🧬 Capítulo 07
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Paraíso dos tolos (7)
[O jeito de amar dele e eu]
Seokhwa, sentado na beirada da cama, piscava os olhos. Por causa da pressão baixa, sofria assim todas as manhãs. Enquanto tentava se recompor, o título do livro sobre a mesa entrou automaticamente em seu campo de visão. Parecia o livro que Kwak Soohwan lia na noite anterior.
Ficou parado até o corpo recobrar as forças, depois firmou as pernas e se levantou. Seokhwa estendeu a mão para “O jeito de amar dele e eu”. A capa tinha cosmos desenhados, e o papel estava amarelado — devia ser um livro bem antigo.
Seokhwa abriu distraidamente a primeira página. Já no começo parecia desenrolar-se uma história de amor comovente. Leu o início, tornou a pousar o livro e passou os olhos pelas lombadas dos outros livros enfileirados na mesa.
“Seu perfume”, “Se amarmos como nós”, “As amarras do sexo”, “Uma noite com o professor” — pelo visto, o que Kwak Soohwan gostava eram histórias de amor. Eram livros do acervo do abrigo e traziam códigos de empréstimo, “Uma noite com o professor” parecia ter sido emprestado por muita gente, pois estava especialmente mais gasto que os outros.
Como Seokhwa também não era totalmente indiferente ao assunto, guardou os títulos na memória. Eram obras lançadas quando o mundo estava em paz, então pretendia lê-las um dia.
Já estava na hora de sair…
Bip, bip. Ao som vindo da porta, Seokhwa se voltou para lá.
[Liberando.]
Junto com a voz do sistema que confirmava o reconhecimento, a porta se abriu. Quem abriu foi, claro, Kwak Soohwan, e atrás dele estavam também Lee Chaeyoon e Yang Sanghoon. De repente, Kwak Soohwan abriu bem os braços, bloqueando a porta.
— O quê? Tira o braço! Não dá pra ver!
Mesmo com a reclamação de Lee Chaeyoon, ele manteve a postura e disse:
— Se veste.
Só então Seokhwa percebeu que estava nu. Seria de esperar que se mexesse depressa por vergonha, mas ele se virou devagar como uma lesma e catou as roupas caídas no chão. Com isso, Kwak Soohwan soltou o ar entre os dentes.
Ora, diziam que antigamente havia gente no exército que pedia para pegarem o sabonete. Se fosse essa a situação, Seokhwa estaria praticamente dizendo “podem me devorar”. Por mais que tivesse nascido e crescido em Jeju, não havia nele o menor traço de desconfiança. Ou talvez fosse porque, com dificuldade até para cuidar do próprio corpo, ele não conseguisse olhar para o entorno.
Depois de confirmar que Seokhwa tinha se vestido, Kwak Soohwan tirou o braço que bloqueava a porta. Lee Chaeyoon, que também tinha entendido que ele estava nu, esperava calada atrás. Ao sair, Seokhwa cumprimentou Lee Chaeyoon.
— Bom dia.
— Oi, bom dia, doutor! Soube que você desmaiou ontem, tá bem?
Seokhwa de repente se perguntou se todos os amigos de Kwak Soohwan falavam informalmente. Mesmo assim, não achou tão desagradável.
— Estou bem.
— Bom dia? Doutor Seokhwa. É um prazer conhecê-lo. Sou o major Yang Sanghoon, da Unidade Invicta.
Atrás de Lee Chaeyoon, Yang Sanghoon cumprimentou com polidez. Então nem todos os amigos de Kwak Soohwan falavam informalmente. Mas não era exatamente a primeira vez que se viam.
— …Rocha.
— Como?
Ao murmúrio de Seokhwa, Yang Sanghoon arregalou os olhos.
— Doutor Seok. Esse desgraçado apaga o filme quando bebe. Não lembra de nada de ontem.
— Hein? O que é “rocha”?
Yang Sanghoon perguntou discretamente a Kwak Soohwan.
— Rocha coisa nenhuma. Você é grão de areia, moleque.
Yang Sanghoon de repente disse que a virilha estava doendo e levou a mão para baixo, mas não chegou a apalpar.
— Mas o que traz vocês todos aqui…?
Uma mão fazendo V surgiu diante de Kwak Soohwan. Era Lee Chaeyoon.
— Dizem que os Adam andam estranhos. Pelo que o desgraçado do Yang Sanghoon falou, parece que os Adam estão se movendo feito gente? Né? Você viu, ele disse.
— Foi meio estranho mesmo. Até agora, mesmo levando impacto no corpo, eles nunca recuaram. Mas teve uns que fugiram.
Seokhwa também inclinou levemente a cabeça. Adam fugindo? Olhou para Kwak Soohwan e ele também parecia incomodado. O Oh Cheongwoon com que se depararam também foi um fenômeno estranho, inédito.
— Enfim, vamos primeiro tomar café da manhã!
Doutor, se ainda não estiver bem, quer que eu te carregue nas costas? Lee Chaeyoon ergueu o polegar e apontou para as próprias costas. Seokhwa disse que estava tudo bem e começou a andar por conta própria.
Os três majores caminhavam mais devagar que o normal, acertando o passo com Seokhwa. Se fosse só para contar o fenômeno atípico dos Adam, Kwak Soohwan bastaria, mas irem juntos até tomar café da manhã lhe deu uma sensação estranha.
Antes de descer para Jeju, tinha vivido bastante tempo naquele abrigo, mas, se não fosse pelo doutor Oh Yangseok, sempre comia sozinho. Com militares, então, era ainda mais distante, e ele sabia que muitos se irritavam com sua fragilidade. Seokhwa tentou de propósito andar mais rápido, mas resolveu não gastar energia à toa e manteve o próprio ritmo.
Como o café da manhã estava atrasado, o refeitório estava tranquilo. Só que a comida restante já estava fria e o kimchi, o mais popular, já tinha acabado. Diferente do primeiro dia, a funcionária serviu uma quantidade moderada na bandeja de Seokhwa. O boato de que ele desmaiou com a cara na bandeja tinha corrido por toda parte, e talvez alguém tivesse até mandado servir menos para evitar desperdício.
— Ouvi que o doutor come tipo mijo de rato, mas é mais que isso.
Lee Chaeyoon riu alto e apontou para a bandeja de Seokhwa.
Mas eu como mais que mijo de rato…
Seokhwa não reagiu e pousou a bandeja num lugar vago. À frente sentaram-se Lee Chaeyoon e Yang Sanghoon, ao lado, naturalmente, Kwak Soohwan.
— Eu como bem devagar.
Seokhwa pediu compreensão antes mesmo de pegar os talheres.
— É mesmo? Eu como super rápido!
E de fato, mal se sentou e já tinha devorado quase metade. Com Yang Sanghoon não era diferente. Aliás, como já notara antes, Kwak Soohwan comia devagar, num ritmo comparável ao seu.
— Doutor, coma com calma.
Yang Sanghoon sorriu com gentileza. Seokhwa também queria retribuir o sorriso, mas os cantos da boca não se moviam facilmente. Mudar de expressão facial também exigia energia. Afinal, mesmo só para sorrir, é preciso força. Para ter expressões ricas era necessário ter vigor, e o corpo de Seokhwa não permitia gastar energia com isso. Agora tinha melhorado bastante, mas quando criança ficava sempre aéreo, de boca entreaberta. No fim, para acumular de algum modo a energia do corpo, as expressões faciais de Seokhwa acabaram atrofiando.
— Doutor, depois de comer a gente tem que ir junto ao zoológico.
— Zoológico?
Ao perguntar a ela, soltou um longo suspiro, e Kwak Soohwan empurrou a água da própria bandeja para ele. Justamente estava com sede.
— O doutor Seok nem sabe onde fica o zoológico.
Havia um zoológico remanescente em alguma região que não fosse Jeju ou Ulleungdo? Seokhwa se perguntou enquanto bebia água.
— Fica na zona vermelha 8!
Um zoológico na zona vermelha? O vírus Adam era um germe perigoso que se transmitia também a animais.
— É só a gente que chama de zoológico, é onde prendem os Adam que precisam de pesquisa e fazem experimentos.
Na verdade, essa também era a graça dos filmes de terror ou das histórias de zumbis. Capturar zumbis e prendê-los em algum lugar a pretexto de pesquisa era praticamente o prelúdio de um desastre. E o fluxo de os zumbis escaparem e virar um caos era tão familiar quanto interessante. Mas a Rainbow City já era uma cidade que passou por todo tipo de coisa.
Uns trinta anos antes, houve um alvoroço quando um militar que sofria de TEPT soltou os Adam presos no subsolo do abrigo. Depois daquilo, quando havia Adam a serem estudados, passaram a mantê-los na zona vermelha e não na verde. Bloqueavam o elemento de risco desde o início. E agora chamavam aquilo de zoológico, devia ter surgido gíria nova enquanto ele estava fora. Seokhwa engoliu o arroz bem mastigado e molhou de novo a boca com água.
Viiiiiiii—
Bip— bip— bip—
Ao som da sirene que perfurava os tímpanos, Seokhwa tapou um dos ouvidos. As pálpebras também tremeram rapidamente duas ou três vezes. Aquela sirene não podia soar ali. Afinal, dentro daquele abrigo não devia haver Adam.
[Emergency, Emergency, alerta de situação de emergência no Abrigo de Yeouido, zona verde. Emergency, Emergency. Todos, adotem postura de combate. Adam detectado em B-23. Probabilidade de 75% de contaminação até o 5º andar em três minutos. Emergency, Emergency.]
Os alertas irritantes da Mother começaram a jorrar. Era a transmissão de alerta de emergência de primeiro grau definida pelo Estado integrado. Lee Chaeyoon, Yang Sanghoon e todo mundo no refeitório se levantaram de uma vez. No meio disso, Lee Chaeyoon enfiou todo o arroz restante na boca. Yang Sanghoon pegou uma salsicha e a jogou na boca dela num piscar de olhos.
Seokhwa ficou paralisado com a colher na mão diante do alerta inesperado.
— Doutor Seok.
Kwak Soohwan agarrou seu antebraço e o ergueu, perguntando:
— Vai correr ou vai nas minhas costas?
Mesmo aturdido pela sirene, Seokhwa organizou as ideias rapidamente. Ser carregado seria mais viável do que correr. Sem responder, Seokhwa foi para trás de Kwak Soohwan e passou os braços em volta do pescoço dele. Sentiu o corpo dele estremecer. Perguntou-se por quê e viu que ele o erguia nas costas rindo, incrédulo.
— Vamos.
Não era hora para aquilo, disse Seokhwa, apressando-o. Conforme o protocolo de emergência, os elevadores entraram em desligamento forçado, e o bloqueio começou a partir do subsolo, sequencialmente, segundo o julgamento da Mother. Certamente havia militares no subsolo que não conseguiriam subir. Como o caminho de subida fora bloqueado, eles teriam que enfrentar os Adam sozinhos, e o resultado era óbvio. Também seriam contaminados. A razão de os laboratórios dos doutores ficarem nos andares altos era justamente a menor capacidade de evacuação em relação aos militares.
Kwak Soohwan e os demais colegas subiram sem dificuldade até o 48º andar, a linha final de defesa do Abrigo de Yeouido. Seria natural descansar após alguns andares, mas a velocidade não mudava desde o início. Só Seokhwa é que estava quase desmaiando de enjoo.
[Abrigo de Yeouido, 20º andar aniquilado. Bloqueio do 48º andar em 1 minuto. 59, 58, 57…]
A voz da Mother avisando a situação de risco era, ao contrário da sirene, monótona.
— Ah, porra. Que mania é essa de contar os segundos!
Um sargento que ultrapassou Kwak Soohwan xingou a Mother enquanto subia numa velocidade absurda.
— Soohwan idiota, se ficar de moleza assim você morre.
Lee Chaeyoon disse que ia na frente e correu com Yang Sanghoon. Seokhwa achou que daquele jeito não daria certo.
— Haa, major Kwak.
— Quem está correndo sou eu, por que o doutor Seok é que está ofegante?
— Porque me segurar também dá trabalho.
Seokhwa relaxou a força dos braços em volta do pescoço de Kwak Soohwan.
— …Me deixa e vai.
— Pra eu ouvir o quê do tenente-coronel Jang? Não tenho tempo pra discutir, segura firme no pescoço.
Não dava para os dois morrerem juntos, não é? Seokhwa tentou empurrar suas costas e ficar de pé no chão, mas Kwak Soohwan foi mais rápido em puxar a capa para baixo e envolvê-lo. Ficou parecendo um bebê enrolado num sling.
— Nem meu irmão eu carreguei assim pra criar.
Kwak Soohwan começou a subir ainda mais rápido que antes. Seokhwa desistiu de se debater e o abraçou quieto. Se ele também conseguisse correr sem parar assim, não precisaria depender de ninguém… Detestava ser tratado de forma especial por pesquisar e virar um fardo para os outros.
[20, 19, 18]
Já estavam no 43º andar. Era impossível chegar ao 48º em dezoito segundos.
— Estou bem, vá sozinho agora. A pesquisa outra pessoa pode fazer, então tudo bem.
— Se houvesse muitos substitutos, a cúpula não teria me colado em você desde o início, né? Segura firme.
Kwak Soohwan agarrou com força o corrimão do 46º andar e, com o impulso, subiu os degraus de um salto. A cabeça girou.
[5, 4, 3]
O contador da Mother se aproximava do zero, e Seokhwa, com a culpa de que Kwak Soohwan morreria em vão por sua causa, teve a visão embaçada. Nesse instante, Kwak Soohwan gritou para o 48º andar:
— O doutor Seok tá voando aí, pega!
Kwak Soohwan agarrou a nuca de Seokhwa e o puxou das costas. Soltou a capa, envolveu-o com ela e praticamente o arremessou por baixo da grade que começava a se fechar. Yang Sanghoon agarrou Seokhwa, que vinha embrulhado na capa, e o ergueu.
— Nice catch.
Yang Sanghoon ergueu o polegar dizendo que fora um bom passe.
— Soohwan idiota, aproveita e sofre um pouco.
Lee Chaeyoon acenou tranquilamente. Os Adam deviam estar subindo, mas Seokhwa não entendia por que eles estavam tão relaxados.
— O major… o major Kwak está… ali.
Seokhwa, com o rosto branco embora sem expressão, olhava Kwak Soohwan do outro lado da grade.
— Doutor Seok, me escuta bem. Eu salvei o doutor inteligente pelo bem da humanidade. De agora em diante não me esqueça, se arrependa de não ter chupado o meu pau, e viva pedindo desculpas por ter dito que era sujo.
Kwak Soohwan agarrou a grade com a mão enluvada e falou com seriedade. Que diabos era aquilo? Faz poucos dias que ele subiu a Seul, e além do doutor assassinado, o hyung Oh Cheongwoon também morreu, e ainda o Abrigo de Yeouido, do qual se gabavam da segurança, tinha sido invadido pelos Adam. E o pior: por causa dele, a vida de Kwak Soohwan tinha sido empurrada para a morte.
A mãe dissera para ele não se sacrificar pelos outros, mas isso de qualquer forma jamais aconteceria. Ao contrário, era ele quem estava sendo sacrificado por causa dele.
— …Major Kwak.
Os lábios de Seokhwa tremeram.
— Se tivesse chupado quando eu pedi, não ficaria arrependimento nenhum, seria melhor. Se cuida. Foi pouco tempo, mas, doutor Seok, você era uma pessoa muito gostosa.
— Que idiota. Ele tá filmando um filme agora?
Lee Chaeyoon zombava de Kwak Soohwan às gargalhadas. E não só: os militares que não conseguiram entrar no 48º andar e ofegavam atrás dele também só faziam caras de derrota. Deviam estar entrando em postura de combate, mas em vez disso soltavam palavrões.
Yang Sanghoon amparou por trás Seokhwa, que cambaleava.
— Doutor Seokhwa, está bem?
— …Eu estou bem, mas…
Vendo Seokhwa tremer até os ombros, Yang Sanghoon fez uma cara de quem se dá conta de algo.
— Ah, é a primeira vez que o doutor Seokhwa passa por isso.
— …Como?
— Isso aqui não é nada demais.
Não é nada demais? Seokhwa ergueu os olhos cheios de dúvida para Yang Sanghoon. Diante daquele olhar de certa forma desesperado, Yang Sanghoon sentiu algo parecido com culpa. Quem brincou foi Kwak Soohwan e quem tinha que consertar era ele — estalou a língua e disse:
— Realmente não é nada, é um exercício de emergência. Começou depois que o abrigo de Gangnam foi invadido pelos Adam, os militares que não conseguem entrar dentro do tempo, como agora…
— …têm que fazer treinamento. É a primeira vez do idiota do Soohwan, né? Ai, que delícia. Doutor, sabe? Antes o Soohwan me pegou e me jogou bem no momento em que eu ia aterrissar no 48º andar, e eu tive que fazer treinamento. Aquele desgraçado é muito ruim.
Seokhwa continuava olhando Kwak Soohwan com o rosto pálido.
— Então… Isso agora… Não é uma situação real?
Do outro lado da grade, Kwak Soohwan sorriu de canto com aquela cara bonita.
— Doutor Seok, não me diga que se borrou?
Seokhwa cerrou o punho sem força. Por causa do tremor, nem conseguia fechá-lo direito. Os lábios ainda tremiam.
— …Filho da mãe.
[Major Kwak Soohwan e mais 23 pessoas entram em retreinamento. Bom trabalho a todos. Retornem aos seus postos.]
A voz da Mother se misturou. Por causa disso, Kwak Soohwan teve que duvidar dos próprios ouvidos, sem saber se o que saíra da boca de Seokhwa era mesmo um xingamento.
⊹₊˚ 🧬 ˚₊⊹
Continua….
🌈 Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Othello