbvia.
— Considerando que eu vinha de um regime de internato que amortecia parte dessas obrigações, considero que foi um prazo razoável. Caso contrário, o impacto teria sido imediato.
— Você também cozinhava?
— Sim. Durante os períodos de licença, eu residia em um pequeno apartamento fora da base. Embora contasse com os serviços de uma governança para a limpeza geral, o agendamento de refeições diárias por terceiros era um inconveniente para a minha rotina. Acabei optando por preparar minhas próprias refeições. É uma atividade que oferece um nível satisfatório de foco e controle.
Ao concluir a higienização da bancada, Claude indicou a porta que se abria para o pátio interno.
— Vamos?
O pátio interno revelou-se um espaço de transição impecável, decorado com sofás de lona natural e cercado por vasos de terracota repletos de flores silvestres que harmonizavam perfeitamente com a paisagem florestal.
Enquanto caminhavam pelas trilhas de cascalho que circundavam a propriedade, Claude passou a relatar episódios de seus anos de serviço ativo. Damian ouviu detalhes sobre o apartamento de apenas um banheiro que o marido ocupara, a rotina de exercícios coletivos que incluía partidas de futebol de integração entre os oficiais nos dias de folga, e as condições severas de saneamento na província de Barasen — onde a destruição de infraestruturas básicas por facções locais era uma constante.
Claude também mencionou que, durante suas férias obrigatórias, optava por destinos localizados no hemisfério oposto a Ronen. O objetivo era garantir que sua presença e seus deslocamentos permanecessem fora do radar da imprensa e de analistas políticos da capital. Os assuntos do Ducado eram gerenciados à distância por seus assessores de confiança, sob a supervisão do gabinete real.
— Quanto tempo você pretendia permanecer nas Forças de Paz? — indagou Damian, movido por uma curiosidade genuína. Parecia contraditório que um homem que se esforçara tanto para se manter distante de Ronen por uma década decidisse, de forma abrupta, retornar e assumir um cargo no ministério.
As palavras dos antigos subordinados de Claude na recepção também ecoavam em sua mente; eles pareciam genuinamente chocados com a baixa inesperada do comandante.
Claude interrompeu os passos subitamente no início da trilha que se aprofundava na floresta de abetos.
— …?
Damian parou logo em seguida, voltando-se para ele com um olhar interrogativo. Claude o encarava com uma expressão indecifrável — uma mistura de incredulidade com uma leve ponta de divertimento resignado.
O duque soltou um suspiro pausado.
— Você realmente desconhece o motivo de minha baixa?
— Como eu poderia saber? Você nunca detalhou essa transição.
Diante do tom defensivo de Damian, Claude passou a mão pelos cabelos escuros, com o semblante subitamente sério.
— Você costuma ignorar os sinais óbvios ao seu redor com frequência?
— O que quer dizer com isso? Nunca fui apontado como alguém desprovido de percepção.
— Parece que as declarações que fiz ao longo do nosso convívio não foram processadas com a devida seriedade.
— Do que está falando? Por que está me questionando dessa forma?
— Não se trata de uma acusação, mas admito que há uma ponta de frustração de minha parte. Afinal, a presença do príncipe herdeiro não foi a única variável relevante durante aquela minha última licença em Ronen.
Damian abriu a boca para retrucar, mas as palavras pareceram travar em sua garganta. A lembrança da noite que compartilharam no chalé retornou com força total. Aquela vinda de Claude a Ronen resultara em um envolvimento direto com ele — um evento que certamente deixara marcas mais profundas do que qualquer diálogo político com o príncipe herdeiro.
Contudo, naquele período, Claude ainda ignorava a existência da gravidez.
— Você está sugerindo que… a sua decisão de deixar o exército foi motivada por mim?
— Sim.
— Mas você sequer sabia sobre a gestação naquela época.
— Eu já reiterei em diversas ocasiões que o envolvimento que tivemos não foi uma decisão fortuita ou inconsequente para mim, Damian.
— Mas as circunstâncias eram excepcionais, qualquer um em seu lugar…
Claude suspirou novamente, aproximando-se de Damian com passos lentos. Ele estendeu as mãos e envolveu o rosto do conde com delicadeza, forçando-o a sustentar o olhar.
— Eu tomei a decisão de pedir baixa das forças armadas para viabilizar um futuro ao seu lado. No instante em que nos envolvemos, compreendi que aquela não seria uma associação temporária. Eu queria que você fosse parte de minha vida de forma definitiva.
A firmeza e a gravidade de sua voz reverberaram no peito de Damian, fazendo seu coração falhar uma batida.
Os olhos dourados de Claude carregavam uma intensidade que parecia desarmar qualquer barreira racional que Damian tentasse erguer. Um formigamento desconhecido espalhou-se por suas extremidades, acompanhado de uma aceleração súbita de seus batimentos cardíacos.
— Por que… por que tomou uma decisão de tamanha gravidade por alguém que mal conhecia? Nós havíamos nos encontrado apenas uma vez naquela noite. Está sugerindo que… desenvolveu algum sentimento imediato por mim?
A pergunta escapou de seus lábios antes que pudesse filtrá-la. A intensidade do momento arrancara dele uma admissão direta de sua própria vulnerabilidade.
— Aquele não foi o nosso primeiro encontro. Eu já o havia observado em ocasiões formais durante a sua juventude — revelou Claude, mantendo os polegares acariciando suavemente as maçãs do rosto de Damian. — Mas não se tratou de uma idealização romântica clássica. Foi uma certeza absoluta de que eu precisava garantir a sua presença em minha vida.
O tom de Claude era desprovido de qualquer ironia ou flerte superficial. Ele deslizou o polegar de forma lenta pela linha dos lábios de Damian.
— Em operações de combate, há momentos em que somos forçados a confiar em um instinto puro, desprovido de validação lógica imediata. Uma certeza interna de que uma determinada rota é a única correta, mesmo quando os mapas indicam o contrário. Você sabe o que um oficial faz nessas circunstâncias?
Damian permaneceu em silêncio, com a atenção totalmente capturada pelo calor dos dedos do duque contra sua pele e pela proximidade de seus corpos. Ele cerrou os punhos ocultos sob as mangas do casaco para conter o tremor de suas mãos.
— Deve-se seguir o instinto. Essa percepção é a síntese de anos de experiência operando de forma subconsciente para indicar o caminho da sobrevivência.
Claude inclinou-se sutilmente, reduzindo a distância entre suas faces.
— E esse mesmo instinto me indicou, com clareza absoluta, que eu não poderia permitir que você se afastasse de mim.
A convicção nas palavras de Claude parecia assentarse como uma verdade incontestável na mente de Damian.
Não se tratava de uma declaração de amor convencional ou de termos adocicados; era algo muito mais profundo, uma conexão biológica e racional que o duque aceitara sem hesitação. Seria aquela a manifestação da atração que ele sempre almejara encontrar em um parceiro? A certeza de ser a escolha singular de alguém?
Sua respiração tornou-se curta e compassada. Diante da proximidade dos lábios de Claude, Damian sentiu o pânico de ceder à tentação de forma definitiva. Precisava romper aquela bolha de tensão antes que perdesse o controle de suas próprias reações.
— …Até mesmo os instintos mais refinados estão sujeitos a margens de erro, duque. Nem todas as certezas se provam corretas no longo prazo.
O comentário ácido cumpriu seu propósito. A tensão que parecia prestes a consumá-los desfez-se instantaneamente. O olhar de Claude recuperou a sobriedade habitual e, com uma risada curta, ele soltou o rosto de Damian, aplicando um leve e inofensivo peteleco em seu lábio inferior antes de se afastar.
— Ai!
— Você realmente possui uma habilidade singular para desarmar momentos de gravidade, Damian.
Afastando-se um passo, o duque gesticulou em direção à trilha de terra batida que adentrava a mata densa.
— Continuamos?
Sem aguardar resposta, Claude retomou a caminhada com passos largos. Damian permaneceu estático por alguns segundos, recompondo o ritmo de sua respiração antes de segui-lo sob a copa dos abetos.
O canto agudo de uma ave florestal ecoou acima deles, rompendo o silêncio da montanha.
A penumbra do crepúsculo começou a cobrir as encostas de Lemela. No pátio externo, os balizadores de LED acendiam-se gradualmente à medida que a luz solar se dissipava entre as copas das árvores.
Enquanto a equipe de cozinha preparava o jantar na ala de serviço, os pensamentos de Claude permaneciam voltados para a suíte principal do segundo andar.
Desde que retornaram da caminhada à tarde, Damian havia se recolhido ao quarto sob a justificativa de cansaço excessivo, o que vinha dispersando a atenção do duque ao longo de suas chamadas de trabalho.
— …Excelência? Ainda está na linha? — a voz de seu assessor de gabinete, Holstein, resoou pelo receptor do telefone de mesa.
— Prossiga. Estou ouvindo.
— Ehrson foi localizado e detido pelas autoridades de fronteira.
— De fato? Onde ele se encontrava?
— Devido ao alerta de busca nacional, ele não conseguiu obter documentação falsa para cruzar os limites do país. Estava abrigado em uma propriedade rural abandonada na região de Quartun. Um morador local notou atividades suspeitas na edificação e acionou a patrulha rural.
— Um desfecho consideravelmente demorado para uma busca prioritária.
— A região em questão apresenta uma densidade demográfica extremamente baixa, Excelência. O próprio denunciante apenas aproximou-se da área para recuperar parte de seu rebanho que havia se dispersado.
Claude acomodou-se de forma mais confortável no encosto do sofá de couro, mantendo os olhos fixos na linha do horizonte que se apagava além das vidraças.
Antes do casamento, as investigações em Ronen já haviam esclarecido os pormenores do vazamento de informações. A quebra de sigilo decorrera de uma cadeia de eventos quase banal: Baden Perdo, agindo a pedido do fotógrafo Ehrson, passara a monitorar as dependências do centro médico onde Damian realizara os exames iniciais, vindo a interceptar uma conversa informal entre duas funcionárias da enfermagem.
A profissional que compartilhara os dados médicos de forma negligente já respondia ao conselho de ética hospitalar, e Baden Perdo encontrava-se sob custódia aguardando julgamento. Apenas a ausência de Ehrson, o mentor da publicação, mantinha uma ponta de insatisfação no desfecho do caso.
— Qual foi a justificativa apresentada por ele para a veiculação da matéria?
— Ressentimento profissional, segundo os relatórios preliminares da delegacia. O indiciado alega que a advertência formal que o senhor lhe aplicou anteriormente em relação ao conde de Grave inviabilizou sua principal fonte de receitas com a imprensa sensacionalista. O fato de possuir uma informação de tamanha relevância e ver-se impedido de utilizá-la gerou o comportamento retaliatório.
Claude conhecia o perfil de indivíduos como Ehrson; a ganância misturada com a audácia típica de quem operava nas margens da legalidade.
— Há outras pendências relacionadas ao caso?
— O Ministério Público agilizou a denúncia e o julgamento ocorrerá sob a jurisdição do tribunal real, conforme determinação expressa de Sua Majestade. Presumo que a audiência seja agendada para o período de seu retorno à capital.
— Excelente. Bom trabalho, Holstein.
Claude finalizou a chamada no exato momento em que um dos funcionários da cozinha se aproximou de forma discreta para informar que a mesa do jantar estava pronta.
Ele se levantou para chamar Damian, sentindo um calor incomum percorrer seu corpo. Apesar do clima ameno da montanha à noite, o ar interno da mansão parecia subitamente abafado.
“O sistema de climatização está operando abaixo da capacidade?”
Ele consultou o painel digital de temperatura na parede do corredor, mas os indicadores apontavam para uma estabilidade perfeita de 20°C.
“Estranho. Será uma alteração em minha própria temperatura corporal?”
Afastando a dúvida com um leve aceno de cabeça, ele concentrou-se na tarefa de trazer seu companheiro para a mesa.
“Ele realmente tomou uma decisão de tamanha gravidade por minha causa?”
No quarto, Damian permanecia deitado de lado na cama de dossel, observando as sombras das árvores projetadas contra o teto de madeira. Ele tentara classificar as palavras dos soldados durante a recepção como mera cortesia militar, mas as declarações subsequentes de Claude no início da trilha haviam implodido essa narrativa defensiva.
Seria possível que cada interação, cada olhar e cada insistência do duque ao longo dos últimos meses contivessem uma base de sinceridade absoluta?
Sua reclusão voluntária nas últimas horas fora um mecanismo de defesa para processar aquela torrente de novas informações. Ele passara a tarde revisitando cada diálogo que mantivera com Claude desde que se reencontraram.
Ele sempre assumira que a postura de Claude decorria puramente de seu senso de dever aristocrático — uma retórica bem elaborada para garantir que o herdeiro de Savina nascesse sob um arranjo familiar estável. O fato de o duque nunca ter verbalizado um sentimento nos moldes românticos tradicionais servia como álibi para o ceticismo de Damian.
No entanto, a revelação de que Claude abrira mão de uma carreira militar consolidada de dez anos para retornar a Ronen e estabelecer uma vida ao seu lado mudava por completo a balança daquela relação. Seria necessário um pedido formal de namoro para validar o que as próprias ações do homem já escancaravam?
Damian sentiu uma súbita leveza instalar-se em seu peito, uma sensação de calor que parecia dissipar a tensão acumulada nos últimos meses.
“Então… para ele, eu represento algo além de uma obrigação biológica.”
Saber que sua presença tivera o poder de alterar o curso da vida de um homem tão pragmático e focado quanto Claude despertava nele um sentimento de profunda satisfação. O formigamento que sentira nas pernas pela manhã parecia ter se transformado em uma vibração agradável que o fazia sorrir involuntariamente contra o travesseiro.
“Contenha-se, Damian. Essas são apenas as suas próprias conclusões. Você ainda desconhece a totalidade dos pensamentos dele. Não se permita antecipar os fatos de forma tão precipitada.”
Ele sentou-se na cama, sacudindo a cabeça para afastar o otimismo excessivo, e pressionou as mãos mornas contra as bochechas para conter o rubor. Ele precisava descer para o jantar antes que sua ausência prolongada começasse a levantar suspeitas de Claude.
No exato momento em que se posicionava diante da porta para sair, as batidas características ecoaram na madeira e a figura de Claude surgiu no vão.
— Damian. O jantar está servido.
Ao cruzar o limiar, o duque deteve os passos de forma abrupta. Seu olhar fixou-se em Damian com uma intensidade que beirava o espanto.
— Há algum problema? Por que está me encarando dessa forma? — indagou Damian, confuso com a reação.
Claude inclinou a cabeça ligeiramente, com as sobrancelhas unidas em uma expressão de sutil perplexidade.
— A dispersão de seus feromônios está excepcionalmente densa neste ambiente… Você tem certeza de que não está enfrentando algum desconforto físico?
— Absolutamente nenhuma alteração. Sinto-me perfeitamente bem.
Antes que Damian pudesse formular uma tréplica ou questionar a sensibilidade olfativa do marido, Claude deu um passo à frente e reduziu a distância entre eles a zero.
Em um movimento rápido e firme, os braços longos do duque envolveram a cintura de Damian, puxando-o de encontro ao seu peito de forma categórica. O calor que emanava do corpo de Claude era quase febril, atravessando as camadas de suas roupas de linho. O duque enterrou a face na curvatura do pescoço de Damian, inspirando profundamente o aroma que se desprendia de sua pele.
— É uma fragrância incomum… Talvez seja apenas uma impressão de minha parte… — murmurou Claude com a voz rouca, antes de soltá-lo com a mesma rapidez com que o havia prendido, recuando um passo completo.
— …? O que significa essa conduta?
O contato durara apenas alguns segundos, mas fora o suficiente para deixar Damian momentaneamente sem fôlego e com os batimentos cardíacos desregulados.
— Apenas uma verificação de segurança — respondeu Claude, com a fisionomia já perfeitamente recomposta e neutra, desprovida de qualquer sinal da perturbação anterior.
— Uma verificação que exige contato físico dessa natureza?
— Vamos para a sala de jantar. O seu estômago certamente apresentará novas demandas em breve, e prefiro evitar que o silêncio da casa seja interrompido novamente por seus protestos internos.
Damian sentiu o rosto esquentar com a menção ao episódio da manhã.
— Aquele evento foi uma exceção decorrente do cansaço!
— Naturalmente. E farei o possível para garantir que o meu ômega não precise passar por privações semelhantes sob a minha tutela.
O sorriso sutil que acompanhou a fala de Claude era de um atrevimento que Damian achou extremamente irritante, embora o termo “meu ômega” tenha gerado uma vibração morna e persistente em seu baixo ventre que ele esforçou-se para ignorar ao acompanhá-lo escada abaixo.
A refeição provou ser excelente. Os pratos preparados pela equipe revelavam uma técnica impecável: a carne exibia uma suculência ideal, o peixe com molho de creme azedo desfazia-se ao toque do talher e a salada oferecia o frescor necessário para equilibrar os sabores ricos do menu.
O fato de os episódios de enjoo matinal terem cessado por completo tornava a experiência de se alimentar ainda mais prazerosa para Damian.
No entanto, a postura de Claude ao longo do jantar começou a despertar sua atenção. O duque parecia distante, mal tocando nos alimentos dispostos em seu prato de serviço.
— Há algo perturbando a sua atenção esta noite? — questionou Damian, deixando os talheres repousarem sobre a louça de porcelana enquanto o observava de soslaio.
— O que o leva a essa conclusão? — rebateu Claude, sustentando o olhar.
— O seu prato permanece praticamente intocado desde o início do serviço. Se há alguma questão de gravidade pendente, compartilhe-a. Quem sabe eu possa oferecer alguma perspectiva útil.
— Lamento que minhas distrações tenham afetado a sua percepção da refeição. Não se trata de um evento de grandes proporções.
— Permita-me ser o juiz da relevância do assunto. Prossiga.
Claude encarou Damian em silêncio por alguns instantes, como se avaliasse a conveniência de compartilhar os fatos. O brilho dourado de suas pupilas parecia oscilar sob a luz das velas até que um meio sorriso desenhou-se em sua face.
— Ehrson foi localizado e detido pelas autoridades.
Damian piscou, momentaneamente confuso com o nome desconhecido, tentando associá-lo a alguma figura de sua convivência em Ronen.
— O jornalista responsável pela matéria sensacionalista — complementou Claude.
— Ah… O indivíduo que comercializou as informações médicas e refugiou-se no interior?
— O próprio.
— Mas a captura dele não deveria ser um motivo de satisfação? Por que essa expressão de descontentamento em seu rosto?
— Está expressando preocupação com o meu bem-estar, Damian? — indagou Claude com um tom leve e provocativo.
Damian forçou um suspiro de enfado diante da tentativa do marido de desviar da conversa através de flertes superficiais.
— Estou apenas zelando pela eficiência da nossa comunicação. Não há espaço para preocupações de outra natureza.
O duque soltou uma risada baixa, parecendo genuinamente divertido com a resposta defensiva do conde.
— A sua consideração melhora significativamente o meu humor. Em celebração a esse desfecho, que tal uma taça de espumante? Naturalmente, reservei uma versão desprovida de álcool para o seu consumo.
Claude levantou-se e retornou da adega com duas garrafas sobressalentes. Ele abriu a versão sem álcool com precisão, servindo o líquido efervescente em uma taça de cristal lapidado para Damian.
Damian aceitou o copo e tomou um gole longo. O espumante revelou notas florais delicadas acompanhadas de uma acidez equilibrada e um final adocicado que remetia a frutas vermelhas. Sem pressa, ele consumiu o restante do conteúdo da taça de uma só vez.
Claude ergueu uma sobrancelha, visivelmente surpreso com o ritmo do conde.
— O rótulo parece ter recebido a sua aprovação. Deseja mais uma dose?
Damian estendeu a taça em silêncio, buscando no frescor da bebida uma forma de aplacar a inquietação mental que o acompanhava desde a tarde. Embora a ausência de álcool impedisse qualquer efeito inebriante real, a atmosfera intimista da mansão criava uma sensação de leve torpor em seus sentidos.
Após servir a segunda dose de Damian, Claude retirou-se brevemente para a cozinha de apoio e retornou com uma travessa de frios que ele mesmo organizara.
— Você mesmo providenciou a seleção?
— Trata-se de uma montagem elementar com os insumos disponíveis na despensa fria. Seria um capricho desnecessário convocar a equipe de serviço de seus aposentos apenas para essa finalidade.
A travessa exibia uma seleção de queijos curados, torradas de ervas finas, figos frescos cortados em quartos e uma fatia generosa de torta de chocolate denso que servira como sobremesa da cozinha.
Claude abriu a segunda garrafa — esta contendo um vinho tinto encorpado de safra antiga — e serviu-se de uma dose generosa.
Ao notar o olhar de Damian fixo no líquido rubro, o duque afastou a garrafa de forma protetora.
— Esta seleção é restrita. O teor alcoólico impede a sua participação.
— Eu não fiz qualquer solicitação — retrucou Damian, embora seus olhos continuassem a acompanhar o movimento do vinho na taça do marido. Mesmo não sendo um consumidor assíduo de bebidas fortes, a restrição imposta pela gestação trazia uma ponta de frustração.
Ele concentrou sua atenção na torta de chocolate, cortando um pedaço generoso com o garfo e harmonizando-o com o espumante cítrico. A combinação provou-se excelente, amenizando sua insatisfação temporária.
Enquanto Damian saboreava o doce, Claude degustava o tinto em silêncio, com o olhar focado nas reações do companheiro. Uma sensação incômoda de calor começou a irradiar de seu abdômen, acompanhada de uma leve alteração em sua percepção sensorial.
“O efeito do álcool está se manifestando de forma excepcionalmente rápida hoje… Ou há outra variável operando em meu organismo?”
Os indivíduos dotados de dinâmicas especiais eram governados por ciclos biológicos periódicos. Em eras passadas, a manifestação do período de calor em ômegas e do rut em alfas era vista por setores conservadores da sociedade como uma regressão a instintos puramente animais, desprovidos de controle moral ou racionalidade — uma percepção que justificara a marginalização histórica dessas populações.
Contudo, com o avanço da endocrinologia moderna e o desenvolvimento de supressores sintéticos de alta eficiência, o manejo dessas fases tornou-se uma questão de rotina médica simples. As crises biológicas deixaram de representar um risco de incidentes ou comportamentos involuntários, devolvendo aos indivíduos o controle total sobre sua autonomia reprodutiva e pessoal.
Como ex-militar, Claude mantinha um controle extremamente rígido sobre o calendário de suas crises. O intervalo médio de seus períodos de rut ocorria de três a quatro vezes ao ano — em uma frequência média de quatro meses entre cada evento.
Considerando que seu último ciclo ocorrera logo após sua chegada a Ronen, a previsão de sua próxima manifestação biológica indicava um prazo de pelo menos mais trinta dias. Uma antecipação de um mês inteiro era um fenômeno sem precedentes em seu histórico pessoal.
“Trata-se apenas de uma reação ao cansaço e ao estresse dos últimos dias”, concluiu Claude, tentando afastar a hipótese de uma desregulação hormonal. A presença constante de Damian — cujos feromônios de gestação apresentavam oscilações naturais e intensas — certamente exercia uma influência sutil sobre seus próprios receptores, mas nada que demandasse preocupação imediata.
Com o raciocínio restabelecido e a mente sob controle, o duque serviu-se de mais uma dose de vinho, permitindo-se finalmente relaxar sob o olhar atento de seu novo companheiro.
─── ✧・゚: * ✧・゚:* ───
Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello