Capítulo 184
O tempo na vida pacífica deles passou mais rápido do que nunca. Um mês parecia um único dia, e um ano, um único mês. O Arquiduque Erzet, e a farmacêutica da velha estalagem, ambos estavam lentamente desaparecendo da memória das pessoas.
O Barão Elrod, que fora o primeiro a fugir quando Eileen foi condenada à morte, veio à casa de tijolos apenas uma vez. Mas quando Cesare encostou o cano de uma arma contra a testa dele, o homem sumiu imediatamente e nunca mais voltou. Provavelmente decidiu que não havia mais nada a ganhar com a filha.
Até mesmo os cavaleiros e soldados que antes vinham procurar Cesare pararam de aparecer. Era como se tivessem deixado de existir. Cesare pensou que ao menos os cavaleiros poderiam ter vindo, mas não se aprofundou nisso.
Porque o homem gostava da sensação de que só ele e Eileen restavam no mundo. Era uma felicidade como um sonho eterno.
Quando ele abria os olhos, Eileen estava lá. Se ela dizia que faria sanduíches, ele cortava o pão; quando a refeição terminava, ele cuidava da limpeza.
Em alguns momentos, os dois sentavam juntos sob a laranjeira no jardim, conversando sem compromisso até adormecerem. Acordavam, bocejavam preguiçosamente, cuidavam das tarefas da casa e preparavam um jantar cedo.
Às vezes, Cesare tocava piano para ela. Ele havia esvaziado o quarto que antes era usado pelo Barão Elrod e colocado um piano de cauda. Era um instrumento feito pelo melhor artesão com os materiais mais preciosos, algo esplêndido demais para a modesta casa de tijolos.
Pertencia ao opulento palácio imperial ou à mansão Arquiducal, mas Cesare acreditava que deveria estar ali, na casa de tijolos, porque os olhos de Eileen brilhavam de admiração sempre que o via tocar.
À noite, sem falta, faziam amor. Eileen se tornava mais sensível a cada dia, e Cesare lhe dava de bom grado mais prazer do que ela pedia.
Mas o herdeiro que ela queria não vinha. Às vezes chorava de frustração. Cesare a consolava, mas por dentro não sentia absolutamente nada.
Ele não via motivo para que sua linhagem continuasse. Na verdade, desejava que o momento presente, em que ele e Eileen existiam sozinhos no mundo, pudesse durar para sempre. Não importava de quem fosse o sangue, o homem não queria nenhuma presença externa interferindo.
Ainda assim, porque Eileen desejava, ele concordava. Se fazia sua esposa feliz, Cesare o faria de bom grado.
Em um desses dias tranquilos, Cesare estava na biblioteca da casa de tijolos, reorganizando livros. Enquanto os mudava de ordem, algo caiu com um leve baque.
“…”
Uma estranha sensação de déjà vu o tocou, embora ele não soubesse dizer o que era. Lentamente, ele virou a cabeça em direção ao som.
Um livro havia caído. Leu o título na lombada: era sobre plantas. Há muito tempo, quando Eileen era criança, ele o dera de presente.
Ela amava plantas desde pequena, devorando todos os livros que encontrava sobre o assunto. Cesare sempre comprava os volumes mais recentes para dar de presente.
Quando terminava de ler, ela vinha até ele e contava tudo o que havia aprendido e o que tinha sentido. Sua voz alegre o agradava, e por isso ele gostava de lhe dar livros.
Seus olhos carmesim se estreitaram levemente. Uma pergunta surgiu em sua mente.
Desde que vieram viver naquela casa de tijolos, Eileen alguma vez falou com ele sobre plantas?
Em algum momento ela parou de falar sobre o assunto que tanto amava. Passava o dia inteiro com Cesare, falando apenas de coisas cotidianas.
Como se Cesare fosse a única coisa no mundo dela.
Aquilo o agradava. Ele estava satisfeito em saber que existiam apenas um para o outro. Era uma felicidade verdadeira. E ainda assim… ele não conseguia afastar a sensação de que havia esquecido algo.
Cesare pegou o livro caído. Pretendia colocá-lo de volta, mas por alguma razão não o fez. Em vez disso, saiu da biblioteca com ele na mão.
Ao sair, encontrou Eileen subindo as escadas. Estendeu o livro para ela.
“Faz um tempo desde que você viu isto.”
Ela arregalou os olhos e o pegou. Ao ver o título, riu.
“Você me deu isso quando eu tinha onze anos.”
“Tem tempo que não te dou um livro.”
“Tudo bem.”
Ela balançou a cabeça levemente, depois sorriu com timidez e disse animada:
“Só preciso de você, Cesare.”
Olhando para aqueles olhos verde-dourados, outra pergunta surgiu. Quando foi que ela parou de usar óculos e de esconder os olhos atrás da franja?
Talvez tenha sido depois da primeira noite juntos. A partir daí, ela mudara lentamente para a forma que Cesare mais gostava.
Mantendo o olhar preso a ela por um momento, Cesare olhou pela janela. Além da laranjeira que balançava suavemente estava o portão do jardim. Depois dele, estendia-se uma longa estrada silenciosa, sem sinal de nenhum transeunte.
Tentou se lembrar da última vez que tinha passado por aquele portão. Nada veio à mente; sua memória estava em branco.
Na casa de tijolos, comida e outras necessidades eram sempre reabastecidas sozinhas. As estações eram infinitamente amenas. Nenhuma doença ou acidente ocorria. Tudo o que Cesare precisava fazer era desfrutar da paz confortável com Eileen. Como um sonho.
“Cesare?”
Ela inclinou a cabeça diante do olhar silencioso dele.
“Eileen…”
Ele pronunciou seu nome suavemente e a puxou para seus braços. Ela parecia tão real, corpo quente, pele macia, olhos brilhantes. Uma linda bonequinha.
Mas Cesare conhecia a Eileen que amava plantas, que passava horas estudando um espécime raro, que queria pesquisar todas as plantas do mundo.
Ele conhecia a Eileen que chorava todas as noites de solidão na Universidade de Palerchia, ainda assim lutava para se formar no topo da turma.
Ele conhecia a Eileen que, na estalagem miserável, vendia remédios com senso de responsabilidade para cada cliente, preparando cada fórmula com toda sua habilidade.
Tic, tic, o som dos ponteiros de um relógio se agarrou a ele. Cesare sorriu levemente com amargura, ao lembrar de um som há muito esquecido. Pensamentos incontáveis o pressionavam.
Seria ele feliz se saísse daquele lugar? Talvez as provações apenas se repetissem novamente. Mesmo que este fosse o fim delas, poderia ele confiar que o deus cumpriria o acordo?
Comparada a uma realidade incerta, aquela ilusão era doce de fato. Era um paraíso perfeito, mas só para Cesare.
Mas não era um lugar para Eileen.
Se ele não conhecesse a vida dela, se não conhecesse cada passo desde o primeiro encontro, quando ela tinha dez anos até chegar à idade adulta, talvez hesitasse por mais tempo.
Mas Cesare sabia de tudo. E por isso só podia escolher a realidade. O que realmente queria não era uma boneca feita para ele, mas a própria Eileen.
Naquele dia choveu. Nuvens pesadas pairavam baixas, sufocando o céu, e cortinas de chuva caíam sem parar.
Cesare tocou piano o dia inteiro para acalmar Eileen, que tinha medo de trovões. Depois foram dormir cedo, com ela agarrada a ele, se recusando a soltar.
A luz do lampião piscou brevemente. Em um quarto sem vento, a chama vacilante estava fora do lugar.
Assim que Cesare estreitou levemente os olhos, Eileen levantou a cabeça de seu peito. Os olhos dele se arregalaram, ela estava chorando.
“Cesare…”
Seu rostinho estava encharcado de lágrimas enquanto implorava com a voz trêmula:
“Por favor… me mate.”
Continua …
Tradução e Revisão: Elisa Erzet