Capítulo 20
‘Quanto mais eu penso nisso, mais ridículo fica. Não acredito que sou amigo de uma criança de quatro anos nessa idade.’
‘Toda vez que penso nele tentando ativamente fazer com que eu seja seu amigo, sinto cócegas no peito.’
Pensava que ele era tímido e inseguro, mas estava enganado. Sua atitude inicialmente introvertida era apenas devido ao medo do desconhecido, mas assim que se sentiu à vontade, ele se mostrou bastante corajoso. Ele se esforçava para se aproximar de mim e demonstrava simpatia sem reservas. Quando me levantei para sair, ele franziu a testa com tristeza. Quanto tempo eu fiquei lá, olhando para o garoto?
As crianças são assim, fáceis. Elas facilmente baixam a guarda, se aproximam, ficam tristes… e até amam facilmente.
— Dizem que gostam e seguem qualquer um por doces. Isso não é bom…
‘Não siga ninguém que lhe ofereça doces.’
De repente, a voz de meu pai se sobrepôs ao meu comentário casual.
‘Eu prefiro que voçê roube do que siga alguém por causa de doces. Se alguém prometer que vai cuidar de você, mas depois te machucar, você vai ficar ainda mais triste. E a pessoa que vai se machucar fisicamente e emocionalmente será você. Não posso sentir sua dor por você. É por isso que eu te disse para não ser tão fácil de se aproximar das pessoas.’
— …….
…… Sim, é verdade. Meu pai também teve momentos em que foi carinhoso comigo.
Uma vida marcada por inúmeros fracassos e traições, que terminou em depressão e suicídio. Mas houve bons momentos nessa vida de merda. Houve momentos em que eu confiava, seguia, dependia e gostava de meu pai. Eles foram apenas ofuscados por um final infeliz.
Tudo é assim. Nem tudo foi ruim. Sem dúvida, houve coisas boas. Só que as coisas boas se tornam insignificantes diante do infortúnio. Foi o mesmo com Joo Haewon. Sem dúvida, havia dias bons com ele. Houve momentos em que me senti grato por estar vivo. Houve momentos, mas…
De repente, uma dor surda começou a irradiar da ponta do meu nariz. Franzi a testa. Limpei o nariz com o dorso da mão e senti algo líquido.
— Ah, que bagunça.
Me pergunto o quão frio está para que eu esteja com coriza…
Limpei meu rosto com a palma da mão, mas meus lábios começaram a tremer. A dor no meu rosto estava piorando. Parei, mordi o lábio e fechei os olhos. Ao fazer isso, uma lágrima escorreu pela minha bochecha.
Caí no chão. Não conseguia mais andar.
… Não consigo me mover.
— …….
Sentado no chão, olhei fixamente para a frente, para a colina que costumava percorrer com frequência. Hoje, ela parecia especialmente íngreme. Estava cansado. De repente, tudo se tornou tão pesado, que não conseguia me mover.
Há momentos como esse. Quando tudo parece esmagador ao mesmo tempo que não consigo nem mesmo respirar.
O vento estava frio, mas minhas bochechas queimavam. O vento frio cortava a pele e uma lâmina invisível cortava meu coração. O ar quente subia e se debatia em minha garganta. Meu nariz ficou entupido e a dor latejante se espalhou por todo o corpo. Finalmente, meus lábios trêmulos se abriram e eu comecei a soluçar. Foi então que percebi que a súbita dor foi um prenúncio do choro.
A origem desse choro era tristeza. E eu sabia a causa da minha tristeza. Era a criança. Mais precisamente, o afeto imprudente que a criança tinha me dado.
Não pude deixar de pensar. Por que ele havia se aberto tão facilmente para mim? Quanto mais eu refletia sobre meu tempo com ele, mais eu percebia que o garotinho era solitário. Ele não se apegou a mim por algum motivo dramático como o sangue. Ele havia perdido alguém em quem se apoiar e só precisava de mais uma pessoa para preencher esse vazio. E assim ele clamava para ser preenchido.
Eu mesmo já havia passado por isso. Minha estrutura familiar incompleta resultou em uma educação desfavorável e muita falta de afeto. A pergunta sobre por que eu não tinha uma mãe me levou a culpar meu pai e, por fim, a me autodepreciar. Quando eu estava sofrendo com a solidão como se fosse uma doença, também pedi amor a ele.
Por algum motivo, eu acabei fazendo a mesma coisa que meus pais. Eu negligenciei meu filho, mesmo eu estando vivo. A desculpa de que eu não sabia que ele existia não amenizava minha culpa. Sim, desculpas são apenas manipulação para proteção própria. Eu não era diferente dele.
— Ugh…
À medida que a culpa crescia, a dor em meu coração também aumentava. Eu queria arrancar meu peito, mas segurei minha caixa torácica firmemente. Mordi o lábio e engoli os soluços, com medo de que alguém visse meu rosto completamente bagunçado.
Fui eu quem largou tudo há cinco anos. Não conseguia suportar a solidão, então criei uma fantasia e fugi para viver nela. Eu fiz isso…
Enquanto eu deixava tudo de lado e me escondia em mentiras, meu filho cresceu vendo outra pessoa que não era eu como sua mãe. Comendo, dormindo, chorando e rindo em lugares que eu não conhecia, então… Mesmo sem mim, ele cresceu tão bonito…
Lembrei-me das palavras de minha mãe, de que ele era igual a mim quando era pequeno. Agora, eu me pergunto como ele era. Como ele era na época? Como chorava? Quão pequeno era quando começou a se parecer com Joo Haewon? Quem lhe deu esse nome? Quando ele riu pela primeira vez? Quando começou a falar? Quais foram suas primeiras palavras? Quando meu filho começou a andar?
O que eu teria feito se tivesse visto essas cenas?
Que sentimentos eu teria experimentado?
— Sniff…
As coisas que eu deixei passar surgiram uma a uma em minha mente. Cada vez que isso acontecia… eu sentia que estava enlouquecendo.
O tempo perdido com meu filho, as inúmeras expressões que perdi, coisas que nunca saberia a menos que voltasse atrás no tempo… perguntas sem respostas e oportunidades perdidas para sempre se acumularam, como pedras me esmagando.
E por isso me arrependo.
Gostaria de não ter feito isso.
Eu realmente não deveria ter feito isso.
— Sniff… Ugh…
Foi uma autoflagelação, feita com intuito de machucá-lo. Foi uma ilusão com a qual escolhi viver. E agora esse passado, minhas escolhas, estão se voltando contra mim. Se ao menos eu tivesse ido ao hospital naquela época, em vez de entrar na banheira com uma faca ou, pelo menos, fugido quando descobri que estava esperando um bebê. Se eu tivesse feito isso…
Eu sei, não há garantia de que eu teria sido feliz. Mas pelo menos eu não estaria aqui agora, sozinho, agachado na rua, coberto de arrependimento e chorando.
Eu fui golpeado sem piedade pela foice que eu mesmo criei. A nitidez rasgou a carne e atingiu o coração. Doeu. Doeu horrivelmente.
— Ugh, ahh…!
Não consegui mais conter o choro, que explodiu em soluços. Eu chorava como um animal enredado em uma armadilha. As lágrimas caíam incessantemente sobre o chão cinzento e seco.
É assim que se parece o arrependimento? Era assim que se sentia ser destruído? Me senti um monstro por ter desejado isso para ele.
Já havia passado muito tempo até que as longas pernas do homem invadissem minha visão embaçada pelas lágrimas. As pernas se aproximavam lentamente, até que pararam bem na minha frente. Eu sabia quem era mesmo sem levantar a cabeça para ver o rosto dele.
Aproximando-se com cautela, Joo Haewon, se ajoelhou. Uma mão firme se estendeu em direção ao meu rosto choroso, acariciando meus cabelos frios. Ele falou com uma voz firme e inabalável.
— Não é sua culpa.
Foi como se ele soubesse. Como se soubesse o que eu estava pensando e como estava me sentindo.
— A culpa é minha. — e com tanta doçura, — A culpa é toda minha. — ele me ofereceu consolo.
O consolo não era um apelo para que eu não chorasse, mas uma permissão para chorar livremente. Então, eu chorei sem restrições.
Ele cobriu meu corpo soluçante com seus braços grandes, como um cobertor quente. E, assim, ele aceitou firmemente meu choro e minha tristeza incontroláveis.
~~~
Quando eu estava exausto de chorar pela enésima vez, adormeci. Quando abri os olhos novamente, o encontrei me observando com os olhos preocupados.
A sensação refrescante e calorosa em minha pele, juntamente com o curativo apertado nas costas da minha mão, pareciam contar sua jornada. Ele me trouxe para cá, me limpou, me vestiu e colocou soro em mim.
— Durma mais um pouco.
— … E quanto a você, Joo Haewon?
— Não se preocupe comigo. Não quero te incomodar.
Eu sabia que ele passaria a madrugada em claro. Poderia ser apenas esta noite, mas também poderia durar dias.
— Venha, não me incomoda.
Venha aqui.
Estendi a mão em sua direção, e suas sobrancelhas tremeram levemente. Os olhos entreabertos dele sondavam meu rosto diligentemente, procurando saber se eu estava consciente ou não.
— Meu braço dói.
Fingi um protesto para ele, que não me respondeu. Então, ele suspirou e puxou o cobertor, se juntando a mim, ao meu lado. Ele não ficou surpreso. Em vez disso, olhou para mim com calma, como se perguntasse o motivo das minhas ações. Coloquei minha mão no peito dele e sussurrei casualmente:
— Vamos fazer.
— …….
O flerte foi seco. Sua resposta foi igualmente seca. Nem a situação, nem o clima eram propícios para o sexo, mas ele era necessário: uma droga para acabar com a insônia dele e a minha tristeza. O que poderia ser mais eficaz do que sexo a essa hora da noite para me impedir de pensar em qualquer coisa que não fosse no prazer do meu corpo?
Sexo por necessidade é o que estamos acostumados a fazer, de qualquer forma. Pelo menos era assim para mim. Quando pensei que eu era seu objeto sexual, eu estava sempre pronto para abrir as pernas quando ele quisesse.
— Você não quer?
Perguntei casualmente, inclinando a cabeça, e ele sorriu.
— Acho melhor não.
— Você pode ir embora se não quiser.
— Não posso desistir de nada com você. Esse é o problema.
Sua mão firme deslizou pela minha coxa como uma cobra. Suas mãos levantaram minha blusa e seguraram meus peitos enquanto eu me posicionei no seu corpo. Fechei os olhos e me concentrei nas sensações de seu toque. Gemi quando suas mãos provocaram meus mamilos enquanto ele apalpava meu peitoral.
— Ah……!
Meu corpo começou a reagir rapidamente. Apesar da atmosfera seca que prevalecia, senti o calor aumentando rapidamente. De qualquer forma, o objetivo era desesperadamente satisfazer nossos desejos. Embora já fizesse um tempo desde o meu último cio por questões hormonais, não havia problema algum em nos darmos prazer mutuamente. A excitação era como um incêndio que queima rapidamente a lenha seca, se manifestando num piscar de olhos.
Esfreguei meu orifício molhado contra seu pênis e o deslizei para dentro. O momento da penetração é sempre avassalador, mas eu sabia o quão intensa seria a sensação depois disso. Por isso, pude suportá-la de bom grado.
Eu me movi freneticamente, seguindo o prazer. Seus dedos percorrendo meu corpo, seu rosto excitado, seu membro adentrando profundamente, o calor emanando do contato, o êxtase espalhando-se pelo meu corpo… a excitação vulgar foi a passagem e a razão para me levar a outro mundo. Nesse mundo, só existia o prazer. A tristeza em meu coração e em minha mente desapareceram completamente.
No auge do prazer, eu desejei…
Se ao menos tudo parasse assim…
~~~
— Estou com fome.
Sem obter satisfação pelo esforço que havia colocado em meu corpo, abri os olhos rapidamente. A luz azul e a escuridão através das cortinas me mostraram que ainda era madrugada.
O motivo do despertar tão repentino era a fome. Eu havia me desgastado demais. Nunca tinha acordado com fome antes… Era ridículo que eu o tivesse seduzido para fazer sexo comigo porque queria dormir profundamente, mas acordei cedo, contrariando esse propósito.
Pisquei os olhos, atordoado, e olhei para o teto antes de virar a cabeça. Para meu alívio, ele parecia estar dormindo profundamente.
— …….
Por um longo momento, fiquei olhando para ele dormindo e depois me levantei lentamente. Não queria acordá-lo desnecessariamente, então fui cuidadoso com meus movimentos.
Levantei o cobertor e saí da cama em direção à porta, tomando cuidado para não fazer barulho. Cheguei à sala após fechar a porta, aliviado por poder respirar tranquilamente. Toquei minha barriga e murmurei:
— Estou com fome…
Como se eu estivesse possuído, repeti a frase de estar com fome continuamente, como uma maldição.
O ar da cozinha estava gelado, impregnado com a energia da madrugada. Fui até a pia e verifiquei a prateleira onde guardava meus utensílios de cozinha. Não vi o que estava procurando. Abri a gaveta à direita da pia, nada ali também.
— Isso é estranho…
Balançando a cabeça, abri a próxima gaveta abaixo daquela. Nada. Abri outra gaveta.
Nada.
Nada.
— …… Por que não está aqui?
Fiquei frustrado ao não ver o que estava procurando. Talvez fosse a irritação, mas a tontura em minha cabeça ficou mais intensa. Além disso, a fome era muito forte.
Oh, não, devia estar aqui.
Olhei em volta novamente e, à esquerda da pia grande, vi a máquina de lavar louça, que eu não havia notado antes.
Fui até lá e abri a porta. Entre os pratos limpos e alguns utensílios de cozinha, uma faca com lâmina serrilhada chamou minha atenção. Era parecida com a faca que usei naquela manhã.
Depois de um momento de hesitação, peguei-a, puxei-a para fora e examinei a lâmina. Ela era boa para fatiar presunto e ovos, mas e quanto a outras coisas?
— …….
Fiquei olhando para a lâmina serrilhada.
Mas…….
……Mas por que eu vim atrás disso?
O chão sob seus pés parecia estar desmoronando. Essa sensação de se tornar subitamente desconhecido e desligado da realidade me chamou……. Não era a primeira vez que experimentava isso. Aconteceram várias vezes, mas desta vez era como se fosse mais intenso.
Quando estava começando a me perguntar se estava na realidade ou em um sonho, ouvi risadas em meu ouvido que logo se transformaram em zombaria.
“Você encontrou isso de novo.
Eu sabia que você faria isso.
Será que desta vez você conseguirá ter sucesso?
Você quer se sentir aliviado, não é?”
Eu sabia que isso era uma alucinação e a verdadeira natureza da mesma. É um impulso terrível que surge quando estou encurralado. Eu sei de tudo, mas mesmo assim, como se estivesse possuído por algo, não consegui desviar o olhar da lâmina afiada da faca.
Foi nesse momento.
— ……!
Uma mão de aparência familiar invadiu silenciosamente meu campo de visão. Dedos longos e firmes suavemente envolveram minha mão segurando a faca. Só então percebi a sensação de calor, a presença atrás de mim, e segurei minha respiração.
Era a mão dele envolvendo a minha. Ele segurou minha mão com força, não para machucar, mas para imobilizar.
— Ah.
Ele não disse nada.
— Eu… — Tinha que dizer alguma coisa. — Não é o que parece. É só que eu estava com fome…
Eu queria dizer qualquer coisa.
— Estava com fome.
Eu estava. Eu estava com fome.
— Sério, eu estava com muita fome……
Acordei de repente com fome e vim até a cozinha para encontrar algo para comer. A única coisa que encontrei foi uma faca……. então eu a usei……. para cortar a fruta, porque precisa-se cortar a casca antes.
— De verdade…
…..Mas onde estão as frutas?
Por que eu procurei a faca em vez das frutas?
Por quê…
— …
Enquanto eu gaguejava desculpas, comecei a tremer. O tremor se espalhou para os cantos dos meus olhos, minhas mãos e eventualmente por todo o corpo.
— Ha…
Um suspiro escapou dos meus lábios.
Era terrível. Era como olhar diretamente para o núcleo sombrio e assustador da minha mente. Eu o tinha evitado até agora… mas finalmente olhei para ele. Era tão desolador e caótico quanto eu imaginava.
Eu achei que estava melhorando.
Parecia que tinha melhorado muito.
Mas… não. Não tinha.
Não estou melhorando…
— Eu entendo. — Ele sussurrou suavemente enquanto seus braços me envolviam pela cintura. — É só porque você estava com fome. É isso, eu entendo.
Sua voz áspera me ofereceu um reconfortante alívio. Ele percebeu o desprezo e a tristeza que eu sentia por mim mesmo. Ele estava tentando me acalmar, me dizendo que estava tudo bem e que não era nada sério, no entanto, essa consolação desesperada só fez com que eu me sentisse mais patético.
Um som metálico ressoou quando a faca caiu no chão, com a pressão sendo aliviada da minha mão. Ele envolveu meus ombros com força e inclinou o rosto sobre meu pescoço, me segurando firmemente, me impedindo de escapar da realidade mais uma vez.
Fechei os olhos, inspirando profundamente o aroma dele e exalando lentamente. Tentei reprimir o impulso de escapar e o pessimismo que ameaçava me dominar.
A tempestade da minha realidade devastada passou.
Mas a boa notícia é que não estou sozinho nela. Ele está aqui comigo.
Nós estávamos juntos.
Portanto, era suportável.
O dia amanheceu. A luz brilhante foi sentida acima de minhas pálpebras. Quando abri os olhos, o quarto já estava iluminado. A manhã ensolarada afastou a intensidade da madrugada e se espreguiçou.
Enquanto encarava a poeira flutuando nos raios de luz, abri a boca.
— Vamos tomar café.
Estava com fome.
— Que tal um pouco de macarrão, do tipo que Haewon fazia. De repente, estou com vontade de comer.
Dessa vez, eu estava com muita, muita fome.
* * *
Quarta-feira, 17 de novembro.
— Há momentos assim. Quando tudo parece ser um sinal. Um momento em que todas as línguas do mundo parecem dizer que não há problema em morrer. Um momento como um grito para o mundo acabar, quando todos os sons do mundo parecem ser um convite para acabar com tudo. Quando parece que seria mais fácil se tudo acabasse. Agora eu entendo que esses sinais não são respostas, mas um truque. Eu sei, mas ainda me engano… É frustrante. Eu quero parar de me enganar, mas ainda não sei como.
Essa foi a oitava consulta.
Em frente ao prédio, fiquei perambulando por um tempo, sem saber para onde ir.
Não consegui me convencer a visitar meu filho hoje. Eu me sentia ansioso. Tinha medo de que essa depressão fosse transmitida ao meu filho.
Na verdade, acreditava que minha depressão tinha sido de alguma forma transmitida pelo meu pai. Afinal, o ditado “a maçã não cai longe da árvore” existia por alguma razão. Meu pai costumava dizer que a vida era miserável e que ele preferiria morrer. A corda que ele usou para enforcar a si mesmo provavelmente seria a minha também. Solidão. Desespero. Rendição.
Os médicos apontaram a morte de meu pai como o início da minha depressão. No entanto, eu tinha uma teoria diferente. Eu já devia estar contaminado muito antes disso, ou talvez seja genético. Portanto, meu pai era um hospedeiro e um transmissor. Eu sou um infectado, mesmo que não faça sentido médico. Foi assim que pensei.
Por isso, estava com medo. E se Soohyun também acabasse como eu? Se eu passasse para ele essa maldita doença inútil que meu pai me passou? Isso era assustador.
Meu filho já estava sofrendo por minha causa e eu não queria infectá-lo também com minha depressão.
Sinto-me um fracasso. Não posso o dizer quem sou e não posso ir até ele quando quero vê-lo… Eu só quero poder falar com ele, vê-lo e conversar um pouco… É sempre assim. Coisas simples em palavras são difíceis em colocar em prática.
— Hahaha…
Uma risada amarga escapou por entre meus lábios. Meus pensamentos voltaram a se tornar depreciativos. Sacudi a cabeça para limpá-la e finalmente comecei a andar.
Cheguei em casa e me tranquei em meu quarto no segundo andar.
Eu tinha que cumprir a tarefa que o terapeuta tinha me passado. A tarefa era simples: não me isolar. Isso foi aconselhado e recomendado consistentemente pelo terapeuta, desde o começo até agora. Hoje, também, o conselho do terapeuta não foi diferente.
Tinha muitos livros que comprei para me “consertar” sempre que minha mente vacilava. A maioria deles era recomendada como eficacia em terapia psicológica. Aproveitei essa oportunidade para pegar todos esses livros e começar a lê-los.
O problema é que eles não estão sendo muito atraentes.
Reflexões sobre a vida, o significado da vida, o valor do tempo, a importância dos relacionamentos. Uma coleção de frases bonitas entrelaçadas por todas as línguas calorosas do mundo. Conselhos reconfortantes e filosóficos. Algumas pessoas falam para viver por si mesmas e outras dizem para viver pelos outros. Às vezes, há um cinismo que diz que, mesmo que você morra, o mundo não perceberá. Meus sentimentos atuais estavam mais próximos do último. Então, no final, eu estava apenas contemplando as histórias nos livros como quem assiste à água correndo para o rio.
É claro que não havia nada de errado com os livros; o problema era puramente eu. Talvez eu os estivesse os interpretando de maneira distorcida devido à minha própria distorção.
Um livro após o outro se acumulavam em minha mesa de cabeceira. Quando cheguei à metade do décimo livro e o joguei fora, meus olhos estavam cansados e eu não queria mais enxergar.
Recostei-me em minha poltrona e fechei os olhos. Tudo o que eu queria fazer era ler, e nem isso eu consigo fazer direito. Droga. Eu nem sabia como jogar os jogos que todo mundo estava jogando. Eu tinha ido a muitos bares à procura do meu pai bêbado, mas não tinha ido a nenhuma das lojas de PC comuns.
Eu preciso aprender alguma coisa agora, como um instrumento musical. Bateria, talvez um violão. Ou…
— O piano…
Ah, sim. É isso mesmo. Havia um piano. Um piano que Joo Haewon tocou tão bem que fiquei impressionado.
Acho que não o tenho visto tocar ultimamente porque ele tem estado muito ocupado. Quando morávamos juntos no antigo apartamento, ele costumava tocá-lo com frequência… Eu até aprendi um pouco enquanto assistia.
Quando eu tocava algumas teclas, ele soltava frases como “Você está indo bem” ou “Deveria se preparar para competições” com elogios vazios. Ele não tinha muito talento para ensinar, ou pelo menos poderia dizer que eu estava começando a entender.
Pensando nisso, levantei abruptamente e saí do quarto.
Certamente havia um piano nesta casa. Tenho certeza de ter visto. Onde poderia estar? Não era no primeiro andar. Não estava no quarto, nem mesmo no escritório que ele usava. Isso eu tinha certeza. Então, deve estar no segundo andar…
Havia outro quarto no segundo andar que não era usado. Pensei em ir até lá, mas parei de repente.
— Acho que não…
Lá também não. Não parecia certo. Não naquele lugar…
Então, de repente, um fragmento de cena surgiu em minha mente. A luz do sol derramava tão intensamente que meus olhos doíam. Um piano preto, dedos longos tocando suavemente as teclas, e uma melodia tranquila apareceram. Como se estivesse me dando uma pista, o som de um piano que já havia ouvido antes começou a ecoar em meus ouvidos.
Segui o som como se fosse atraído por ele e me vi em uma sala cheia de brinquedos.
— …….
Fiquei parado na porta e olhei em volta da sala atordoado.
Sim, era este o lugar. Definitivamente havia um piano aqui.
Enquanto eu observava, as lembranças vagas começaram a ganhar vida gradualmente. As lembranças se materializaram diante de mim como fantasmas.
Lá. No meio daquela sala, um piano estava lá. Ele estava sentado confortavelmente, vestindo roupas casuais, tocando o piano habilmente. Eu estava sentado ao lado dele, observando suas mãos deslizando suavemente sobre as teclas enquanto inclinava a cabeça para ouvir o som. E então…
‘Não…’ Foi quando ele estava chegando ao final de sua apresentação quando, de repente, murmurei: ‘Odeio isso’. Seus dedos suaves pararam de se mover e ele se virou para mim. Eu nem sequer olhei para ele, apenas murmurei outra coisa com uma expressão atônita no rosto.
‘Eu não quero ouvir isso… Eu me sinto mal…’
Agindo como um louco, agarrei meus cabelos. Era devido à dor de cabeça. Uma dor pulsante que parecia que meus circuitos cerebrais estavam emaranhados e se incendiando. Senti uma tontura que fazia o mundo girar: era um sinal de perigo.
Ele estendeu a mão em minha direção enquanto eu estava sofrendo. Assustado, me afastei violentamente. Depois disso, comecei a olhar ao redor, inquieto.
No momento seguinte, eu me levantei de repente e agarrei a caneta que estava por perto, prestes a perfurar minha têmpora. Felizmente, ele foi mais rápido. Ele agarrou meu braço, que estava prestes a se mover, e me prendeu em um abraço. Eu me debati um pouco enquanto ainda estava preso e, logo depois, relaxei, me jogando para trás. Nesse estado, murmurei como um louco.
‘Seu desgraçado… você é meu tio… Eu sei que é o Sr. Joo Haewon …’
Ele enterrou o rosto em meu cabelo e depois sussurrou com uma voz suave.
‘Sim, tem razão. Você está certo. Eu sou um desgraçado.’
‘… Espero que você esteja infeliz.’
‘Sou infeliz o suficiente.’
‘Espero que você tenha se arrependido.’
‘Eu me arrependo. Isso está me deixando louco.’
‘Então…….’
‘Então você pode ficar tranquilo, Soo-ha.’
Ouvindo suas palavras, eu soltei um riso fraco.
Não, talvez fosse choro.
O fim da bela e tranquila melodia foi substituído por minha risada estranha e assustadora. Eu estava rindo e chorando ao mesmo tempo, fazendo um som estranho, como um animal. Não muito depois, desmaiei.
Isso é o fim da lembrança.
As ilusões do passado começaram a desvanecer e, então, a realidade se revelou novamente. No lugar onde o piano costumava estar, os brinquedos da criança apareceram. Como se estivesse escapando de um pesadelo, recuperei minha respiração, que estava quase presa.
— Haah…!
Um choque frio passou por mim. Ao mesmo tempo, eu estava apavorado. Não pelas coisas bizarras que fiz em meu torpor, mas pelo fato de que eu não sabia quantas vezes mais teria que enfrentar aquele passado.
Quantas vezes mais eu teria que testemunhar seu desespero silencioso e a alegria que eu sentia ao me alimentar dele.
Encarar Joo Haewon, que me protegeu, mantendo a falsa fantasia para não me ferir, era uma tarefa árdua.
Fiquei triste e me senti culpado.
Sua sinceridade em me segurar daquele jeito me machucava.
Porque tudo isso enfraquece meu ódio obstinado por ele.
Um pesado sentimento de tristeza se enraizou em meu coração. Eu recuei, querendo fugir das reverberações do passado e das emoções com as quais eu não conseguia lidar.
Saí da sala e desci as escadas correndo o mais rápido que pude. Estava na metade da escada quando parei. Dei de cara com ele, mexendo em sua gravata. O verdadeiro Joo Haewon. Ele me examinou com um olhar afiado.
Agora vejo sua observação habitual como uma luta desesperada para não me perder.
E eu…
— …….
Sinto pena dele. Odeio me sentir assim e é injusto, mas não posso deixar de sentir pena dele.
Ele franziu o cenho, como se estivesse lendo alguma coisa em mim, e se aproximou rapidamente antes de perguntar.
— O que está acontecendo? Você está bem?
— …
— Soo-ha.
Balancei a cabeça com tristeza. Sabia que uma simples negação não o convenceria, então acrescentei ainda mais palavras vazias.
— Não… Eu só estava olhando para você porque achei que ficava melhor deste ângulo.
Sua expressão se acentuou.
— O que é, me diga.
Parece que ele percebeu que eu estava tagarelando para esconder algo. Ele é, de fato, rápido na percepção. Eu balancei a cabeça e sorri intencionalmente, mesmo que fosse um sorriso forçado. Eu queria aliviar sua ansiedade por enquanto, mesmo que isso significasse fazer papel de idiota.
— É verdade.
— …….
— Que reação é essa? Talvez eu devesse ter dito que era feio.
— Não. Não diga isso, eu estou dando atenção a coisas sem sentido.
— …… É engraçado.
Desta vez, um riso genuíno escapou. Com isso, sua expressão rígida parecia um pouco mais relaxada. Ele levantou a mão acima da minha cabeça. Com seus longos dedos, ele acariciou meu cabelo gentilmente e cumprimentou.
— Bem, de qualquer forma, estou de volta.
Eu aceitei seu toque de maneira obediente enquanto esmagava meu sentimento de culpa e vergonha.
* * *
°
°
Continua…
Tradução: Rize
Revisão: MiMi