↫─❀ Capítulo 06.4
Capítulo 6 Parte 4
História Lateral
Claude descobriu a infidelidade de seu pai quando tinha dezessete anos, um ano antes de sua formatura no Colégio Weddon.
Assim que suas férias começaram, Claude correu para a Casa Etrof para ver sua mãe doente. Ele havia passado primeiro no escritório de seu pai para relatar seu retorno. E, naquele escritório, Claude testemunhou Everett Knox — o Duque Consorte de Enosh — desalinhado e meio desatado e, ao lado dele, a assessora de sua mãe, Anna Cher, endireitando freneticamente as próprias roupas.
— Claude. O que o traz aqui?
Diante de seu pai abotoando calmamente a camisa, Claude ficou congelado, com os olhos arregalados de choque.
— O que é isso? Expliquem-se.
Mesmo naquele momento, Claude queria acreditar que não tinha visto o que pensou ter visto. Apesar de saber que Everett era um homem mesquinho, sobrecarregado por um profundo complexo de inferioridade, ele acreditava que seu pai entendia seu papel e a origem do poder e da riqueza de que desfrutava.
Apesar da fúria de Claude, Everett simplesmente fez um gesto para que uma Anna pálida e trêmula saísse e começou a arrumar o cabelo como se nada tivesse acontecido. Era um ato de um descaramento estarrecedor.
— Você voltou para as festividades?
— Está tentando mudar de assunto? Explique o que acabei de ver. Certamente… você não traiu a minha mãe…
Depois de um longo momento ajeitando o cabelo, os lábios de Everett se curvaram em um sorriso de deboche, como se tivesse acabado de ouvir algo hilário.
— ‘Traiu a Princesa’? Por que diabo eu faria isso?
— Você foi pego em flagrante e ainda está negando? Você estava agorinha com a Senhorita Cher!
— Eu estava com a Anna, sim. Isso não equivale a trair a Princesa.
— Que tipo de absurdo absoluto é esse?!
Instintivo, incapaz de conter a raiva, Claude avançou em direção ao pai. Seu punho cerrado parecia pronto para voar. Apesar da idade, Everett continuava um homem alinhado e bonito. Ele franziu o cenho.
— O que importa se um homem saudável possui uma mulher?
— Como você pode brincar com a assessora dela enquanto a minha mãe está deitada, doente?!
Slap!
Num flash, uma mão atingiu a bochecha de Claude. Sua cabeça virou para o lado e ele cerrou os dentes. Ele se virou de volta e o encarou diretamente.
— ‘Brincar’? Cuidado com a língua. E como ousa se colocar contra mim, o chefe desta casa. Não seja insolente, garoto. Eu sou o patriarca da Casa de Enosh. Mostre-me o devido respeito.
Claude ficou atônito com o descaramento daquele homem, reivindicando autoridade patriarcal em uma situação daquelas. Sua mandíbula tremia de fúria. Ele queria afundar um punho naquela cara lisa e mentirosa.
— Não tenho a menor intenção de deixar isso passar.
— E se não deixar? Vai sair correndo para a Princesa? Você realmente acredita que pode fazer isso?
— Eu vou. Não posso ficar de braços cruzados enquanto você a engana.
— Pense bem, Claude. Se a Princesa descobrir… Será que aquela mulher frágil e fraca consegue realmente aguentar? No momento em que você a informar, a condição dela certamente vai piorar. Se é isso que você deseja, eu não vou te impedir.
Grit.
Claude rangeu os dentes. Everett sorriu de lado para ele, com um ar triunfante.
— Se a saúde dela falhar por causa disso, você será o único responsável. Você ainda está tão determinado?
Ele havia usado desprezivelmente o maior medo de Claude contra ele mesmo. Ele estava certo. Sua mãe não aguentaria aquilo. Tendo vivido uma vida protegida das asperezas do mundo, ela nunca sobreviveria à traição do marido. Seu corpo frágil certamente cederia. Enquanto Everett usasse sua mãe como escudo, Claude estaria silenciado.
Ele cerrou os dentes com tanta força que suas gengivas doeram, mas não sentiu dor física.
— Contanto que você mantenha a boca fechada, nada vai acontecer.
Ao sussurro do demônio, a raiva tensa de Claude oscilou.
— E eu lhe prometo uma coisa. A Princesa nunca vai saber. Nunca será descoberto.
Uma sensação de impotência envolveu Claude. Ele não podia fazer nada. Só podia encarar o sorridente Everett.
— Agora, pare com isso e vá esfriar a cabeça. Você poderá ver sua amada Princesa amanhã. Se for até ela desse jeito, só vai assustá-la.
— Isso—!
— Sugiro que passe a noite quietinho no seu quarto. Talvez, enquanto organiza seus pensamentos, perceba exatamente como deve agir.
Everett convocou imediatamente o mordomo. Ordenou que Claude recebesse ‘cuidados especiais’ em seu quarto naquela noite. Em outras palavras, uma ordem para não colocar um único pé fora de seus aposentos.
Everett detinha a chave para controlar Claude. Cada pequeno ato de rebeldia do garoto sempre terminava daquela forma. Até mesmo sua matrícula no estritamente residencial Colégio Weddon havia sido obra de Everett. Explorando o fato de que Claude nunca conseguia recusar nada à mãe, Everett havia convencido a Princesa Victoria de que o menino precisava de uma educação adequada como herdeiro de um ducado.
Claude não queria deixar sua mãe doente por um internato. Ele havia se rebelado pela primeira vez, apenas para pagar um preço alto. Everett havia manipulado sua mãe tão profundamente que ela ficara acamada por três dias em sofrimento. Eventualmente, Claude cedera e fora para a escola. Tudo funcionava assim. Quanto mais Claude resistia a Everett, mais sua mãe sofria.
Se Everett fosse abertamente cruel, Claude teria feito tudo ao seu alcance para expulsá-lo da casa. Mas Everett nunca mostrava sua verdadeira natureza na frente da Princesa. Ele agia como o marido dedicado e amoroso que a estimava acima de tudo. Sua mãe permanecia alegremente alheia à verdade.
Preso em seu quarto, engolindo a raiva, Claude rangeu os dentes. Ele havia obedecido a Everett não apenas pelo bem de sua mãe, mas porque acreditava que, no mínimo, o amor de Everett por ela era real.
E, no entanto, aquele homem miserável a havia traído. Mesmo traindo-a, não demonstrava o menor remorso por suas ações. “Até quando terei que vê-lo enganá-la?” Claude amaldiçoou a própria impotência baixinho.
— Claude.
Assim que Claude entrou, as pessoas que ajudavam nos cuidados de sua mãe se retiraram ao sinal dela. A Sra. Heinly, a cuidadora que estava sempre ao seu lado, fez um pequeno aceno de saudação. Claude caminhou direto até ela e pressionou a bochecha brevemente contra a dela.
— Ouvi dizer que você chegou ontem. Estava bastante cansado, disseram-me?
Era óbvio quem tinha dito aquilo a ela. A raiva ferveu dentro dele, mas ele simplesmente assentiu em vez de demonstrar irritação.
— Como está a sua saúde, Mãe?
Claude direcionou a pergunta à Sra. Heinly. Sabia que sua mãe apenas diria que estava bem se ele perguntasse diretamente a ela.
— Ela está indo bem, tirando um pouco de anemia. A Princesa estava tão ansiosa pelo seu retorno. Tem comido regularmente e feito caminhadas ocasionais no jardim só para se preparar para a sua chegada.
— Tem feito?
— Sim. Deixe-me olhar para você. Você cresceu ainda mais. Está tão parecido com ele agora, não está, Beca?
— De fato. A Princesa tem bastante sorte. Ter um filho tão alto e bonito.
— Sim, eu tenho. Não acha que meu filho é um verdadeiro cavalheiro, Beca?
— Com certeza.
— Não fique aí de pé, venha se sentar. Quer que eu peça para trazerem chá?
Claude guiou sua mãe, que parecia tão frágil em comparação a ele, até o sofá. Fiel às palavras da Sra. Heinly, a condição dela não parecia ruim hoje. Um leve rubor tocava suas bochechas habitualmente pálidas, e seus olhos azul-profundos brilhavam de alegria.
Sua mãe não ficava doente o tempo todo. Era apenas que uma anormalidade relacionada às suas características frequentemente fazia seu corpo falhar. Ela tinha um coração fraco, lutava com a regulação de feromônios — exigindo medicação constante — e era atormentada por anemias e dores de cabeça imprevisíveis. Além disso, seu sistema digestivo era fraco, tornando difícil para ela comer.
Mesmo assim, ela nunca demonstrou raiva. Tendo vivido a vida inteira em um corpo debilitado, ela poderia ser irritável, mas sempre recebia a todos com um sorriso e gentileza. Acariciando seu cabelo loiro ordenadamente preso, ela perguntou sobre a vida de Claude.
— Como vai a escola? Aconteceu algo interessante?
Ela tinha curiosidade sobre tudo. Como ele passava mais da metade do ano longe, na escola, era natural. Claude abriu-se com ela sobre sua vida comum.
— Nós vencemos o Colégio Bronen no festival de atletismo de primavera em março.
— O Bronen venceu há dois anos, não foi? Oh, parabéns! Eu sei o quanto você ficou frustrado.
— Sim. Vencemos todos os eventos por uma margem esmagadora. A escola ficou em clima de festa por uma semana.
Tradicionalmente, as escolas particulares mais prestigiadas em Ronen eram Weddon, no Oeste, e Bronen, no Leste. Estabelecidas na mesma época e ostentando muitos ex-alunos ilustres, as duas escolas estavam constantemente engajadas em uma luta por superioridade. Sob a bandeira de uma competição saudável, realizavam um festival de atletismo a cada dois anos antes do período de verão. Há dois anos, foi realizado em Bronen. Este ano, em Weddon. E Weddon havia conquistado a vitória geral.
— De quantos eventos você participou? Conte-me tudo.
Diante da instigação entusiasmada dela, Claude começou sua história. Desde os eventos em que se inscreveu até os pequenos contratempos durante as competições e as pequenas confusões com os estudantes de Bronen, o relato foi longo e detalhado. Ela riu da história de um oponente que caiu acidentalmente na água durante uma partida de remo e ofereceu um suspiro de simpatia com a menção de um companheiro de equipe atingido por uma bola perdida durante o croquet. Sua expressão suavizou com a história do cavalo de um estudante do ensino fundamental que congelou durante o adestramento ou de um gato que entrou na quadra de tênis no meio de uma partida.
Claude falou incessantemente, pintando um quadro do festival para ela. Ver o deleite dela como o de uma criança fez com que sentisse um lampejo de autoaversão por ser incapaz de falar sobre a traição de seu pai, mas, como sempre, ele simplesmente se concentrou em aproveitar o tempo com ela.
Perto do fim do verão, uma chuva pesada começou a cair desde o amanhecer, como se tentasse resfriar o calor intenso do sol. Era um dia em que a umidade grudava na pele, causando uma sensação persistente de desconforto. Embora passasse a maior parte de suas férias com a mãe, Claude tinha deveres como herdeiro de Enosh.
Hoje era o dia da cerimônia fúnebre para os heróis caídos de uma guerra que ocorrera há um século. O serviço era um grande evento nacional, particularmente estimado pela família real. Como membro da própria família real, Claude não podia faltar ao evento e estava atualmente vestido em trajes formais.
Ele se dirigiu ao quarto de sua mãe para se despedir. Talvez por causa do mau tempo, uma atmosfera sombria parecia pairar sobre a casa. Em dias assim, a saúde de sua mãe frequentemente sofria, e ele queria verificar como ela estava. A cerimônia começaria por volta das dez da manhã e não terminaria antes das duas da tarde. Era muito tempo, e ele sabia que não conseguiria se concentrar em nada se não a visse primeiro.
Claude checou seu horário de partida novamente e moveu-se rapidamente. Ao alcançar a ala sul, onde sua mãe residia, cruzou com a Sra. Heinly bem quando ela deixava o quarto.
— Como está a minha mãe?
— O ar pesado parece tê-la mantido acordada a noite toda. Ela está com uma dor de cabeça severa e acabou de tomar alguns analgésicos.
— Ela não deveria ir ao hospital?
— A Princesa foi veementemente contra, então tomou o remédio por agora. Vamos monitorá-la e levá-la imediatamente se piorar.
A Sra. Heinly ofereceu uma palavra de conforto, notando a expressão severa de Claude, dizendo que, como ela estivera bem até ontem, provavelmente melhoraria com um pouco de descanso hoje.
— Ela está dormindo agora?
Enquanto Claude estendia a mão para a porta, a Sra. Heinly acrescentou: — Sua Graça acabou de entrar. Ele estava bastante preocupado com a saúde dela. — Ela ofereceu um sorriso caloroso. — Ele é um homem tão dedicado. Como os dois conseguem ser tão próximos depois de todos esses anos… — Lembrando-se de algo, acrescentou apressadamente que precisava trazer um chá quente para a Princesa e retirou-se rapidamente.
A expressão no rosto de Claude contorceu-se em puro nojo. Parecia que ninguém na casa tinha qualquer pista do caso de seu pai. Por outro lado, se tivessem, boatos certamente teriam surgido. A Casa Etrof era um presente do Rei Persi I para sua mãe, e a maior parte do pessoal pertencia a ela. Seu pai era um homem astuto que entendia exatamente quais limites podia ultrapassar e quais eram proibidos. Ele nunca teria feito nada para comprometer publicamente sua posição. Era um mestre da decepção.
Enquanto Claude se afogava em sua raiva, sussurros ecoaram de trás da porta.
— …O que faremos? Estou realmente preocupado.
— Não se preocupe… É apenas uma leve dor de cabeça.
— É precisamente por isso que estou preocupado. Desejo que você nunca sinta uma única pontada de dor.
— Sinto muito. Sinto como se eu só lhe causasse preocupação.
— Não se desculpe. É apenas porque sou um covarde. Estou sempre aterrorizado com a ideia de algo acontecer com você…
— Ah… Meu doce Everett.
Houve um breve silêncio antes de as vozes continuarem.
— …Mesmo eu sendo um fardo tão grande para você, você ainda me ama?
— Sim. Como eu poderia não amar uma criatura tão preciosa? Meu coração tem batido apenas por você desde o momento em que nos conhecemos.
Grit. Claude rangeu os dentes. A atitude dissimulada daquele homem era repugnante. Não conseguia mais suportar ouvir aquelas mentiras. Claude bateu forte na porta, chamando a atenção de propósito. Sem esperar, escancarou a porta para encontrar o pai empoleirado na borda da cama de sua mãe. A mão dele estava apoiada no cabelo dela. Os punhos de Claude se cerraram involuntariamente.
— Claude. Você está muito bonito em seus trajes formais.
No momento em que sentiu o olhar de sua mãe sobre si, Claude forçou o corpo a relaxar. Não tinha intenção de armar um barraco na frente dela.
— Ouvi dizer que a senhora está com dor de cabeça. Está se sentindo melhor?
— Tomei meu remédio. Ficarei bem em pouco tempo.
O rosto dela estava ainda mais pálido do que ontem. No entanto, talvez porque seu pai estivesse ao seu lado, seus olhos estavam brilhantes. Sua devoção cega ao homem que a estava enganando era de partir o coração. A raiva em relação ao pai fervia no fundo de seu ser, incapaz de encontrar uma saída.
— Vocês vão assistir à cerimônia fúnebre juntos hoje? Eu deveria estar lá para ver os meus dois homens favoritos juntos. Parte meu coração não poder ir.
— Você pode assistir pela televisão. A cerimônia será transmitida ao vivo. — Everett a acalmou com uma voz gentil. Sua mãe olhou para cima com o rosto cheio de expectativa, dizendo que eles certamente pareceriam magníficos.
— Farei o meu melhor para corresponder às suas expectativas, Princesa.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello