🧬 Capítulo 06
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Paraíso dos tolos (6)
A família de Seokhwa era nativa de Jeju. Diziam que os bisavós eram todos de Jeju, e a avó também se casara com um avô nascido na ilha.
“Aquele dia foi horrível. Os pescadores do continente vieram com os barcos deles até o porto de Jeju, e o exército deu tiros de advertência mandando eles voltarem. Mas aquela gente tinha vindo pra sobreviver, ia voltar? Quando estava virando um caos, o exército matou todos eles a tiros. Morreu tanto gente sã quanto gente que morreu virando Adam. O mar, que era só azul, ficou todo vermelho.”
O estado de calamidade nacional de primeiro grau foi declarado no ano em que o Adam surgiu, e todas as embarcações e o mar de Jeju, Ulleungdo e outras ilhas entraram em paralisia temporária sob controle militar.
Foi um esforço desesperado para proteger as regiões onde o vírus não tinha se espalhado, mas igualmente desesperados foram os incontáveis sacrificados que rumaram às ilhas para sobreviver. A avó dizia com frequência que eles apenas tinham tido sorte de sobreviver.
A mãe de Seokhwa foi uma filha preciosa que os avós tiveram já tarde. Nasceu prematura e precisou ficar na incubadora, mas os hospitais já haviam perdido suas funções antigas fazia tempo. Os avós fizeram esforços abnegados para salvar a criança que morria, mas talvez por isso a mãe tenha ficado sempre doente até morrer. Todos diziam que ter dado à luz Seokhwa foi um milagre.
“…Pelo que observei, o aluno Seokhwa parece não ter emoções. Não sei desde quando, mas começaram a nascer pessoas especiais, não é? Pessoas um pouco diferentes das comuns… O aluno Seokhwa apresentou notas excepcionais, por isso o encaminhamos à Classe S administrada pelo centro de pesquisas, e lá também há muitas opiniões particulares iguais à minha. Fico pensando se o aluno Seokhwa não seria alguém com ausência de emoções…”
“Que falta de educação. Seokhwa também pensa como as outras pessoas e age com emoções. É só que, por ser fraco, ele evita criar vínculos profundos com as pessoas. Porque, se o vínculo for profundo, ele acaba dando trabalho aos outros. Agradeço as palavras, mas por favor, vá embora.”
“Senhora, o aluno Seokhwa, após concluir as aulas da Classe S, será transferido para o Centro de Pesquisas da Rainbow City. Pelo estado atual, três meses no máximo bastam para ele dominar tudo. O que precisamos não é de nada além de talentos. A senhora sabe disso. O aluno Seokhwa também precisa sair de Jeju. Agora, com a senhora aqui, ele consegue viver sem problemas apesar do corpo fraco, mas em Seul… não, quando for para o Centro de Pesquisas da Rainbow City, ele vai precisar formar laços com as pessoas. Pessoas que o ajudem.”
“Que ele vive sem problemas porque eu estou aqui? A senhora está enganada, doutora. Na verdade é o contrário.”
A cabeça fervia. À voz da avó vinham somar-se, misturadas e desordenadas, as vozes da doutora que dirigia o centro educacional de Jeju e da mãe. Como se estivesse submerso num mar negro, só ouvia vozes zumbindo. Então, pic pic, sentiu a sensação de alguém cortando seu cabelo.
“Seul vai ser muito perigoso. Você não pode sair da zona verde. Entendeu?”
A mãe cortava seu cabelo com capricho e dava tapinhas em seu ombro.
“E também não pode se sacrificar para salvar os outros. Sua segurança vem em primeiro lugar.”
“…Não faço isso.”
“Quando for para Seul, você precisa arrumar, entre as pessoas do Centro de Pesquisas, alguém que te ajude. Outro dia você desmaiou de repente e ainda teve concussão. Melhorou muito em relação a antes, mas ainda assim…”
“Está bem.”
A mãe se preocupava com Seokhwa, mas Seokhwa, ao contrário, se preocupava com a mãe.
De repente veio um enjoo. O chão parecia balançar como no dia em que saiu de Jeju de barco. Ao se remexer, algo frio pousou em sua testa e em seu corpo, e a sensação melhorou bastante.
Seokhwa regulou a respiração devagar e levou a mão à testa. Era uma toalha úmida. Abriu os olhos e girou as pupilas para verificar onde estava.
Teto azul, quarto sem janela, banheiro perto da entrada — um alojamento de formato familiar. Mas a posição da escrivaninha e da mesa era diferente da do seu quarto. Olhando para a mesa com alguns livros empilhados, voltou o olhar para o lado da cama. Ali estava Kwak Soohwan.
Kwak Soohwan estava sentado numa cadeira, com os olhos baixos sobre um livro. Não, pelo modo como virava as páginas, estava lendo. O som das páginas virando, uma, duas, era agradável. Quando ele já tinha virado umas dez, ergueu a cabeça. Assim que cruzou o olhar com Seokhwa, arregalou um pouco os olhos. Estava pensando em trocar a toalha.
— Acordou? Como se sente?
— …Estou bem.
Seokhwa não conseguiu se levantar facilmente e respondeu deitado.
— Você… lê?
Kwak Soohwan fechou o livro com um baque e o segurou com uma mão.
— Acha estranho um ignorante ler as letra? Vê se larga o preconceito.
Ele pousou o livro na mesa, pegou a toalha e a enxaguou de novo em água fria. Se até pouco antes a estendia bem esticada sobre o corpo dele, dessa vez apenas a jogou. Seokhwa agradeceu e pousou a toalha fria sobre o corpo.
— Eu estou aqui do lado pra fazer escolta do doutor Seok, isso é verdade, mas isso aqui parece mais serviço de criado, né?
Seokhwa se apoiou na cabeceira e conseguiu sentar-se com dificuldade. Só então percebeu que estava completamente nu. Ainda assim, como as toalhas cobriam tronco e quadris, não havia do que se envergonhar.
Dessa vez ele lhe entregou água morna. Seokhwa bebeu bem devagar, dividindo em goles, a água que enchia metade do copo. Kwak Soohwan vestia uma camiseta preta lisa de dotação militar e uma calça confortável, e trazia no pescoço a corrente de identificação que normalmente não se via.
Enquanto bebia, ficou olhando fixamente para ela, e ele então ergueu a placa presa à corrente. Na frente estava a marca da Rainbow City, um falcão, atrás, os dados de identificação gravados.
[Exército, code major – 3121 Kwak Soohwan]
Era também a placa usada para identificar mortos em combate.
— O que… você estava lendo agora há pouco?
— O doutor Seok não tem amor-próprio?
Seokhwa suspirou e pousou o copo ao lado.
— Tenho.
— Você sabe que eu sou mais novo que você, né? Mas eu falo informalmente e o doutor me trata todo formal.
— Se eu pedir que me trate formalmente, você vai tratar?
— Não vou. Desde que te vi em Jeju achei que era mais novo que eu.
Ele ia dizer que então ele que passasse a tratá-lo formalmente, mas faltou energia e só soltou um suspiro. Seokhwa se deslocou para o lado da parede e voltou a se deitar esticado.
— Você não deve ter dormido por minha causa, deita e dorme aqui do lado.
Era uma cama de casal, mas bem apertada para os dois.
— Não pensa em voltar pro seu quarto?
— …Não.
— Quer que eu te carregue?
Seokhwa não respondeu mais e virou o corpo para a parede. Como estava nu e lhe dava as costas, as nádegas ficaram bem à vista. Nem se preocupou em cobrir, parecia que tudo lhe dava preguiça. E ele também estava com falta de sono. Kwak Soohwan cruzou os braços, tirou a camisa e se deitou na cama. Restou um espaço mínimo, o suficiente para as peles não se tocarem, e Seokhwa se cobria com a toalha aberta. Talvez por ser o lugar onde Seokhwa estive deitado, restava ali um calor úmido.
Kwak Soohwan cruzou os braços e olhou para Seokhwa, que lhe dava as costas. Mais precisamente, seu olhar pousou nas nádegas, e como pareciam firmes, ele soltou um risinho.
— Sobre aquele inibidor que o doutor Seok pesquisou, parece que tem mesmo um problema, né?
Seokhwa, que não queria responder nada, se interessou e girou o corpo. Com isso, o pau ereto de Kwak Soohwan roçou na coxa nua de Seokhwa.
— …Quando você tomou o inibidor?
— Pela data, ontem?
Seokhwa piscou devagar, apoiou a palma na cama e ergueu apenas o tronco. Como ele olhava fixamente para a parte ereta, Kwak Soohwan, brincalhão, passou a mão por ali.
— Estou dizendo que tem efeito colateral.
Sem expressão, mas com pupilas escuras e mergulhadas em pensamento. Como se realmente se perguntasse se havia algum problema com o inibidor, ficou pensativo por um bom tempo e então soltou de repente:
— Deixa eu ver.
— O quê?
Quem provocou foi Kwak Soohwan, e quem se assustou também foi Kwak Soohwan.
Seokhwa, com olhos sérios, praticamente rastejou para fora da cama. Fez um gesto para que Kwak Soohwan, que estava deitado, se sentasse, e ele mesmo se sentou no chão.
— Doutor Seok.
Kwak Soohwan, sentado sem querer na beirada da cama, emitiu uma voz atrapalhada, mas Seokhwa foi mais rápido em estender a mão e abaixar o zíper da calça.
— Você não é urologista pra ficar olhando meu pau…
Tump! Enquanto ele falava, Seokhwa, movendo as mãos sem hesitar, puxou a cueca para baixo. Com aquele toque, o membro, que foi ficando cada vez mais rígido, ergueu-se de repente com a sensação de liberdade. Seokhwa esfregou o queixo devagar.
— O órgão do major Kwak Soohwan… acabou de bater no meu queixo.
— Como se eu não soubesse.
Que loucura. Kwak Soohwan passou a mão para trás pelo cabelo.
— Você consegue ejacular?
Seokhwa mantinha o tom sério. Um pesquisador de vírus mutantes que bebe, desmaia, acorda e tira o pau dos outros para fora… De qualquer forma, quem tirou foi você. E o fato de o inibidor não servir para nada realmente era um problema. Ele parecia bem, mas com certeza ainda havia efeito do álcool em Seokhwa.
— Sei lá.
Seokhwa assentiu como quem entendeu e tentou puxar a cueca de volta. Nisso, Kwak Soohwan agarrou seu pulso com força.
— Quer chupar pra ver?
Pisca, pisca. A luz do ambiente se apagou e acendeu de novo. O rosto de Seokhwa aparecia e desaparecia alternadamente, e então seus lábios se abriram lentamente.
— …É sujo, não quero.
E então a luz do ambiente se apagou por completo.
Sujo? Com aquela única frase, o membro rijo murchou uma camada. Pensou em agarrar seus cabelos, enfiar na boca e perguntar que gosto tinha, mas achou melhor deixar pra lá. Kwak Soohwan se deitou na cama com o zíper ainda aberto. O que estava duro ia se acalmando aos poucos, e nisso Seokhwa se arrastou por cima do corpo dele até o seu lugar de origem. Kwak Soohwan estalou a língua, incrédulo.
Não bastava tratar gente como pedra, ainda usava seu corpo de trampolim para passar por cima? Vendo aquele estado sem forças, devia ser cansativo demais dar a volta na cama. Ainda bem que a luz tinha faltado por completo, se não, teria agarrado com a mão aquele traseiro exposto.
— Essa coisa suja você também tem.
— Todo mundo tem órgão excretor.
— Se acha sujo, não deve nem conseguir transar.
Achou que viria alguma resposta, e só bem depois é que a voz chegou.
— Água-viva e anêmona têm boca e ânus na mesma abertura. Pensando bem, talvez não seja sujo.
Que raciocínio o levara àquela conclusão, era impossível saber.
A luz acabou voltando, e as costas nuas de Seokhwa, virado de lado, ficaram sombreadas e brilhantes. Nem se ouvia a respiração, mas dava para perceber que ele já tinha adormecido. Porque, mesmo quando ele passou a mão pelas nádegas fingindo distração, não houve movimento algum. Só então Kwak Soohwan apagou também a luz do ambiente. Entrelaçou as mãos atrás da cabeça e virou-se para o teto.
Quando era criança, chegou a dormir com os pais numa cama ainda mais apertada que aquela. Talvez não sentisse grande incômodo por lhe vir a familiaridade daquela época. Ficando amargurado sem motivo, Kwak Soohwan fechou os olhos dizendo a si mesmo para não pensar bobagem. Fazia muito tempo que não dormia com alguém ao lado.
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O Abrigo de Yeouido não foi seguro desde o início. Também havia ali registro de terem sido empurrados para trás pelos Adam várias vezes.
A Rainbow City, que designava zonas por sete cores, mudava de cor conforme o nível de risco, mesmo tratando-se da mesma região. Por isso, Yeouido, atualmente zona verde, já foi designada vermelha em algum momento.
— Uijeongbu teve o nível de risco reduzido de vermelho para violeta a partir das nove horas de hoje.
Com a integração dos Estados, a Coreia, antes dividida em províncias e cidades, tornou-se uma cidade chamada Rainbow City, e havia inúmeras áreas designadas como completamente desabitadas. Mas a população exata é que não era conhecida, havia muitos civis vivendo escondidos em regiões de relevo acidentado. Só que eles não eram reconhecidos como cidadãos de Rainbow City.
— Suwon entrou no nível amarelo. Mas, nesses Adam, foi detectado um sinal anômalo.
Os majores que iam a campo e os oficiais superiores que davam ordens no abrigo estavam reunidos na sala de reuniões militares do 53º andar. O general de divisão Park também estava presente.
Yang Sanghoon, que na véspera tinha exibido a virilha bêbado, prosseguia com o briefing com uma cara perfeitamente normal. Era um relatório periódico realizado toda manhã, e naquele dia era a vez da Unidade Invicta, à qual pertencia Kwak Soohwan.
— Sinal anômalo?
O general Park tragou fundo o charuto e soltou a fumaça. Era um prédio onde não se podia fumar, mas ninguém iria contestar um general de posto tão elevado.
— Quando são atacados e a situação lhes é desfavorável… eles recuam.
— …O quê?
O general Park apagou o charuto no cinzeiro com força.
— Aqueles bichos não são militares, que história é essa de recuar?
— Esse sinal foi observado três vezes na zona vermelha 10 e duas vezes na zona violeta 3.
— Isso é preciso?
— Reportarei novamente após apurar sinais mais precisos.
Yang Sanghoon fez uma continência impecável e voltou do púlpito ao seu lugar.
— Ei, major Kwak.
Kwak Soohwan, que estava sentado de pernas cruzadas sob a mesa, levantou-se ao ser chamado pelo general Park.
— Moleque, que postura é essa pra um militar? Se espelha um pouco no major Yang, hein? Cadê a disciplina?
Era um velho tão implicante quanto o tenente-coronel Jang. Ainda que tivesse só uns quarenta e tantos anos.
— A equipe de recolhimento de Adam disse que o Adam que você recolheu na zona vermelha 13 falou. Isso é verdade?
A postura sentada tinha sido péssima, mas por incrível que pareça ele estava com o uniforme militar impecável. Kwak Soohwan não foi ao púlpito e falou do próprio lugar.
— Ele falou, sim. Parecia uma pessoa prestes a sofrer a mutação para Adam, talvez a mutação de Oh Cheongwoon tenha demorado bem mais que a dos outros. Normalmente, quando alguém é infectado por um Adam, vira Adam em cinco, no máximo dez minutos, então isso também é um pouco estranho. No porão não havia outro Adam além de Oh Cheongwoon. Assim como não existe combustão espontânea, não existe virar Adam espontaneamente, existe?
— Moleque, para de deduzir. Transmite só os fatos precisos. Que militar é esse que enfia opinião pessoal?
Falava assim, mas o general Park gostava de Kwak Soohwan tanto quanto o tenente-coronel Jang.
— E o doutor Seokhwa, cadê? Eu mandei trazê-lo ao briefing de hoje.
— Está lá caído, dormindo.
Com aquele traseiro firme todo à mostra.
— Major Kwak! Como ousa, diante do general!
O tenente-coronel Jang, que só ouvia calado, ergueu a voz de repente.
— Deixa, deixa. Não é de hoje que ele é assim.
O general Park fez um gesto com a mão, pegou o charuto apagado e se levantou. Todos os militares na sala se levantaram ao mesmo tempo e se voltaram para ele. O som dos uniformes roçando também foi uníssono.
— A reunião de hoje termina aqui, e você, Kwak Soohwan, vamos te colocar em campo em breve. Lá em cima também querem isso.
Fazia poucos dias que ele fazia escolta de Seokhwa em vez de ir para a solitária. Desde o início, a cúpula não tinha a menor intenção de mandá-lo para a solitária. O general Park saiu da sala e o tenente-coronel Jang ia se aproximando de Kwak Soohwan quando recebeu um chamado no rádio.
[Tenente-coronel, o doutor Seokhwa não está no quarto dele. Também não há registro de entrada no laboratório hoje.]
— O quê?
Como Kwak Soohwan não tinha trazido Seokhwa, ele mandara alguém buscá-lo. E agora ele não estava em lugar nenhum?
Quando o tenente-coronel Jang franziu a testa e olhou para Kwak Soohwan, ele apenas deu de ombros.
— O doutor Seok está no meu quarto.
— Ei, por que o doutor está no seu quarto?
Lee Chaeyoon, que esperava o momento de se intrometer, enfiou o rosto na conversa.
— Aconteceu alguma coisa com o doutor ontem?
O tenente-coronel Jang também parecia não entender.
— Ele desmaiou na minha frente, então eu o levei pro meu quarto. E cuidei dele a noite toda.
Omitiu a parte de ter dado bebida. Afinal, quem bebeu foi Seokhwa.
— Então você devia ter acordado e trazido ele. Ele está bem?
— Sei lá, eu chamei e ele não acordava.
Ei, doutor Seok, chegou a chamar dando uns tapinhas nas costas dele.
— Então o doutor não morreu, não é?
Quando Lee Chaeyoon falou preocupada, Kwak Soohwan riu sem som. Aos olhos dos outros, Seokhwa também parecia bastante frágil. E, enquanto isso, Yang Sanghoon, que tinha apagado da memória a noite anterior, dizia despreocupado “Quem é o doutor Seok?”.
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Continua….
🌈 Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Othello