↫─❀ Capítulo 12
Capítulo 12 Parte 1
A luz intensa do meio-dia caía impiedosa sobre a cabeça das pessoas reunidas, confirmando a previsão do Instituto de Meteorologia de que o calor chegaria mais cedo naquele ano.
Era o dia do evento beneficente anual do Orfanato Real. Como de costume, a celebração organizada pela família real contava com a presença em peso dos jovens das famílias nobres mais influentes do reino.
O Orfanato Real surgira originalmente para acolher as crianças que ficaram órfãs devido aos estragos da guerra no passado. Logo após o conflito, a sociedade estava um caos; os custos para a reconstrução do país eram astronômicos, e as crianças, empurradas para as margens da assistência social, acabaram sem teto, vagando pelas ruas. Sem nenhum protetor, elas recorriam a furtos e roubos para sobreviver, o que resultou em uma crise na segurança pública.
Como a capacidade das organizações civis para acolher esses órfãos era limitada, a própria família real interveio, fundando o orfanato para tirar os pequenos infratores das ruas.
Visto que os recursos estatais estavam voltados para a infraestrutura do país, a monarquia passou a financiar a instituição com seu patrimônio privado — uma tradição que se mantinha até os dias de hoje. Se no início o local funcionava quase como um centro de reabilitação para integrar os jovens à força de trabalho, hoje sua natureza era diferente: acolhia e educava crianças que perderam os pais em decorrência de crimes ou cujos genitores biológicos foram destituídos do poder familiar por maus-tratos.
Mesmo após a estabilização da sociedade, a família real optou por não estatizar o local. Por ser mantido com fundos privados da coroa, os investimentos em infraestrutura podiam ser mais ousados, o corpo de profissionais era de primeiríssima linha e o modelo de gestão mantinha um padrão diferenciado.
O orfanato contava com psicólogos infantis plantonistas e instalações que não deixavam a desejar a nenhum internato de elite. Além da grade escolar regular, o complexo oferecia programas de capacitação profissional e instalações de apoio completas. Assim, os jovens recebiam tudo o que era necessário para se tornarem cidadãos plenos e independentes, sem a necessidade de recorrer a suporte externo.
O evento regular também servia como uma ponte entre as crianças da instituição e a aristocracia. Entre as famílias que decidiram apadrinhar um jovem após o evento, algumas colheram uma excelente reputação social. Afinal, sempre havia talentos excepcionais que se destacavam em alguma área.
A pianista Milena Adûr, hoje aclamada internacionalmente, fora criada ali, e a Casa do Conde Paladin tornara-se famosa por ser sua benfeitora. Era uma história bem conhecida na alta sociedade como o Conde Paladin, ao comparecer ao evento anual, reconhecera o gênio musical de Milena e passara a financiá-la desde os seus 8 anos.
Além do show de talentos das crianças, a programação incluía um bazar beneficente organizado pelos próprios padrinhos, além de apresentações de alto nível preparadas pela coroa, como concertos de música clássica e espetáculos de mágica.
Desde as primeiras horas da manhã, uma linha contínua de automóveis cruzava os portões imponentes do orfanato. Nenhuma família nobre que recebesse o convite ousaria faltar a esse compromisso. Era a oportunidade perfeita para ver, reunidos em um só lugar, os membros do topo da pirâmide do poder: a família real.
O estacionamento logo em frente à entrada principal estava apinhado de sedãs de luxo. A diretora Lana Johansen, que comandava o Orfanato Real há dez anos, desdobrava-se de um lado para o outro para cumprimentar individualmente os nobres que desembarcavam.
Como os convidados de maior prestígio ainda não haviam chegado, a atmosfera entre a diretora e os visitantes era descontraída. A postura de Johansen ao lidar com a aristocracia era impecável. Embora estivesse na direção há uma década, ela própria pertencia a uma linhagem nobre, o que fazia com que nenhum dos presentes a tratasse com desdém.
Enquanto trocavam amenidades, os principais tópicos de conversa giravam em torno das atrações do dia e, inevitavelmente, do escândalo que recentemente incendiara a corte e o país inteiro: o ultraje cometido pelo diplomata de Lesia contra o Conde Grave, cujo julgamento fora marcado com uma rapidez sem precedentes.
— Pelos boatos que correm, ele será enviado para a Prisão de Mattel — comentou um nobre.
— Valha-me Deus! A Prisão de Mattel?… Não é aquele lugar famoso pela violência e crueldade? — reagiu uma senhora, chocada.
— Exatamente. Meu primo de segundo grau é secretário de quarta classe no Ministério da Justiça. Segundo ele, a própria família real fez questão de que o sujeito fosse mandado para a região mais hostil possível.
— Aquele canalha merece cada pedaço do castigo divino! Como ousou tocar no nosso Conde Grave?!
As jovens damas reunidas em pequenos grupos assentiram em uníssono, compartilhando da mesma indignação.
— Mas… alguma de vocês sabe o que de fato aconteceu no local?
— É difícil dizer. Os envolvidos diretos estão guardando segredo absoluto, então ninguém sabe os detalhes reais.
— A acusação não foi por insulto? Ouvi dizer que o infeliz de Lesia ultrajou o nosso querido Damian. Dizem que o Príncipe Herdeiro ouviu a ofensa e ficou possesso de raiva.
— Ah, a história que me chegou é um pouco diferente — interveio outra, baixando o tom de voz. — O Príncipe Herdeiro só tomou conhecimento da situação mais tarde. Quem estava no local era o Duque Enosh. Ouvi dizer que o homem de Lesia sofreu ferimentos gravíssimos; o Duque simplesmente não conteve a fúria e o espancou… O julgamento sumário, que deveria ter ocorrido de imediato por se tratar de um crime contra a realeza, só foi adiado porque o criminoso precisou passar por uma cirurgia de emergência.
— Se o próprio Duque Enosh perdeu a compostura a ponto de intervir fisicamente… algo terrível deve ter acontecido.
A expressão das damas anuviou-se ao mesmo tempo. Embora ninguém verbalizasse o pensamento de forma direta, o Conde Grave era um Ômega e o agressor, um Alfa. A palavra “assédio por feromônios” pairava de forma sombria na mente de todas. O fato de o Conde ter permanecido recluso em seus aposentos desde o incidente só dava mais força àquelas suposições.
O Conde Grave era uma figura adorada por toda a nação. Detentor de uma linhagem nobre e impecável, suas ações sempre atraíam os holofotes. Sua fisionomia, uma cópia fiel do Conde de Quilly, ostentava uma beleza que beirava o irreal, e a aura aristocrática que emanava de sua postura despertava uma admiração reverente nas pessoas.
— Será que o Conde comparecerá ao evento de hoje?
— Espero do fundo do coração que ele esteja bem…
— Eu também…
No momento em que as damas soltavam suspiros de preocupação, uma comitiva de limusines começou a cruzar o portão principal do orfanato. Assim que o primeiro veículo parou, a figura que estava no centro de todos os debates desembarcou: o Conde Grave. Todos os olhares convergiram imediatamente para o mesmo ponto.
Vestindo um blazer marrom-claro de corte leve e calças de sarja bege, Damian fez com que as presentes prendessem o fôlego involuntariamente. Suas proporções físicas impecáveis e o rosto ainda mais perfeito ganhavam um destaque vívido sob a luz do sol da primavera. Sob os cabelos negros de textura sedosa, seus traços marcantes eram capazes de desestabilizar qualquer espectador, mesmo à distância.
Ao contrário do que as especulações sugeriam, não havia traço de melancolia ou sofrimento em seu semblante. Pelo contrário, sua pele exibia um viço radiante, tornando-o ainda mais magnético do que o habitual.
— Olhem, ele veio acompanhado pelos Duques de Sabina.
Ao notar que atraía a atenção geral, Damian esboçou um sorriso brando e inclinou a cabeça levemente em um cumprimento sutil para as damas, enquanto o Duque de Sabina e o Conde de Quilly desembarcavam logo em seguida.
A visão das duas maiores belezas do reino lado a lado fez com que a plateia murmurasse em êxtase.
— Que privilégio estar viva para presenciar isso…
— Como eles podem ser tão parecidos?
— Ambos são simplesmente deslumbrantes.
As damas derramavam elogios entusiasmados, incapazes de desviar os olhos da família do Duque de Sabina. Ao lado da estatura imponente e robusta do Duque, as silhuetas esguias e esbeltas dos dois Ômegas pareciam delicadas.
— Pensei que ele viria acompanhado pelo Duque Enosh… — murmurou alguém.
O comentário foi o estopim para que o foco da conversa mudasse imediatamente para os boatos de romance que circulavam sobre Claude e Damian.
— Mas afinal, eles estão mesmo namorando?
— Não houve nenhum pronunciamento oficial, houve? Como a família real permanece em silêncio, imagino que não seja um compromisso formalizado.
— A senhora Merwin diz isso porque nunca os viu juntos. O Duque Enosh, que sempre ostenta aquela expressão rígida e severa, parece derreter completamente quando está perto do Conde Grave. Escrevam o que eu digo: o anúncio de casamento sairá em breve.
— Eles formam um casal perfeito. Pensando bem, para estar à altura do nosso Conde Grave, o pretendente não poderia ser ninguém menos que o Duque, não acham?
— Com certeza, concordo plenamente — as damas fizeram coro à afirmação da Baronesa Loewe.
Por outro lado, alguns tradicionalistas lamentavam em voz baixa:
— Uma pena… Eu tinha esperanças de vê-lo como o próximo Príncipe Consorte…
Enquanto o grupo de senhoras se perdia em cochichos, os jovens solteiros da alta linhagem apressaram-se em direção a Damian para saudá-lo.
— Aliena, da Casa de Barden, apresenta seus cumprimentos a Suas Graças e ao Conde.
— Mia, da Casa de Fenton, saúda os ilustres convidados.
A julgar pelo fluxo incessante de apresentações, parecia que toda a nobreza residente na capital havia comparecido. Assim que as saudações iniciais terminaram, o Duque de Sabina e seu consorte seguiram na companhia de Lana Johansen para vistoriar o local. Damian, deixado para trás, viu-se cercado pelas jovens aristocratas e manteve uma postura cortês e sorridente diante do falatório entusiasmado.
— O senhor está plenamente recuperado, Conde? Ficamos em absoluto estado de choque ao ler as notícias — perguntou Aliena.
— Agradeço a preocupação, senhorita Aliena. Como pode ver, estou perfeitamente bem.
— Meu coração ficou apertado quando soube do ocorrido. Passei dias aflita, temendo que o senhor tivesse sofrido algum ferimento — confidenciou Mia Fenton.
— Não era minha intenção causar inquietação às senhoritas por conta de um contratempo menor. Estou bem, não há motivo para aflição.
— Soube que o julgamento ocorrerá em breve. Espero que determinem a pena de morte! É inadmissível que alguém ouse insultar o senhor!
— Exatamente! Não deve haver leniência para esse tipo de conduta! Quanta petulância daquele homem de Lesia ao desdenhar da nossa realeza!
Diante da indignação fervorosa das jovens, Damian limitou-se a sorrir com uma ponta de constrangimento. Após trocarem mais algumas fofocas, Mia Fenton perguntou, como se tivesse se lembrado de um detalhe importante:
— A propósito, o Duque Enosh não o acompanhou hoje?
Damian, que já planejava encontrar uma desculpa cortês para se retirar, hesitou por um breve instante diante da pergunta. A menção trouxe à sua mente a lembrança de Claude insistindo para que comparecessem juntos ao evento.
— Bem… Não recebi nenhuma comunicação pessoal a esse respeito. Com a permissão das senhoritas, preciso me retirar. Comprometi-me a auxiliar na coordenação das atividades do dia…
Notando o sutil desconforto de Damian, o grupo assentiu com relutância. Com um sorriso polido, ele finalmente conseguiu se desvencilhar do cerco.
Ele tinha consciência de que sua resposta evasiva serviria apenas para alimentar a curiosidade do meio social em meio aos boatos de romance, mas a verdade era que ele não tinha outra justificativa a dar. Damian vinha evitando o Alfa deliberadamente desde o dia da discussão.
O motivo de esquivar-se de Claude — que, com uma persistência quase previsível, passava no chalé todas as manhãs e tardes — era simples: ele não sabia como agir na presença dele. A mera lembrança do homem fazia uma súbita irritação subir pelo seu peito, mas a ausência prolongada de sua figura também lhe causava uma estranha ansiedade.
Peter ficara encarregado de receber os imensos arranjos de flores e os presentes que Claude enviava como pedido de desculpas. Dentro de uma das caixas, Damian encontrara uma muda de roupa acompanhada por um cartão:
> *Sei que um gesto simples não será suficiente para dissipar sua indignação, mas peço desculpas por ter me exaltado e elevado o tom de voz naquele dia.*
> *Espero que este presente seja do seu agrado. Se aceitar minhas desculpas, peço que use estas vestes no evento do orfanato.*
> *— Com sinceridade.*
Damian passara um bom tempo encarando o cartão, imerso em reflexões. Ele reconhecia que também perdera o controle e que, de certa forma, agira de maneira provocativa naquela sacada.
Após hesitar, optara por vestir apenas o blazer enviado por Claude. Usar o conjunto completo pareceria uma concessão óbvia demais aos desejos do Alfa, e seu orgulho não permitia tanto.
— Damian!
A voz familiar interrompeu seus devaneios. Ao virar-se, viu Daniel se aproximar, passando o braço pelo seu ombro com intimidade.
— Você parece ótimo. Pelo alvoroço que a imprensa fez, pensei que a situação estivesse catastrófica.
— Bem…
— Vamos, desembuche. Você não deixou aquele infeliz sair ileso, deixou?
— Claro que não. As aulas de defesa pessoal finalmente serviram para alguma coisa.
— Eu sabia! Você nunca foi de aceitar desaforo. Mas me diga, o que deu naquele imbecil para agir daquela forma?
— Ele presumiu que, por eu ser um Ômega, poderia me subjugar como bem entendesse.
— Ele esqueceu que, antes de ser um Ômega, você é um membro da família real? Não sei como alguém com um raciocínio tão limitado conseguiu um cargo na diplomacia.
Balançando a cabeça em desaprovação, Daniel resmungou algo sobre a estupidez do sujeito e, em seguida, franziu o cenho, intrigado:
— A propósito… você está procurando alguém?
— O quê?
Damian não havia se dado conta de que seus olhos continuavam a varrer os arredores até Daniel apontar o fato.
— Você está olhando em volta desde que cheguei. Marcou de se encontrar com alguém aqui? Quem é? Com todas essas notícias recentes envolvendo seu nome e o do Duque Enosh… você está mesmo em um relacionamento com ele?
— Claro que não. Não viaja.
— Sério? Como vi algumas notas sobre vocês saindo juntos, presumi que fosse o caso…
Daniel deu de ombros, minimizando o assunto, mas Damian sentiu os músculos dos ombros enrijecerem pelo receio de que o amigo estivesse desconfiando de algo mais sério.
— Mudando de assunto, soube que o clube vai organizar um amistoso contra a equipe de Rijeka. Você vai jogar, não vai? Imagino que já esteja totalmente recuperado.
Diante da pergunta feita em tom natural, Damian desviou o olhar sutilmente.
— Desta vez não poderei participar.
— Como assim? Se você ficar de fora, nossa linha de ataque vai ficar com um desfalque enorme.
— Surgiram algumas questões pessoais e precisarei me afastar do polo por um tempo. Avise o capitão por mim, por favor.
Antes que Daniel pudesse insistir em busca de explicações, Damian despediu-se e apressou o passo, cruzando o pátio principal em direção ao jardim situado atrás do edifício principal.
Por já ter frequentado o evento do orfanato em anos anteriores, ele conhecia bem a disposição do lugar. O complexo consistia em quatro edificações principais espalhadas por uma vasta propriedade. O prédio visível logo na entrada era a escola, uma estrutura de arquitetura clássica erguida nos primeiros anos de fundação da instituição. Apesar da fachada antiga, o interior fora totalmente modernizado e contava com uma infraestrutura de ponta.
Em frente à escola, havia uma ampla área de estacionamento e um campo de jogos para as crianças; nos fundos, estendia-se um jardim bem cuidado, onde as barracas do bazar beneficente estavam sendo montadas. Jovens do ensino médio, vestindo o uniforme da instituição, auxiliavam na organização das estruturas e na disposição das mercadorias.
Como os participantes do bazar pertenciam à alta aristocracia, os itens expostos eram de puro luxo: desde porcelanas finas e conjuntos de jantar importados até peças de grife jamais utilizadas. Havia inclusive uma barraca que exibia móveis clássicos de alto valor, doados por um nobre que planejava reformular a decoração de sua residência.
“A cada ano que passa, as doações parecem mais extravagantes…”, pensou Damian, correndo os olhos pelos estandes com uma ponta de desdém. Aquilo ali, sob o pretexto de caridade, funcionava em grande parte como uma vitrine de ostentação social — uma oportunidade para as famílias exibirem sua solidez financeira ao abrir mão de bens caros sem qualquer hesitação. Os compradores, por sua vez, gastavam fortunas não pela utilidade dos objetos, mas pelo status atrelado ao valor da doação.
Enquanto caminhava entre as barracas, Damian notou que atraía os olhares das madames envolvidas na organização. Ele apressou o passo, retribuindo os cumprimentos com acenos discretos de cabeça. Se fosse interrompido ali, passaria a próxima meia hora ouvindo discursos de compaixão sobre o incidente. Os nobres de meia-idade que o conheciam desde a infância tinham uma forte tendência a tratá-lo com um protecionismo quase paternal.
Ao avistar a Condessa Barden vindo em sua direção, Damian mudou de curso estrategicamente, buscando o refúgio das áreas sombreadas do jardim para cruzar a propriedade.
“Onde será que meu pai se meteu?”
Como o Príncipe Herdeiro estava sobrecarregado com os preparativos oficiais, o Duque de Sabina havia chegado mais cedo para coordenar a supervisão geral do evento. Seus pais deveriam estar em algum ponto daquele enorme complexo, mas era impossível localizá-los em meio à multidão.
Cumprimentando os conhecidos que cruzavam seu caminho com a devida polidez, Damian seguiu em direção à segunda edificação, onde ficava o auditório.
Ao se aproximar da entrada, o som de uma risada infantil chamou sua atenção. Ele virou o rosto na direção do ruído e estacou no mesmo instante.
Claude estava ali.
E não estava sozinho. Uma menina de aproximadamente 4 anos de idade estava aninhada em seus braços, rindo com entusiasmo. A garotinha parecia se divertir imensamente, inteiramente acolhida pelo porte físico imponente do Alfa, agitando as pernas suspensas enquanto soltava gargalhadas.
Damian fixou o olhar na cena. A expressão de Claude ao inclinar a cabeça em direção à criança emanava uma doçura genuína. Seu lábio, que costumava se curvar em sorrisos sarcásticos, exibia agora um semblante leve e sincero.
Aquele sutil tremor no peito voltou a se manifestar. Damian achou ridículo sentir o coração oscilar por tão pouco, mas viu-se incapaz de conter a onda de sentimentos que o invadiu.
Ao piscar lentamente, ele notou a presença de uma jovem — que aparentava ser uma das educadoras da instituição — de pé ao lado deles. Um sentimento agudo e repentino atravessou seu íntimo, desestabilizando sua compostura.
“Sobre o que estão conversando? Eles já se conheciam? Parecem ter muita intimidade.”
Claude segurava a menina com o braço direito com uma naturalidade impressionante, inclinando-se para cochichar algo que fazia a criança rir ainda mais. Damian não conseguia desviar os olhos.
*Tum.*
O batimento cardíaco, que antes era apenas uma ondulação agradável, transformou-se em um compasso violento e pesado que começou a ecoar em seus ouvidos. Aquela imagem de afeição natural fixou-se em sua mente como uma pintura perfeita, provocando uma leve contração em seu ventre. Por um instante, uma forte urgência de intervir e afastar a mulher que sorria timidamente diante do Alfa subiu por sua garganta.
Damian sobressaltou-se ao perceber a intensidade e o teor possessivo daquela reação. A mulher era apenas uma funcionária do orfanato, e a menina, uma das acolhidas pela instituição. Ainda assim, ver os três reunidos provocava uma queimação incômoda em seu peito, uma torrente emocional difícl de controlar.
“Preciso sair daqui.”
Ele tinha consciência de que deveria virar as costas imediatamente, mas seus pés pareciam colados ao chão. Damian não tinha ideia de qual era a expressão em seu rosto naquele momento, mas sabia que não podia permitir que Claude o flagrasse naquela condição vulnerável.
Seu coração martelava com tanta força que parecia prestes a saltar pela boca, espalhando uma vibração intensa que alcançava cada terminação nervosa de seu corpo. O reflexo físico daquela agitação manifestou-se em um calor súbito que subiu pelas suas bochechas.
Ele não queria encarar o Alfa estando naquele estado; sentia que, se o fizesse, perderia totalmente o controle sobre suas próprias emoções.
Inspirando profundamente, Damian começou a girar o corpo para se retirar, quando…
— Damian.
O timbre familiar alcançou seus ouvidos. O tom rouco e marcante fez o Ômega paralisar imediatamente. Ao se virar devagar, viu que Claude já havia entregado a menina aos cuidados da educadora e caminhava em sua direção, mantendo o olhar fixo nele.
Os traços firmes e bem definidos da mandíbula de Claude, a linha proeminente de sua testa e a profundidade de seus olhos dourados prenderam a atenção de Damian. Era uma fisionomia distante de qualquer padrão de delicadeza, mas dotada de uma masculinidade marcante que parecia ter se gravado permanentemente em sua retina.
Nesse instante, Damian deu-se conta de que algo em seu íntimo estava passando por uma transformação irreversível. Teve a nítida impressão de que, bastaria um único passo adiante, e um mundo completamente novo e desconhecido se abriria diante de si.
— Pelo que me lembro, enviei o conjunto completo de alfaiataria. Vestir apenas o blazer significa que minhas desculpas foram aceitas apenas pela metade? — perguntou Claude ao se aproximar, erguendo uma das sobrancelhas com um leve inclinar de cabeça. Seus olhos dourados refletiam inteiramente a imagem do Ômega. — Por que está com essa expressão? Parece que acabou de ver um fantasma.
Claude estendeu a mão, tocando suavemente a bochecha de Damian. Sem tempo para disfarçar, o Ômega sentiu o rosto ruborizar intensamente sob o toque.
— Hum? Você parece estar com febre.
A razão dizia que ele deveria se afastar daquela mão que media sua temperatura com as costas dos dedos, mas seu corpo não respondeu ao comando. Damian limitou-se a prender a respiração, mantendo os olhos bem abertos.
— Damian. O que aconteceu para deixá-lo tão disperso? Houve algum problema?
Incapaz de desviar o olhar ou sequer piscar, Damian continuou a encará-lo, totalmente rendido à preocupação evidente nos olhos do Alfa. Algo havia mudado definitivamente dentro de si; aquele sentimento que ele tentava ignorar a todo custo agora reivindicava seu espaço com uma clareza inquestionável.
— Damian? É sério, o que houve? Por acaso alguém descobriu sobre a sua gravidez?…
A mudança drástica na expressão de Claude, que assumiu um tom tenso e severo devido ao mal-entendido, fez com que Damian finalmente recuperasse a lucidez. Isolando a confusão que reinava em seu peito, ele respondeu mantendo a voz firme e natural:
— Não seja ridículo. Se alguém tivesse descoberto, acha que o ambiente estaria calmo assim?
— Seja lá o que for, você está pálido. Não está sentindo tontura? E o estômago? O relatório do seu médico garantia que seu estado de saúde estava estável…
— …Por que você andou ligando para o meu médico?
— Ora, porque eu estava preocupado com você, obviamente.
Ao ver Damian afastar a mão que insistia em tocar sua bochecha, Claude mudou de tática: segurou-o pelo ombro com firmeza e o conduziu em direção à sombra das árvores. Entorpecido pela onda de sentimentos que o dominava, o Ômega não ofereceu resistência.
— Sente-se aqui primeiro. Você passou tempo demais exposto ao sol forte? Quer apostar que é um princípio de insolação?
Claude o acomodou em um banco sob a copa de uma árvore e continuou a testar a temperatura de sua testa e bochechas com as costas da mão, franzindo o cenho repetidas vezes com visível preocupação.
— Isso não está me agradando. Vou chamar alguém para…
— Pare com isso. Eu já disse que estou bem.
— Damian.
— É sério, não é nada.
Ainda tentando organizar o turbilhão em sua mente e incomodado com a expressão excessivamente grave do Alfa, Damian afastou a mão dele e mudou de assunto:
— Quem era aquela menina?
— A garotinha? Ah… Uma das acolhidas do orfanato, claro. Soube que ela chegou recentemente após perder os pais em um acidente. Não restaram parentes para assumir a guarda dela.
— E a mulher com quem você conversava? Já se conheciam antes? Pareciam bem íntimos.
Damian trouxe o assunto à tona antes que o Alfa pudesse notar seu estado de confusão, embora fosse uma pergunta totalmente desnecessária.
Claude franziu os supercílios, intrigado com o teor do questionamento, mas um sorriso de canto logo surgiu em seus lábios.
— Foi a primeira vez que vi aquela educadora na vida. Apenas trocamos algumas palavras por causa da situação da menina… É isso o que o dexa curioso? Ou… por acaso seria ciúme?
— Lá vem você com suas conclusões absurdas. Não é ciúme.
— Entendo. Não é ciúme… Mas você não poderia simplesmente fingir que é, só para me agradar?
— Esse seu hábito de distorcer minhas palavras e tirar conclusões por conta própria é péssimo.
— Qual o problema? No fim das contas, as pessoas só escutam o que querem ouvir mesmo.
A resposta descarada e segura de Claude fez Damian soltar uma risada curta. A tensão desconhecida que o asfixiava dissipou-se no mesmo instante.
— Que alívio. Finalmente sua fisionomia voltou ao normal.
O sorriso descontraído modificou por completo a expressão habitualmente severa do Alfa. O semicerrar suave de seus olhos e a descontração em seus lábios provocaram uma sensação agradável no estômago de Damian. O brilho dos olhos dourados de Claude parecia reter a própria intensidade da luz solar daquele dia.
Damian baixou o olhar, sentindo uma vibração reconfortante espalhar-se por seu corpo. Um rubor suave tingiu suas bochechas claras, acompanhado por um formigamento que alcançou a ponta de seus dedos, tornando a situação quase insustentável. Ele levantou-se abruptamente do banco.
— Damian?
— Preciso ir. Prometi que ajudaria meus pais com a organização.
Embora tentasse manter uma expressão fria e indiferente, a pele de seu pescoço e bochechas exibia um tom rosado evidente. No momento em que tentou se afastar para fugir da situação, Claude segurou-o pelo braço. O toque fez o Ômega sobressaltar-se como se tivesse se queimado, afastando-se com um movimento brusco. Percebendo o exagero de sua reação, ele encarou o Alfa com os olhos arregalados.
Após uma breve oscilação em suas pupilas, Damian recuperou a compostura e ergueu o queixo, adotando uma postura defensiva:
— Será que podemos conversar mais tarde? Meu pai está me esperando.
— Ficarei fora da capital por alguns dias a negócios. Assim que eu retornar, há algo de extrema importância que preciso lhe dizer.
O semblante de Claude ao encará-lo era de absoluta seriedade.
— E não pode me dizer agora?
— É um assunto que requer certa preparação, então temo que não seja possível no momento. Mas é algo crucial.
“O que seria? Por que toda essa gravidade? Isso só me deixa mais ansioso…”, pensou Damian.
— Você me concederia um momento da sua atenção quando eu voltar?
A fisionomia do Alfa ao aguardar a resposta revelava uma rara tensão. Era a primeira vez que Damian o via demonstrar aquela vulnerabilidade. A luz filtrada pelas folhas projetava sombras marcantes em suas feições, acentuando a profundidade de seu olhar sob as sobrancelhas fortes. Damian viu o pomo de adão do Alfa se mover quando ele engoliu em seco.
Hipnotizado pela cena, Damian fixou o olhar em seus lábios, sentindo a boca secar e uma súbita sede tomar conta de si.
— Damian? Qual é a sua resposta?
— …Tudo bem, como queira — respondeu, percebendo tardiamente que havia se deixado distrair pela presença do homem. — Não é nada de tão extraordinário. Entre em contato quando retornar das suas obrigações. Com sua licença…
Incapaz de sustentar o olhar diretamente, Damian baixou os olhos e virou-se para sair.
— Não se preocupe com o que aconteceu aqui. Eu pessoalmente cuidarei para que aquelas duas senhoritas guardem segredo.
Lembrando-se do flagrante que havia esquecido por um instante, Damian limitou-se a assentir com a cabeça. À medida que se afastava, o peso do olhar do Alfa fixo em suas costas provocava um arrepio sutil que subia por sua espinha.
─── ✧・゚: * ✧・゚:* ───
Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello