↫─❀ Capítulo 12.2
Capítulo 12 Parte 2
— …Desculpe. …Damian…
O chamado suave fez Damian despertar abruptamente de seus devaneios, deparando-se com olhos de um azul gélido e expressivo que o observavam com atenção.
— Peço desculpas. O que o senhor dizia?
— Onde você está com a cabeça? Não está se sentindo bem?
— Você está com dor? Onde? Está tudo bem com você?
A reação ao tom calmo de Erich foi imediata. Ele levantou-se num salto, envolvendo o rosto de Damian com suas mãos grandes e robustas de forma um tanto rude, enquanto arregalava os olhos para inspecionar minuciosamente o semblante do filho.
Diante do hábito de Erich de agir pelo impulso físico antes de pensar, Joshua o repreendeu com um suspiro:
— Ele vai acabar com mais dor por causa da sua brutalidade. Solte-o.
— Ah, desculpe… — resmungou Erich, sem jeito, afastando as mãos. Ainda assim, seus olhos continuavam fixos em Damian, cheios de preocupação. Como Damian era o único filho do casal, a segurança e o bem-estar do jovem eram sempre o foco de alerta absoluto para os Duques de Sabina.
— É apenas um pouco de cansaço. Não estou doente.
— Entendo… A julgar pelo seu bom apetite, parece que os enjoos matinais finalmente cessaram.
— Sim, estou bem melhor do que antes.
Eles estavam desfrutando de um jantar em família após o término das atividades do evento regular do orfanato. Damian passara os últimos dias apreensivo, temendo que o flagrante das nobres resultasse em fofocas na imprensa ou artigos de escândalo, mas, para seu alívio, nenhuma nota havia saído. Ele não fazia ideia de que tipo de argumento Claude utilizara para persuadi-las; o fato era que, enquanto assistiam às apresentações teatrais das crianças do orfanato, elas limitaram-se a lançar olhares furtivos e corados na direção deles de tempos em tempos.
— Você parece carregar alguma preocupação — observou Joshua.
Damian, que estava focado em esmagar uma sobremesa de frutas cítricas com o garfo, retesou a expressão involuntariamente.
“Será que estava transparecendo tanto assim?”
Nos últimos dias, os acontecimentos no orfanato vinham orbitando sua mente de tal forma que era difícil se concentrar em qualquer outra coisa. “Há algo de extrema importância que preciso lhe dizer”, dissera o Alfa. Damian arrependia-se tardiamente de não ter insistido por detalhes naquele momento, tudo por conta de sua urgência em fugir da presença dele.
Além disso, Claude, que antes frequentava o chalé quase diariamente a ponto de ser inconveniente, interrompera abruptamente suas visitas sob o pretexto de negócios. É claro que, embora o próprio Alfa não aparecesse, ele não deixava de enviar fofos agrados, petiscos e presentes por meio de seus subordinados, sem falhar um único dia.
Ao olhar para os cartões com mensagens que diziam “Estou sobrecarregado com os negócios e não poderei passar aí, por favor não me interprete mal”, Damian sentia uma irritação inexplicável borbulhar em seu peito ultimamente.
“Ele disse que ficaria fora por alguns dias… será que foi apenas uma desculpa para não vir?”
“Eu sei perfeitamente que ele ainda está na capital, então por que diz que não pode vir?”
Quando Claude aparecia no chalé todos os dias, Damian o achava um estorvo; agora que ele havia sumido, uma sensação estranha de vazio e ressentimento o dominava, fazendo seu humor oscilar várias vezes ao dia.
“A expressão dele estava tão séria… Será que ele vai propor que nos separemos?”
Enquanto esses pensamentos cruzavam sua mente, o desconforto e a irritação cresciam. Ele se pegava encarando o telefone dezenas de vezes ao dia, prestes a discar o número do Alfa, apenas para recuar no último segundo.
— Pensando bem… você e Claude não têm se visto ultimamente, não é?
— …Não é como se fôssemos obrigados a nos ver sempre. Além disso, ele está ocupado.
— O quê?! Aquele moleque audacioso! Usar o trabalho como desculpa para negligenciar meu filho? Eu não esperava isso dele, que sujeito deplorável!
Ignorando o protesto inflamado de Erich, Joshua observava atentamente as reações do filho.
— Vocês brigaram? Ou conversaram sobre algo mais sério?
Damian passara o jantar inteiro como se sua mente estivesse em outro lugar. Muitas vezes parava de comer para se perder em pensamentos ou perdia o fio da conversa, respondendo com atraso.
Como Joshua havia substituído o Príncipe Herdeiro na coordenação do evento, ele pôde observar de perto que algo definitivo havia ocorrido entre os dois naquele dia. Desde o momento em que Claude insistira em acompanhar Damian antes mesmo do início das atividades, a atmosfera parecia atípica.
Durante todo o evento, Claude e Damian mantiveram uma distância tão marcada que parecia deliberada. Para ser mais exato, Claude tentava se aproximar do Ômega sempre que surgia uma oportunidade, mas Damian esquivava-se habilmente usando qualquer pretexto.
Ainda assim, não parecia a consequência de uma grande briga. E, acima de tudo, aos olhos experientes de Joshua, era evidente que Damian estava mais consciente da presença de Claude do que de qualquer outra pessoa.
A notícia repentina da gravidez de Damian fora um choque inicial para Joshua. Damian sempre fora um filho exemplar, que nunca causara o menor problema durante o crescimento. Ao contrário de outros jovens da aristocracia que se entregavam a uma vida libertina e boêmia, Damian mantinha uma postura tão contida e puritana que chegava a preocupar os pais. Sem que nunca tivesse sido pressionado ou cobrado, ele compreendia o peso de sua linhagem e agia sabendo que cada um de seus passos representava a imagem da família real.
Por isso, quando o jovem anunciou a gravidez antes do casamento, Joshua chegou a pensar que o momento de rebeldia tardia de seu filho havia chegado — aquela fase de contestação comum a qualquer jovem.
Ainda assim, Joshua presumiu que o filho naturalmente aceitaria as consequências de seus atos e concordaria com o matrimônio.
No entanto, a linha de raciocínio de Damian seguiu por um caminho completamente oposto e alarmante.
“Ele pretendia interromper a gravidez em segredo.”
Só isso já seria motivo de grande espanto, mas a recusa categórica em se casar fez com que Joshua passasse aquela noite em claro, compartilhando taças de vinho com Erich até o amanhecer. Foi naquele momento que o Duque consorte percebeu que a adolescência tardia de Damian havia finalmente eclodido.
— Restam cerca de cinco semanas, não é?
No meio do alvoroço em que Erich ameaçava ligar para o culpado daquela situação para lhe dar uma lição e Damian tentava contê-lo, a voz de Joshua ecoou de forma serena, mas firme o suficiente para interromper a pequena discussão.
— …Cinco semanas para quê?
— O que tem cinco semanas?
Pai e filho viraram-se simultaneamente para Joshua com a mesma expressão de dúvida.
— Já se esqueceu? Estou falando do período de tolerância. O prazo para você decidir se vai interromper a gestação ou se casar com Claude.
O semblante de Damian endureceu no mesmo instante. O viço saudável de sua pele deu lugar a uma palidez repentina. Era evidente para Joshua que o jovem havia empurrado aquela realidade para o fundo da mente e só agora era forçado a encará-la.
— Você ainda não conseguiu se decidir?
— …Sim. Não é uma escolha simples de se fazer.
A resposta hesitante e vaga não convenceu Joshua. O rosto do filho assumiu uma nuance melancólica, tornando impossível prever qual seria sua decisão final.
Joshua não sabia quais palavras usar para confortá-lo, mas tinha consciência de que não podiam simplesmente deixar o tempo correr. Trazer uma criança ao mundo era uma escolha que transformaria sua vida por completo; era óbvio que exigia cautela. Contudo, interromper uma vida que já se desenvolvia também não era um processo simples. Tendo vivenciado a experiência da gestação e do parto, Joshua conhecia perfeitamente a conexão física e emocional de carregar um filho.
Mesmo que o consciente tente ignorar, o feto exerce uma influência profunda sobre o corpo e a mente da mãe. É uma vivência pontuada por transformações físicas e por uma percepção mística e singular a cada instante.
Ignorar todos esses sentimentos para interromper a gestação equivaleria a extirpar uma parte de si mesmo. Pelo menos, era assim que Joshua enxergava a situação.
Ele não desejava que seu único filho carregasse uma cicatriz emocional tão profunda pelo resto da vida. Seria possível esquecer um trauma dessa magnitude?
No dia em que Damian declarou sua intenção de interromper a gravidez, Joshua estipulara aquele prazo justamente para evitar que uma decisão intempestiva gerasse arrependimentos futuros.
Conhecendo a personalidade firme de Damian, que nunca dava margem a ninguém por quem não nutrisse interesse, Joshua deduziu que o fato de o filho ter passado a noite com Claude indicava que, no mínimo, havia uma forte atração mútua entre eles.
Damian era o reflexo de Joshua. Possuía a mesma determinação para alcançar seus objetivos, mas também herdara aquela extrema reserva e cautela ao lidar com o universo das emoções.
“Tinha que herdar justamente essa característica…”
Joshua o criara cercado de amor para que ele não repetisse suas antigas hesitações, mas o destino parecia seguir seu próprio curso. Era uma constatação tardia da complexidade que envolvia a paternidade.
— Ainda há tempo, por que a pressa? Damian, se a sua vontade for interromper a gravidez, faça isso. Se você não confia naquele sujeito, não há motivo para seguir em frente. Você não precisa carregar o filho de um homem que só lhe traz angústia!
— Como se um aborto fosse o fim do mundo! Para mim, o que importa é a sua felicidade! Eu jamais entregaria meu filho a um sujeito incapaz de conquistar seu coração! — exclamou Erich, esbravejando contra Claude enquanto buscava decifrar a expressão de Damian.
No entanto, o excesso de zelo paternal foi cortado abruptamente pela resposta ríspida do filho:
— O senhor não era muito próximo do Duque Enosh? Sempre disse que o considerava como um filho, então por que está falando mal dele agora? Ele não teve culpa de nada. Sou eu quem não consegue tomar uma decisão — rebateu Damian com um bico emburrado.
Erich piscou os olhos, momentaneamente sem palavras diante da reação do jovem. Ele soltou um riso anasalado, incrédulo.
— Por que você está defendendo aquele sujeito? Desse jeito o seu pai fica magoado.
— Quem está defendendo quem? Só estou constatando os fatos.
“Onde ele seria inadequado? Pelo contrário, ele tem uma estampa impressionante que se destaca diante de qualquer um. Além disso, mesmo com a notícia repentina da gravidez, foi ele quem fez de tudo para assumir a responsabilidade… Se formos apontar quem está agindo de forma errada aqui, esse alguém seria eu.”
Dominado por uma ponta de irritação defensiva, Damian apressou-se em terminar o restante de sua sobremesa.
— Você tem consciência de que adiar essa decisão só trará mais desgaste para você, não é? — murmurou Joshua com suavidade, deixando o guardanapo sobre a mesa após concluir a refeição. Quanto mais o tempo passasse, mais Damian sofreria emocionalmente sem perceber. Ele compreendia a tendência do filho de negar o que sentia por não saber lidar com a própria vulnerabilidade, mas desejava que o jovem enfrentasse a situação com o menor sofrimento possível.
Se o filho continuasse paralisado pela dúvida, caberia aos pais dar o empurrão necessário.
O olhar azul de Joshua fixou-se em Damian, como se buscasse decifrar os segredos de sua alma.
— Você não gosta do Claude?
O tom sóbrio da pergunta fez Damian empertigar-se na cadeira. A sensação era de que os olhos de seu pai vasculhavam as profundezas de sua mente confusa.
— …Não é isso.
— Mas isso significa que você também não nutre sentimentos por ele…? É isso?
— Não é que eu não goste dele… É só que eu ainda não sei bem o que sinto.
Ele não detestava o Alfa. Claude não se irritara quando ele ligara de madrugada no meio de uma crise, e a insistência dele em enviar presentes diários — mesmo sabendo que Damian fingia desdém — trazia-lhe um estranho conforto. A lembrança do olhar severo e da amargura de Claude ao falar sobre o falecido pai cruzou sua mente. A vulnerabilidade oculta sob aquela máscara de rancor tocara algo profundo em Damian naquele dia… fazendo-o desejar conhecer mais sobre o homem e, se possível, mitigar suas dores.
E quando o desejo intenso e quase selvagem de Claude se voltava para ele, o resto do mundo parecia perder a importância.
Embora a intensidade daquela abordagem direta por vezes o deixasse sufocado, havia também uma satisfação singular em ser o alvo de tamanha obstinação.
E, acima de tudo… os feromônios dele, que o envolviam como uma tempestade de areia quente, faziam seu corpo vibrar de uma forma inédita.
Damian finalmente admitia para si mesmo: desde a noite em que fora dominado pela essência daquele Alfa, Claude jamais voltaria a ser apenas um conhecido.
Rompendo o silêncio que se instalara na sala de jantar, o mordomo aproximou-se discretamente para recolher a louça e servir uma infusão de ervas digestivas para os duques, além de uma água tônica com limão para Damian.
— Desejam algo mais, Suas Graças?
— Estamos satisfeitos. Vamos estender nossa conversa por mais um tempo, então avise aos funcionários que estão liberados para o jantar. Você também deveria descansar um pouco, mordomo.
Agradecendo a consideração do consorte, o funcionário retirou-se do recinto com uma reverência.
Erich adiantou-se para segurar o bule de chá antes que Joshua o fizesse. Embora Erich tivesse crescido em meio às regalias da corte e estivesse acostumado a ser servido, seus movimentos ao servir o companheiro eram fluidos e naturais. Sua expressão ao encher a xícara de Joshua transmitia a solenidade de quem executava a tarefa mais crucial do mundo.
— Qual é o momento exato em que se tem a certeza de que se quer passar o resto da vida ao lado de alguém? — perguntou Damian, afastando os questionamentos internos para focar nos pais. Ele acreditava que duas pessoas que mantinham uma união tão sólida e afetuosa teriam a resposta para o seu dilema, ajudando-o a clarear a confusão em seu peito.
— Está perguntando para mim? — indagou Joshua.
Damian assentiu com firmeza antes de continuar:
— O senhor me disse uma vez que a primeira impressão que teve do meu pai não foi das melhores. Se o começo de vocês foi tão complicado, como decidiram pelo casamento? Casamento é bem diferente de um romance passageiro. Como o senhor teve a convicção de que ele seria o seu companheiro para a vida toda?
— Ah, essa eu sei responder! — interrompeu Erich antes que Joshua pudesse se pronunciar. — No instante em que bati os olhos nele, meu coração me deu a certeza absoluta de que eu precisava tê-lo ao meu lado para sempre.
Orgulhoso de sua declaração, Erich buscou o olhar de Joshua, aguardando a confirmação. Joshua, contudo, limitou-se a encarar a própria xícara, unindo levemente as sobrancelhas como se resgatasse memórias antigas.
Damian aguardou pela resposta de Joshua. À medida que o silêncio se prolongava, a segurança inicial de Erich vacilou, e ele começou a lançar olhares apreensivos na direção do parceiro.
Alheia à expectativa do marido e do filho, a figura elegante de Joshua tomou um gole do chá, mantendo a postura impecável.
Após um minuto que pareceu uma eternidade para os espectadores, ele pousou a xícara com precisão e ergueu o rosto.
— É realmente necessário ter uma certeza absoluta sobre o futuro para decidir se casar?
— O quê?
— Joshua…? O que você quer dizer com isso…? — gaguejou Erich, visivelmente abalado com a colocação, embora o semblante do consorte permanecesse imperturbável.
— As relações humanas são a engrenagem mais imprevisível do mundo. Os sentimentos mudam e o amor pode ruinar-se diante do menor pretexto…
A sobriedade de suas palavras carregava uma sinceridade cortante. Erich moveu-se na cadeira, desconfortável, fixando os olhos em Joshua com uma expressão de mágoa contida, sem conseguir articular uma frase.
O impacto daquela declaração não atingiu apenas Erich. Para Damian, os pais representavam o ideal máximo de casal perfeito; ele jamais imaginaria ouvir tal ceticismo vindo de Joshua.
— Mas… os senhores se amam. Não foi o amor que os uniu no casamento?
— Sim, eu amo o Erich. Mas o amor isolado não foi o fator decisivo para o meu casamento.
— Então…?
— Grandes escolhas na vida às vezes são motivadas por razões espantosamente egoístas. Foi o meu caso.
Joshua desviou o olhar para o marido aflito. Por uma fração de segundo, uma centelha de afeto, cumplicidade e divertimento iluminou suas pupilas gélidas.
Embora muitos na corte o considerassem uma figura altiva e distante, Damian sabia que o olhar de Joshua para Erich guardava sempre um calor único.
Contradizendo a crueza de suas palavras, o semblante de Joshua transbordava carinho. Um sorriso sutil delineou seus lábios antes que ele assumisse um tom provocativo:
— Erich era o pior partido imaginável naquela época. Tinha a fama de ser o maior libertino de Ronen, cujos envolvimentos não duravam mais que dois meses. Para piorar, eu já estava noivo e, por ironia, envolvido em intrigas com a conquista da vez dele.
— Ora, Joshua… por que trazer essa história à tona agora? Eu fiz algo de errado? — protestou Erich, ajeitando-se na cadeira. Joshua ignorou a interrupção e prosseguiu:
— Você acha que eu genuinamente acreditava na perenidade dos sentimentos de um homem que trocava de parceiro como quem troca de roupa? Claro que não. Eu casei ciente de que ele poderia se cansar de mim a qualquer momento. E mesmo assim, decidi me unir a ele porque…
A expressão de Joshua assumiu uma rigidez decidida ao reviver o passado.
— …Porque eu o queria para mim. A simples ideia de vê-lo com outra pessoa me causava uma repulsa insuportável. Naquele instante, eu decidi que reivindicaria aquela felicidade para mim, mesmo que durasse apenas um breve momento.
— Joshua…
Erich, que até então parecia pronto para se defender, desarmou-se por completo. Comovido pela revelação, ele tomou as mãos de Joshua, cobrindo o dorso e os pulsos do parceiro com beijos ternos. Joshua relaxou a postura, permitindo o carinho com um semblante brando.
Aquela demonstração mútua de afeto, apesar das palavras pragmáticas, era a realidade que Damian testemunhara durante toda a sua vida.
— Meu amor sempre foi e sempre será apenas seu.
— Eu sei.
— Eu nunca seria capaz de trair sua confiança.
— Eu sei…
— Eu te amo.
Erich continuava a sussurrar juras passionais enquanto beijava a mão de Joshua, que correspondia aos acenos com um sorriso cúmplice.
Sentindo uma ponta de inveja misturada ao incômodo de testemunhar aquele excesso de intimidade, Damian buscou o copo de água tônica, dando um longo gole no líquido gelado.
As gotas de condensação na superfície do vidro umedeceram a ponta de seus dedos. Ele começou a friccioná-los distraidamente, mantendo os olhos baixos enquanto processava os conselhos do pai.
“Não há necessidade de uma grande justificativa para tomar uma decisão…”
Seus pais, que haviam começado da pior maneira possível, construíram uma união legítima e profunda. Mesmo sob o fantasma da impermanência dos sentimentos, eles seguiam os dias como se fossem o mundo um do outro.
Damian viu as certezas sobre o “par ideal” que tanto idealizara se dissiparem.
Ele sempre acreditara piamente que, ao cruzar com a pessoa certa, um sinal inequívoco se manifestaria de imediato.
No entanto, ao analisar suas atitudes passadas, ele começou a questionar se o discurso de esperar pelo “par ideal” não passara de um escudo para evitar conexões profundas com terceiros.
Afinal, até mesmo seus pais, o maior referencial de harmonia que conhecia, precisaram trilhar caminhos tortuosos para consolidar o que tinham.
Sua mente transformou-se em um turbilhão de conjecturas.
Se não houvesse nenhum sentimento em relação a Claude, ele não estaria imerso em tamanha dúvida. A resolução inicial de interromper a gravidez sustentava-se no fato de o pai ser um desconhecido; parecia impossível nutrir afeto por uma vida gerada em um deslize de uma noite.
Contudo, a convivência forçada após a descoberta de Claude provocou uma mudança sutil, mas definitiva, no íntimo do Ômega.
Sim, ele precisava admitir que mudara. A determinação cirúrgica do início já não existia mais.
O prazo estipulado por Joshua aproximava-se com o passar dos dias. Caso o limite fosse ultrapassado, ele seria obrigado a levar a gestação adiante, independentemente de aceitar o matrimônio com o Alfa.
“E essa perspectiva realmente me desagrada?”
“…Eu já não tenho certeza. No início, a ideia de dar à luz parecia inconcebível…”
Damian assustou-se ao perceber a direção de seus próprios pensamentos.
A simples lembrança de Claude acelerava seus batimentos cardíacos de uma forma singular. A tensão e o calor que emanavam do Alfa provocavam uma ebulição interna que nenhum outro indivíduo de sua classe jamais conseguira despertar.
Sem que se desse conta, sua mente talvez já tivesse feito a escolha muito antes de sua razão aceitar.
Damian percebeu a transição que operava em seu íntimo. O sentimento que ele tanto se esforçara para silenciar finalmente ganhava contornos nítidos e inegáveis.
O casal interrompeu o diálogo íntimo e voltou as atenções para o filho. Damian permanecia estático e pálido, com o olhar fixo no vazio, assemelhando-se a uma escultura de gesso polido.
A rigidez de seus lábios abaixo do nariz afilado denunciava a gravidade de seus pensamentos.
— Da…
Erich fez menção de chamá-lo, mas foi contido por um sutil aceno de cabeça de Joshua. O Duque consorte sinalizou que o filho precisava daquele momento de introspecção. Embora não decifrasse com exatidão o conflito interno do jovem, Joshua tinha uma certeza imutável:
Independentemente do caminho que Damian escolhesse, ele continuaria sendo o bem mais precioso de sua vida.
Em silêncio, Joshua enviou uma prece para que o filho fizesse sua escolha sem carregar marcas de sofrimento, alcançando a própria felicidade.
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Fim do Volume 12
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello