Capítulo 185
Embora tivesse decidido matar a Eileen ilusória, Cesare não conseguia fazê-lo com facilidade. Tentou repetidas vezes, mas cada vez sentia sua mão afrouxar em volta do pescoço dela.
Talvez Eileen tivesse percebido algo estranho em seu comportamento. Não havia outra razão para ela dizer algo assim de repente.
Do lado de fora da janela, a chuva caía em torrentes. Neste sonho em que o clima sempre fora ameno, uma tempestade assim era sem precedentes. A chuva despencava sem controle, sacudindo tudo em seu caminho, tão feroz que ninguém no mundo poderia escapar dela.
Ouvindo a chuva forte, Cesare olhou para Eileen. Ela, por sua vez, o encarou volta. Seus olhos, de cores tão marcadamente diferentes, se encontraram e permaneceram assim por muito tempo.
Lágrimas como contas de cristal rolavam sem parar de seus olhos brilhantes, e ao vê-la chorar, Cesare percebeu que não conseguia fazer nada.
“…Como posso te matar?”
As palavras escaparam sem querer, sendo ao mesmo tempo verdade e mentira. Pois o homem já havia matado Eileen inúmeras vezes. Quebrado o pescoço da garota que irradiava confiança absoluta nele mais de uma vez com suas próprias mãos.
Por algum motivo, o choro dela só se intensificou. Cesare soltou um suspiro lento e a puxou para seus braços. Quando ela era criança, ele sabia bem como acalmá-la; mas à medida que crescia, mais difícil se tornava conter suas lágrimas.
Quando ela era uma criança simples, cujo mundo se resumia ao príncipe, às suas plantas e seus pais, era mais fácil entendê-la. A Eileen adulta era mais complexa. Mesmo depois de observá-la a vida toda, Cesare ainda a achava uma existência insondável, assim como ele próprio devia ser para ela.
“Cesare…”
A pequena mão segurou o pulso dele. Um toque tão leve que poderia ser afastado sem esforço algum, mas Cesare não conseguia se mexer, como se estivesse acorrentado.
A mãozinha pressionou a dele, que estava apoiada em seu pescoço, contra sua própria garganta. Sem forças nos dedos, ela chorava sem parar. Seu sussurro suplicante penetrou o som da chuva até ele:
“Eu quero te ver.”
Era algo estranho de se dizer quando ele estava bem diante de seus olhos. Ainda assim, Cesare não perguntou o porquê, apenas respondeu honestamente.
“Eu também quero te ver, Eileen.”
Agora, o homem não podia mais se contentar com uma presença em um sonho. Desejava vê-la, a garota que conhecera nos campos de lírios, que ele escondera dentro de seus muros e criara com cuidado e carinho. Queria ver a mulher que ela teria se tornado, o futuro que teria alcançado se ele não a tivesse destruído.
O futuro de uma Eileen não subjugada por causa dele…
Em vez de estrangulá-la, Cesare acariciou lentamente sua bochecha molhada de lágrimas. Eileen aceitou seu toque e fechou os olhos, depois os abriu novamente para encontrar os dele:
“Eu te amo.”
As palavras caíram de repente, sem aviso, pegando-o completamente desprevenido. Ao ouvi-las, Cesare prendeu a respiração; por um instante, pareceu que o próprio tempo havia parado.
Ele nunca tinha ouvido essas palavras dela antes.
Mesmo no diário onde a garota derramara seus pensamentos mais íntimos, ela nunca ousara escrever que o amava.
Em todas as incontáveis horas que passaram juntos, isolados na casa de tijolos, ela nunca lhe fizera uma confissão tão completa.
Não importava. Seus olhos verde-dourados, sempre brilhando cheios de afeto e confiança, falavam por si. Cesare acreditava não precisar ouvir aquelas palavras em voz alta. Ainda assim, ouvi-las foi algo completamente diferente.
Eileen pressionou a mão dele contra seu pescoço novamente e repetiu as palavras várias vezes:
“Eu te amo, Cesare. Eu te amo…”
Chorando como se quisesse compensar todas às vezes em que não disse aquilo, confessava repetidamente. Naquele momento, Cesare soube instintivamente: era hora de deixar aquele sonho. Aquela podia ser sua última chance.
A Eileen daquele sonho também sabia como enviá-lo de volta à realidade. Mesmo sabendo que sua morte era o caminho, ela oferecia sua vida sem hesitação por ele.
A imagem de Eileen subindo ao cadafalso se sobrepôs em sua mente, a garota que enfrentava qualquer medo e terror por ele.
Cesare sentiu como se seu peito estivesse sendo esmagado, como se sua garganta estivesse sendo apertada tão forte que não conseguia respirar. Ainda assim, ele abriu os lábios:
“…Eu também.”
Ele sabia que era uma mentira beirando o engano, mas mesmo assim a disse:
“Eu também te amo, Eileen.”
Mesmo com os olhos cheios de lágrimas, ela sorriu radiante com o mesmo brilho de sempre. Sorriu para ele como nos seus primeiros dias, antes de saber de qualquer coisa, e o beijou primeiro.
Seus lábios molhados pelas lágrimas tocaram levemente os dele e depois se afastaram. Ela o olhou uma última vez, fitando seus olhos por um longo momento antes de fechar os seus.
Só então Cesare percebeu que estava tremendo, como se estivesse cometendo um assassinato pela primeira vez. Sua mão, tremendo levemente, fechou-se em torno do pescoço pálido.
Quanto mais tempo demorasse, maior se tornava a dor. Então aquilo tinha que acabar num único instante. Por fim, ele usou toda sua força, e a sensação terrível percorreu sua palma.
Cesare matou Eileen pela sétima vez.
A sensação da vida deixando o pequeno corpo foi cruelmente vívida. Um momento atrás ela estava viva, cheia de vontade, e agora pendia inerte como uma boneca quebrada.
Cesare afrouxou lentamente a mão e chamou seu nome:
“Eileen.”
Nenhuma resposta veio. A chuva tamborilava contra a janela. Cercado pelo barulho, Cesare a segurou em silêncio nos braços. Um relâmpago iluminou o quarto escuro, e o trovão rugiu como uma explosão.
Ao ouvir o som, um pensamento estranho cruzou sua mente: talvez aquilo fosse realidade. Não um sonho, não uma ilusão.
Ele se levantou, apertando o corpo já esfriando contra si, e avançou cambaleando. Na escada, quase errou o passo várias vezes, mas não podia deixá-la cair, então se forçou a manter o equilíbrio.
Outro trovão ecoou. Cesare pressionou o rosto de Eileen contra seu peito e sussurrou que estava tudo bem. Beijou sua testa arredondada e ajeitou seu cabelo desalinhado.
No quarto com o piano, ele a sentou cuidadosamente no banco, sustentando seu corpo que começava a tombar. Então sentou-se também, apoiando a cabeça dela em seu colo. Assim como fazia quando ela era criança, ofereceu seu joelho como travesseiro e começou a tocar.
Era uma apresentação para Eileen. Ela sempre teve medo de trovões; ele esperava que o piano abafasse um pouco do som.
Mas estranhamente, as teclas não funcionavam direito. Seus dedos escorregavam, os pedais vinham atrasados. Ele cometia erros que nunca cometera, nem mesmo quando era iniciante.
As notas confusas cessaram abruptamente. Gotas de chuva estavam caindo. A chuva finalmente havia invadido a casa? Gotículas caiam em suas mãos, molhando as teclas do piano.
(Elisa: Aqui é uma alusão às lágrimas dele. Não era necessariamente chuva e sim ele chorando sem se dar conta. Não sei se conseguiram entender a cena. Ele não estava conseguindo tocar. )
Sentindo a umidade se infiltrar, Cesare continuou tocando. A música estava quebrada e incompleta, mas abafava o trovão o suficiente.
O mundo começou a desmoronar. A casa de tijolos se dissolveu em fragmentos de luz, desintegrando-se como papel velho.
O quarto onde passaram a noite, a cozinha onde compartilhavam refeições, a laranjeira no jardim onde cochilavam à sombra, tudo se dispersou em nada.
Naquele momento de desintegração total, Cesare continuou tocando, esperando a chuva parar de cair.
Continua …
Tradução e Revisão: Elisa Erzet