⋅⋆ Capítulo 02
Uma semana se passou.
Quinta-feira, meio-dia. Ki Giyeonghan estava sentado no meio da Sala Rosa de Saron. Era inesperado, considerando que ele havia declarado com toda a confiança que cancelaria a disciplina. Estava com um caderno aberto e olhava fixamente para a frente.
Merda…
Tentou engolir o palavrão, mas ele escapou involuntariamente.
O professor entrou no auditório. Alguns alunos da primeira fileira o cumprimentaram. O professor, retribuindo o cumprimento com um aceno, abriu a lista de presença e começou a chamar os nomes. Como havia dito da última vez, começou pelo fim.
— Yoon Yejun.
O nome era familiar.
— Sim.
A voz também. Parecia que ele não tinha se atrasado hoje. Ki Giyeonghan não conseguia ter uma boa imagem de Yoon Yejun. Deixando de lado o teatro de bonzinho, não respeitar horários era uma das coisas que Ki Giyeonghan mais odiava.
O professor continuou fazendo a chamada, dizendo os nomes de dezenas de alunos.
— Ki Giyeonghan.
Ao ouvir seu nome, Ki Giyeonghan respondeu de leve e levantou a mão. Presumiu que o professor passaria imediatamente para o próximo nome, então estava distraído, mas, de repente, o professor começou a falar.
— Reparei desde a última vez, Giyeonghan.
— …
— Você é muito bonito.
Diante dessas palavras, vários alunos da primeira fileira se viraram para olhar o rosto de Ki Giyeonghan. Ki Giyeonghan xingou por dentro e abaixou levemente a cabeça. Ele ficou maluco? Professor maluco. Se isso é comunicação, pode dar para os cachorros. Vou simplesmente viver sozinho para sempre, mascando chiclete.
Depois de chamar todos os nomes, o professor começou:
— Muito bem, então.
— Antes de começarmos a aula, vamos falar sobre as duplas.
Um murmúrio se ergueu.
— Todos já formaram suas duplas?
— Sim.
Respondeu uma voz grave, de um homem que parecia adorar se exibir. Ki Giyeonghan, é claro, não tinha formado dupla. Mas tudo bem.
Tendo levado uma vida em geral tranquila, Ki Giyeonghan acreditava que desta vez seria igual. É claro que tinha acabado fazendo a terrível disciplina de “Gênero e Comunicação”, e quando tentou cancelá-la e procurar outra coisa, só restavam aulas que o obrigariam a ir à faculdade às sextas-feiras ou disciplinas de ciências humanas com intervalos de três ou quatro horas entre as aulas do seu curso. Se não quisesse a primeira opção, teria que fazer uma aula como badminton. Se tivesse ficado grudado no computador, talvez encontrasse algo, mas não queria chegar a tanto. Escolheu o menor de dois males.
— Levantem a mão os que ainda não formaram dupla.
Havia quase 100 alunos na turma. É claro que haveria pessoas que não tinham formado dupla. Ele estaria ainda mais confiante se não fossem as vozes que vinham de trás dele.
— Você não recebeu um monte de e-mails?
As pessoas atrás dele pareciam estar num relacionamento formado às pressas para aquele trabalho em grupo.
— Recebi vários. Todo mundo devia estar desesperado, já que não dá pra fazer o trabalho sem dupla.
E-mails? Ki Giyeonghan não checava a caixa de entrada a menos que houvesse algum trabalho em grupo.
Parecia que as pessoas que não tinham formado dupla andavam mandando e-mails. Ki Giyeonghan se sentiu aliviado e levantou a mão.
— Giyeonghan e… qual é o nome do outro aluno que sobrou?
Infelizmente, o professor tinha acabado de decorar o rosto e o nome de Ki Giyeonghan. Era a pior situação para Ki Giyeonghan, que o que mais odiava era se destacar e chamar atenção.
— Yoon Yejun.
Ah, merda…
Preferia balançar uma raquete de badminton.
— Vocês são dois alunos homens, o que querem fazer? Já é tarde para trancar a disciplina…
O professor estava fazendo piada. Ele esperava que os dois dissessem: “Vamos ficar na mesma dupla”. Ki Giyeonghan não conseguiu esconder a expressão friamente endurecida e fechou os olhos com força, abaixando a cabeça. Se não fosse pela palavra “encontro”, ele poderia ter aguentado. Até um trabalho em grupo em que tivesse que fazer tudo sozinho seria melhor do que isso.
Uma voz veio de trás.
— Por mim, tudo bem.
Claro que por você tudo bem. Ki Giyeonghan sentiu rancor da voz que respondia com tanta calma. Teria ficado menos constrangido se tivesse simplesmente recusado a proposta de fazerem dupla da última vez. Ele umedeceu a boca seca. Estava sendo castigado. Estava sendo castigado por ter vivido como bem entendia até agora. Era por isso que estava sendo humilhado desse jeito e ia sair em encontros com um homem. Respirou fundo.
Quando levantou a cabeça de novo, o professor observava os dois com um rosto de quem assistia a algo interessante. Os lábios de Ki Giyeonghan, forçados num sorriso, tremiam levemente. Ele sorria, mas não parecia um sorriso. Era uma pessoa que raramente sorria.
— Por mim… também…
— …
— Tudo bem.
Ele engoliu uma risada amarga.
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Sala Rosa de Saron. Era um auditório grande, que comportava 100 alunos, mas todos os olhares estavam voltados para Ki Giyeonghan e Yoon Yejun. Era porque o professor havia dito que, depois das duas horas de aula, eles deveriam passar a hora restante escrevendo um plano de encontro. Os dois estavam sentados em silêncio.
Ki Giyeonghan girava a caneta na mão. Apesar de a caneta deslizar com suavidade entre seus dedos, ele estava ansioso. Por fim, agarrou a caneta com uma das mãos.
— Vamos fazer.
Finalmente, foi ele quem abriu a boca primeiro.
— Seu número de matrícula e seu curso?
Só então Yoon Yejun abriu a boca, que estivera fechada o tempo todo. Ele era dois anos mais velho que Ki Giyeonghan, mas estava no mesmo ano, no terceiro. O curso dele era Jornalismo e Comunicação Social. Estavam na mesma faculdade de ciências sociais, então poderiam ter se esbarrado, mas era estranho que só tivessem se encontrado no inverno passado. Afinal, Yoon Yejun tinha um rosto bastante marcante.
Yoon Yejun olhava para baixo em silêncio. Ki Giyeonghan anotava as informações que ele lhe dava, lançando olhares para ele. Não queria dizer isso sobre um homem, mas o perfil dele era bem bonito. As pontas dos cílios longos eram levemente curvadas para cima. Os lábios eram carnudos, o dorso do nariz era moderadamente alto e a ponta do nariz era arredondada. Yoon Yejun, que estava olhando para a mesa, ergueu os olhos. Os olhares se encontraram, e Ki Giyeonghan desviou o olhar sem perceber.
Ki Giyeonghan, que quando levava bronca dos pais ou dos professores na escola retrucava “O que eu posso fazer? Eu nasci assim”, sentiu vergonha por ter evitado o contato visual.
— Tenho uma coisa pra perguntar.
A voz de Yoon Yejun não era nem grave demais nem aguda demais. Era um tom calmo. Ki Giyeonghan, que estava com o queixo apoiado na mão, mexendo na caneta, apenas ergueu os olhos.
— Você não disse que ia trancar essa disciplina?
— Disse.
— Então por que está aqui?
— Isso é problema meu.
Ele sentiu vergonha. Yoon Yejun ergueu os cantos dos lábios em silêncio e disse:
— Ah…
As sobrancelhas de Ki Giyeonghan se franziram levemente. Ele parecia calmo, como se respondesse sem emoção alguma, mas o jeito como ergueu um dos cantos dos lábios dava a impressão de que estava zombando dele. Logo cobriu os lábios com o punho, como se quisesse esconder a expressão, mas Ki Giyeonghan viu com clareza.
Yoon Yejun pegou o plano de encontro que o professor havia distribuído para cada dupla e perguntou.
— Só precisamos nos encontrar uma vez por semana, então que tal depois desta aula?
— Tenho aula do meu curso.
— Além disso, eu só estou livre às sextas.
— Sexta é meu dia livre.
É claro que o apartamento onde ele morava ficava a 10 minutos a pé da faculdade. Mas, como estava fazendo a disciplina justamente para ter um dia livre, não queria dedicar a sexta-feira a um trabalho em grupo.
Yoon Yejun disse com um rosto amigável.
— Mas é um trabalho em grupo, então temos que conciliar nossos horários.
— Por que o professor só gosta de mim? Todos nós somos alunos dele.
O rosto que ele tinha visto no inverno passado se sobrepôs. Era uma expressão que penetrava até os ossos ou que estava tentando ferrá-lo. Ki Giyeonghan franziu a testa. Abanou a mão de forma brusca e perguntou.
— Que tal depois da aula de quinta?
— Eu tenho um trabalho de meio período, mas… se você me passar seu número, eu entro em contato.
Yoon Yejun lhe entregou o celular. Ki Giyeonghan digitou seu número e o devolveu. Yoon Yejun apertou o botão de ligar. A tela do celular de Ki Giyeonghan, que estava no modo silencioso, piscou brevemente e depois apagou, deixando uma chamada perdida. Ki Giyeonghan salvou o número. Yoon Yejun. Era só uma conexão temporária por um semestre, mas, por enquanto, ele teria que vê-lo com frequência.
Ah, só de pensar já me irrita.
— Então, acho que agora não tem mais nada pra conversar. A gente pode só escrever o que está no plano de ensino. O que é isso? ?
— Não seria o ?
Yoon Yejun disse com tranquilidade. Ki Giyeonghan respondeu sem sinceridade:
— Tá, tá.
Normalmente, as pessoas franziriam a testa diante da atitude e do jeito de falar de Ki Giyeonghan e estalariam a língua, mas Yoon Yejun não reagiu nem um pouco. Apenas puxou o plano de encontro para mais perto de si. Isso o irritou ainda mais.
— Os relatórios são escritos individualmente, então não tem problema… Eu acrescento os detalhes no plano e envio.
— …
— Você parece o tipo que acharia isso um saco.
Ki Giyeonghan olhou para o plano nos braços de Yoon Yejun e ergueu a cabeça lentamente. Cada palavra que ele dizia o incomodava. Ele curvava os olhos de um jeito gentil, mas o tom o fazia pensar. Se tivesse terminado com “Eu faço”, estaria tudo bem. Mas ele o provocou ao acrescentar que Ki Giyeonghan acharia aquilo um saco. O que ele pensa que eu sou? Ki Giyeonghan estendeu a mão sem hesitar.
— Me dá. Eu faço.
— …
Yoon Yejun olhou para a mão de Ki Giyeonghan e o examinou de cima a baixo. Então perguntou:
— Por quê?
Ki Giyeonghan o apressou.
— Só estou dizendo que eu faço. Como posso confiar isso a você se não sei como vai escrever? Eu escrevo até o fim de semana e te mando, aí você só confere.
— Ha…
Yoon Yejun riu de novo. Era uma risada de incredulidade, mas Ki Giyeonghan a ignorou. Já estava tudo resolvido? Ele deu uma olhada ao redor e viu que todos estavam se divertindo muito. Chegou a se perguntar se aquilo era mesmo uma universidade. Até encontro às cegas em grupo tinha limite. Nem era primavera ainda, mas eles cobriam a boca e riam, as bochechas estavam coradas, e coçavam a nuca. Ki Giyeonghan e Yoon Yejun eram os únicos dois que ainda não tinham sentido a primavera.
Ki Giyeonghan cruzou os braços e inclinou a cabeça para trás, olhando para o teto. O ar da sala, que não tinha sido devidamente ventilada, cheirava a mofo. Estou com sede. Da próxima vez, devo comprar um café.
— Yejun, Giyeonghan.
Nesse momento, o professor se aproximou deles e falou. Ki Giyeonghan baixou o olhar do teto e encontrou os olhos do professor.
— Não se sintam pressionados demais. Isso já aconteceu de vez em quando, mesmo que não seja todo semestre. Não conseguimos equilibrar perfeitamente a proporção entre os gêneros. Mas geralmente eles se dão bem.
— Vai ser uma experiência especial.
Yoon Yejun arredondou os olhos e respondeu ao professor. Ki Giyeonghan ficou atônito, sem palavras. Ele não sabia que, se agisse de um jeito tão bonzinho, todo mundo perceberia a farsa? Mas o professor caiu direitinho. Já estava começando uma conversa com Yoon Yejun. Ki Giyeonghan observou os dois conversando e suspirou, virando a cabeça para o lado. Aquele semestre seria especialmente longo.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna