Capítulo 08
𓇼 ⋆.˚ 𓆉 Capítulo 8.1: O olho 𓆝 𓆡⋆.˚ 𓇼
Ling Xinlu ainda estava dormindo.
Yuri perguntou a uma enfermeira se ele poderia ter acordado e voltado a dormir, mas a enfermeira balançou a cabeça e simplesmente respondeu:
— Ainda vai demorar um pouco para ele acordar.
E saiu.
Yuri puxou uma cadeira da mesa para se sentar ao lado da cama, olhando silenciosamente para ele.
Sua tez não estava muito boa, mas estava bem melhor do que antes. Mais cedo, seu rosto estava tão pálido, encharcado de suor frio, que era quase assustador de olhar — como um cadáver.
Afortunadamente, tirando o olho, os outros ferimentos não eram tão graves. Seu braço estava apenas deslocado no ombro, e seu tornozelo fraturado cicatrizaria em cerca de um ou dois meses. Por mais dolorosos que fossem, nenhum desses ferimentos se comparava aos danos críticos em seu olho. Yuri soltou um suspiro baixo.
A maior parte de seu rosto estava encoberta pelas faixas enroladas firmemente ao seu redor, mas as feições que lembravam uma linda boneca de porcelana ainda eram visíveis enquanto ele dormia e respirava suavemente. Seus lábios estavam rachados e cobertos de sangue seco, parecendo tão doloridos que Yuri não pôde deixar de franzir a testa.
Tão bonito.
Yuri estendeu os dedos silenciosamente e, com muito cuidado, tocou o sangue seco nos lábios rachados de Ling Xinlu. Ele hesitou enquanto sua mão pairava sobre as faixas, mas a memória do sangue escorrendo daquele olho ferido passou por sua mente. Ele não conseguiu se forçar a tocá-lo — nem mesmo levemente. Após hesitar por um momento, em vez disso, deixou os dedos deslizarem para a bochecha abaixo, roçando-a suavemente por alguns centímetros antes de parar.
A aspereza das cicatrizes contrastava de forma tão acentuada com a maciez de sua pele — suave, tenra, como a bochecha de uma criança. Os dedos de Yuri escovaram a superfície macia novamente, quase inconscientemente.
Verdadeiramente, tão jovem e bonito.
E, no entanto, este lindo olho nunca mais verá a luz.
Yuri de repente pensou em irmãos. Ele não tinha nenhum. Como filho único, houve momentos em sua infância em que invejava amigos que tinham irmãos ou irmãs. Mas nunca se sentira particularmente sozinho, nem jamais desejara desesperadamente ter irmãos.
“Mas talvez seja esse o sentimento de ter um irmão mais novo…” — Yuri pensou. Tão delicado, tão precioso e tão adorável.
Claro, isso não faria seu coração doer assim.
Enquanto Yuri brincava silenciosamente com o pensamento, seus dedos pressionavam e cutucavam levemente a bochecha macia e fofinha — como pão fresco assado. Na verdade, ele não estava apenas acariciando; estava cutucando suavemente aqui e ali. Então, no momento seguinte, ele congelou. Uma voz baixa e rouca escapou entre os lábios entreabertos da figura adormecida.
— Não me toque. Afaste-se.
O olho escuro e sem vida, desprovido de luz, em algum momento se voltara para encarar o teto.
Yuri retirou a mão e sentou-se silenciosamente de volta em sua cadeira.
Por um momento, Ling Xinlu ficou completamente imóvel, como se estivesse congelado. Lentamente, ele piscou algumas vezes antes de mudar ligeiramente o olhar, virando o olho na direção de Yuri.
Ele parecia momentaneamente inconsciente de sua realidade. A confusão oscilou em seu olhar, como se estivesse organizando uma bagunça caótica de memórias, tentando distinguir entre o que era real e o que era um sonho.
Mas essa confusão durou apenas um instante. Logo, à medida que sua razão e julgamento retornavam, trazendo-o de volta à realidade de onde estava deitado, seu olhar se transformou em um olhar gélido direcionado a Yuri.
— Eu deveria ter matado você primeiro.
As palavras saíram de seus lábios como um solilóquio* murmurado. Ele começou a se sentar, abaixando as pernas como se fosse sair da cama, mas parou quando notou o gesso enrolado em uma delas. Seus movimentos vacilaram. Ele olhou lentamente para o ombro contido por uma faixa de compressão e finalmente ergueu uma mão para cobrir um dos olhos. Seus dedos tocaram as faixas enroladas em seu rosto, traçando-as hesitantemente.
[N/t: É uma reflexão íntima dita como se a pessoa estivesse totalmente sozinha.]
Um som fraco de dentes se rangendo ecoou. Os músculos de sua mandíbula se moveram ligeiramente, e uma chama escura e ardente oscilou em seus olhos. Como se lembrasse do momento em que havia colapsado, sua mão lentamente se fechou em um punho trêmulo, com veias se destacando na pele tensa.
Após um momento, Ling Xinlu ergueu a cabeça e olhou para fora da janela escura.
— Que horas são? Que dia?
— São pouco mais de 21h. A data não mudou.
Ling Xinlu se inclinou ligeiramente em direção à borda da cama, mas congelou no meio do movimento. Ele permaneceu imóvel por um momento, sua expressão sugerindo tontura.
— Roupas. — ele disse abruptamente.
Yuri balançou a cabeça firmemente após um momento de silêncio diante da exigência repentina.
— Você não pode sair ainda.
O olhar feroz de Ling Xinlu foi direto para Yuri. Enquanto mantinha o contato visual, ele falou novamente, desta vez com um tom mais afiado e resoluto.
— Roupas.
— Não. — Yuri respondeu. Sua voz era quieta, mas firme.
Quando Yuri deu sua recusa quieta, mas firme, Ling Xinlu se levantou da cama. Ainda instável, com a tontura que ainda não foi totalmente embora, ele caminhou lentamente e manco na direção dele. Sem hesitar, ele esbofeteou Yuri no rosto enquanto este se sentava calmamente na cadeira olhando para ele. A cadeira rangeu ao girar com o impacto, e a cabeça de Yuri virou para o lado junto com ela.
Por um momento, Yuri não conseguiu se mover. A dor era aguda o suficiente para deixá-lo sem ar. Mesmo após o choque inicial, era difícil recuperar o fôlego adequadamente. Apesar de ter acabado de se levantar da cama e ainda estar longe de estar totalmente recuperado, Ling Xinlu não se contivera em nada.
— Yuri Gable. Só porque sorri para você, começou a pensar que era algo especial? Pessoas como você, já vi tantas que poderia varrer sem pensar duas vezes. Olhando fixamente para mim, desesperado para me tocar ao menos uma vez, e no momento em que dou um único sorriso, você se infla como se de repente tivesse se tornado importante. Ultrapassando seus limites. Já lidei com incontáveis pragas como você antes.
Talvez ele achasse que tinha algo em que se apoiar, algo que lhe desse o direito de agir assim. Yuri não respondeu, em vez disso, massageou silenciosamente a bochecha que havia levado o golpe. Ling Xinlu havia batido com força suficiente para rivalizar com qualquer homem saudável, mas a tontura o alcançou, e ele tropeçou um passo para trás, murmurando um xingamento baixinho. Então ele se virou, caminhou manco até o guarda-roupa embutido e tirou uma jaqueta que estava pendurada lá dentro. Yuri, ainda esfregando o rosto, falou baixinho.
— Onde você pensa que vai?
Não houve resposta. Ling Xinlu nem sequer olhou para ele.
— Seja para Seringe ou de volta para a China, não importa. Não há sentido em sair agora. Não há voos para nenhum dos destinos a esta hora.
Ling Xinlu congelou no momento em que ia vestir a jaqueta. Ele encarou Yuri com uma expressão peculiar antes de finalmente caminhar até a janela. A paisagem noturna de uma cidade meticulosamente organizada se estendia diante dele a partir da suíte de luxo, com uma vista melhor do que a da maioria dos hotéis de alta classe. Não era a imensidão escura de Seringe à noite nem as ruas fracamente iluminadas de Dar es Salaam, pontilhadas por raras luzes amarelas de postes.
Ling Xinlu, que estivera mal consciente desde que deixara Seringe, agora fixava seu olhar na paisagem noturna abaixo. Yuri se levantou da cadeira e se aproximou, parando a alguns passos de distância para olhar pela mesma janela.
— É a sua primeira vez em Berlim? — Yuri perguntou.
Berlim. Ling Xinlu rangeu os dentes ao ouvir essa palavra.
Aquele que ele queria despedaçar, pedaço por pedaço, estava longe — longe demais. Sua raiva queimava tão quente que tornava sua visão vermelha, como se seu coração fosse virar cinzas pela pura intensidade de sua fúria. O pensamento o consumia: se não despedaçasse aquela pessoa agora mesmo, essa raiva insuportável o destruiria primeiro. No entanto, a distância entre eles era insuperável, e tudo o que ele podia fazer era se remoer.
— Por que…
As palavras “Por que você me trouxe aqui?” pairaram na ponta de seus lábios, mas nunca escaparam totalmente. Seus lábios trêmulos desfocaram as palavras antes que pudessem tomar forma.
Na janela escura, seu reflexo apareceu, encarando o mundo além. Ele parecia congelado, sem piscar, como se esculpido em pedra. A única vez em que se moveu foi quando Yuri finalmente falou.
— Ling?
Antes que Yuri pudesse terminar, Ling Xinlu virou-se bruscamente, encurtando a distância em um instante. Ele agarrou Yuri pelo colarinho e o prensou contra a parede com força suficiente para parecer que a espinha dele iria se estraçalhar. Yuri soltou um engasgo sufocado, lutando para respirar.
— Desde o início.
Uma voz afiada como uma lâmina escapou entre os dentes entreabertos.
— Desde o início, eu nunca gostei de você. Sim, desde que você apontou aquela arma para mim. A maneira como você lê desnecessariamente as expressões das pessoas, a maneira como fala descuidadamente — não há uma única coisa em você que eu ache tolerável. Eu deveria saber que você se intrometeria onde não devia. Se eu soubesse, teria me livrado de você há muito tempo.
A mão que segurava o colarinho de Yuri se apertou em sua garganta como se realmente pretendesse estrangulá-lo. Ele tossiu e arfou por ar; seu rosto estava ficando vermelho pela falta de oxigênio. Pouco antes de sua respiração falhar completamente, Ling Xinlu o empurrou com força contra a parede mais uma vez. O impacto fez a espinha de Yuri doer como se fosse rachar, mas a força também fez seu fôlego voltar.
Ling Xinlu empurrou Yuri para o lado, deixando-o tossindo e curvado. Seu olhar feroz demorou-se sobre ele por um momento, afiado e cortante, antes de se virar como se a própria visão dele fosse intolerável. Embora seus passos fossem desiguais, prejudicados pelo caminhar manco, não havia hesitação em sua passada enquanto se dirigia à porta.
Sem nem esperar sua respiração descompassada se estabilizar, Yuri correu para a frente e bloqueou o caminho dele. Justo quando Ling Xinlu alcançou a maçaneta, Yuri se colocou em sua frente. Desta vez, seus olhos brilharam com uma raiva visível, como se estivesse prestes a estourar. Yuri abaixou a mão que estava usando para esfregar o pescoço dolorido e falou em um tom direto e firme.
— Recebi uma mensagem de Ling Tangyun. Ele me pediu para cuidar de você por cerca de uma semana até que alguém mais adequado chegue para garantir sua segurança.
Ling Xinlu encarou Yuri com uma intensidade gélida por alguns segundos antes de soltar uma risada curta e debochada.
— Então, você era o cão de Riegrow, e agora se tornou o cão do meu irmão, é isso?
Yuri não respondeu. Como se decidisse que não tinha intenção de continuar a conversa, Ling Xinlu tentou empurrar Yuri para o lado. No entanto, ele se manteve firme e bloqueou a passagem sem se mover.
Enquanto resistia, Yuri não pôde deixar de pensar consigo mesmo: “Mesmo nesta condição precária, sem equilíbrio ou estabilidade, ele ainda tem toda essa força. Assim que começar a se recuperar, não haverá como segurá-lo. O que vou fazer então?” Um pensamento contraditório passou por sua mente: torcer para que Ling Xinlu se recuperasse rapidamente enquanto, simultaneamente, desejava que seu estado enfraquecido persistisse apenas mais um pouco, pelo menos durante a semana em que teria de ficar.
O olhar de Ling Xinlu tornou-se ainda mais feroz quando Yuri permaneceu imóvel à sua frente.
— Mova-se.
↫。🫧 Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Yuki
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