Capítulo 186
Quando percebeu, estava sozinho na escuridão. Ele permaneceu imóvel, olhando para o vazio negro. Então, movendo-se lentamente, enfiou a mão no bolso. As pontas dos dedos tocaram um pequeno relógio de bolso redondo cuja existência ele quase havia esquecido.
Tirou o relógio de platina quebrado e verificou as horas. Os ponteiros apontavam para o número sete. Ao confirmar o número, soltou o objetivo silenciosamente. Em vez de cair, o relógio permaneceu suspenso no ar, e logo se transformou em luz, desaparecendo.
Fragmentos de luz se espalharam, e o espaço antes preenchido apenas pela escuridão começou a mudar. A escuridão agora transbordava lírios brancos puros.
A fragrância densa que emanava do campo infinito de lírios sufocava sua respiração. As pétalas úmidas estavam frescas e vibrantes.
Olhando para os lírios, Cesare murmurou em voz baixa:
“…Acabou?”
Sua voz foi levada pelo vento que agitava as flores. Nenhuma resposta veio, mas Cesare sabia. Seu desejo havia sido atendido, e agora era hora do deus cobrar o preço.
A brisa suave que parecia envolver o campo de flores gradualmente se intensificou. As flores, que antes se curvavam tranquilamente, começaram a balançar sob o vento que parecia anunciar uma tempestade. O perfume também se espalhou mais densamente no ar, saturando o ambiente.
Cesare cerrou o punho. As veias do dorso de sua mão saltaram, e suas unhas cravaram na palma. Ainda assim, tal dor não conseguia apagar a sensação deixada em sua mão. Na verdade, era uma sensação que ele jamais esqueceria, não importava o que acontecesse.
Nos olhos vermelhos como sangue, pétalas branco se refletiam. O descrente pediu para o ser em que não acreditava:
“Traga Eileen Elrod de volta à vida.”
Após oferecer sete provações, ele pediu ao deus seu único desejo. Um vento como uma tempestade furiosa sacudiu o campo de lírios. Logo, o campo se despedaçou, e Cesare caiu. Afundando sem fim no abismo, emaranhado entre centenas, milhares de flores.
E então ouviu a voz do deus:
“Cesare Traon Karl Erzet.”
O momento em que um humano toca um deus é verdadeiramente estranho. Uma sensação arrepiante, impossível de descrever, revirou seu estômago.
A voz não tinha forma. Ela transmitia significado como se fosse gravada em sua carne com uma faca. Cada sílaba queimava como fogo, chamuscando sua pele.
Cesare era um ateu que queria realizar seu desejo oferecendo o humano que o deus amava como sacrifício. As sete provações também foram uma expressão da ira divina contra ele.
Ainda assim, ele superou todas as provações e, portanto, o deus não teve escolha a não ser conceder seu desejo. Tal era a lei que existia desde o início.
Mas Deus e o homem não eram iguais, nem poderiam ser parceiros de negociação em termos iguais. Portanto, em troca de conceder um único desejo, o deus exigiu um preço muito maior.
“O preço por salvar uma vida é o custo de outra.”
Diante da exigência do deus, Cesare sorriu. Eileen havia morrido por ele sete vezes. Não havia razão para que o homem não pudesse pagar o preço de uma única morte. Na verdade, não seria até uma barganha?
Eileen jamais desejaria o sacrifício dele. Ela o consideraria abominável. Para a garota, morrer por Cesare era algo natural, mas o contrário era algo que ela nunca poderia imaginar.
Mesmo assim, sabendo que a garota não desejaria isso, Cesare ainda escolheu se sacrificar para trazê-la de volta. Pensando em Eileen subindo ao cadafalso, ele respondeu prontamente:
“Com muito prazer.”
No momento em que a barganha desigual foi firmada, Cesare sentiu seu corpo e alma se tornarem ligados.
Seu corpo, fixado em uma fenda no tempo, não sofreria mais por qualquer doença ou veneno. Mesmo que fosse ferido, retornaria àquele ponto fixo no tempo.
O homem entregou a si mesmo para ganhar a chance de trazer Eileen de volta.
Mas, ao contrário dos mitos, um final feliz não o aguardava. Cesare precisava morrer. Após reviver Eileen, ele recebeu apenas um pequeno período de tempo pelo deus.
Isso era mais que suficiente. Suficiente para revivê-la e construir um porto seguro para que ela pudesse viver por conta própria.
Observando o descrente exultante, o deus não escondeu Sua ira. No entanto, a barganha foi feita, e não havia mais pretexto para impor novas provações ao homem.
Restava apenas observar até que o tempo de Cesare se esgotasse.
Os lírios que o envolviam desapareceram rapidamente. Enquanto a escuridão cobria seus olhos, sua consciência foi cortada, e então ele despertou.
Cesare observou o novo mundo diante de si. Um velho estava ajoelhado diante dele, cercado por seus cavaleiros e soldados armados.
Ele encarou silenciosamente o rosto do homem ajoelhado por algum tempo, avaliando se aquilo era uma ilusão ou a realidade.
Sua mente, há muito confusa como se presa num sonho, lentamente começou a aceitar a realidade. Após algum tempo observando, Cesare finalmente percebeu para qual momento ele havia retornado.
“Então se passaram sete anos.”
O deus o enviara de volta sete anos no passado.
Cesare fechou os olhos lentamente, depois os abriu. Aquilo era realidade, o mundo onde Eileen existia. Quando finalmente compreendeu, não conseguiu conter a onda de emoções. Uma risada escapou dele como um acesso. Depois de rir loucamente, soltou um suspiro lânguido.
“Finalmente, voltei.”
Sem hesitar, Cesare desembainhou a espada e decepou a cabeça do Rei Kalpen. Observando o sangue jorrar do pescoço decepado, sorriu com satisfação.
Era a realidade que ele havia recuperado após longos e amargos anos.
Agora, precisava criar um mundo para Eileen, um onde ela pudesse viver em paz serena, mesmo sem ele.
Havia muito a ser feito. As tarefas seriam apertadas para serem concluídas antes que seu tempo se esgotasse. Começando com a morte do rei, Cesare começou a eliminar os espiões dentro de Traon que haviam ajudado o rei a enviar Eileen para o cadafalso.
Enquanto compilava uma lista de mortes, também enviou soldados à Rua Fioré para destruir a taberna onde a cabeça de Eileen fora uma vez exibida, apagando-a da existência durante a noite.
Tendo já vivido isso uma vez, lidar com a Resistência Kalpen não foi dificuldade alguma. Cesare conquistou Kalpen completamente em pouco tempo e retornou ao império triunfante.
Mas, diferente de antes, não voltou diretamente para a capital. Ele agitou o conselho, exigindo a construção de um arco do triunfo para comemorar a vitória do Arquiduque Erzet.
Ele tinha três razões para exigir o arco. A primeira era identificar claramente aqueles que se opunham ao Arquiduque. A segunda era deixar algo para trás que fizesse Eileen pensar nele mesmo depois que se fosse.
E por último, e mais importante… ele queria o nome de Eileen na história do império Traon. Diferente do passado, em que ela terminou como uma nobre executada no cadafalso, o homem queria que o Império Traon, e todo o continente, conhecessem seu nome.
Para construir um refúgio mais seguro, ele também iniciou os preparativos para tomá-la como a Arquiduquesa Erzet.
Ainda assim, em meio a tudo isso, Cesare não foi ver Eileen. Mesmo sabendo que ela existia naquele mundo, evitou confirmar isso e se manteve ocupado com outras questões.
Ele queria desesperadamente vê-la.
Se sua determinação vacilasse nem que fosse um pouco, teria ido direto à casa de tijolos onde ela o esperava. Mas Cesare suportou, atormentado todas as noites por um pesadelo cruel em que quebrava o pescoço dela com as próprias mãos.
Ele precisava ter certeza de que estava no estado mental correto. Esta era sua primeira e última chance.
Era sua única chance, mas se não conseguisse distinguir ilusão de realidade e acabasse machucando a garota, então começou a suspeitar que o deus havia preparado mais uma provação.
Até ter certeza de que isso não aconteceria, ele suportou e resistiu novamente.
E no dia em que o conselho aprovou o arco do triunfo, Cesare foi ver Eileen.
Não na casa de tijolos, mas no segundo andar de uma velha estalagem. O homem escolheu deliberadamente um horário em que sabia que ela estaria lá. Encontrá-la na casa de tijolos, pensou, poderia tornar mais difícil se conter.
O estalajadeiro, assustado com a chegada repentina de soldados, saiu da estalagem tremendo, temendo ter cometido algum crime. Na estalagem agora vazia, Cesare foi até o quarto no andar de cima que Eileen usava.
O lugar estava desordenado com ferramentas de pesquisa, livros e papéis, marcas do tempo dela alí. Absorvendo tudo peça por peça, Cesare caminhou até a janela.
Um vaso com papoulas repousava no parapeito, cuidadosamente cultivado. As pétalas vermelhas brilhantes lembravam os olhos de Cesare. Ele estendeu a mão para tocar uma delas. Nesse momento, sentiu a presença de alguém.
Passos leves entraram no quarto, mas Cesare não se virou. Na verdade não conseguia. Somente após um instante que pareceu uma eternidade o homem finalmente se virou para encará-la.
“Eileen Elrod.”
Aquela que ele havia matado, e que havia trazido de volta. Finalmente, era a verdadeira Eileen.
Continua …
Tradução e Revisão: Elisa Erzet