🧬 Capítulo 08
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Paraíso dos tolos (8)
Na tela do CFTV só se via gente se movendo, sem som.
Na sala de treinamento militar no subsolo do abrigo, o exercício se dividia entre o papel dos Adam e o dos militares. Entre eles via-se Kwak Soohwan, no papel de Adam, derrubando militares e atacando até os do próprio time. Agarrou o braço de um Adam que o atacava por trás, derrubou-o e ia acertar seu rosto com o punho quando pareceu se lembrar de que era treino e hesitou. Em seguida, socou o plexo solar de um militar que investia por trás.
— Se aquilo ali fosse um Adam de verdade, a gente já teria sido exterminado há muito tempo.
O tenente-coronel Jang, que assistia à tela, balançou a cabeça como quem se cansa. Mas havia também certo orgulho no fundo.
— O de hoje até que foi bom. Os que treinam com o major Kwak se beneficiam à sua maneira, e ele também deve passar a se comportar com mais empenho.
Ele carregou Seokhwa correndo, mas Jang sabia: Kwak Soohwan teria chegado dentro do tempo com folga. Só que, por algum despeito ou capricho, arremessou apenas Seokhwa e participou de um treino que odiava de morte.
— Bom, doutor Seokhwa.
— Sim.
Seokhwa tirou do bolso um petisco de nozes cristalizadas em xarope. Vendo-o mastigar, o tenente-coronel Jang, intrigado, continuou:
— O rapaz é meio bruto, mas não é má pessoa. Só com a força dele, o major Kwak consegue varrer uma zona vermelha inteira. E, por incrível que pareça, ele gosta disso e usa bastante a cabeça enquanto luta.
O tenente-coronel Jang deu uns tapinhas na própria cabeça.
— Por isso, gostaria que o senhor pensasse na troca do escolta.
Foi o tenente-coronel Jang quem trouxe Seokhwa à sala de monitoramento do treino, depois que ele pediu, logo após o exercício, para trocar de escolta. Um homem que praticamente não tinha expressão no rosto estava tão pálido que parecia que cairia com um toque.
— Olha só isso! Uau, o major Kwak sozinho não vale por cem?
O tenente-coronel Jang apontava para a tela e até batia palmas. Parecia querer dizer: não existe ninguém mais forte e seguro que esse rapaz.
O treino foi interrompido com a vitória de Kwak Soohwan, e ele, em meio aos militares esparramados, ergueu os olhos para a câmera. Não era possível que seus olhos tivessem se cruzado, mas Seokhwa apertou de novo o punho. Se não fosse um exercício e sim a realidade, ele teria visto com os próprios olhos alguém se transformar em Adam e viveria com a culpa para sempre. Por isso ficou com raiva. E também doía por dentro a própria impotência.
— Falando francamente, mesmo que o exercício fosse uma situação real, não haveria problema.
Como se tivesse lido a mente de Seokhwa, o tenente-coronel Jang sorriu com amargura. Seokhwa, que não conseguia comer nem metade das nozes, dobrou o plástico com cuidado e o guardou no bolso.
— Não entendi o que quer dizer.
— Como eu disse, ele é capaz de limpar uma zona vermelha sozinho, não é? Mesmo que os Adam invadissem de fato o nosso abrigo, ele estaria a salvo. O senhor voltou a Seul há pouco tempo e talvez não saiba, mas a Unidade Invicta de Kwak Soohwan não se chama Invicta à toa. Aqueles rapazes nunca perderam em campo. Ele é um pouco travesso, mas…
— Entendi o que quer dizer. Por favor, desconsidere o que eu falei.
O tenente-coronel Jang ficou aliviado por Seokhwa não ter insistido. Na verdade, insistir também não traria nada de bom. Num mundo em que nem todo mundo de mãos dadas e cabeças juntas seria suficiente, teimar por orgulho só traria incômodo aos outros. Seokhwa fez uma reverência ao tenente-coronel Jang e começou a caminhar rumo ao setor de pesquisa.
Como era diferente de Jeju, zona protegida, ele estava tenso desde que chegou a Seul, sem perceber. Pensando bem, durante o exercício não vira os pesquisadores nem os demais funcionários do abrigo. Provavelmente eles esperaram nas salas de abrigo de cada andar.
[Liberando.]
Quando entrou no laboratório, o doutor Kim arregalou os olhos.
— Onde você estava durante o exercício?
— Estava no meu quarto. Cheguei atrasado. Desculpe.
— Aliás, eu me dei conta tarde. Eu ia falar do exercício e acabei não falando.
O doutor Kim coçou a bochecha, sem graça.
— Quando o exercício começa, os doutores se deslocam para o elevador de emergência no fim do corredor do 34º andar. Só doutores e pesquisadores podem entrar na cabine. A gente sobe até o topo e espera lá até o exercício acabar. Eu ainda não me acostumei com isso e esqueci de avisar.
— É um preparo para uma situação real.
— Bom, é. De qualquer forma, nossas vidas dependem todas dos militares, não é? E, ao contrário, a vida deles depende de nós.
O desenvolvimento da vacina para a sétima mutação do Adam. Era essa a razão pela qual os pesquisadores eram protegidos com segurança naquele abrigo. O doutor Kim rolou a cadeira até Seokhwa. Olhou ao redor, encarou com desconfiança até a câmera de vigilância pendurada no canto, e sussurrou ao pé do ouvido:
— Você sabe que ultimamente não estamos conseguindo contato com as filiais no exterior? Nós, pesquisadores, sempre pudemos trocar pesquisas com as filiais estrangeiras, não é?
— Sim.
Seokhwa, na época em que estava no setor de pesquisa, também trocava informações com pesquisadores de filiais estrangeiras várias vezes.
— Hoje consegui a muito custo falar com um amigo da filial da China. Pelo que ouvi, lá o Adam ainda está antes da sétima mutação. Estranho como de repente o contato com o exterior foi todo cortado… Sabia que agora só a nossa Rainbow City está isolada?
Normalmente ele achava aquilo uma tagarelice sem substância, mas naquele dia ele trouxe uma notícia surpreendente.
— É verdade que não conseguem contato com as filiais estrangeiras?
— Sim, foi assim que confirmei que estamos isolados.
A rede mundial de internet tinha ruído havia muito tempo. Com a população reduzida a menos da metade, faltava mão de obra até para manter as instalações de comunicação, e os Adam causavam todo tipo de problema, como cortar cabos. Havia também inúmeras refinarias que, sem a mão humana, arderam por meses até desaparecer. A Mother de cada abrigo, incluindo o de Yeouido, era mantida a duras penas puxando toda a energia possível. Até então, o contato com as filiais estrangeiras se dava por telefone, cartas ou visitas presenciais, e essas três vias tinham sido bloqueadas justamente depois que se detectaram os sinais da sétima mutação do Adam.
— Mas, doutor, eu sempre tive curiosidade: o que é essa pedra?
Sem perceber, Seokhwa girava uma pedrinha na mão. Era um dos hábitos que apareciam quando se punha a pensar, e como sentia muito calor, segurar uma pedra também lhe dava sensação de frescor.
— É só uma espécie de amuleto.
— Haha, é estranho ouvir a palavra “amuleto” saindo da boca do doutor Seokhwa. Aliás, aquelas pedras que o senhor tinha juntado…
Havia pedras guardadas num lugar usado como almoxarifado. Depois de subir a Seul, ele não teve tempo de conferir, mas justamente pretendia ir ver hoje ou amanhã. Só que o fato de o doutor Kim ter tocado no assunto primeiro era mau presságio.
— O que tem as pedras?
— O doutor Oh Cheongwoon disse que atrapalhavam e jogou tudo no Rio Han. Antes de correr o boato de que ele tinha virado Adam.
O doutor Kim se atrapalhou de repente. Não era só por causa do nome: a testa de Seokhwa, sempre sem expressão e por isso chamado de doutor Pedra, se franziu visivelmente.
— …Entendo.
As pedras pequenas ele levou consigo ao descer para Jeju, o erro foi deixar ali as mais pesadas. Bom, a culpa era dele por ter deixado as pedras, não podia culpar quem as jogou fora. Seokhwa não se apegava a nada, mas mostrava obsessão por pedras.
— Ah, não fique tão triste. Se eu encontrar alguma pedra bonita, eu trago pro senhor, então anime-se.
— Obrigado. Mas não precisa ser bonita, pode ser uma pedra com um cristal brilhante dentro ou de textura áspera como basalto, também é bom. Só não pode ser lasca de cimento.
Seokhwa mostrou a pedra que segurava enquanto falava. O doutor Kim, que só tinha dito aquilo por educação, se atrapalhou, mas logo assentiu.
— Sim, sim, entendi. Se eu achar uma dessas, eu pego e trago pro senhor.
Seokhwa guardou a pedra no bolso do jaleco e se levantou. Caminhando arrastado até o laboratório do outro lado, puxou de novo da memória o diário de Oh Yangseok.
O comportamento anômalo dos Adam e a mutação atípica de Oh Cheongwoon.
Era certo que Oh Yangseok fizesse algum experimento com o próprio filho. Provavelmente tentando devolvê-lo à condição humana. Mas não havia registro disso no diário.
No passado, da primeira à terceira vacinas, cultivava-se continuamente o vírus Adam em ovos para atenuar sua virulência. Ao injetar essa vacina no corpo, criava-se resistência ao vírus, como numa vacina de gripe, impedindo a infecção. Mas o vírus Adam de quarta geração tornou-se mais potente, e mesmo com a vacina atenuada ocorria infecção. O vírus Adam já não podia ser combatido pelas células de memória imunológica do corpo.
Nem mesmo Seokhwa sabia quase nada sobre essa sétima mutação. Por isso pensou em ir ao lugar que eles chamavam de zoológico, mas com o exercício de emergência as coisas ficaram assim.
Observado de novo ao microscópio, o vírus Adam de sétima geração se movia de forma bem diferente do que ele viu antes. As células, que ficavam paradas como se estivessem mortas quando não havia estímulo externo, se agitavam feito loucos enfurecidos ao menor estímulo.
Enquanto olhava aquilo, lembrou-se de repente do Kwak Soohwan da gravação. Como disse o tenente-coronel Jang, ele era impressionante, mas parecia incontrolável como aquele vírus enlouquecido. Ainda assim, para salvá-lo, ele o arremessou para dentro da porta que se fechava. Não, ele sabia que era um exercício, então só estava zombando dele.
No começo ficou com raiva, mas agora até achava bom. Afinal, não tinha tido perigo real, conseguir preservar a vida, mesmo em exercício, era motivo de alegria. Ainda assim, a mão que segurava a pedra no bolso se fechou com força.
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— Soube que você ficou bravo.
Kwak Soohwan, que só saiu da sala de treinamento tarde da noite, tinha a aparência de sempre, mas exalava um ar de aspereza.
— Como soube que eu estava aqui?
Seokhwa olhava para baixo do sky lounge, agora desativado. Diziam que antigamente a vista noturna era esplêndida, agora era só escuridão.
— Perguntando por aí?
Ao encará-lo, viu um arranhão novo atravessando seu pescoço, que não estava lá durante o dia. Sentindo o olhar, Kwak Soohwan levou a mão à ferida e a retirou.
— E que você pediu pra trocar de escolta.
— Eu voltei atrás.
— Então amanhã a gente vai ao zoológico, já pode ir se preparando.
Kwak Soohwan disse que tinha transmitido o que precisava e se virou primeiro. Ao voltar pelo caminho por onde viera, passou a mão sobre o piano de cauda coberto de poeira. Chegou a soprar a poeira que ficou na mão.
— Doutor Seok, sabe qual é hoje o critério de classe média-alta na Rainbow City?
Seokhwa não quis responder e apenas ficou em silêncio.
— É quantos instrumentos musicais você sabe tocar.
Saber tocar um instrumento significava ter vivido apenas em áreas seguras. Quem vivia em zonas de risco estava sempre ocupado fugindo, e tocar música num lugar com Adam, sensíveis a sons, era suicídio.
Kwak Soohwan apertou uma tecla grave. Movendo os dedos algumas vezes, nasceu um acorde bem construído, e Seokhwa se voltou totalmente para ele. Na verdade ficou até um pouco surpreso, e achou que uniforme militar e piano não combinavam. Achou que ele tocaria mais, mas ele tirou as mãos e apenas franziu de leve as sobrancelhas.
— Já falei pra largar o preconceito.
Vou indo. Dessa vez saindo mesmo do lounge sem hesitar, Seokhwa ergueu um pouco a voz para as costas dele.
— Major Kwak Soohwan.
— O quê? Você não queria nem falar comigo?
— Pelo que o tenente-coronel Jang disse…
Seokhwa interrompeu a fala, remexeu no bolso e tirou o resto das nozes que tinha guardado. Comeu devagar, foi buscar água no lounge e ainda enxaguou a boca. Aquilo tudo era tão lento que dava a impressão de que ele nem lembraria mais o que ia dizer.
— Ele disse que você conseguiria chegar ao 48º andar dentro do tempo contado pela Mother hoje.
— Isso é quando eu estou sozinho.
— Ele disse que você conseguiria mesmo me carregando.
Kwak Soohwan cruzou os braços olhando para Seokhwa.
— É verdade. Talvez desse até com três doutores Seok nas costas.
— Só existe um de mim no mundo, então essa hipótese é desnecessária.
— Então eu reformulo. Se eu carregasse todas as pedras que o doutor Seok tem, também daria, né?
— Se essa situação surgir, eu te peço isso.
Ha. Kwak Soohwan soltou um som na garganta.
— Mas por que você fez aquilo hoje?
Ele inclinou levemente a cabeça para um lado. Como quem diz “é, por que fiz isso?”. A iluminação do lounge era a mesma da época em que funcionava como restaurante, e iluminava o ambiente de forma suave. É claro que de vez em quando piscava.
— Pra ver uma expressão diferente do doutor Seok?
— Como?
— Com essa cara amuada não dá pra saber o que você está pensando. A gente se conheceu faz pouco tempo, mas parece que pelo menos você choraria se eu morresse. Sabe como estavam seus olhos através daquela grade? Eram olhos de “se eu soubesse que o major Kwak Soohwan ia morrer assim, tinha chupado”.
— …É verdade.
Ele só dissera aquilo para provocar, e como Seokhwa respondeu com seriedade, Kwak Soohwan ficou com uma sensação estranha. Ele era apático e sempre aéreo, mas talvez fosse uma pessoa mais emotiva do que se imaginava. E, ao ouvir do tenente-coronel Jang que Seokhwa tinha ficado muito bravo, ele já estava meio convencido disso.
— Você me xingou de filho da puta agora há pouco, não foi?
— Nunca… fiz isso.
Com essas palavras, Seokhwa fechou bem os lábios. Olhou para o chão uma vez e começou a sair do lounge passando por Kwak Soohwan.
Kwak Soohwan seguiu Seokhwa devagar. Mesmo sem acelerar o passo, era fácil alcançar aquela caminhada lenta. Até entrarem no elevador percorrendo o corredor, Seokhwa não disse nada. Como os alojamentos ficavam no mesmo andar, não teve escolha senão descer no mesmo lugar, e Seokhwa, sabendo que Kwak Soohwan vinha atrás, não olhou para trás.
Para ser sincero, ele tinha mesmo pensado aquilo. Se soubesse que seria assim, não teria dito que era sujo. Dizem que até desejos moribundos se atende, ele podia ter chupado quando Kwak Soohwan, um militar sempre empurrado para a linha da morte, pediu. Naquele momento ele pensou nisso por exatos 0,23 segundos. Por isso a sensação de ter sido zombado não se apagava. Parecia também que Kwak Soohwan o subestimou. Não pretendia se impor, mas dali em diante dispensava dias como aquele.
Seokhwa registrou sua identidade na porta do quarto.
[Liberando.]
Entrando pela porta aberta, Seokhwa só então se virou. Colocou apenas o rosto para fora, voltado para Kwak Soohwan, que o observava um pouco distante.
— Major Kwak Soohwan.
Por que será que ele deixou cair o tratamento cerimonioso? Aquele tom sombrio não combinava nada com ele. Kwak Soohwan, com a boca sorrindo, ficou parado como quem diz “continue falando”. Seokhwa segurou a maçaneta por dentro e inspirou fundo, depois soltou o ar. E então moveu a boca na velocidade máxima:
— A partir de amanhã, pare de falar informalmente comigo. E eu não disse “filho da puta”, eu disse “filho da mãe”.
Atacado de surpresa, ele soltou o ar, e a porta se fechou mais rápido do que ele conseguiu correr para segurá-la.
[Fechando.]
A mão que não conseguiu abrir a porta e perdeu o rumo virou um punho. Ele bateu de leve na porta. Filho da mãe. Kwak Soohwan riu e sacudiu a cabeça.
Pensando bem, aquele doutor Pedra tinha um humor inesperado. Mesmo achando que era uma situação real, ele mandou que ele o deixasse e fosse sozinho — e isso duas vezes. Normalmente, quando a vida está em jogo, as pessoas que ele conhecia queriam sobreviver a qualquer custo.
Ficou curioso para ver que expressão ele faria se abrisse aquela porta bem fechada e entrasse, mas graças à câmera de vigilância piscando ali, ficou só na vontade.
— Assim seja, doutor Seokhwa. O filho da mãe vai indo. Amanhã de manhã volto latindo pra te buscar.
Do lado de dentro da porta, Seokhwa ficou de pé olhando para o teto.
Kwak Soohwan ficou falando de cachorro até a voz se afastar, e chegou a latir algumas vezes. Devia ter simplesmente ignorado. Enquanto isso, Seokhwa, já sem energia, tirou o plástico que envolvia as nozes. Por causa do seu calor, o xarope tinha derretido e grudado. Seokhwa se deitou no chão frio e deixou o calor do corpo escapar para o piso de pedra. Sentia que saía calor até da boca. Era a primeira vez na vida que xingava alguém na cara.
⊹₊˚ 🧬 ˚₊⊹
Continua….
🌈 Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Othello