↫─❀ Capítulo 14.2
Capítulo 14 Parte 2
Sem conseguir vencer a insistência de Claude, Damian acabou indo ao hospital, onde realizou todos os exames que vinha adiando até então. O obstetra recomendado por seu pai era um ômega masculino na faixa dos sessenta anos, de aparência calma e profundamente serena.
— Estão vendo? Esta parte aqui é a cabeça, e aqui estão as pernas. Até o momento, ele está se desenvolvendo muito bem, sem nenhuma anormalidade. O tamanho do feto também está excelente.
Após encarar a tela do monitor por um longo tempo, Damian finalmente conseguiu distinguir o que o médico apontava como a cabeça e as pernas.
Aquela era a primeira vez que Damian via a imagem do bebê de forma clara. Embora já tivesse passado por consultas antes, ele vinha tentando conscientemente não pensar na gravidez, por isso nunca sentira curiosidade de olhar para a tela.
“Que estranho.”
Ele nunca nutrira um carinho especial pela ideia de ter um filho, tampouco possuía uma sensibilidade aguçada para se emocionar com o milagre da vida. No entanto, ao ver com os próprios olhos a imagem da criatura que crescia em seu ventre, uma sensação peculiar o invadiu.
Era um sentimento ambíguo e difuso, misturando fascínio e um leve desconforto. Enquanto algumas pessoas costumavam se debulhar em lágrimas de emoção ao ver o filho pela primeira vez, Damian, talvez pela complexidade de sua situação, não conseguia se conectar com esse tipo de sentimento.
— O estado de saúde do gestante está normal? A esta altura, a barriga dele não deveria estar um pouco mais saliente? Ele quase não ganhou peso e, visualmente, nem sequer parece grávido — indagou Claude, com um tom de preocupação.
— É perfeitamente comum que fetos gerados por ômegas masculinos sejam ligeiramente menores do que os de gestantes femininas. Este tamanho está perfeitamente dentro da curva de normalidade. Portanto, não há com o que se preocupar.
Ao ouvir a explicação detalhada do médico, Claude finalmente desfez a expressão severa e relaxou a testa.
— Já é possível saber o sexo do bebê? — perguntou Damian, aceitando a toalha que o médico lhe estendia para limpar o gel que cobria seu abdômen. Mesmo tendo olhado atentamente para o ultrassom, ele não soubera identificar nada.
Será que ainda era cedo demais?
O médico, que começava a guardar os aparelhos, comentou com um sorriso:
— Bem… o bebê parece um pouco tímido e está com as perninhas encolhidas, o que dificulta a visualização. — Ele pediu que aguardassem um momento e, após ajustar o ângulo do transdutor algumas vezes na tela, apontou para um ponto específico no monitor: — Visualmente, parece ser um menino. Conseguem ver este pequeno detalhe entre as pernas?
Embora o médico estivesse apontando diretamente para o local, Damian olhava e se perguntava se aquilo era realmente o que ele dizia ser.
— Na próxima consulta, faremos um ultrassom morfológico detalhado. Será possível ver até mesmo as feições do rosto dele.
— Será possível ver o rosto? — indagou Claude, genuinamente surpreso.
— Sim, Vossa Graça. A tecnologia avançou consideravelmente nos últimos anos.
O médico organizou seus instrumentos e passou a explicar detalhadamente como funcionava o exame morfológico de alta resolução. Enquanto Damian se concentrava apenas em ajustar suas vestes sem prestar muita atenção, Claude ouvia tudo com uma seriedade quase solene.
— Como está tudo perfeito, a próxima consulta pode ser agendada para daqui a quatro semanas. No entanto, se sentir qualquer alteração ou desconforto antes disso, por menor que seja, deve vir ao hospital imediatamente. Às vezes, complicações inesperadas podem surgir mesmo em gestações aparentemente saudáveis.
As sobrancelhas de Claude se contraíram instantaneamente ao ouvir o alerta.
— Que tipo de complicações?
Percebendo a tensão imediata que emanava do duque, o médico apressou-se em tranquilizá-lo com um tom brando:
— Não estou dizendo que há algo errado agora, Vossa Graça. É apenas uma recomendação de rotina. Caso note qualquer alteração em seu estado físico geral, por favor, entre em contato conosco sem hesitar.
Embora o médico não estivesse sugerindo nada de grave, Claude permaneceu com o semblante fechado, como se tivesse acabado de receber uma notícia alarmante.
— Então os exames de hoje terminaram? Já podemos ir? — perguntou Damian, ansioso para ir embora.
Depois de uma manhã inteira dedicada aos detalhes minuciosos e exaustivos do casamento, o desgaste físico da consulta médica começava a cobrar seu preço. Além disso, o assédio dos repórteres que os seguiram durante todo o trajeto até o hospital fora o suficiente para esgotar a paciência de Damian, que normalmente lidava bem com a imprensa.
— Nos vemos em quatro semanas, então.
Com uma breve reverência, o médico retirou-se da sala VIP. Damian preparou-se para sair, mas Claude colocou-se imediatamente ao seu lado.
— Já que reservamos este quarto de repouso, por que não passa a noite aqui para descansar?
— Não vejo necessidade. Eu não estou doente.
— Você costuma ser negligente com a própria saúde. Um pouco de cautela extra nunca é demais.
— Não sei se o senhor percebeu, mas sou extremamente saudável. Eu nunca tive problemas de saúde antes de engravidar. Não acha que está me tratando como se eu fosse de vidro?
— O médico acabou de dizer que devemos ser extremamente cautelosos. A entrada do hospital deve estar cercada de repórteres. Se você passar a noite aqui, eles eventualmente vão se cansar e ir embora.
— Eu não pretendo passar a noite em um quarto de hospital apenas para evitar jornalistas. Se o senhor tem tanto medo deles, sinta-se à vontade para se internar no meu lugar.
Ignorando as insistentes tentativas de Claude de convencê-lo a ficar, Damian apressou o passo para fora da sala VIP. Se continuasse ali discutindo, corria o risco de acabar preso àquela cama de hospital.
Atrás dele, ouviu-se um suspiro profundo de Claude, seguido por um murmúrio resignado:
— Você não cede em nada, não é?
Apressando o passo para emparelhar-se com Damian no corredor, Claude sussurrou em tom confidente:
— Falando em repórteres… a investigação policial sobre o vazamento de informações já começou. Eles conseguiram identificar alguns paparazzi que andavam rondando as dependências do hospital recentemente.
Por estar habituado à exposição pública desde muito jovem, Damian raramente se importava com o que a imprensa publicava a seu respeito. A maioria das matérias limitava-se a cobrir sua rotina de forma inofensiva, o que não exigia maiores preocupações. No entanto, o vazamento de um prontuário médico confidencial era uma questão de segurança extremamente séria. Como Claude bem apontara, se o alvo hoje fora Damian, amanhã a vítima de uma quebra de sigilo semelhante poderia ser o próprio rei.
Embora soubesse que a gravidez teria de vir a público em algum momento, Damian jamais desejara que acontecesse de forma tão invasiva.
— E quanto ao jornal que publicou a notícia?
— É um pequeno portal de notícias online, fundado há pouco mais de dois anos. Eles costumam sobreviver de boatos do meio artístico e escândalos menores envolvendo a aristocracia, coisas que a grande mídia geralmente ignora. A redação inteira consiste no diretor e em dois repórteres. Eles alegam que receberam uma denúncia anônima contendo os detalhes.
— Então basta descobrir quem enviou a denúncia para registrar o caso.
Parecia que o mistério não tardaria a ser resolvido. Bastava descobrir como o informante tivera acesso aos dados médicos de Damian.
— Exatamente. O processo está se provando surpreendentemente simples.
— Mas por que aquele jornal arriscaria tanto? Mesmo com uma fonte confiável, o risco jurídico de publicar algo contra a realeza era imenso.
No reino de Ronen, matérias envolvendo a família real normalmente passavam por um rigoroso processo de checagem junto à Primeira Secretaria da Casa Real. Embora o Parlamento desempenhasse suas funções legislativas e o país tivesse se modernizado em diversos aspectos, Ronen ainda se estruturava sob uma monarquia constitucional onde a figura do soberano e a autoridade da família real gozavam de imenso prestígio e proteção legal. Nenhum veículo de comunicação sério arriscaria publicar informações não confirmadas sobre a realeza sob o risco de enfrentar processos criminais por difamação e multas astronômicas. Damian, afinal, era sobrinho direto do rei e figurava na linha de sucessão ao trono.
— Pelo que apuramos, o informante garantiu ao editor que a notícia era absolutamente verídica e que o anúncio oficial do casamento ocorreria em poucos dias de qualquer forma. Ele argumentou que adiantar-se ao anúncio oficial não traria maiores consequências e que seria uma oportunidade de ouro para o portal ganhar notoriedade à frente dos grandes jornais. É difícil compreender como alguém com tamanho discernimento consegue gerir um veículo de imprensa.
— Bem, eles certamente conseguiram a notoriedade que queriam. Ficarão famosos pela escala do processo judicial que nossa família moverá contra eles.
Como Damian estava totalmente absorvido pelos preparativos do matrimônio, o Duque de Sabina assumira pessoalmente a liderança das ações judiciais contra o veículo de comunicação. Embora alguns setores da imprensa tentassem classificar a reação como censura ou abuso de poder, o duque não demonstrou o menor sinal de hesitação diante das críticas públicas.
Ele estava disposto a mover montanhas e usar de toda a sua influência para proteger o filho.
Damian olhou de soslaio para Claude. Após diversas discussões entre seu pai e o duque, ficara acordado que Joshua lideraria os processos legais, enquanto Claude coordenaria as investigações de segurança. Lembrar-se das discussões calorosas que os dois homens haviam travado até chegarem a esse consenso quase o fazia balançar a cabeça em desaprovação.
— Hum? Por que está me olhando assim?
— Por nada.
Recompondo a fisionomia, Damian apressou o passo. Ele só pensava em chegar em casa e descansar. O corredor da ala VIP do hospital estava silencioso e deserto, em total contraste com o tumulto do lado de fora. Embora sentisse os olhares ocasionais de alguns funcionários, a equipe do hospital era discreta e profissional o suficiente para não demonstrar uma curiosidade invasiva.
— O que acha de reduzir suas aparições públicas após o casamento? — perguntou Claude do nada, enquanto aguardavam o elevador.
— O que quer dizer com isso? — respondeu Damian, lançando-lhe um olhar afiado.
— Você está excessivamente exposto ao escrutínio público. Há sempre paparazzi seguindo seus passos, e cada detalhe da sua rotina acaba se tornando assunto de debate público. Não creio que isso seja saudável a longo prazo.
— Isso não significa que eu deva me trancar em casa para sempre, não é?
O tom de Claude não agradou a Damian. Percebendo o descontentamento estampado no rosto do noivo, o duque continuou com suavidade, mas com firmeza:
— Não estou sugerindo que você abra mão de suas atividades sociais ou profissionais. No entanto, embora você tenha se acostumado a essa falta de privacidade ao longo da vida, precisamos pensar no bem-estar da criança que vai nascer. Veja o caso de Ilias, por exemplo; a imprensa só tem acesso a ele durante compromissos oficiais do Estado. Você sabe perfeitamente que, entre todos os membros da família real, você é quem tem a vida privada mais exposta.
— E daí?
— Digo apenas que, para proteger nossa privacidade familiar, precisamos estabelecer limites mais claros de agora em diante.
Ele acrescentou que a situação agora não envolvia mais apenas Damian individualmente e pediu desculpas caso suas palavras tivessem soado ofensivas.
Embora inicialmente tivesse desconfiado de uma tentativa de controle, Damian acalmou os ânimos ao perceber a expressão genuinamente preocupada de Claude.
O argumento dele fazia sentido. Damian crescera sob os holofotes. Cada passeio casual ou atividade corriqueira era documentada por terceiros, e suas escolhas eram constantemente debatidas pelo público na internet. Se ele raramente se dava ao trabalho de responder a tais intromissões, era apenas por estar habituado àquela realidade desde a infância.
Como nunca se envolvera em polemas graves e a maior parte dos comentários limitava-se a manifestações de carinho ou admiração, ele simplesmente relevara a situação até então.
Contudo, ele estava prestes a iniciar uma nova fase de sua vida. No futuro, suas saídas envolveriam a presença de seu filho e de Claude, e a ideia de ver sua nova família exposta ao julgamento público constante de repente lhe pareceu bastante incômoda.
Damian tinha plena consciência do teor de alguns comentários que circulavam na internet. Embora a maioria fosse elogiosa, alguns ultrapassaram os limites do bom gosto. Imaginar Claude sendo alvo desse tipo de exposição fez seu humor despencar instantaneamente.
— O que o senhor sugere que eu faça, então?
— Esta é a oportunidade perfeita. Podemos aproveitar o incidente do vazamento para emitir um comunicado oficial através do nosso porta-voz, estabelecendo limites claros quanto à invasão de privacidade. O público compreenderá perfeitamente, dado o ocorrido. Podemos anunciar que tomaremos medidas legais rigorosas contra qualquer tentativa de registro ou divulgação não autorizada de nossa vida privada de agora em diante.
— Processar cidadãos comuns? Não acha isso um pouco drástico?
— Se dependesse da minha vontade pessoal, eu processaria cada indivíduo que ousa apontar uma câmera na sua direção sem permissão. No entanto, compreendo sua hesitação. …Não precisamos necessariamente iniciar processos em massa de imediato; o objetivo principal é estabelecer uma advertência clara e formal. Não acha que seria uma medida razoável?
Houve um brilho frio e determinado nos olhos de Claude ao mencionar aqueles que ousavam fotografá-lo, mas a expressão severa desapareceu tão rapidamente quanto surgira, sendo substituída por um semblante sereno.
Uma vez estabelecida a advertência formal, as ações subsequentes seriam muito mais simples. Claude já arquitetava mentalmente como enquadraria legalmente cada paparazzo por invasão de domicílio, assédio e violação de direitos de imagem, mas guardou esses planos para si, aguardando pacientemente que Damian tomasse a decisão por conta própria.
“Será que seria o correto?” Damian hesitou. Ele não tinha certeza se seria de bom tom adotar uma postura tão rígida com o público. Tendo vivido toda a sua existência cercado pela atenção alheia — que ele sabia ser, em sua maior parte, motivada por afeto —, a ideia de impor barreiras tão severas de uma hora para outra não era fácil de aceitar.
— Compreendo seu ponto de vista. Vou discutir o assunto com meus pais antes de tomar uma decisão definitiva.
Claude assentiu com a cabeça. Sabendo que seu primo, o duque, certamente concordaria com a proposta de impor limites mais rígidos à imprensa, ele não viu necessidade de pressionar Damian por uma resposta imediata.
— Ah, Damian! Você ainda está aqui.
As portas do elevador abriram-se naquele momento, revelando Theo, que sorriu ao ver o amigo.
Theo cumprimentou Claude com um breve aceno de cabeça e ofereceu-se para acompanhá-los até a saída do hospital.
— Você não veio até aqui para me ver por algum motivo específico? — perguntou Damian.
— Na verdade, eu estava apenas tentando escapar um pouco do meu consultório. O interesse do público sobre a sua situação está tão intenso que mal estou conseguindo trabalhar hoje.
Sendo o médico particular de Damian, era natural que a atenção da imprensa e de curiosos se voltasse para Theo após a notícia da gravidez. O desgaste físico e mental dos últimos dias estava claramente estampado no rosto do médico.
— Lamento ter causado esse transtorno a você.
— Não precisa se desculpar por isso…
— Se houver repórteres importunando você ou a equipe do hospital, por favor, avise-me. Tomarei as providências necessárias imediatamente — declarou Claude.
— Agradeço o apoio, Vossa Graça. Mas a situação já está sob controle. Pelo menos não há repórteres tentando invadir a ala restrita como no primeiro dia.
Após garantir que a situação não era tão grave, Theo dirigiu-se a Claude com curiosidade:
— A propósito, tenho visto policiais circulando pelo hospital com frequência para interrogar os funcionários. O senhor tem alguma novidade sobre as investigações?
— Se a presença deles estiver atrapalhando o funcionamento do hospital, posso ordenar que ajustem os horários das investigações.
— Não, não há necessidade de tanto. Minha única preocupação é a possibilidade de o vazamento ter ocorrido de fato dentro da nossa instituição…
— Por que diz isso? Tem alguma suspeita? — perguntou Damian, sabendo que Theo jamais revelaria informações confidenciais de forma leviana.
— Não exatamente… Mas pense bem. As únicas pessoas que sabiam da gravidez eram o senhor, o duque e os pais do Damian. Claro, nossos assessores diretos também tinham conhecimento, mas todos são profissionais de extrema confiança que compreendem a gravidade do assunto. Excluindo essas pessoas, o único elo restante é o hospital, não é?
Adotando um tom de voz mais baixo e sério, Theo continuou:
— Embora eu tenha tomado todas as precauções possíveis para manter o prontuário sob sigilo absoluto, não posso garantir que não tenha havido alguma falha humana. Alguém pode ter achado estranha a frequência com que você vinha ao consultório ultimamente, ou talvez tenha ouvido alguma conversa por descuido… Afinal, você apresentava sintomas claros de gravidez, o que poderia facilmente levantar suspeitas em uma equipe médica atenta. Embora eu confie plenamente em meus enfermeiros, a curiosidade humana às vezes se prova incontrolável.
Preocupado com a possibilidade de um de seus subordinados ser o responsável pelo escândalo, Theo passou a mão pelos cabelos com um suspiro pesado de frustração.
— Não necessariamente — interveio Claude com calma. — A matéria publicada não apresentava detalhes técnicos ou cópias de exames, limitando-se a relatar a gravidez de forma geral. Isso sugere que a notícia foi baseada em deduções a partir de circunstâncias observadas. Se houvesse um vazamento de prontuário, a equipe do Centro Médico Imperial, onde meu médico particular atende, também estaria sob suspeita. Além disso, considerando que diversos paparazzi foram vistos rondando este hospital nos últimos dias, é altamente provável que eles tenham chegado a essa conclusão apenas seguindo os passos de Damian.
Ao ouvir a argumentação lógica de Claude, Theo pareceu visivelmente aliviado.
— Espero sinceramente que seja esse o caso.
— Logo descobriremos a verdade. Não há necessidade de se desgastar com hipóteses antes de termos os fatos confirmados — disse Damian, dando um tapinha encorajador no ombro do amigo, sentindo-se um tanto culpado pelo estresse que lhe causara.
— Bem, mudando de assunto… você já fez o ultrassom hoje, não é? Conseguiram ver o sexo do bebê?
— Sim. É um menino.
— Sério? Então precisamos organizar uma festa de comemoração!
— Que festa de comemoração o quê… — murmurou Damian, sem entusiasmo.
Recuperando rapidamente o bom humor, Theo insistiu na ideia da celebração.
Em Ronen, havia a antiga tradição de realizar uma recepção para familiares e amigos íntimos assim que a gestação atingisse o período de estabilidade. No passado, tratava-se de uma simples celebração pela saúde do gestante, mas, com o advento da tecnologia de ultrassom, o evento passara a incluir a revelação do sexo do bebê.
— Não há condições de pensar em festa na atual conjuntura. Já estou sobrecarregado apenas com os preparativos do casamento.
— Podemos realizar a recepção logo após o casamento. Seria uma excelente oportunidade para celebrar a novidade com as pessoas queridas… O que o senhor acha da ideia, Vossa Graça? — perguntou Theo, voltando-se para Claude.
— Excelente ideia. Eu me encarregarei de todos os preparativos da recepção. Afinal, cabe ao outro progenitor organizar esse tipo de evento, não é?
— Exatamente, Vossa Graça!
— Sendo assim, está decidido. Damian não precisará se preocupar com nenhum detalhe. Eu cuidarei de tudo.
— “Não se preocupar”? Como podem decidir as coisas por mim com tanta facilidade?
Ignorando os protestos de Damian, Theo e Claude continuaram a planejar os detalhes com entusiasmo.
— Posso ajudar a coordenar os preparativos junto ao seu assessor pessoal — sugeriu Theo, animado com a perspectiva de um evento festivo em meio à tensão recente, proposta que Claude aceitou prontamente.
“Incrível. Como eles conseguem levar algo tão trivial tão a sério?” Damian balançou a cabeça diante da inesperada sintonia entre os dois homens.
— A propósito, recomendo que evitem a saída principal. Ainda há um grupo considerável de repórteres de plantão por lá — alertou Theo.
— Faremos isso.
Seguindo a recomendação do médico, eles aguardaram alguns instantes na ala de segurança antes de deixarem o prédio discretamente, evitando o cerco da imprensa.
Ao chegar de volta ao Chalé Roseten após o longo trajeto de desvios, Damian sentia-se completamente exausto. Felizmente, graças à numerosa equipe de segurança que Claude mobilizara para acompanhá-los, eles conseguiram entrar sem serem importunados pelos jornalistas de plantão.
Deixando-se cair de forma pouco cerimoniosa sobre o sofá da sala de visitas, Damian finalmente dirigiu o olhar para Claude, que o acompanhou até o interior da residência.
— Você está bem? — perguntou o duque com suavidade.
— O senhor não deveria estar cuidando de suas obrigações oficiais em vez de me seguir até aqui?
— Você não sabia? Recebi uma licença oficial de uma semana. Sua Majestade fez a gentileza de me liberar das funções do ministério para que eu possa me dedicar exclusivamente aos preparativos do casamento.
— Sendo assim, o senhor deveria ir para a sua própria residência descansar. Por que veio até aqui?
— Você pretende mesmo expulsar seu noivo sem lhe oferecer sequer um jantar? — queixou-se Claude, com um tom de voz que misturava divertimento e uma leve pontada de decepção.
Ver aquele homem de porte imponente encolher os ombros com uma expressão quase infantil de desapontamento fez com que Damian hesitasse por um instante. Seria de fato muita indelicadeza dispensar o noivo que o acompanhou durante todo o dia sem lhe oferecer uma refeição.
No entanto, antes que pudesse ceder ao impulso de convidá-lo a ficar, Damian recuperou a postura.
— Que tipo de artimanha é essa? Ainda faltam duas horas para o horário do jantar.
— Ora, parece que fui descoberto — respondeu Claude com naturalidade, dando de ombros com um sorriso divertido.
Ele acomodou-se no assento ao lado de Damian, observando-o com intensidade. A luz avermelhada do entardecer começava a invadir a sala através da janela de vidro, banhando as feições do duque com tonalidades calorosas.
— Por que está me olhando desse jeito?
Sob aquela iluminação dramática, os contornos do rosto de Claude pareciam ainda mais definidos, assemelhando-se a uma pintura a óleo clássica. Damian sentiu a garganta secar diante daquela visão hipnótica e engoliu em seco involuntariamente.
“Preciso desviar o olhar”, alertou seu instinto de preservação.
Contudo, aqueles olhos que refletiam a luz dourada do crepúsculo pareciam prendê-lo de forma magnética. Damian umedeceu os lábios ressecados com a ponta da língua.
O olhar de Claude estreitou-se ligeiramente. Seus lábios, até então cerrados em silêncio, esboçaram um movimento como se estivessem prestes a pulsar algo quando…
— Jovem mestre, seja bem-vindo de volta.
A tensão palpável que se formara na sala dissipou-se instantaneamente. Damian sobressaltou-se, recuperando a consciência e desviando o olhar na direção da voz.
Peter surgira no ambiente de forma silenciosa, posicionando-se de forma impecável entre os dois homens.
— Peter.
— Por que o senhor ainda está usando suas vestes de sair, jovem mestre? Deveria se trocar imediatamente.
— Vou fazer isso agora mesmo.
— Muito bem. Prepararei suas roupas de repouso.
A atitude do mordomo era visivelmente diferente do habitual. Embora mantivesse o tom polido que a etiqueta exigia, havia uma frieza quase hostil na forma como ignorava a presença do duque.
— O dia de hoje foi extremamente exaustivo para o jovem mestre, de modo que ele necessita de repouso absoluto. Não concorda, Vossa Graça?
Embora formulada como uma pergunta de cortesia, a declaração de Peter trazia uma mensagem implícita muito clara: era hora de o visitante se retirar.
E Claude, obviamente, compreendeu a intenção perfeitamente.
— Ora, parece que me tornei um visitante inconveniente aqui.
— Longe de mim sugerir tal coisa, Vossa Graça. Minha única preocupação é a saúde do meu jovem mestre. Como ele não poderá repousar adequadamente enquanto houver “visitas” na residência, achei por bem lembrá-lo de seus deveres.
Claude não se deixou abalar pelo uso deliberado do termo “visita” e respondeu com serenidade:
— Eu não sabia que havia visitantes aqui hoje. Compartilho da mesma preocupação quanto à saúde de Damian, de modo que farei questão de receber e entreter os convidados dele em seu lugar para que ele possa descansar. Poderia me conduzir até eles?
Uma ruga profunda de descontentamento marcou a testa do experiente mordomo.
— Eu acreditava que Vossa Graça possuía discernimento suficiente para compreender minhas palavras, mas vejo que me equivoquei.
— De fato, não compreendo o que quer dizer.
— Nesta residência, qualquer pessoa que visite o jovem mestre, independentemente de sua posição ou título, é considerada um visitante. Sendo o jovem mestre o único mestre deste chalé no momento, essa regra se aplica a todos.
— Creio que em nenhuma parte do mundo o noivo do proprietário é tratado como um simples visitante. Portanto, essa regra não se aplica a mim.
Em contraste com a postura relaxada e quase divertida de Claude, Peter sentia o corpo tremer levemente diante do que considerava uma audácia inaceitável daquele que seduzira seu inocente jovem mestre. Os olhares dos dois homens cruzaram-se no ar como lâminas afiadas, carregados de uma tensão silenciosa.
Claude inclinou ligeiramente a cabeça com um sorriso de escárnio sutil, cruzando os braços com uma postura imponente que parecia desafiar a autoridade do mordomo.
“Por que eles estão agindo assim de repente?”
Surpreso com a hostilidade repentina entre o noivo e o mordomo, Damian olhou de um para o outro, confuso. Embora a postura de Peter permanecesse formalmente correta, o brilho em seus olhos era quase selvagem. Era uma atitude que lembrava a de uma criatura feroz protegendo sua cria contra um predador.
Peter sentia a pressão subir diante da audácia de Claude. “Que sujeito petulante! Depois de se aproveitar da inocência do meu jovem mestre, ele ainda tem a desfaçatez de agir com tamanha arrogância!”
Toda a simpatia e a profunda compaixão que Peter nutria pelo duque devido às tragédias passadas da Casa de Enosh haviam se dissipado por completo ao receber a notícia da gravidez pré-nupcial de Damian.
Em sua mente, Claude transformara-se em um conquistador astuto e calculista, que se aproveitara da pureza de Damian em assuntos do coração para atingir seus objetivos. Embora Damian fosse um adulto perfeitamente capaz em outros aspectos da vida, sua total inexperiência romântica o tornara um alvo fácil para as artimanhas de um homem experiente como o duque.
Alheio aos pensamentos dramáticos do mordomo, Damian sentia-se incomodado com o clima hostil na sala.
— Peter, basta. E o senhor também, Vossa Graça. Por favor, retire-se por hoje. Como meu mordomo mencionou, preciso de repouso.
Ao ouvir a ordem de Damian, Peter olhou para o jovem mestre com uma pontada de surpresa que logo se transformou em um sorriso triunfante, endireitando a postura com orgulho.
— Ouviu as palavras do meu mestre, Vossa Graça? Ele deseja repousar. Certamente o noivo não ignoraria um pedido tão razoável, não é mesmo?
Claude limitou-se a dar de ombros com naturalidade diante da provocação.
Sua insistência em ficar para o jantar fora apenas uma provocação leve; ele não tinha a menor intenção de sobrecarregar Damian, cujo cansaço era evidente. No entanto, a constante distância que Damian tentava manter entre eles o deixava impaciente, motivando suas pequenas insistências.
A clara falta de entusiasmo de Damian em relação ao matrimônio era uma fonte constante de ansiedade para Claude. Ele planejava conquistar a confiança do outro gradualmente, e lamentava que as circunstâncias tivessem forçado um cronograma tão apressado.
Enquanto Claude aceitava a situação com um suspiro discreto, Damian ergueu-se do sofá com esforço. Seu corpo clamava por descanso após um dia inteiro de decisões e exames médicos. Ele sentiu uma leve pressão na parte inferior do abdômen, um lembrete físico de seu estado que ele costumava ignorar.
Antes que Damian pudesse dar o primeiro passo, Claude aproximou-se e envolveu seus ombros com um gesto natural de amparo.
— Eu o acompanho até o quarto.
— O visitante não deveria apressar sua partida? Eu mesmo me encarregarei de acompanhar o jovem mestre — interveio Peter, posicionando-se do outro lado de Damian e oferecendo-lhe apoio de forma firme.
Damian viu-se subitamente ladeado pelos dois homens, prestes a ser escoltado até o andar de cima como se necessitasse de custódia.
“O que é isto? Por que Peter está agindo assim de repente, e por que este homem está alimentando essa disputa infantil?”
Profundamente irritado com o absurdo da situação, Damian franziu a testa e declarou com firmeza:
— Eu posso ir para o meu quarto perfeitamente sozinho. Peço que o senhor se retire, Vossa Graça, e que você, Peter, o acompanhe até a saída. Estou exausto e não quero ser perturbado até o horário do jantar.
Com movimentos firmes e deliberados, Damian afastou o braço de Claude de seus ombros e soltou a mão que Peter segurava com fisionomia decidida.
— Jovem mestre… — murmurou Peter com um tom de óbvio descontentamento.
Ignorando a reclamação do mordomo, Damian virou-se para Claude, que mantinha um sorriso sutil nos lábios.
— Agradeço pelo empenho de hoje. Já que o senhor obteve uma licença oficial para cuidar dos preparativos do casamento, presumo que posso deixar todos os detalhes restantes sob sua inteira responsabilidade, não é?
— Você não terá de se preocupar com mais nada. Eu cuidarei de todos os detalhes — garantiu Claude com firmeza.
— Excelente. Tenha uma boa noite, então.
Após uma reverência formal e deliberadamente distante, Damian instruiu Peter a acompanhar o duque até a saída de forma adequada e retirou-se do ambiente.
Ele manteve-se ligeiramente tenso durante a subida das escadas, temendo que Claude tentasse segui-lo, mas não ouviu passos atrás de si. O duque parecia ter aceitado a dispensa de forma pacífica.
Com a perspectiva de um breve alívio nos exaustivos preparativos do casamento, Damian sabia que não veria o noivo nos próximos dias.
Sentindo uma mistura confusa de alívio e uma sutil melancolia que não conseguia definir, Damian entrou em seu quarto. Seu ventre parecia mais pesado do que o habitual, tornando cada passo lento e cansativo.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello