↫─❀ Capítulo 06.5
Capítulo 6 Parte 5
— História Lateral —
Everett beijou as costas da mão dela com seu rosto descarado e se levantou.
— Tenha uma boa viagem.
No momento em que deixaram o quarto após se despedirem, Claude passou por ele a passos largos, com o rosto rígido.
— Claude. Você precisa esconder melhor seus sentimentos. E se a Princesa ficar angustiada?
Seus passos irados pararam. Claude virou-se para encarar o pai, com as emoções totalmente expostas.
— Não permita que o nome da minha mãe passe por essa sua boca imunda.
Seus punhos cerrados pareciam prontos para atacar; a atmosfera era cortante. No entanto, Everett permaneceu inabalável diante da fúria de Claude. A rebeldia infantil de seu filho não tinha a menor importância para ele.
— Você tem uma linguagem bastante vulgar para um filho. Pelo visto, nem o prestigiado Colégio Weddon conseguiu consertar isso.
— A única coisa vulgar aqui é o descaramento de um homem que traiu a própria esposa.
— Eu não a traí. Nenhuma única palavra que eu disse a ela é mentira.
— Você se deita com outra mulher enquanto a minha mãe está doente e diz que isso não é traição?!
— Eu a estimo mais do que a qualquer pessoa. Se eu tivesse agido puramente com base nos meus instintos, você acha que ela teria sobrevivido? O corpo frágil dela não consegue me aguentar. Foi apenas por preocupação com ela que busquei alívio em outro lugar. Portanto, não pode ser considerado traição.
Diante da lógica repugnante de Everett, Claude finalmente desferiu um soco. Contudo, seu contra-ataque imaturo foi facilmente contido por Everett. Seu pulso foi agarrado e seu braço foi torcido para trás das costas. Uma dor aguda latejou em seu ombro.
— Ugh! Me solta!
Ele debateu a parte superior do corpo, tentando se libertar. Everett o soltou com extrema facilidade, dando-lhe um empurrão. Claude cambaleou, perdendo o equilíbrio. Ele estava consumido por uma fúria que mal conseguia conter.
— Não importa o que você pense, eu amo a Princesa. Sou a pessoa que mais deseja a saúde e a longevidade dela. Então não gaste sua energia com coisas inúteis. Isso não vai mudar nada.
Claude segurou o ombro dolorido e o encarou com os olhos injetados de raiva.
— “Amor”? Que patético. Não tente me convencer com suas palavras bonitas. Você acha que eu não conheço o seu plano? Você sabe que, assim que a minha mãe se for, tudo o que você desfruta vai desaparecer!
O controlado Everett finalmente ficou tenso.
— Você garantiu o cargo de peso como Duque Interino graças a ela. Acha que algum dia teria desfrutado de tanto luxo sem a minha mãe?
— Cuidado com a boca.
Claude não interrompeu seu deboche. Sentiu um vislumbre de satisfação ao ver a expressão distorcida daquele homem.
— Eu disse alguma mentira? Isso é muito mais honesto do que a sua lógica desprezivelmente dissimulada.
— Estou cumprindo meu papel como Duque Interino e chefe desta família perfeitamente. Se você pensa que estou apenas ostentando, está enganado. A própria Princesa me colocou nesta posição. Ela não me vê como um mero intermediário.
Embora soubesse que não deveria perder o controle, Claude não conseguiu conter o gênio que subia. Aquele homem se recusava a reconhecer uma única falha. Continuava a usar o afeto de sua mãe como desculpa.
— Se você sabia disso, por que fez aquilo?!
— Fique quieto. A Princesa vai te ouvir. A menos, é claro, que você queira que ela ouça. Então, por todos os meios, continue.
— Seu—!
— Não me importo com o que você pensa. Mas se continuar a interferir nos meus assuntos, não terei escolha senão tomar providências.
— Você ainda me vê como uma criança que pode mandar e desmandar como bem entender?
— Não, não como uma criança. Mas você ainda é um menor sob a minha proteção. Você não se esqueceu de que eu tenho o direito de determinar o seu futuro como patriarca, esqueceu?
Everett, tendo recuperado a compostura, sorriu de lado para Claude. Era uma ameaça de exilá-lo para o interior sob o pretexto de “treinamento de herdeiro”. O interior de que Everett falava era repleto de seus próprios subordinados. Claude nunca conseguiria sair de lá sem o seu comando.
Grit. Seus dentes se morderam involuntariamente. Os olhos de Claude escureceram com uma intensidade ardente.
— Já perdemos tempo demais com conversas inúteis. As pessoas devem estar esperando.
Everett checou o relógio e começou a caminhar como se os últimos minutos jamais tivessem acontecido. — Você vai ficar parado aí? A Princesa estará esperando ansiosamente para nos ver juntos. Certamente você não gostaria de se atrasar?
Não importava o quanto tentasse atingir o orgulho daquele homem, Claude via-se derrotado pelas próprias circunstâncias. A vergonha e a fúria eram suficientes para derreter seu cérebro. Uma névoa carmesim preenchia seus olhos dourados. Ele não fazia ideia de para onde direcionar sua raiva sem rumo.
Devido à chuva que caía desde a madrugada, a atmosfera no Palácio Hubel, onde a cerimônia estava sendo realizada, estava mais solene do que o habitual. A Guarda Real, organizada em duas fileiras impecáveis, desempenhava suas funções vestindo capas de chuva pretas sobre os uniformes azul-escuros. As capas pretas, combinadas com as bandeiras de luto hasteadas em frente ao palácio, aumentavam a gravidade da cena.
Naquele dia, toda a família real, incluindo o Duque de Ekte — que costumava viver em isolamento em sua propriedade —, reuniu-se para homenagear os heróis que haviam se sacrificado pela nação. As câmeras da Equipe de Mídia Real capturavam cada movimento da realeza para a transmissão ao vivo. De tempos em tempos, as lentes focavam nas bandeiras negras penduradas nos edifícios ao redor da praça do palácio, mostrando que a nação inteira estava unida no luto.
Apesar da chuva, a cerimônia prosseguiu sem problemas. Graças à gestão habilidosa do Ministério dos Assuntos Palacianos, o discurso memorial do Rei e a mensagem do representante das famílias enlutadas foram proferidos perfeitamente. Durante toda a cerimônia, Claude lutou para esconder seu tumulto interno. Era difícil ignorar a presença do pai que ele tanto detestava, mas confortou o coração pensando em sua mãe, que estaria assistindo a ele através da tela.
Após a solenidade no Palácio Hubel, a família real deslocou-se para a Grande Catedral. Eles viajaram em veículos oficiais, escoltados pela Guarda Real montada, avançando lentamente pelas ruas. Cidadãos carregando bandeiras pretas e rosas brancas faziam orações silenciosas por trás das barreiras. Em vez de aplausos, era uma cena silenciosa e sombria transmitida para todo o país.
Na Grande Catedral, uma missa fúnebre teve início, liderada pelo Cardeal. A congregação estava repleta de nobres e figuras proeminentes do mundo político e empresarial. Claude, que estivera com o pai até então, sentou-se ao lado de seus pares — seus primos e parentes mais jovens. Sentiu-se mais leve simplesmente por estar longe daquele homem.
— Como está a nossa tia-avó? Fiquei surpreso por não vê-la hoje. Achei que ela viria.
Ilias, sentado logo ao seu lado, sussurrou baixinho enquanto olhava fixamente para a frente. Claude virou brevemente a cabeça antes de olhar de volta para o Cardeal, seguindo a correção silenciosa de Ilias para “olhar para a frente”.
— …Bem, como de costume.
— Que pena. Meu pai estava bastante preocupado… Diga a ela que a visitarei em breve.
Diante do conforto do primo, Claude sentiu um desejo repentino de desabafar seu pesado segredo. “Será que eu poderia?” Ele murmurou para si mesmo por um instante antes de perceber que não podia. Se a notícia chegasse a Ilias — o neto do Rei —, inevitavelmente alcançaria o próprio Monarca. Um Rei que estimava a irmã mais que tudo, jamais deixaria aquilo passar. E, nesse processo, sua mãe descobriria. Sem saber se ela sobreviveria à verdade, ele não podia falar. Se a saúde dela piorasse ainda mais por causa disso, Claude nunca se perdoaria. Era melhor enterrar o segredo. Contudo, a culpa se enroscava em sua garganta, sufocando-o. Ele simplesmente teria que sofrer sozinho. Se fosse assim que protegia sua mãe, ele carregaria aquela culpa miserável. Ele precisava fazer isso.
— Não se preocupe tanto. Ela está sempre doente, mas nunca esteve em um estado realmente crítico, não é? Ela vai ficar bem desta vez também.
Notando a expressão severa de Claude e interpretando mal a sua origem, Ilias deu um tapinha em sua perna para confortá-lo. — Ficar ao lado dela é bom, mas você deveria conhecer pessoas também. Meu pai está preocupado com você.
— …Mais tarde. Não agora.
Ilias suspirou diante da recusa. Percebendo que não adiantava pressionar mais, ouviu em silêncio o pronunciamento do Cardeal antes de cutucar a perna de Claude novamente.
— Está vendo ali?
Claude seguiu o olhar de Ilias para ver o seu primo e o cônjuge dele.
— Não o tio, olhe para o Damian. Ele não é uma fofura?
Consciente das câmeras, Ilias mantinha as mãos unidas sobre os joelhos e a cabeça levemente inclinada, como se estivesse em prece. Na direção que ele apontava, uma criança que se assemelhava ao Conde Quilly estava sentada com uma dignidade surpreendente, ouvindo atentamente o sermão. Embora tivesse apenas sete anos, o menino havia herdado a beleza lendária do Conde e parecia um anjo de porcelana. Ele havia crescido desde a última vez que Claude o vira, há três anos, mas sua aura magnética permanecia a mesma.
— Você não faz ideia de como aquele pequeno rapaz é precioso quando age todo maduro assim. — A voz de Ilias estava mais suave do que nunca, como se estivesse falando de seu tesouro mais valioso. — Sempre que o peso do meu futuro parece opressor demais, eu olho para o Damian. Apenas ter uma criatura tão inocente e adorável por perto me faz sentir melhor. Gostaria que você tivesse alguém assim. Você é sério demais.
Sem saber de nada da situação real, Ilias esperava que seu primo abrisse o coração pelo menos um pouco. Ver alguém sofrer por tanto tempo certamente não fazia bem a Claude.
— Por que você não tenta sair em um encontro?
Diante da sugestão repentina, Claude instintivamente franziu o cenho e lançou um olhar para Ilias. Seus olhares se cruzaram, e Ilias deu uma piscadela. — Nada sério, apenas algo leve. Os Ômegas da capital receberiam você de braços abertos se você apenas desse uma chance. E aí? O que acha?
— Se você não tiver ninguém em mente, eu posso te apresentar alguém.
— O Príncipe Herdeiro encontra tempo para “encontros leves” em sua agenda lotada?
— Oh, bem. Não muitos. Apenas… o suficiente.
Sua expressão era cheia de travessura enquanto ele dava um de dar de ombros extremamente leve. Claude não sabia dizer se ele estava falando sério ou brincando, mas, de qualquer forma, não tinha a menor intenção de aceitar.
— Eu não me envolvo em relacionamentos “leves” assim.
— Haa. Olhe só para esse sujeito certinho. De que adianta esse seu porte físico excelente? Está guardando tudo para o seu futuro cônjuge?
— …..
Enquanto Claude o encarava em silêncio, Ilias perguntou com uma expressão de quase choque: — Certamente… você não é virgem ainda, é?
Claude permaneceu em silêncio. Não sentia a menor obrigação de responder. O desejo físico não era uma prioridade para ele. Sendo um homem saudável, sentia o impulso ocasionalmente, mas alguns banhos frios costumavam ser suficientes para acalmá-lo. Durante os períodos de rut, conseguia suportar com supressores. O instinto jamais havia se sobreposto à sua razão.
E isso o tornava ainda mais incapaz de perdoar o pai. O homem tagarelava sobre instintos de Alfa, mas aquilo eram meras desculpas. Se ele realmente estimasse sua mãe, poderia ter suprimido tais coisas. Ele simplesmente não tinha intenção de permanecer fiel. As desculpas repulsivas faziam os punhos de Claude se cerrarem. Falar em “amor” com aquela boca imunda era nauseante. Se aquele era o “amor” de que o mundo falava, Claude não queria fazer parte dele.
— Hum… Claude. Eu sei que esta é uma pergunta rude para um Alfa, mas… você não é impotente, é?
— …..
Após encarar Ilias — que estava perguntando a coisa mais absurda possível —, Claude voltou os olhos para a frente.
— Não há necessidade de me lançar esse olhar de desprezo. Estou magoado.
Você está ouvindo? Eu disse que estou magoado. Como pode me olhar desse jeito? Eu só estava te provocando porque você é muito rígido.
Ilias continuou a resmungar suas queixas, mas Claude deixou que as palavras passassem por ele, ignorando as reclamações contínuas. Ilias não parou até que o Cardeal terminasse seu pronunciamento. A conversa só terminou quando Claude finalmente chutou a perna dele e mandou que ficasse quieto.
Após a cerimônia, apesar das sugestões de Ilias, Claude permaneceu ao lado de sua mãe até ter que retornar à escola. Quando estava em seu último semestre, recebeu a notícia de que sua mãe estava em estado crítico com pneumonia aguda. Após dois dias de sofrimento, sua amada mãe encontrou a paz, com o rosto magro e desgastado.
A morte de sua mãe deixou um vazio no coração de Claude. Antes mesmo que ele pudesse começar a processar o luto, Anna Cher revelou a notícia de seu caso com o pai dele para a imprensa. Ela apelou à mídia, alegando que Everett havia brincado com ela e falhado em cumprir sua promessa de casamento. Aparentemente, ela acreditava que, assim que a Princesa se fosse, Everett anunciaria o relacionamento deles e se casaria com ela formalmente.
A notícia deixou Ronen em alvoroço. O mundo inteiro da mídia cercou Claude com perguntas. O círculo social encheu-se de fofocas, e o Rei Persi II, devastado pela perda da irmã, direcionou sua fúria contra Everett Knox.
Claude estava exausto de tudo aquilo. O segredo que ele havia escondido unicamente para proteger a mãe havia sido exposto, e ele não tinha mais desejo de permanecer em Ronen. Ver a honra de sua mãe — justamente aquilo que ele tentara proteger — arrastada pela lama da curiosidade pública era agonizante. Ele queria largar tudo.
Quando Claude anunciou sua intenção de se tornar padre, o Rei opôs-se veementemente e, eventualmente, Claude escolheu o exército. Ordenado pelo Rei a terminar a universidade primeiro, Claude jogou-se nos estudos e alistou-se imediatamente após uma formatura precoce.
Ele pretendia nunca mais retornar a Ronen. Mas seu plano foi descarrilado no momento em que encontrou Damian em meio a um ciclo de Calor. No instante em que aquela criança adorável havia se tornado o homem diante dele, carregando uma fragrância magnética e olhando em sua direção, a vida de Claude começou a correr em um rumo inteiramente diferente.
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Fim do Volume 6
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello