⋅⋆ Capítulo 04
8h57. Ki Giyeonghan olhou para o celular.
— ……
Estava pasmo por não ter recebido uma única mensagem de Yoon Yejun. Eles tinham trocado algumas mensagens curtas no dia anterior. “Vamos nos encontrar no café em frente à faculdade.”, “Ok.”, “Até as 9h.”, “Ok.” O homem só dizia “Ok” e encerrava as respostas curtamente. Ele ficou sem palavras diante daquela atitude, mas deixou passar.
Enquanto esperava o homem, Ki Giyeonghan se lembrou dos seus relacionamentos anteriores. Se olhasse apenas para a duração, tinham sido curtos. Ele recebia declarações e namorava se a pessoa não fosse ruim. Saía em encontros na sequência de sempre e, embora não pudesse dizer que tinha dado o seu melhor, fazia o básico. E levava um fora.
Ele não conseguia entender por que levava um fora, então perguntava o motivo às ex-namoradas que lhe diziam que estavam terminando. No começo, a outra pessoa derramava lágrimas, depois listava os motivos enquanto xingava e vomitava palavrões.
E elas diziam: Você nunca vai conseguir ter um relacionamento, nem se morrer de velho. Ki Giyeonghan não era do tipo que dizia a alguém que de repente o xingava: “Tudo bem, se já disse tudo o que queria, então vá embora.” Ele brigava ali mesmo. Tinha esse tipo de passado.
Por que seus relacionamentos anteriores tinham que vir à mente justo agora? Mas não havia o que fazer, considerando qual era o tema.
— Tsc…
Ki Giyeonghan estalou a língua de leve e checou o celular de novo. Eram 9h em ponto. Mas Yoon Yejun, que estava na mesma dupla que ele, não apareceu. Ele ligou sem hesitar.
— ……
Yoon Yejun não atendeu o telefone. O quê? Ki Giyeonghan olhou para o celular, de onde só saía um som mecânico constante. Ligou mais duas ou três vezes. Foi igual. E já passava das 9h02.
— Huff, ah, haa… Me, desculpa…
O homem que tinha subido as escadas do café apareceu. A respiração dele estava acelerada. Aquela respiração ofegante era estranha. O cabelo não estava bem seco, então as pontas estavam molhadas. Era um milagre ele ter conseguido se vestir direito. Ele até tinha pedido café, já que segurava um pager na mão.
Bi-bip— O pager tocou.
— Vou pegar o café.
O homem desceu para o primeiro andar pela escada. E subiu com um americano gelado com gelo boiando. Ki Giyeonghan, que observava o homem, não conseguiu esconder a expressão torta. O osso da testa saltou.
— Você chegou 2 minutos atrasado? Agora que trouxe o café, já são 3 minutos.
— Ah…
— Você não cumpre muito bem os seus compromissos, né? Eu cheguei 10 minutos antes. Isso não é o básico, normalmente?
Era raro encontrar alguém que cumprisse bem os compromissos, mas Ki Giyeonghan sempre chegava cedo. Assim, teria algo a dizer, como agora. Diante das palavras cuspidas, o homem pareceu constrangido e pediu desculpas mais uma vez, como se fosse curvar a cabeça. Parecia que ele sabia que estava errado, mas até isso irritava Ki Giyeonghan. Não gostava de nada nele.
Yoon Yejun puxou uma cadeira e se sentou. Ki Giyeonghan estava de braços cruzados. Nem pensou em endireitar a cabeça inclinada e ficou encarando o homem com um rosto que dizia que o odiava até a morte.
Ki Giyeonghan ligou o gravador. Tinha que fazer a tarefa. Enquanto isso, o homem acalmou a respiração e molhou os lábios com o café. Ki Giyeonghan, que estivera encarando o copo com a superfície embaçada de umidade, falou puramente para fins da tarefa.
— Você deve estar ocupado com o seu trabalho de meio período. Chegou atrasado.
No entanto, o tom dele não era nada bom.
— Ah… Sim, ele termina às 2h da manhã.
— O quê. Você trabalha num bar?
— Não. Ontem foi aula particular.
Ele devia ter vários empregos. Ki Giyeonghan, que estava olhando para o homem, apenas assentiu. Então, de repente, lhe ocorreu que aquilo era um trabalho em grupo. Tentou manter o tom de sempre. Se trocassem palavras de forma hostil, não sabia o que o homem poderia escrever no relatório.
— Pelo visto você faz vários trabalhos de meio período.
— Faço dois durante o semestre.
— Certo. Mas, normalmente, as pessoas não mencionam que tipo de trabalho fazem numa situação dessas? Comunicação é difícil pra você?
— Aulas particulares, trabalho num bar e, nas férias, numa loja de conveniência. Mas, então.
Diante das palavras do homem, Ki Giyeonghan inclinou a cabeça, oferecendo isso como substituto de uma resposta.
— Como devo te chamar?
— Pelo meu nome.
— Qual é o seu nome?
Diante da pergunta do homem, a expressão de Ki Giyeonghan azedou abertamente. Um sentimento de injustiça cresceu dentro dele. O que Ki Giyeonghan mais odiava era estar em desvantagem. Sentiu pela primeira vez que estava saindo perdendo simplesmente por saber o nome da outra pessoa e pelo fato de a outra pessoa não saber o seu.
— Yoon Yejun.
— ……
— Você não deveria saber o nome da pessoa com quem está fazendo um trabalho em grupo? Quantos membros tem pra você não conseguir lembrar o nome?
— Você nunca me disse.
De novo, ele não teve o que dizer. O motivo de saber o nome de Yoon Yejun não era porque achava que precisava especialmente se lembrar dele, mas porque tinha um pouquinho de interesse nele.
— ……
Ainda assim, não conseguia deixar de se sentir irritado. Ki Giyeonghan, incapaz de esconder a expressão emburrada, olhou para o homem. Yoon Yejun, com um rosto indiferente, olhou para o café e tomou mais um gole. Ki Giyeonghan assentiu e respondeu.
— Ki Giyeonghan.
— Ok.
E o silêncio caiu de novo. Vozes barulhentas podiam ser ouvidas. Apesar do horário cedo, havia outra mesa ocupada no café além da deles. Como era início de semestre, calouros e um aluno que voltava do trancamento, tentando bancar o líder deles, conversavam com os rostos ainda corados do álcool desde a manhã. Sempre que o veterano dizia algo, os calouros caíam na gargalhada. Que vida boa. Ki Giyeonghan fulminou com o olhar o grupo barulhento.
— Meu nome é Ki Giyeonghan, tenho vinte e quatro anos. Meu departamento é o de Ciência Política e Diplomacia.
— Eu sou Yoon Yejun. Vinte e seis anos. Departamento de Mídia e Comunicação. Estou voltando à faculdade este ano, então…
Yoon Yejun levantou a mão e coçou a nuca. A linha do pescoço dele era esguia. Ki Giyeonghan encarou o homem. Ele era diferente dos caras brutos. Era do tipo mais bonito. Algo que ele vinha se perguntando antes lhe veio à mente.
— Por que você me pediu pra ficar na mesma dupla no começo?
Ele estava genuinamente curioso. Sabia que sua aparência não era ruim. A altura também era razoável. A família não era pobre, então ele tinha vivido sem se sentir inferior. Muita gente falava da personalidade dele, mas ele recebia declarações com frequência. Mas era a primeira vez que um homem estava envolvido.
De repente, pensou no seu irmão mais novo tolo, de namorico sem entender a situação. Isso o deixou ainda mais curioso. Será que esse homem também era…
— Você gosta de homens?
No momento em que Ki Giyeonghan perguntou, a música parou abruptamente. Ele pôde sentir as poucas pessoas ao redor observando seus rostos. Em seguida, foi a vez de Yoon Yejun. Yoon Yejun respondeu com a voz calma.
— Não.
— Ah.
— Achei que seria mais confortável com alguém do mesmo gênero. Tenho muitos trabalhos de meio período, então muitas vezes termino tarde. É falta de educação pedir para uma mulher se encontrar tarde da noite. Mesmo que não fosse o Ki Giyeonghan, eu teria pedido para outra pessoa ao meu lado ficar na mesma dupla.
Era um argumento válido, mas ele não se sentiu bem com aquilo. Era uma questão separada de gostar ou não de homens. Sentiu como se ele estivesse despedaçando o orgulho que vinha subindo alto como o céu. Ainda assim, Ki Giyeonghan escondeu as emoções.
Em vez disso, bebeu o americano gelado à sua frente. As coisas que vinham o deixando irritado desde a manhã esfriaram. Ele encolheu os ombros e fechou o casaco que vestia. Apesar de ser meados de março, o tempo ainda estava frio.
Não havia nada a dizer, nem nada a fazer. Ele se perguntou se deveria simplesmente encerrar a conversa e finalizar as coisas. Já tinha o suficiente para escrever no relatório. O homem tinha descumprido o horário combinado e nem sabia o nome dele. A primeira impressão tinha sido definitivamente a pior.
Ki Giyeonghan, que tinha tocado o dorso do nariz, levantou a cabeça. Os olhares se encontraram. A cor dos olhos dele era surpreendentemente clara. Estava mais para castanho do que para preto. Tinham um brilho sutil.
Bem, agora não tem mais nada a fazer.
— Vamos embora?
— Como?
O homem perguntou de volta, parecendo desconcertado. Ki Giyeonghan checou a hora. Eram 9h12. Exatamente 10 minutos haviam se passado desde que o homem chegara.
— Não tem mais nada pra falar. Já tenho o suficiente pra escrever o relatório.
— Hum…
Yoon Yejun deixou a frase no ar. Parecia ter algo a dizer. Ki Giyeonghan esperou em silêncio as palavras saírem da boca de Yoon Yejun.
— Como é a sua família?
— Por que eu tenho que te contar isso?
— Estou pensando nisso faz um tempo, mas o seu tom é realmente horrível.
A testa de Yoon Yejun se franziu. Ele parecia descontente. Ki Giyeonghan ficou imóvel por um momento, depois revirou levemente os olhos. E se o homem escrevesse isso no relatório? Como os relatórios eram escritos individualmente, a outra pessoa não saberia mesmo que você listasse todo tipo de insulto sobre ela. Assim como ele planejava escrever no relatório que o homem se atrasou 2 minutos e nem sabia seu nome, perguntou-se se aquele homem não faria o mesmo.
Ki Giyeonghan, que estava mordendo a carne macia do lado de dentro da bochecha, endireitou a cabeça inclinada. Então respondeu no tom mais gentil que havia usado até ali.
— Tenho um irmão mais novo.
— Eu sou filho único.
— Eu não…
Perguntei. Ki Giyeonghan, que estava prestes a responder por hábito, fechou os lábios.
— Entendi.
Ele se esforçou ao máximo para responder de forma agradável.
Ki Giyeonghan repassou mais uma vez seus relacionamentos anteriores. Alguma vez tinha sentido curiosidade pela outra pessoa? De jeito nenhum. Eles se encontravam por hábito, faziam refeições e assistiam a filmes, ou algo assim. Ele respondia às perguntas sob o pretexto de estar num relacionamento, mas, fora isso…
Como eu namorei até agora? Seu coração ficou confuso. Ki Giyeonghan olhou para o celular que gravava com uma expressão complicada. O relatório dele e o do homem precisavam bater até certo ponto, mas ele não conseguia descobrir por onde começar e onde terminar.
Yoon Yejun encarou Ki Giyeonghan por um momento antes de abrir a boca.
— Quantas vezes você já namorou?
— Duas.
— Por quanto tempo namorou?
— Você costuma perguntar isso no primeiro encontro?
— Só estou curioso.
Depois de terminar de falar, Yoon Yejun sorriu com os olhos. Ele tinha feito isso na frente do professor também. Esteve conversando com os amigos e sorrindo daquele jeito na área de fumantes em frente ao prédio dos professores, quando Ki Giyeonghan o viu pela primeira vez. Sorrindo suavemente, como se os olhos se curvassem. A pinta sob o olho subia e descia conforme as maçãs do rosto do homem se erguiam.
— Não consegui namorar por mais de alguns meses. Satisfeito?
Na verdade, tinham sido dois meses, no máximo.
— Ah.
O homem soltou uma curta exclamação. O sorriso nos olhos, que ele achava que se curvava de um jeito bonito, se aprofundou um pouco mais.
— Dá pra ver.
O olho esquerdo de Ki Giyeonghan se enrijeceu. Ele não conseguiu esconder o rosto distorcido.
— E você, quanto tempo…
— ……
— Quanto tempo você namorou?
O tom dele era agressivo. Olho por olho, dente por dente. Com certeza Yoon Yejun também não tinha namorado por muito tempo. Como poderia, tratando os outros com um tom tão socialmente inadequado?
— Bem, geralmente eu namoro por cerca de um ano.
— ……
Ki Giyeonghan, sem ter o que dizer, virou a cabeça. Ele mesmo tinha dado a isca. Yoon Yejun acrescentou palavras. Arrá, pegou. Como um pescador que fisgou um peixe grande.
— Eu não sou abertamente grosseiro como certa pessoa.
A expressão de Ki Giyeonghan endureceu. Ele odiava o fato de o outro não saber distinguir o que dizer e o que não dizer na frente das pessoas.
Grosseiro? Olha quem fala.
Ki Giyeonghan sugou o canudo do americano gelado à sua frente, mas até isso era frustrante, então tirou o canudo e engoliu o conteúdo de uma vez. Em vez de se sentir revigorado, sua cabeça latejava por causa do café gelado que havia despejado garganta abaixo.
— Yoon Yejun.
Ki Giyeonghan chamou o homem à sua frente. Bateu na mesa com as unhas, chamando a atenção dele. Yoon Yejun, que estivera olhando para as pontas dos dedos de Ki Giyeonghan, levantou a cabeça com olhos indiferentes.
— Você está entendendo algo errado agora. A gente ainda vai ter que se encontrar mais algumas vezes em particular. Por causa do relatório. Você sabe o que eu vou escrever sobre você e mesmo assim fala desse jeito? Você finge ser bonzinho e lindo na frente do professor, fazendo todo tipo de teatro.
— ……
Yoon Yejun manteve a expressão vazia. Ki Giyeonghan mordia e soltava repetidamente o lado de dentro da bochecha com um rosto muito descontente. Quanto mais ele atacava, mais sentia que estava se enrolando.
Yoon Yejun sorriu de leve. Diante da respiração curta que ele soltou como uma bufada, Ki Giyeonghan apenas encarou Yoon Yejun. Yoon Yejun, que mordeu os lábios como se engolisse as emoções, assentiu lentamente e abriu a boca.
— Ki Giyeonghan.
— O quê?
— Eu só sou gentil com quem eu quero ser gentil. Só trato bem quem me trata como ser humano.
— …Hã.
Ele ficou pasmo, sem palavras.
— Não me importo com o que você vai escrever no relatório. Você sabe que eu também tenho muito a dizer. Desde o começo, quando estávamos marcando o horário, eu te disse que meu trabalho de meio período termina tarde, mas você insistiu em nos encontrarmos às 9 da manhã.
— ……
— Quem normalmente marca o primeiro encontro às 9 da manhã? E, desculpa por ter me atrasado 2 minutos, mas precisa fazer tanto caso disso?
— 2 minutos são suficientes pra um lámen instantâneo ficar pronto.
— Você deve comer lámen instantâneo bem duro.
Yoon Yejun não cedia nem um pouco. As entranhas de Ki Giyeonghan ferviam, prestes a explodir. Era a primeira vez na vida que ele conhecia uma pessoa assim. Além disso, a julgar pelo jeito de falar, era óbvio que ele continuaria sendo espinhoso na frente dele, e a ideia do tempo que passariam juntos no futuro o fazia se sentir sem esperança.
Ki Giyeonghan apertou os olhos com força. “É melhor evitar a merda porque ela é suja.” Essas palavras não existiam no dicionário de Ki Giyeonghan. Mesmo que tivesse que remover a merda com um pedaço de pau, evitá-la era impossível.
Ki Giyeonghan passou levemente a língua pelos lábios, então cruzou os braços e se recostou na cadeira. Não era porque estivesse pensando seriamente em ouvi-lo, mas porque se ofendeu com o fato de seu corpo estar um pouco mais inclinado para a frente do que o de Yoon Yejun.
Yoon Yejun encarou Ki Giyeonghan. O rosto bonito dele estava coberto de irritação. Ainda assim, a julgar pelo fato de que ele não continuava falando, parecia que não pretendia mais despejar reclamações. Será que só ele tinha pegado pesado demais? Sentiu um pouco de pena. Ainda assim, achando que era melhor colocá-lo no lugar logo, tirou a carteira do bolso.
— Isto.
Tirou o ingresso de cinema que havia encontrado na carteira e o colocou sobre a mesa. Havia um cinema a cerca de 10 minutos da faculdade. Ele tinha reservado ingressos para o filme mais popular do momento. Tinha se atrasado porque reservara os ingressos de manhã. Ki Giyeonghan era abertamente hostil com ele, e Yoon Yejun tinha certeza de que, se conversasse com ele, receberia respostas espinhosas, então planejava assistir ao filme e escrever o relatório.
— O que é isso?
E, como esperado, o homem à sua frente franziu a testa assim que viu o ingresso de cinema.
— Desculpa por ter te atacado agora há pouco. Vamos assistir a isso. Não dá pra ficar no café pra sempre.
— Por que eu assistiria a um filme com você?
Exatamente como ele pensava.
Como eu vou passar mais tempo com esse desgraçado…? Yoon Yejun cerrou os dentes com força.
— Eu também preciso de algo pra escrever no relatório. Não seria bom pra você também se tivesse bastante coisa pra escrever no relatório?
Quando ele sussurrou de forma persuasiva, com a voz contida, Ki Giyeonghan, que esteve encarando com um rosto emburrado, baixou o olhar. Pareceu refletir por um momento enquanto lia o ingresso de cinema. Ergueu os olhos de novo. Os olhos dele são muito bonitos mesmo. Yoon Yejun pensou enquanto olhava para os olhos diante de si. Cintilavam como se tivessem contas bonitas incrustadas. Ele ficou curioso sobre o rosto dos pais dele.
Se ele falasse menos, também seria popular. Claro que ele não faz o meu tipo, mas.
— Mas por que você comprou isso?
— ……
— Ah… pra ter algo pra colocar no relatório.
Só aquela boca.
── ⋆⋅𖤓⋅⋆ ──
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna