↫─❀ Capítulo 11.4
Capítulo 11 Parte 4
Claude revisou os documentos relacionados ao próximo treinamento militar, fez algumas correções necessárias e, em seguida, massageou as têmporas ao sentir o peso do cansaço acumulado. Do lado de fora da janela, o pôr do sol tingia o interior sombrio do escritório com tons avermelhados.
Ele se recostou confortavelmente na cadeira de couro, feita sob medida para sua estatura imponente, e observou o sol poente por alguns instantes.
Ao apoiar as costas, a camisa sob o paletó esticou-se firmemente contra seu peito. Claude puxou o nó da gravata com o dedo, afrouxando-a de uma só vez. Retirou as abotoaduras dos punhos, jogando-as de qualquer jeito sobre a mesa, e dobrou as mangas. Os músculos de seus antebraços se destacaram nitidamente quando ele segurou os braços da cadeira por um momento, antes de relaxarem.
Aquele era um dia em que estava sendo particularmente difícil se concentrar no trabalho.
Seu olhar fixo na janela parecia mais sombrio do que o habitual. Seus dedos grossos tamborilavam ritmicamente no braço da cadeira enquanto ele se perdia em pensamentos, até que o som de batidas na porta o trouxe de volta.
— Excelência, é Holstein.
— Entre.
Com a permissão de Claude, Holstein entrou e, ao notar a penumbra do ambiente, tratou de acender as luzes primeiro.
— O senhor estava no escuro até agora?
— Relatório primeiro.
— Ivanov será indiciado em breve. Como Vossa Alteza está extremamente furioso com o ocorrido, o julgamento deve ser agendado para o prazo mais curto possível, a menos que haja algum imprevisto.
— E as investigações?
— A promotoria prefere ouvir o depoimento da vítima pessoalmente. Claro, eles ressaltaram que, se o Conde preferir recusar, a declaração poderá ser substituída por um documento por escrito. Devido à pressão da opinião pública e às ordens diretas de Vossa Alteza, eles parecem determinados a resolver tudo a passos largos.
— Que depoimento há para ser dado? Eu estava no local e presenciei a situação pessoalmente. O Príncipe Herdeiro também.
— Mas eles ainda não sabem os detalhes exatos de como a situação chegou àquele ponto. Mesmo tratando-se do crime de insulto à realeza, o indiciamento exige o cumprimento de certos trâmites. Há rumores de que o tribunal planeja aplicar uma pena de aproximadamente dez anos.
Apesar de não ter havido maiores danos físicos, Claude, que vira Damian trêmulo e sem forças naquele dia, não estava nem um pouco satisfeito com o andamento burocrático das coisas.
Sua fúria não cedia facilmente. Desde aquele dia, Claude sentia impulsos frequentes de ir até as celas da guarda real e acabar com a vida daquele infeliz com as próprias mãos. O instinto de infligir uma dor ainda maior àquele que ousara ferir seu Ômega o incitava sem tréguas. No entanto, ele não podia fazer justiça pelas próprias mãos de forma leviana; precisava aguardar o momento certo em silêncio.
— O que o Conde disse? Ele pretende comparecer para testemunhar?
— Soube que ele já consultou o advogado. Embora tenham recomendado que ele não se expusesse publicamente, sabemos que o Conde não é do tipo que escuta conselhos facilmente.
— Ele realmente tem uma personalidade obstinada.
— Dez anos… Parece pouco para mim.
— Se considerarmos que o crime de insulto geralmente resulta em apenas uma multa ou, no máximo, um ano de prisão, eles estão aplicando a pena máxima possível. Claro, se o indiciássemos por importunação sexual, a pena seria maior, mas nem o Conde e nem Vossa Excelência desejam expor esse fato. Além disso, aqui estão os resultados da investigação sobre o histórico de Yuri Ivanov.
Claude pegou os papéis que o assessor lhe estendeu e, ao terminar de ler as informações, um sorriso de puro desdém surgiu em seus lábios.
— O segundo filho de uma alta autoridade de Lesia… Compreensível. Ele agiu com tanta arrogância porque confiava na influência da família.
— Segundo os levantamentos, trata-se de uma linhagem que vem gerando ministros de Estado há gerações. A nomeação dele como diplomata também foi um arranjo da própria família.
— Agora faz sentido terem insistido tanto no pedido de extradição.
— Sim. Eles só recuaram quando Vossa Alteza jogou pesado.
— Se o tivéssemos enviado de volta para Lesia, ele jamais veria o interior de uma cela. Inventariam qualquer desculpa para libertá-lo. Certamente foi com essa intenção que pediram a extradição.
— Como o regime monárquico foi abolido há muito tempo em Lesia, acredito que eles não compreendam o peso e o simbolismo da família real. Por isso ele ousou tratar o Conde Grave da mesma forma que trataria um Ômega em seu próprio país.
Uma chama silenciosa acendeu-se no fundo dos olhos escuros de Claude. Ele continuou a tamborilar os dedos sobre a mesa, imerso em seus pensamentos por alguns instantes.
— Algo o desagrada, Excelência?
— Ele cumprirá a pena na Prisão de Lepe, perto da capital, correto?
— Bem… presumo que sim. O senhor tem outro lugar em mente?
Percebendo a expressão sombria do Duque Enosh, Holstein retificou sua postura, ficando alerta. O Duque sempre fora um homem racional, de forte senso de responsabilidade, justo e ponderado no trato com as pessoas. No entanto, quando o assunto envolvia o Conde Grave, o Duque costumava — na verdade, com bastante frequência — agir de forma totalmente atípica.
Só para ilustrar, no dia do incidente, Yuri Ivanov teve a maçã do rosto afundada e o braço completamente fraturado. O estado do agressor era tão grave que ele precisou passar por uma cirurgia de emergência sob sigilo por ordem do Príncipe Herdeiro. Se o governo de Lesia soubesse das reais condições físicas em que o diplomata se encontrava, o desfecho político certamente teria sido outro.
— Transfira-o para a Prisão de Mattel.
— Prisão de Mattel?
A Prisão de Mattel ficava na região de Quint, o ponto mais distante da capital, e era destinada principalmente a criminosos de alta periculosidade. Os detentos enviados para lá cumpriam penas de longa duração sob forte esquema de segurança e vigilância rigorosa; era um lugar conhecido por abrigar indivíduos sem qualquer possibilidade de reinserção social. Por ser populada por criminosos cruéis e autores de crimes hediondos, era considerada o pior local de trabalho entre os agentes penitenciários.
Claude podia não ser capaz de executar sua vingança com as próprias mãos, mas enviar o homem para o inferno estava perfeitamente ao seu alcance. Um estrangeiro, condenado por insultar a realeza, conseguiria sobreviver intacto naquele lugar?
— Transmitirei a recomendação à promotoria, mas não posso garantir que aceitem. Afinal, é um presídio de segurança máxima voltado para a população carcerária mais perigosa.
— Temos influência suficiente para exigir isso. Eu mesmo falarei com o Príncipe Herdeiro.
Claude tinha certeza de que Ilias concordaria com a sugestão. Afinal, se pudesse, o próprio Príncipe também teria feito justiça com as próprias mãos.
— Sim, senhor. Entregarei a instrução nesses termos.
Após anotar detalhadamente as ordens de Claude, Holstein passou para o assunto seguinte:
— E como devemos proceder em relação a isto?
— O que é isso?
— Um portal de notícias focado em fofocas da internet. Suspeito que a nota publicada aqui seja sobre vocês dois.
Claude pegou o tablet. A matéria exibida por Holstein continha apenas codinomes e iniciais, mas os fatos narrados eram bastante específicos.
『O influente Ômega “A” e o Alfa “B” de Ronen foram vistos deixando o local de um concerto de gala na primavera passada para seguirem juntos em direção a um hotel. Embora ambos sejam oficialmente solteiros e rumores de um envolvimento tenham surgido recentemente, nenhuma das partes se pronunciou.
Confirmou-se que o casal deixou o hotel na manhã seguinte em horários separados. Espera-se que a revelação desse encontro secreto cause grande repercussão, e o público aguarda para ver quando os dois assumirão o relacionamento.』
Abaixo dessa nota, seguiam-se outras fofocas sobre o temperamento difícil de uma celebridade e o caso extraconjugal entre a esposa de um empresário e seu guarda-costas.
Apesar do uso de iniciais, qualquer pessoa familiarizada com os bastidores da alta sociedade conseguiria deduzir os envolvidos. De fato, a seção de comentários já estava repleta de especulações mencionando os nomes de Damian e Claude, embora a maioria dos internautas criticasse a falta de credibilidade do portal.
— Fomos os únicos a virar alvo de boatos de romance recentemente?
— Não saberia dizer com certeza, Excelência. Não acompanho todos os portais de fofocas. O que deseja fazer? Como a matéria usa apenas iniciais, fica difícil tomar medidas legais diretas.
Fora o próprio Holstein quem reservara o quarto de hotel na ocasião. Claude, que assistia ao concerto, ligara de repente exigindo uma reserva imediata, obrigando o assessor a resolver tudo às pressas. Desde então, ele vinha monitorando a rede por precaução até se deparar com a nota.
— Não há como responder a esse tipo de publicação. Deixe estar. No entanto, se uma nota dessas veio a público, significa que há alguém nos seguindo. Reforce a verificação da nossa segurança.
Claude não se importava com os boatos de um relacionamento, mas não toleraria ver sua privacidade exposta dessa forma.
— O senhor não pretende fazer um anúncio oficial? Se continuarem a passar tempo juntos, eventualmente a notícia sairá em canais oficiais de grande circulação, e não apenas nesses tabloides de terceira categoria.
— Além do mais, o Conde Grave não está em condições de lidar com esse tipo de estresse agora… — Holstein diminuiu o tom de voz timidamente, observando a reação do Duque.
— Não sei quando será o momento certo. Gostaria que Damian tomasse uma decisão logo, mas isso não depende da minha vontade. De qualquer forma, investigue os passos dos paparazzi que andam atrás dele. Tenho a impressão de que não se trata de apenas um ou dois.
— Entendido, senhor.
Holstein apresentou mais alguns memorandos de rotina antes de se retirar do escritório. A essa altura, a noite já havia caído completamente do lado de fora.
Desde a briga daquele dia, Damian vinha se recusando a recebê-lo. Mesmo que Claude fizesse questão de ir pessoalmente ao chalé todas as manhãs, o mordomo sempre o recebia na porta com a mesma resposta educada de que o jovem mestre estava descansando, impedindo-o de vê-lo. O único momento em que se viram brevemente foi durante a reunião para discutir o incidente com o diplomata, mas a presença do Príncipe Herdeiro e dos Duques de Sabina impossibilitou qualquer conversa de cunho pessoal.
Graças aos relatórios diários que recebia sobre a rotina de Damian, Claude sabia que ele não estava doente. Sabia que os Duques de Sabina haviam passado duas horas no chalé há alguns dias e que o médico pessoal da família estivera lá para entregar os resultados dos exames. Porém, a ausência de contato direto por tantos dias o deixava cada vez mais ansioso.
Claude não conseguia compreender o real motivo de tanta irritação por parte de Damian. Ao seu ver, o Ômega simplesmente insistia em focar na atração carnal, tentando anular qualquer outro sentimento entre os dois.
Um suspiro pesado escapou de seus lábios, dissipando-se no silêncio do gabinete.
Desde o episódio na sacada, a vontade de Claude era manter Damian sob sua proteção constante, sem desgrudar dele por um segundo. Ele chegou a se arrepender de não ter sido mais incisivo ao propor o casamento. No entanto, seu Ômega era obstinado; se pressionado à força, sua tendência natural seria recuar e resistir. Forçá-lo a um casamento intempestivo poderia significar perdê-lo para sempre.
No dia do concerto, Claude sentira uma conexão magnética que ia além das palavras. Ninguém jamais o fizera experimentar aquela intensidade de sentimentos. E foi por isso que ele teve certeza do quanto Damian era vital para ele — era uma certeza que operava em nível instintivo.
Na presença de Damian, o mundo ganhava cores e contornos mais nítidos. O entusiasmo, a alegria, o espanto e a ternura travavam uma verdadeira batalha dentro de seu peito. Um sentimento de posse que ele sequer sabia existir passara a dominar seus pensamentos com frequência.
Quando Damian gritara que o que existia entre eles era apenas desejo carnal, Claude sentira o impulso primitivo de tomá-lo nos braços e provar, através do próprio corpo, que havia muito mais ali. Se não fosse pelo restinho de racionalidade que lhe restava, ele talvez tivesse cruzado essa linha. Claude nunca sentira tanta raiva em toda a sua vida, e a intensidade daquela torrente de emoções o assustara.
Ele se pegara pensando se deveria morder aqueles lábios que só proferiam palavras provocativas, ou se deveria possuí-lo até que Damian não conseguisse pensar em mais nada além do prazer. Fora a primeira vez que pensamentos tão brutais e possessivos nublaram sua mente de forma tão avassaladora.
A verdade era que Claude estava se controlando ao máximo. Seu desejo mais profundo era trancar Damian em um lugar onde ele só pudesse olhar para ele, despejando toda aquela obsessão que crescia de forma assustadora. Ele percebia a cada instante o quanto esse desejo irracional o dominava.
“Talvez isso seja o que aquele homem chamava de amor”, pensou, uma constatação que ele costumava desprezar.
Seu pai, apesar de ter traído a esposa com Anna, passara um longo período trancado no quarto da falecida duquesa após o funeral, recusando-se a sair. Antes de os escândalos da traição estourarem na imprensa, Claude ouvira o pranto do pai vindo daquele quarto. Na época, considerara a atitude uma hipocrisia repugnante, incapaz de entender o comportamento dele. Mas hoje ele compreendia: à sua própria maneira torta e errada, o pai realmente amara a duquesa.
Se dependesse de sua vontade, Claude anunciaria ao mundo naquele exato momento que Damian carregava um filho seu. O instinto de mobilizar todas as suas influências para cercar o Ômega e obrigá-lo a aceitar o casamento o testava constantemente.
Claude abriu a gaveta superior de sua escrivaninha.
Retirou dali uma pequena caixa de veludo roxo e, ao abri-la, contemplou o brilho perfeito de um anel de diamante. A joia pertencia à sua mãe, mas fora reformulada para o design masculino.
O aro de platina espesso trazia um grande diamante centralizado, ladeado por duas linhas entrelaçadas em formato de corda que envolviam toda a extensão da peça. Em cada intersecção das cordas, pequenos diamantes lapidados acrescentavam um toque extra de sofisticação. Embora o design fosse consideravelmente mais ornamentado do que a maioria das joias masculinas tradicionais, Claude achava que a peça se adequaria perfeitamente à beleza marcante de Damian.
Um sorriso contido surgiu em seus lábios enquanto ele acariciava o contorno do anel com o polegar. Ele vinha carregando a joia no bolso do paletó todos os dias ao sair do trabalho, mas ainda não encontrara a oportunidade ideal para entregá-la.
Com o semblante sério, ele voltou a analisar o documento que detalhava a agenda pública de Damian para as próximas semanas. Em breve, haveria o evento beneficente anual do orfanato, e a presença de Damian estava confirmada.
“Essa será a oportunidade perfeita.”
Seu olhar brilhou por um instante, focado e determinado, como o de um predador que acaba de avistar sua presa.
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Fim do Volume 11
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello