Capítulo 183
Por causa de uma mera mulher, o Arquiduque Erzet havia abandonado todo o poder, e o mundo fervilhava de comentários. A maioria dos inúmeros rumores eram sem fundamento, pois para qualquer mente razoável a situação atual era impossível de compreender.
Já era bem sabido que o Arquiduque não tinha interesse no poder. Ele havia escolhido colocar seu irmão gêmeo mais velho no trono e assumir o título de Arquiduque. Mas ninguém imaginava que o homem chegaria a abandonar também sua posição como soldado.
De um soldado desde criança a Comandante Supremo do Exército Imperial, o Arquiduque Erzet passou toda a sua vida como a espada de Traon. No entanto, agora ele dispensara até mesmo os cavaleiros e soldados que o seguiram, trancando-se em uma velha casa de tijolos.
Muitos se recusavam a acreditar em sua aposentadoria. Até supunham que o Arquiduque estava se escondendo para preparar um retorno dramático.
Mas Cesare havia realmente jogado tudo fora, por Eileen e por si mesmo.
Ele nunca soube o que era felicidade. Mas nos dias que passou na casa de tijolos, começou a suspeitar ser isso a tal felicidade que as pessoas falavam.
Uma vida de dias simples, comuns, talvez monótona e tediosa para alguns, era para o homem uma vida de profundo conforto. De paz, como a superfície imóvel da água intocada.
Uma brisa suave soprou. O leve farfalhar das folhas tocou seus ouvidos como uma maré tranquila. Cesare abriu lentamente os olhos que mantinha fechados.
Através da folhagem da laranjeira, a luz do sol se espalhava em padrões cambiantes. Enquanto observava o céu preguiçosamente, franziu a testa. No mesmo instante, uma fruta dourada pendurada na árvore caiu no chão com um som suave.
Ele fitou a laranja caída na grama. Naquele momento, a porta da casa de tijolos se abriu.
“Cesare!”
Agora acostumada a chamar seu nome, Eileen veio correndo com um pão recém-assado. Ela estendeu orgulhosa a ciabatta ainda fumegante.
“Olha só. Ficou tão bom.”
Seu rosto iluminado com uma alegria tão pura enquanto perguntava se não parecia delicioso. Cesare sorriu ao pegar o pão de suas mãos.
Depois de quase ser executada por produzir medicamentos a partir de ópio, Eileen havia abandonado completamente seu trabalho como farmacêutica. Ainda havia clientes que buscavam desesperadamente o remédio que ela fazia, mas não havia o que fazer.
Eles também sabiam que a garota escapara por pouco da guilhotina, e por isso ninguém tinha coragem de pedir que ela fizesse remédio novamente.
Tanto Cesare quanto Eileen haviam desistido de tudo, enterrando-se na casa de tijolos. Felizmente, não havia motivo para se preocupar com a sobrevivência. A fortuna que Cesare acumulara como Arquiduque era suficiente para os dois viverem com luxo pelo resto de suas vidas.
Se havia algum pequeno problema em sua vida pacífica, era que muitos ainda não conseguiam esquecer o “Arquiuque Erzet”.
“Entre primeiro.”
Hoje também havia um visitante na casa de tijolos. Cesare devolveu o pão a Eileen e a mandou entrar.
Com olhos ansiosos, Eileen correu para dentro, trancando bem a porta e fechando todas as cortinas.
Quando a ciabatta em seus braços já estava morna, uma batida leve soou. Eileen abriu com cautela.
“Vamos almoçar?”
De pé sob o sol brilhante do meio-dia, Cesare sorria como se nada estivesse errado, apesar de estar respingado de sangue. Eileen olhou para ele à beira das lágrimas.
Ele estendeu a mão instintivamente para acariciar sua cabeça, mas parou no meio do movimento e a abaixou. Sangue escorria de seus dedos. Em vez disso, pressionou firmemente os lábios na testa arredondada dela, e só então sua expressão relaxou um pouco. Com as bochechas coradas, ela disse animadamente: “Vou fazer sanduíches”, —e saiu apressada. Cesare sorriu silenciosamente e foi para o banho.
Sua vida tranquila fluía suavemente como água corrente. As estações mudavam, os anos passaram, e nem Cesare nem Eileen deixaram a casa de tijolos.
De tempos em tempos, cavaleiros e soldados vinham visitá-los. Leone ou outros nobres também apareciam. Eles desejavam o retorno de Cesare, e às vezes esperavam que Eileen o convencesse.
Mas Cesare recusava todos.
A primeira ondulação em sua vida parada aconteceu por causa de Eileen. Uma noite, ela foi até o quarto dele.
Embora fossem casados no papel, nunca consumaram. Cesare havia escolhido o casamento apenas como um meio de protegê-la.
Mas naquilo que o homem pensava ser uma solução perfeita, havia uma falha — ele não percebeu que Eileen não poderia permanecer uma criança para sempre.
Vestindo apenas uma fina camisola, Eileen já tremia. Com os ombros encolhidos, ela sussurrou com uma voz baixa e trêmula:
“Cesare…”
Era apenas o nome dele, mas o homem sabia o que a esposa queria ao subir cautelosamente na sua cama. Olhando rapidamente para ele, que estava encostado na cabeceira, ela desviou o olhar e murmurou:
“Eu… eu sou sua esposa, então…”
“Alguém disse que você precisa me dar um herdeiro?”
Os olhos de Eileen se arregalaram enquanto olhava para ele. Cesare soltou um suspiro baixo e colocou o livro que segurava sobre a mesa de cabeceira.
“Se você não quiser, não precisa—”
“E-Eu quero.”
Pela primeira vez, Eileen o interrompeu, algo que nunca fez antes. Seus olhos, desesperados e suplicantes, fixaram nele.
Sem pensar, Cesare estendeu a mão e tirou os óculos dela. Os olhos verde-dourados escondidos atrás deles brilhavam como estrelas à luz do lampião, úmidos, prestes a transbordar em lágrimas.
“Eu… quero você, Cesare.”
A menina havia se tornado uma mulher. Não, ela já era adulta há algum tempo, mas apenas Cesare continuava a vê-la como uma criança. Eileen queria que ele a tratasse como sua esposa.
O homem não conseguiu nomear claramente a emoção que sentiu. Ele a observou em silêncio por um longo momento, até que ela desviou o olhar, com o rosto completamente corado. Em seguida, tentou sair apressadamente do quarto.
“M-Me desculpa… ah!”
Ele a pegou pelo pulso e a puxou de volta. Perdendo o equilíbrio, caiu na cama, com os olhos arregalados. Cesare olhou para ela de cima, com expressão ilegível.
Sua respiração ficou irregular, seu peito subindo e descendo rapidamente. No momento em que seus lábios se abriram novamente para chamar seu nome, Cesare pressionou sua boca contra a dela.
Não foi nada parecido com os beijos gentis que ele costumava dar em sua testa e bochecha. O som de suas línguas entrelaçando preencheu o quarto escuro com algo denso e íntimo.
Quando se afastaram, o rosto de Eileen estava tão corado que não poderia ficar mais vermelho. Cesare observou cada detalhe do rosto de sua esposa antes de perguntar:
“Você realmente quer isso?”
O desejo em seus olhos carmesim era suficiente para assustar. Mas ele não escondeu, sabendo que ela podia ver. Seus cílios tremeram, então ela assentiu levemente.
A primeira noite durou até o nascer do sol. Eileen chorou muitas vezes, dizendo que não aguentava, que doía e a assustava. Depois chorou porque estava sobrecarregada de prazer.
Cesare principalmente seguia o ritmo dela, diminuindo a velocidade quando ela sentia dor, esperando quando ela dizia que não podia continuar.
Mas Eileen parecia gostar de algo mais bruto. Quando seus corpos se entrelaçavam completamente e o homem a penetrava profundamente, ela tremia de prazer implorando por mais.
Eles se entregaram ao desejo até o amanhecer. Cesare a lavou cuidadosamente e a vestiu com roupas limpas.
Quando ela acordou, ele lhe deu café da manhã, e então a possuiu novamente. Continuou até que ela perdesse o controle e desmaiasse.
Fizeram amor em todos os lugares da casa de tijolos — na cama, cozinha, sala, nas escadas, até mesmo no tapete. Em menos de uma semana, Cesare havia aprendido tudo sobre ela. E percebeu completamente o quanto a garota que antes via como uma criança havia amadurecido em uma mulher.
Segurando o corpo de Eileen ainda úmido de suor, ele esfregou preguiçosamente o rosto ao longo da linha de seu pescoço. Eram dias perfeitos. Ele realmente desejava que pudessem durar para sempre.
Até começar a sentir que algo estava errado.
Continua …
Tradução e Revisão: Elisa Erzet