↫─❀ Capítulo 14.3
Capítulo 14 Parte 3
[EXCLUSIVO] Duque de Sabina reage com firmeza contra o assédio da imprensa ao Conde de Grave
Na manhã de hoje, o porta-voz do Duque de Sabina convocou uma coletiva de imprensa para anunciar o posicionamento oficial da Casa de Sabina sobre a devassa na vida privada do Conde de Grave.
O porta-voz abriu o pronunciamento expressando o profundo pesar do duque com a violação e o vazamento de dados pessoais confidenciais, pontuando que o ocorrido representou uma clara ameaça à integridade física e emocional do conde.
Declarou-se que, embora certas intromissões fizessem parte da rotina pública, o limite do tolerável foi ultrapassado. A partir deste momento, qualquer publicação de fotos não autorizadas ou atividades jornalísticas invasivas e sem consentimento prévio enfrentarão rigorosas medidas judiciais.
O porta-voz reforçou que, apesar de pertencer à família real, o Conde de Grave é um cidadão que goza dos mesmos direitos constitucionais à privacidade. Reiterou também que a prioridade absoluta no momento é a preservação da saúde e da paz de espírito do conde, apelando à sensibilidade dos veículos de comunicação.
— Conseguiram localizar o informante?
— A polícia está no encalço dele, Vossa Graça — respondeu Holstein, mantendo a postura impecável. — Não há registros de que ele tenha deixado o país, então é apenas uma questão de tempo até ser capturado.
— E quem é esse maldito, afinal?
— É este homem.
Claude pegou o tablet que Holstein lhe estendia. Ao ver a imagem na tela, suas sobrancelhas se contraíram em um vinco de desagrado.
— Eu conheço esse rosto.
— Sim, Vossa Graça. É o mesmo paparazzo que costumava seguir o conde de perto.
Claude estalou a língua ao reconhecer o homem que, tempos atrás, flagrara e fotografara os dois se beijando dentro do carro de Damian.
— Eu achei que tínhamos um acordo claro de que ele não voltaria a se aproximar.
As feições do duque endureceram. Ele se lembrava perfeitamente do relatório de termos de conduta que Holstein firmara com o sujeito na época.
— E o senhor realmente acreditou que um tipo como ele cumpriria a palavra? — inquiriu o secretário, com um tom pragmático.
— Imaginei que ele teria o mínimo de bom senso para se manter escondido por um tempo. Não pensei que ousaria arquitetar uma tolice desse tamanho. E, até onde eu sabia, ele não andava mais seguindo Damian.
Claude monitorava de perto qualquer atividade suspeita ao redor do noivo, e tinha certeza de que aquele homem havia sumido do mapa após o aviso. Saber que fora ele o responsável por vender a história ao jornal o deixou intrigado.
— Nós também pensávamos assim… Mas suspeito que ele tenha agido a mando de terceiros, ou talvez subornado alguém.
— Subornado?… Para chegar a esse ponto?
— Exatamente — murmurou Holstein, compartilhando da indignação do chefe. — Ou talvez haja uma espécie de rede de contatos entre os paparazzi locais, onde eles compartilham informações e se ajudam. Pelas pistas que colhemos no hospital, essa possibilidade é bastante viável.
— Uma rede de contatos… Que audácia — desdenhou Claude, batendo os dedos com impaciência sobre a tela do tablet. — Investigue a fundo a vida desse sujeito. Amigos, finanças, histórico de residência, familiares… Revire tudo até encontrar o ponto de partida. E ordene que intimem qualquer um que tenha a menor ligação com ele.
— Entendido, Vossa Graça.
Após tomar nota de todas as instruções, Holstein concluiu os relatórios pendentes. Embora soubesse que a carga de trabalho seria exaustiva nas próximas semanas, a perspectiva de que seu superior entraria em licença de casamento em breve tornava o fardo mais tolerável.
— A propósito, o anúncio da Casa de Sabina sobre as medidas severas contra a violação de privacidade já está repercutindo. Foi o senhor quem os convenceu?
— Eu mencionei o assunto, mas confesso que não esperava uma reação tão imediata e contundente.
A declaração oficial do ducado abalara as redações do país. Diversos portais e jornais já começavam a publicar editoriais inflamados, dividindo-se entre acusações de “abuso de poder” e debates sobre “o direito de informação do público”.
Como Damian sempre atuara de forma muito próxima à imagem pública da coroa — quase como um embaixador informal da realeza —, o impacto da decisão era inevitavelmente estrondoso.
No entanto, Claude pouco se importava com os protestos da imprensa. O que de fato o surpreendera fora a postura de Damian, que, apesar de inicialmente relutante, acatara a decisão de Sabina sem levantar grandes objeções.
— De qualquer forma, isso nos dá uma margem de segurança. Proteger o conde será uma tarefa bem mais simples de agora em diante — comentou Holstein.
— Sem dúvida. É uma medida que já deveria ter sido tomada há muito tempo.
Embora o tom de Claude fosse controlado, seus olhos permaneciam frios. O fato de estar em meio a um exercício militar importante quando a notícia da gravidez estourou, impossibilitando-o de agir de imediato, ainda o perturbava. Damian costumava andar desacompanhado pela cidade, e o assédio descontrolado da imprensa poderia ter culminado em um acidente grave.
Tivera sorte por ele estar com escolta naquele dia específico.
— Agora que o posicionamento oficial foi estabelecido, mantenha uma vigilância estrita sobre qualquer publicação não autorizada nas redes sociais.
— Sim, senhor.
Ele não tinha a menor intenção de permitir que a vida do homem com quem estava prestes a se casar continuasse exposta como um espetáculo público. Claude conhecia bem o lado sombrio da mídia; na juventude, o escândalo de adultério envolvendo seu pai o fizera adoecer de tamanho asco do escrutínio público, a ponto de cogitar ingressar no seminário.
Claro, ele logo percebera que não possuía a vocação para a abnegação e o perdão exigidos pelo clero, abandonando a ideia.
Hoje, ele via aquilo como um golpe de sorte. Caso contrário, jamais teria cruzado o caminho de Damian.
O único lamento era que a união estivesse acontecendo sob a pressão das circunstâncias.
Com um gesto dispensando o secretário, Claude encerrou a reunião. Assim que a porta do gabinete se fechou, Holstein massageou a nuca tensionada. Seu superior costumava ser a personificação da imparcialidade e do rigor profissional, mas bastava o nome de Damian surgir para que qualquer protocolo ou limite legal fosse prontamente ignorado.
Para um homem que outrora parecia tão desprovido de desejos mundanos que quase se tornara clérigo, causar um escândalo dinástico daquela magnitude com o conde era algo surpreendente, embora, refletindo bem, fizesse todo o sentido.
Holstein ainda se lembrava do choque ao receber a notícia da gravidez. Fora um impacto tão grande que ele precisara beliscar a própria coxa para se certificar de que não era um trote de mau gosto. No início, pensou que o anúncio do noivado seria imediato e, diante do silêncio que se seguiu, chegara a se enfurecer secretamente com o chefe, julgando-o um canalha que abandonara o parceiro grávido. Só mais tarde compreendera que era Damian quem vinha recusando terminantemente a união, o que o fizera suspirar de alívio.
— Ainda bem que tudo se resolveu — murmurou o secretário, apressando o passo pelo corredor. Tinha uma montanha de pendências para resolver antes de iniciar as investigações ordenadas.
O que teria levado aquele paparazzo a agir de forma tão imprudente? Holstein tentou conter a irritação crescente. Por conta daquele sujeito, seu volume de trabalho havia simplesmente dobrado em meio aos preparativos do casamento.
Enquanto isso, as notícias sobre as alianças de casamento e os preparativos unindo as Casas de Sabina e Enosh dominavam as manchetes diariamente. Com a proximidade do primeiro casamento real desde a união do atual monarca, os programas de variedades competiam para prever a escala e o custo da cerimônia, atraindo a atenção de toda a nação.
A imprensa especulava que a cerimônia ocorreria na histórica Catedral de São Bartolomeu, local tradicional dos casamentos da realeza. Diversas celebridades e figuras da alta sociedade já começavam a compartilhar vislumbres de seus convites nas redes sociais, atiçando a curiosidade do público sobre a lista seleta de convidados.
Apesar dos boatos de que o curto prazo para a organização resultaria em um evento mais intimista, os rumores sobre o volume astronômico de flores encomendadas já movimentavam o mercado florista da capital.
Desde os utensílios de enxoval que Damian usaria, os detalhes do traje nupcial, a escolha da nova residência até o jogo de porcelana que decoraria a mesa do casal — o público parecia ávido por qualquer migalha de informação.
Foi nesse cenário de fervor que uma nova foto de Damian ao lado de Claude, tirada durante a visita ao hospital para exames de rotina, veio a público, direcionando todas as atenções para o anel de noivado do conde.
A imagem, capturada apesar do forte esquema de segurança, mostrava Damian parcialmente oculto pela estatura imponente de Claude, cobrindo o rosto com uma das mãos em um gesto de evidente desconforto.
Contudo, foi o brilho da joia em seu dedo que causou verdadeiro espanto. Em poucas horas, internautas atentos apontaram a semelhança extraordinária entre aquela peça e o lendário anel que pertencera à falecida Princesa Victoria.
Registros antigos da princesa em eventos de Estado foram resgatados e comparados, espalhando o rumor de que o diamante de Damian seria a própria joia da princesa, reformulada para a ocasião.
O anel de Victoria, originalmente um presente de casamento do Rei Percy I, ostentava um raríssimo diamante fancy blue em lapidação cushion, extraído das renomadas minas Maesa. Na época de sua catalogação, a gema figurava como o oitavo diamante mais caro do mundo.
Avaliado em 23 quilates, o diamante azul era considerado uma peça de valor inestimável por colecionadores internacionais, que há anos aguardavam uma oportunidade de adquiri-lo caso fosse a leilão.
Em um dos fóruns mais populares de Ronen, as discussões fervilhavam:
[Tópico] O anel de noivado do Conde de Grave não é extravagante demais? Por que não deram a ele um anel tradicional em vez de uma relíquia de família que carrega um histórico tão trágico?
Comentário 1: Qual o sentido de herdar a aliança de um casamento arruinado por traição?<> Comentário 2: O Duque de Enosh deve ser podre de rico para dar uma joia desse calibre assim, sem pensar duas vezes.<> Comentário 3: Vocês realmente acham que ele daria um símbolo de fracasso matrimonial se não fosse algo de valor inestimável?<> Comentário 4: O anel é maravilhoso, mas eu só consigo olhar para o rosto do conde. Que estrutura óssea perfeita.<> Comentário 5: A beleza dele é patrimônio nacional. Esse bebê vai herdar uma genética abençoada.<> Comentário 6: Será que sou o único ansioso para ver o rosto do herdeiro?
Embora as fotos pessoais de Damian tenham sido rapidamente removidas dos servidores por receio de processos judiciais, as imagens focadas na joia permaneceram ativas, alimentando debates sem fim no ambiente virtual.
Toda essa comoção externa inevitavelmente rompia a tranquilidade do chalé onde Damian tentava se resguardar. Claude, determinado a conduzir pessoalmente os preparativos do matrimônio, passava quase todo o seu tempo livre no chalé de Damian, uma rotina que não passava despercebida pela vizinhança.
— …O que acha de seguirmos por esta alternativa para o trajeto?
— Temo que isso possa congestionar o fluxo principal de segurança. Seria mais prudente manter essa área livre de circulação — sugeriu Claude, debruçado sobre os mapas.
— Muito bem, faremos as alterações conforme sugerido.
— Os oficiais da Casa Real são extremamente competentes, mas não podemos permitir qualquer falha no protocolo de segurança de Sua Majestade durante o evento.
— Entendido, Vossa Graça.
Damian observava a cena com uma pontada de incredulidade. Claude discutia os detalhes da escolta do rei com o chefe do cerimonial da Casa Real como se estivesse coordenando uma operação de guerra na sala de visitas de seu chalé.
“Por que ele precisa fazer tudo isso aqui?”
Lembrava-se de como o noivo prometera cuidar de todos os detalhes práticos e, no dia seguinte, simplesmente surgira no chalé acompanhado por uma comitiva inteira de assessores e planejadores.
O duque alternava entre discussões de segurança com seu assessor militar, alinhamentos de protocolo com a Casa Real e reuniões de decoração com os planejadores, tudo isso sem desviar totalmente a atenção de Damian, que o observava com um semblante permanentemente emburrado do outro lado da sala.
Quando Damian questionara o motivo de tanta movimentação em seu chalé, sugerindo que utilizassem a residência de Enosh para tais fins, Claude respondera com uma naturalidade desarmante:
— Um casamento envolve duas pessoas, Damian. É justo que você acompanhe cada etapa do processo, não acha?
Para completar o cenário de caos doméstico, Damian ainda precisava lidar com a hostilidade silenciosa de Peter, cujo nível de estresse parecia ter atingido o limite absoluto nos últimos dias.
Peter providenciava chás e pequenos lanches para os visitantes com sua habitual eficiência, mas recusava-se terminantemente a servir Claude de forma direta. O duque, por sua vez, parecia achar graça da atitude do mordomo, servindo-se por conta própria sem demonstrar o menor sinal de ofensa.
O olhar de Damian acabou se desviando novamente na direção de Claude. Ele não o via trajando o uniforme oficial do exército desde o dia em que a notícia da gravidez viera a público.
Usando apenas uma camisa de linho branca sob um colete preto ajustado, Claude analisava os documentos com o cenho franzido, conversando em voz baixa com seu assistente. O paletó cinza-escuro de seu terno de três peças fora jogado de lado no encosto da poltrona. Sempre que gesticulava para apontar algo nos papéis, o tecido da camisa tensionava-se contra seus ombros largos e braços definidos, evidenciando uma compleição física robusta que parecia prestes a romper as costuras do colete.
No pulso esquerdo, o relógio que Damian lhe dera parecia ter se tornado parte de seu corpo. Os tendões marcados de suas mãos grandes e firmes atraíam o olhar de Damian de forma quase magnética.
O movimento daqueles dedos longos sobre a tela do tablet parecia carregar uma precisão elegante. Eram mãos grandes, mas de traços bem definidos, condizentes com sua estatura elevada.
Damian conhecia muito bem a destreza e a firmeza daquelas mãos sob circunstâncias bem diferentes.
Sentindo uma onda súbita de calor subir por seu pescoço, Damian pegou o copo de limonada gelada sobre a mesa e bebeu um gole generoso para tentar resfriar os pensamentos.
— O senhor está com calor, jovem mestre? — indagou Peter imediatamente, atento a qualquer alteração em seu semblante.
A pergunta atraiu a atenção de Claude, que ergueu os olhos dos documentos e encarou Damian com preocupação.
— Você está bem? Seu rosto parece um pouco corado.
Temendo que seus pensamentos fossem expostos, Damian apressou-se em desviar o olhar e respondeu com firmeza:
— Estou perfeitamente bem. Continue com o seu trabalho.
— Um momento, por favor — disse Peter, ajustando prontamente o termostato da sala antes de providenciar mais gelo para o copo de Damian.
— Bem, acho que já passa da hora do almoço. Que tal fazermos uma pausa? — sugeriu Claude de forma casual.
O secretário assentiu, consultando o relógio e começando a organizar a papelada espalhada sobre a mesa de centro.
Como já era tarde demais para expulsá-lo e o fato de Claude almoçar ali havia se tornado rotina, Damian limitou-se a perguntar a Peter se a refeição estava pronta. Com um semblante ainda contrariado, o mordomo confirmou que os preparativos estavam sendo finalizados na cozinha.
— Enquanto isso, gostaria que desse uma olhada nisto — disse Claude, movendo-se para o sofá onde Damian estava sentado e acomodando-se ao seu lado com o tablet em mãos.
Normalmente, Damian teria protestado contra a aproximação repentina, mas a convivência forçada dos últimos dias o deixara exausto demais para iniciar uma nova discussão.
Embora Claude assumisse a maior parte do trabalho pesado e burocrático da organização do casamento, ele fazia questão de consultar Damian nas decisões mais subjetivas. Três dias atrás, haviam selecionado o fotógrafo oficial da cerimônia e a equipe de apoio; no dia seguinte, fora a vez de definir o menu do banquete e as lembranças dos convidados. E hoje…
— Temos três opções de destino para a lua de mel: um refúgio privativo à beira-mar em Lacvia, uma vila exclusiva com vista para as colinas de Polkhill ou, se preferir total privacidade, uma propriedade isolada nas florestas de Lemela.
Damian encarou as imagens apresentadas na tela, sem saber ao certo o que dizer. Ele genuinamente não esperava que Claude estivesse planejando uma viagem de lua de mel. O duque assumira o ministério há relativamente pouco tempo, e Damian imaginara que seus deveres oficiais o impediriam de se ausentar por um período prolongado.
Além disso, dada a sua condição de gestante, Damian presumira que a viagem seria descartada ou adiada indefinidamente.
— O que foi? Nenhuma das opções lhe agrada? Tentei selecionar os locais mais tranquilos e seguros… Ou você tem algum outro destino em mente?
— Não é isso… Eu apenas não sabia que de fato teríamos uma lua de mel.
— Como? — Claude pareceu genuinamente surpreso com a indagação. — Você não gostaria de viajar?
Percebendo que a conversa entrava em um território íntimo, o secretário Holstein levantou-se discretamente, inventando uma desculpa sobre verificar o andamento do almoço para deixar o casal a sós.
Peter, no entanto, permaneceu firme como uma estátua ao lado do sofá, recusando-se a deixar Damian desprotegido na presença do alfa.
— Peter, poderia nos dar um momento, por favor? — pediu Claude com cortesia.
— Com a devida vênia, Vossa Graça, não me parece adequado deixar um jovem ômega e seu noivo sozinhos antes da oficialização do matrimônio. A preservação da virtude e do decoro deve ser mantida até o dia das bodas…
— Peter, por favor, poupe-nos desse discurso antiquado — interrompeu Damian, com um suspiro cansado. — Além disso, considerando as circunstâncias da nossa união, acho um pouco tarde para falar de decoro e virtude, não acha?
Peter piscou, chocado com a declaração direta de seu jovem mestre. O mordomo parecia incapaz de processar que o jovem que ele criara com tanto esmero pudesse proferir tais palavras de forma tão pragmática.
Ao seu lado, Claude soltou uma risada baixa, o que só serviu para aumentar o desespero silencioso do mordomo.
Damian sentia-se desconfortável sob a presença constante de Peter, mas preferia não ter de discutir a natureza pragmática de seu casamento diante do criado. O velho mordomo parecia firmemente convencido de que Damian fora seduzido e manipulado pelas artimanhas do duque, e Damian preferia poupá-lo dos detalhes reais para evitar que a pressão arterial do idoso subisse a níveis perigosos.
— Por favor, verifique o andamento do almoço — insistiu Damian com um tom de voz mais brando, quase implorante.
Percebendo que não tinha escolha diante da insistência de seu mestre, Peter curvou-se com relutância e caminhou em direção à saída, não sem antes lançar um olhar severo na direção de Claude, como um aviso silencioso de que estaria vigiando cada movimento do andar de baixo.
— Parece que conquistei um inimigo formidável — comentou Claude, com um tom divertido que não escondia a seriedade de sua observação.
— Peter é apenas muito protetor. Ele tem dificuldades em lidar com mudanças rápidas…
— Um homem que engravida o jovem mestre de sua casa antes do casamento dificilmente seria bem-recebido por um guardião tão leal. Compreendo perfeitamente a reação dele, e aceito de bom grado o escrutínio como parte das minhas responsabilidades.
Damian ajeitou a postura, incomodado com a naturalidade do comentário. Ele se perguntou se suas emoções estavam tão transparentes a ponto de Claude perceber seu desconforto.
— Agradeço o esforço em selecionar os destinos, Vossa Graça, mas continuo achando que uma viagem de lua de mel é um excesso desnecessário dadas as circunstâncias.
— Por que diz isso? Algum dos destinos de fato o desagradou?
— Não se trata disso. Nosso casamento está sendo adiantado por conta de uma gravidez inesperada. Não há necessidade de criar o simulacro de uma união romântica tradicional.
— É justamente por esse motivo que devemos ir. Não tenho a menor intenção de dar margem para especulações maliciosas.
— Que tipo de especulações?
— Rumores de que nossa união é um mero arranjo de conveniência ou uma obrigação puramente política. Pouco me importa o que a sociedade pensa de mim, mas exijo que nossa privacidade e dignidade familiar sejam preservadas sem qualquer questionamento de terceiros.
— Mas de fato é um casamento de conveniência. Não há sentimentos românticos envolvidos aqui, então por que se dar a tanto trabalho para fingir o contrário? — retrucou Damian, com um tom de voz que soou mais amargo do que ele pretendia.
Ele franziu o cenho ao perceber o próprio descontentamento, incapaz de conter a pontada de frustração que o invadira.
— Compreendo perfeitamente seu ponto de vista, Damian. Mas, para mim, este é um dos passos mais importantes da minha vida. Não pretendo conduzi-lo com negligência ou deixar margem para arrependimentos futuros. Por nós e pelo bem-estar do nosso filho, este compromisso deve ser tratado com a máxima seriedade e respeito.
“Pelo bem-estar do nosso filho…” As palavras de Claude ecoaram na mente de Damian.
Ele sabia que a principal motivação do duque era assumir a responsabilidade pela criança, mas ouvir a confirmação direta de que aquele casamento grandioso servia apenas como um escudo para o herdeiro trouxe uma sensação incômoda de vazio ao seu peito.
Mesmo ciente de que Claude estava apenas cumprindo seu papel com honradez, Damian não pôde evitar que uma sutil melancolia se instalasse em seus pensamentos.
— Damian… Por que essa expressão?
Antes que pudesse desviar o rosto, a mão quente de Claude tocou sua bochecha com uma suavidade surpreendente. Seus dedos contornaram a linha de seu maxilar em um carinho silencioso.
Damian encarou os olhos dourados do noivo, sentindo o polegar de Claude acariciar levemente a curva de seus cílios. Em um instante de vulnerabilidade, uma onda de cansaço e frustração acumulada pareceu transbordar, e as lágrimas que ele tentava conter começaram a rolar por suas bochechas, molhando a mão do duque.
— O que foi?…
O choro silencioso transformou-se em um soluço reprimido. Sem que pudesse evitar, Damian viu-se acolhido pelos braços de Claude, que o puxou contra o peito largo de forma protetora. O aroma familiar de sândalo e terra molhada — os feromônios reconfortantes do alfa — envolveu-o por completo, agindo como um bálsamo sobre seus nervos esgotados.
Damian chorou como há muito não fazia, permitindo-se desabar diante da confusão de sentimentos que tentara reprimir durante semanas: a pressão do casamento, as mudanças drásticas em seu corpo, o medo do julgamento público e a incerteza sobre o próprio futuro.
— Está tudo bem, Damian. Se a ideia de viajar o deixa desconfortável, não precisamos ir a lugar algum. Não vou forçá-lo a fazer nada que não queira — sussurrou Claude contra seus cabelos, enquanto sua mão grande desenhava círculos reconfortantes em suas costas.
A doçura do gesto apenas intensificou o aperto no peito de Damian. Ele se perguntava como aquele homem conseguia ser tão atencioso, mesmo em meio a uma união puramente racional.
“Será que ele sentiria o mesmo por mim se não houvesse um bebê envolvido?” A pergunta permaneceu sem resposta, perdida no turbilhão de suas próprias lágrimas.
Quando o choro finalmente cessou, a vergonha pelo colapso emocional repentino tomou conta de Damian. Ele permaneceu imóvel por alguns instantes, com o rosto oculto contra o tecido agora amassado e úmido da camisa de Claude, desejando apenas que o chão se abrisse sob seus pés.
— Sente-se melhor? — perguntou Claude com suavidade, tentando erguer o queixo de Damian para encará-lo.
Damian empurrou-o de leve pelo peito, sentando-se ereto no sofá com as bochechas coradas de constrangimento.
— Foi apenas… uma oscilação hormonal — murmurou Damian, tentando recompor a dignidade. — As alterações da gestação costumam afetar o estado emocional. Não pense que o senhor foi o motivo dessas lágrimas.
— Compreendo perfeitamente. A literatura médica de fato menciona que oscilações de humor são comuns nesse período — respondeu Claude, com um meio sorriso que indicava que ele aceitaria aquela justificativa sem questionar.
Ele estendeu um lenço de linho limpo para Damian, que o pegou de forma ríspida para limpar o rosto e assoar o nariz com visível irritação, tentando a todo custo afastar qualquer atmosfera de fragilidade.
— De qualquer forma, temo que minha reputação com o seu mordomo tenha sofrido um golpe irreparável hoje. Se ele me vir saindo daqui depois de fazê-lo chorar, certamente serei banido do chalé de forma permanente.
Damian mordeu o lábio inferior, ciente de que Peter não hesitaria em tomar medidas drásticas se percebesse que seu jovem mestre fora contrariado.
— Meu rosto está muito vermelho?
— Um pouco — admitiu Claude com um sorriso brando.
— Eu explicarei a ele que foi apenas um mal-entendido. Não quero que Peter continue tratando o senhor com hostilidade desnecessária de agora em diante.
— Agradeço o empenho, mas não se preocupe com isso. É um preço pequeno a pagar pelo privilégio de me casar com você. Quanto à lua de mel, consideremos o assunto encerrado. Não há necessidade de impor uma viagem se isso lhe causa estresse.
— Não… Nós iremos — disse Damian, após um instante de reflexão. — Pensando bem, o período após a cerimônia será caótico na capital, e o assédio da imprensa será intolerável. Será mais prudente nos afastarmos por algumas semanas para garantir alguma tranquilidade.
— Tem certeza de que prefere assim?
Damian assentiu, voltando os olhos para a tela do tablet para analisar os destinos com mais atenção, evitando o olhar perspicaz de Claude que permanecia fixo sobre ele.
No fim das contas, a decisão de viajar traria o benefício mútuo de um refúgio necessário longe dos holofotes.
A calmaria, contudo, durou pouco. Assim que as portas da sala de visitas se abriram e Peter adentrou o recinto para anunciar que o almoço estava servido, o velho mordomo não tardou a notar o nariz avermelhado e os olhos levemente inchados de Damian.
Foi necessário um esforço hercúleo de Damian para acalmar os ânimos do criado e convencê-lo de que Claude não cometera nenhuma ofensa contra sua integridade, impedindo que o mordomo causasse um incidente diplomático ali mesmo antes que a refeição pudesse, finalmente, ser servida.
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Fim do Volume 14
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello