Capítulo 187
Cesare observou Eileen com olhos ao mesmo tempo familiares e estranhos. Ele havia vivido incontáveis Eileens ao longo de um período que parecia imensurável de tempo, mas a que estava diante dele era uma existência completamente diferente.
A Eileen da realidade estava longe daquela de seus sonhos. Seu rosto endurecido não tinha mais o sorriso radiante, mas estava sombreado pelo medo. Embora estivesse feliz com o retorno dele, não conseguia correr para seus braços. Apenas hesitava e oferecia uma tímida saudação por sua vitória.
Dizer que isso não o entristeceu seria mentira. Ele conhecia a Eileen que um dia sorriu sem reservas e se lançara em seus braços.
Mas essa era a Eileen real. A que desejava proteger, independentemente do que precisasse sacrificar.
Percebendo que estava buscando traços da Eileen do sonho, ele deixou escapar um sorriso autodepreciativo. Curvando os lábios em um leve escárnio, deu um passo em direção a ela.
Como um caçador guiando uma pequena criatura para uma armadilha, ele usou palavras sutis para conduzi-la. A garota inocente reagiu exatamente como ele esperava a cada um de seus comentários, se encolhendo e tremendo como uma presa diante de um predador, como se ele fosse sacar uma arma e executar um traficante no local.
‘Como eu poderia te matar, Eileen?’
Ele murmurou essa contradição para si. Mesmo ao ver seu rosto assustado, não recuou.
O que estava prestes a fazer agora seria um ato imposto a ela. Eileen certamente sofreria. Ela choraria, inúmeras vezes.
Mas Cesare só buscava a felicidade de Eileen.
Imaginando a garota chorando de ressentimento, ele estendeu a mão. Afastou a franja sufocante que cobria metade do rosto e retirou seus óculos.
Lindos olhos verde-dourados foram revelados por completo. Transbordando luz, a cor misteriosa brilhava com uma profundidade além da palavra “encantador”, como os olhos de uma fada. Cesare sorriu ao encarar a cor que mais amava:
“Por acaso estou precisando de uma Arquiduquesa.”
Ele abaixou a cabeça lentamente. Mesmo enquanto observava seus olhos se arregalarem de tensão, ele diminuiu a distância:
“Então Eileen, vamos nos casar?”
Não havia flores nem anel naquele pedido. Em vez de perfume floral, havia apenas o cheiro de sangue. Eileen deve ter sentido o peso inescapável daquilo. Como um pequeno animal encurralado, reagiu desesperadamente em protesto.
“Eu… eu não quero me casar com você, Vossa Graça.” —Embora tremesse, ela se forçou a falar com clareza: “Você nem gosta de mim. Só me vê como uma criança.”
“Isso mesmo. Você é minha garotinha.”
Houve um tempo em que ela fora sua esposa, mas aquilo existia apenas em um sonho. Para a Eileen atual, não passava de uma fantasia sem sentido. Cesare a observou, viva e respirando diante dele, e ouviu seus lábios murmurando em voz baixa.
“Você vai precisar de um herdeiro, e para isso… teria que fazer esse tipo de coisa comigo. Mas você não pode…”
Incapaz de suportar mais, Cesare a segurou, cedendo ao impulso que o pressionava há algum tempo.
No momento em que seus lábios se encontraram, um arrepio percorreu seu corpo. O calor que provava que ela estava viva, a sensação macia do corpo vivo, o mergulhou num prazer tão intenso que beirava a dor.
Naquele instante, quis ir além. Embora tivessem feito amor inúmeras vezes no sonho, ele nunca havia penetrado seu corpo real. Queria penetrá-la e confirmar que estava viva.
Longe de ser o suficiente, mas Cesare se conteve a um beijo profundo.
“E então?” —Ele perguntou numa voz lânguida, sem se importar em esconder o desejo em seus olhos: “O que achou?”
Eileen o encarou, atordoada, incapaz de reagir, paralisada. Sem nunca ter experimentado tal contato, devia estar completamente em choque. Mas, em vez de confortá-la, Cesare apenas acariciou sua bochecha corada.
Seus olhos caíram sobre as papoulas balançando ao vento. Olhando das pétalas carmesim de volta para a garota em suas mãos, ele pensou…
‘Tudo começa agora. Somente por Eileen.’
🌸🌸🌸
Quando a garota soube a verdade, Cesare já sabia como ela reagiria. Eileen não chorou. Ela apenas o encarou, sem expressão.
Claro, ele nunca imaginou que ela seria levada às lágrimas por uma declaração de amor, nem que responderia da mesma forma. Ainda assim, vê-la quebrada não lhe trazia alegria.
Seus olhos verde-dourados, agora vazios, olharam para ele. Na taberna escura, as luzes se acenderam e uma nova apresentação começou. Uma música suave se espalhou pelo ar.
Talvez por ter estado perdido no passado por um tempo, a música lá embaixo parecia distante. Ou talvez fosse porque toda sua atenção estivesse fixa no ser diante dele.
— Ce-Cesare… —Os lábios de Eileen se abriram. Parecia querer dizer algo, mas a voz não saía. Após várias tentativas, finalmente sussurrou em um tom seco e rouco: — Por que… você me ama…?
Era uma pergunta que nem mesmo Cesare poderia responder. Quando oferecera incontáveis vidas como sacrifícios nas chamas, quando em sonhos matara a si mesmo e matara Eileen, não sabia o que era amor.
Se não tivesse ouvido a confissão da Eileen do sonho no final, talvez nunca tivesse compreendido.
“Eu te amo.”
Porque ouvira aquelas palavras, ele entendeu que tudo o que sentia e fizera foi por amor.
Mas seu amor não era o mesmo que existia no mundo.
Se realmente desejasse a felicidade dela, haveria maneiras mais silenciosas de morrer. Poderia ter guardado todos os seus segredos para si e encontrado uma morte natural ou acidental, poupando-a de grande parte da dor que ela sentia agora.
Mas não fez isso. E não porque sabia que a inteligente Eileen eventualmente descobriria a verdade.
Sua escolha, no fim, nascera do egoísmo. Cesare queria deixar uma ferida profunda nela, uma cicatriz incurável.
Queria garantir que jamais desapareceria da mente da garota, que ela nunca entregaria o coração a outra pessoa. Desejava que todo o coração dela pertencesse apenas a ele, mesmo depois de sua morte.
— Porque você apareceu diante de mim.
Essa era a única razão para o amor que ele conhecia. Naquele dia no campo de lírios, Cesare fora o escolhido.
Eileen não conseguiu falar mais e cambaleou onde estava. Depois de ter inalado fumaça no corredor por tanto tempo, e agora ter passado por emoções tão intensas, já não conseguia ficar de pé.
Cesare a segurou quando ela desabou. Fraca, ela o empurrou com as mãos:
— Não… —Respirando lentamente como se estivesse tonta, ela moveu os lábios: — Eu… tenho que morrer… Cesare… por favor…
Ignorando a recusa, ele a beijou. Tocando seu corpo ainda quente, não frio e rígido, confirmou sua vida.
Eileen balançou a cabeça violentamente, mesmo através da tontura trazida pela fumaça, e o empurrou:
— Não… se… se eu morrer agora…
— Não tem mais volta.
Seu olhar quebrado o encarou em desespero. Fitando os fragmentos destruídos daquele verde-dourado, Cesare pressionou os lábios contra seu pescoço, o mesmo lugar onde tantas vezes tirara sua vida. Ele lambeu suavemente, como se tardiamente tratasse uma ferida.
Seu corpo tremeu levemente. Logo, uma sensação úmida permaneceu em seus lábios. Ela finalmente começara a chorar. Desta vez, ele não fazia ideia de como confortá-la. Talvez nunca soubesse.
Mas já era tarde demais para desfazer qualquer coisa. Em vez de tentar acalmá-la, Cesare a beijou novamente e deu sua ordem:
— Viva, Eileen.
Esse era o único desejo do homem.
Fim do Volume 05
Continua…
Tradução e Revisão: Elisa Erzet