⋅⋆ Capítulo 05
Por ser de manhã cedo, não havia muita gente no cinema. Yoon Yejun segurava os ingressos e estava sentado na área de espera em frente à sala. Esperava Ki Giyeonghan, que tinha dito que ia a algum lugar rapidinho. Ele tinha resmungado tanto no caminho que os ouvidos de Yoon Yejun zumbiam. E ainda havia pessoas que tinham namorado alguém assim. Eram pessoas capazes de qualquer coisa.
— ……
Yoon Yejun baixou o olhar para o ingresso em sua mão. Nem tinha visto o trailer; comprara porque era o número um em pré-venda. Só depois pesquisou do que se tratava e descobriu que era uma comédia romântica. Ele preferia filmes de ação. Perguntou-se se romance ainda funcionava hoje em dia. Com certeza seria uma história sem graça.
Quando tinha sido a última vez que ele se interessara por… romance?
Diferente do egocêntrico Ki Giyeonghan, ele não era tão centrado em si mesmo a ponto de nunca ter gostado de ninguém. Yoon Yejun contou lentamente os anos. Tinha sido dois anos atrás. É claro que aquilo não havia exatamente terminado como um relacionamento; tinha, na verdade, se apagado aos poucos.
Um sorriso amargo se formou no rosto de Yoon Yejun enquanto ele puxava os cantos da boca para baixo e depois os devolvia à posição original. Agora já estava anestesiado quanto a isso. No máximo, uma vez por ano, pensava: “Será que aquela pessoa está bem?”.
— Quando é que ele vem…
Ele murmurou para si mesmo, e Ki Giyeonghan apareceu. Perdido em pensamentos sombrios, Yoon Yejun ficou chocado com a aparição dele.
— Ele ficou maluco?
Ki Giyeonghan carregava uma braçada de comida. Nachos, pipoca, um cachorro-quente e duas bebidas. Era um milagre ele conseguir carregar tudo aquilo. Yoon Yejun ficou olhando fixamente para Ki Giyeonghan, que se aproximava de forma precária, então se levantou e foi até ele.
— Ah, pega um pouco.
Ki Giyeonghan retrucou de forma brusca. Yoon Yejun pegou das mãos dele os nachos, o cachorro-quente e uma das bebidas e perguntou:
— Você não tomou café da manhã?
Ki Giyeonghan se jogou no assento, colocando a pipoca ao lado. Parecia estar morrendo de sede, engolindo a bebida em goles grandes.
— Você…
Pensando bem, Ki Giyeonghan nunca usava tratamentos como “veterano” ou “hyung”, que deveria ter usado pelo menos por cortesia. É claro que Yoon Yejun estava acostumado a pessoas acrescentando “-ssi” ao fim dos nomes por causa dos seus vários trabalhos de meio período, mas muita gente se sentia constrangida com isso antes de entrar no mercado de trabalho. Mas Ki Giyeonghan usava com naturalidade. “Ei, você”, “Você”, “Yoon Yejun-ssi”. Especialmente quando dizia “Yoon Yejun-ssi”, ele colocava um staccato na voz, como “Yoon, Ye, Jun, Ssi”.
— Eu sei que você quer tirar uma boa avaliação no relatório sozinho, mas como eu vou deixar isso passar?
Yoon Yejun engoliu em seco, ouvindo-o estalar a língua e despejar besteiras de um jeito tão arrogante. Como alguém podia ser tão distorcido? Nunca tinha visto ninguém assim antes.
Ele já deveria ter se intimidado lá no café e estar andando atrás dele chamando-o de “hyung”, mas aquele cara não era um sanguessuga qualquer.
Ele já tinha visto pessoas que achavam a gentileza algo garantido, mas era a primeira vez que encontrava hostilidade. Yoon Yejun não conseguiu esconder a expressão constrangida ao encontrar o olhar de Ki Giyeonghan antes de levar o canudo aos lábios.
— …Obrigado.
Ele estava muito irritado. Mas, em meio a tudo isso, a coca gelada estava excessivamente deliciosa.
── ⋆⋅𖤓⋅⋆ ──
Ki Giyeonghan encarava a tela grande com olhos frios.
A comédia romântica sobre um casal que vivia brigando não tinha nada de especial. Algumas pessoas riam alto em certas partes, mas ele não achava tão engraçado.
— …….
Na verdade, ele não conseguia se concentrar muito no filme. Sua atenção estava mais em Yoon Yejun, sentado ao seu lado, do que no filme na tela.
Yoon Yejun tinha dormido tanto durante a aula e agora caíra em sono profundo assim que o filme começou. Achava que aquilo era um quarto de dormir? Falava tanto do relatório, mas só fazia o que bem entendia.
Mesmo que aquele cara não tivesse, ele tinha muito sobre o que escrever. Yoon Yejun tinha as piores maneiras num encontro. Chegou atrasado, foi barulhento e, depois, o convidou para um filme e simplesmente dormiu o tempo todo.
Yoon Yejun também não tinha comido muito. Só beliscou um ou dois dos nachos que repousavam quietos sobre sua coxa antes de o filme começar. Será que ele tinha exagerado? Ki Giyeonghan fez bico. Só estava irritado porque o outro tinha comprado os ingressos sozinho. Enfim, não havia uma única coisa de que ele gostasse nele.
— …….
Ki Giyeonghan lançou um olhar de lado para Yoon Yejun adormecido. Os lábios de Yoon Yejun estavam levemente projetados, num biquinho. Os cílios eram bem longos, e as pontas se curvavam levemente para cima. Ele não tinha a intenção de olhar tão de perto, mas, como tinha sentido no começo, ele não era feio. Em vez de feio… ele era mais… como poderia chamar….
Ki Giyeonghan franziu a testa, tentando chegar a uma definição inútil enquanto encarava atentamente o rosto de Yoon Yejun.
De repente, a cabeça de Yoon Yejun tombou para a frente e voltou, e Ki Giyeonghan rapidamente desviou o olhar para a tela. Seria humilhante se Yoon Yejun acordasse e o pegasse encarando. Não que tivesse algo de que se envergonhar, mas o corpo se moveu mais rápido do que ele pensou.
O que era aquele filme?
Ele só tinha olhado para o rosto de Yoon Yejun por um momento, mas os protagonistas briguentos já estavam se beijando apaixonadamente. Queriam tanto se beijar depois de brigar tanto? Aquilo não fazia sentido para ele, uma pessoa normal.
Tomb. A cabeça de Yoon Yejun pendeu de novo. Mesmo sem olhar diretamente, ele conseguia ver o movimento, de tão exagerado que era. Mas o peso no ombro foi inesperado. Yoon Yejun tinha apoiado a cabeça no ombro dele.
Pá. Ki Giyeonghan ergueu o ombro e afastou a cabeça de Yoon Yejun sem hesitar. Yoon Yejun estremeceu e acordou, olhando ao redor. Limpou os lábios com as costas da mão e então lançou um olhar cauteloso para ele. Será que tinha babado? Ki Giyeonghan fingiu não perceber e encarou a tela. “Eu te amo. Eu te amo.” Ele xingou baixinho diante das declarações desesperadas dos atores.
Yoon Yejun se espreguiçou, encolhendo os ombros, e moveu a mão. Pegou a coca e tomou um gole. Bocejou baixinho e encostou a cabeça no encosto da cadeira. Parecia que finalmente ia assistir direito. Que alívio. Era um cara realmente irritante.
— …….
Mas, como se nada tivesse acontecido, Yoon Yejun estava cochilando de novo. Deveria ter entendido o recado depois de ser afastado uma vez e não se apoiar nele de novo.
— …….
Yoon Yejun se apoiou em Ki Giyeonghan outra vez. Sinceramente, não era pesado, mas era irritante. Ele se perguntou se o outro estava fazendo aquilo de propósito. Ki Giyeonghan afastou de novo a cabeça de Yoon Yejun do ombro. Desta vez, ele nem se deu ao trabalho de acordar.
— Ei.
Ki Giyeonghan se inclinou na direção de Yoon Yejun e sussurrou. Ele nem fingiu acordar. Ki Giyeonghan cerrou os dentes e chamou de novo, como se recitasse um poema.
— …Ei.
Era absurdo e ridículo. Ele se perguntou se o outro tinha desmaiado ou morrido, mas conseguia ouvir sua respiração fraca e regular. Estava dormindo.
Como alguém podia dormir tão profundamente a ponto de não acordar nem levando uma pancada na cabeça nem sendo chamado? Ki Giyeonghan apertou os olhos com força, abriu-os e se inclinou mais para perto. Estava quase olhando para ele de frente. Nunca imaginou que veria o rosto de Yoon Yejun tão de perto. A bochecha estava levemente estufada onde se apoiou no ombro dele. E os lábios franzidos num bico eram um bônus. Ele estava muito irritado. Quanto mais olhava para aquele rosto, mais irritado Ki Giyeonghan ficava.
— Ei, Yoon Yejun.
No fim, não conseguiu conter o temperamento e chamou Yoon Yejun. Ele tinha pouca ou nenhuma paciência, exceto quando se tratava de estudar, então tinha aguentado o máximo que podia.
— …….
Droga, sério…. Ki Giyeonghan se inclinou mais para perto para chamar o nome de Yoon Yejun mais uma vez. Estava perto demais, mas não havia o que fazer num cinema. Ele tinha esse mínimo de decência. Diferente de certa pessoa que dormia no ombro dos outros.
— …….
— …….
À medida que ele se aproximava, Yoon Yejun, que não tinha acordado por mais que ele batesse ou chamasse, abriu os olhos. Piscou, piscou. Fechou e abriu os olhos algumas vezes. As pupilas que se revelavam através dos longos cílios estavam tão perto que o corpo de Ki Giyeonghan congelou.
Os olhos de Yoon Yejun se arregalaram lentamente, e os de Ki Giyeonghan também. Ki Giyeonghan prendeu a respiração por um longo tempo, incapaz de esconder a surpresa. Yoon Yejun encolheu os ombros.
Ele claramente estava entendendo errado. Endureceu a expressão como se achasse que Ki Giyeonghan estava prestes a beijá-lo e virou a parte de cima do corpo para longe dele.
O rosto de Ki Giyeonghan ficou vermelho e depois roxo. Ele era injustiçado, tão injustiçado. Queria explodir e perguntar que tipo de mal-entendido maluco era aquele, mas teve que se segurar porque estavam num cinema. É claro que ele tinha dado uma olhadinha no rosto dele, mas tinha sido só isso.
Ki Giyeonghan se forçou a acalmar o coração injustiçado e ressentido e voltou à posição original.
Que merda, sério….
Xingou por dentro e cruzou as pernas. Inclinou-se para longe de Yoon Yejun, em direção ao braço da poltrona do seu lado, pegou a coca e a engoliu em goles grandes. Ah, estava nojentamente doce e nojentamente refrescante. O cinema, no qual ele não tinha prestado muita atenção, parecia abafado.
── ⋆⋅𖤓⋅⋆ ──
— Eu dormi muito?
Yoon Yejun perguntou enquanto saíam juntos da sala. Um casal desajeitado, que parecia ter acabado de começar a namorar, passou por eles, exagerando nas impressões sobre o filme.
Ki Giyeonghan despejou tudo o que segurava na lixeira. Era como o seu coração. Queria despejar as lembranças constrangedoras da sala de agora há pouco, como a pipoca que caía diante dele.
Yoon Yejun tinha evitado o olhar dele, sem graça, e então dormido de novo. Ki Giyeonghan tinha ficado numa posição em que parecia que ia beijar Yoon Yejun e, de fato, fora mal interpretado, então nem conseguiu se concentrar no filme, mas Yoon Yejun dormira profundamente.
Se ele tivesse dormido quieto, não teria dito nada. Seria um pouco irritante, mas ele conseguiria aguentar. Mas, bem quando Ki Giyeonghan começava a se sentir um pouco melhor, Yoon Yejun se inclinava de novo na direção dele e, quando ele afastava sua cabeça, acordava por um momento e depois se apoiava nele outra vez. Ele estava mais do que irritado.
Ki Giyeonghan fulminou Yoon Yejun com o olhar e perguntou de volta:
— Se você dormiu muito?
Yoon Yejun, que esperava uma resposta, não disse nada.
O humor de Ki Giyeonghan piorou ao ver os olhos moderadamente puxados de Yoon Yejun. Sinceramente, se aquele cara não tivesse dormido, aquela situação constrangedora nunca teria acontecido. Não tinha sido porque ele estava tentando acordá-lo? Mesmo que tivesse chegado um pouco perto.
E o que era ainda mais irritante era que Yoon Yejun tinha entendido errado e virado a cabeça por conta própria. Por que ele beijaria um cara, para ser direto? O que faltava em Ki Giyeonghan?
Ki Giyeonghan estava irritado sem necessidade.
— Você estava roncando e fazendo escândalo. E por que você dorme se apoiando nos outros? Fez de propósito?
— De propósito?
Yoon Yejun também jogou os petiscos que segurava na lixeira. Enquanto caminhava pelo corredor ao lado da sala, em direção à sala de espera, Yoon Yejun murmurou para si mesmo.
— Ele fez isso com alguém que só estava na dele….
Ki Giyeonghan reagiu imediatamente assim que ouviu aquele murmúrio baixo.
— Que porra…
Estava prestes a perguntar que merda era aquela que ele estava falando quando Yoon Yejun soltou uma bomba.
— Você ia me beijar, não ia?
— Argh!
Ki Giyeonghan não conseguiu conter a frustração. Bagunçou o cabelo e alcançou Yoon Yejun, que andava na frente.
— Ei, você.
Ki Giyeonghan colocou uma mão na cintura e ergueu a outra. Chegou a apontar o dedo para o rosto dele. “Está apontando pra quem?” As palavras ficaram presas na garganta de Yoon Yejun, mas ele não se deu ao trabalho de dizê-las. No fim, a conversa entre os dois não passava de implicância, então, se dissesse aquelas palavras ali, era óbvio que estaria fornecendo isca para o homem que bufava diante dele.
Ki Giyeonghan passou a língua pelos lábios e mal conseguiu acalmar a respiração antes de dizer:
— Acho que você está entendendo algo errado. Eu não ia fazer isso com você. Só estava te acordando porque você ficava dormindo no meu ombro.
— Sim, pra mim tanto faz. Então… a sua sexualidade….
— Não, não é isso!
Ki Giyeonghan levantou a voz como se estivesse morrendo de injustiça. As pessoas que saíam da mesma sala lançaram olhares para eles. As pessoas que olhavam para eles encontraram os olhos de Yoon Yejun. Eles não estavam brigando, mas poderia parecer que sim, então ele ficou envergonhado.
Depois de olhar ao redor, Yoon Yejun franziu a testa e assentiu vagamente.
— Tá bom, é brincadeira.
Ele tentava encerrar o assunto de forma limpa, do seu jeito, mas a expressão de Ki Giyeonghan não refletia isso. Esse tipo de pessoa inutilmente orgulhosa não largava o ressentimento até resolver a situação direito, mesmo que o outro tentasse apaziguar as coisas.
Deve ser difícil viver no mundo com uma personalidade dessas. Não era da conta dele, mas Yoon Yejun tinha habilidades sociais. Era até sociável demais. Graças a isso, nunca tinha feito algo como Ki Giyeonghan, revirando os olhos e discutindo na frente de todo mundo.
— Não… por que eu… com você…. Eu sou homem.
Ki Giyeonghan nem conseguiu terminar a frase de tão agitado que estava. Tinha tanta aversão assim ao mal-entendido de que ia beijar um homem? Era quase como ódio de si mesmo. Ele tinha ouvido dizer que pessoas com tendências homofóbicas extremas na verdade tinham mais chance de ser gays.
Yoon Yejun olhou para o homem diante de si e pensou isso, mas não era burro a ponto de tocar no assunto naquela situação. Afinal, ele era do tipo que chamava as piadas do professor de nojentas durante a orientação, então, se dissesse qualquer coisa agora, a voz dele poderia ficar ainda mais alta.
Yoon Yejun soltou um suspiro baixo.
— Tudo bem. Pra mim tanto faz. Desculpa se eu entendi errado.
Depois de dizer isso, tirou o celular do bolso e checou a hora. Era pouco antes de 1 da tarde. Enquanto não estava olhando o celular, mensagens tinham se acumulado do grupo do trabalho de meio período, dos alunos das aulas particulares e dos colegas de turma do Departamento de Ciência Política e Diplomacia.
Ele tinha aula às 14h às sextas-feiras. Alguns poderiam achar que era a pior grade, mas ele não tinha escolha se quisesse conciliar o horário do trabalho de meio período com as aulas.
Yoon Yejun checou o celular com o rosto vazio e o enfiou de volta no bolso. Endireitou a cabeça e encarou o rosto corado de Ki Giyeonghan.
— Tenho aula à tarde. Vamos nos separar aqui por hoje.
Diante das palavras calmas dele, Ki Giyeonghan apertou os olhos com força e assentiu. Ainda incapaz de acalmar a raiva, bufou e passou por Yoon Yejun. Não houve nem um cumprimento comum. Andou por um tempo e então bateu o pé no chão, como se não conseguisse mais aguentar.
O quê, um cara de vinte e poucos anos não aguenta ficar puto e bate o pé no chão?
— Tsc…
Yoon Yejun estalou a língua sem hesitar.
Não conseguia entendê-lo de jeito nenhum, e era uma pessoa com quem não queria se envolver.
── ⋆⋅𖤓⋅⋆ ──
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna