Capítulo 19
A voz calma me pegou mais uma vez. Quando parei no meio da abertura da porta do carro, minha mãe perguntou com uma voz séria.
— Você realmente precisa continuar com isso?
— …….
— Você não pode simplesmente viver uma vida normal agora? Depois de tudo o que passou, mesmo que você tenha passado por momentos difíceis e carregue memórias dolorosas, você tem que… tem que seguir esse caminho errado?
Eu me perguntava: “Que tipo de vida normal seria essa que a minha mãe desejava para mim?” Normalmente, para pessoas como eu, uma vida normal é ser usado e explorado por alfas. Nesse sentido, eu estava vivendo a vida de um ômega. Transei com um alfa e dei à luz um filho dele.
Independentemente do tipo de vida que minha mãe deseja para mim, tenho certeza que não posso me adequar a ela, já que seria uma vida baseada na premissa de que o homem chamado Joo Haewon não existiria.
Minha mãe estava enganada, em primeiro lugar. Eu não o escolhi. Tampouco o perdoei. Eu só precisava dele.
— Há apenas um caminho que eu poderia seguir, não importa como seja.
Há cinco anos, ele me feriu e eu desmoronei. Apesar da minha desilusão, eu sentia falta dele, mas não conseguia lidar com a saudade, então o apaguei. Mesmo com a exclusão, voltei a me apaixonar por ele. Tentei me matar novamente, pensando que seria abandonado pelo homem que amava. Ele me salvou novamente.
Joo Haewon era a pessoa que conseguia me fazer querer viver e, ao mesmo tempo, querer me matar. É por isso que estamos juntos. Não posso evitar: preciso dele para continuar vivendo.
Não poderia continuar sem ele.
— Mesmo que a sua mãe possa criar outro caminho?
— Bem, não quero ir para o Canadá. E odeio ainda mais o hospital psiquiátrico.
Minha mãe deu uma risadinha. Deve ter soado sarcástico, dessa vez, mas a verdade é que foi um pouco intencional.
— Verdade, o sangue não mente… nem você, nem aquele bastardo… vocês são realmente teimosos.
Minha mãe murmurou em voz baixa.
— Eu não consigo superar isso, de verdade. Como vocês dois podem não dar ouvidos às pessoas…
Sua voz não tinha a intensidade de seu sermão anterior. A expressão severa dela havia visivelmente se suavizado.
Após olhar fixamente para o espaço por um tempo, como se tivesse finalmente chegado a alguma conclusão, ela acenou com a cabeça e falou novamente.
— Certo, vá em frente. Se você consegue lidar com isso, vá em frente. Mas isso é o mais longe que vou te acompanhar.
— …….
— Você disse que não queria ter nada a ver com sua mãe, então vamos fazer isso. Sem mais desculpas, sem mais explicações, sem mais interferência. Eu vou deixar isso de lado. Mas eu não desempenharei o papel de mãe e você não deve mais agir como meu filho.
Foi isso. Não foi uma ameaça, não foi um apelo, foi uma exigência que aceitei porque foi isso que decidi.
Minha mãe me abandonaria novamente. Eu a perderia novamente.
Fui abandonado uma vez desde o nascimento, depois fui deixado em um hospital psiquiátrico pela segunda vez e agora era a terceira vez. Mas não estou arrependido nem triste, pois reconheço que isso é o melhor. Há alguns relacionamentos que precisam morrer, como diz minha mãe.
Não tenho vontade de fazer as pazes com minha mãe e ela não tem vontade de me entender. Então, a única coisa que resta nesse relacionamento é desistir.
— Entre. Vá e entregue esse livro com Soohyun. Não o leve de volta para casa, eu não o comprei para você. E pare de tremer.
— Sim.
— Agora vá. Não quero mais ver você.
Após essas palavras, os cantos da boca de minha mãe tremeram. Até mesmo a pele exposta de seu colo sob o decote do casaco tremeu levemente. Só agora pude ver o que ela estava tentando esconder com tanto esforço por trás de sua expressão calma e voz fria. Era pesar. Deve ter sido difícil para ela me abandonar três vezes. Então, foi um pouco… só um pouco reconfortante.
— Adeus.
Me despedi uma última vez. Eu sabia que aquele era o fim. Nunca mais nos veríamos como mãe e filho.
Puxei a maçaneta. Com um rangido, a porta do carro se abriu.
Saí do carro, deixando minha mãe para trás, mas não me arrependi nem um pouco.
Eu estava pensando nisso desde que saí de casa.
— Está realmente frio…
…que gelado.
Disseram que hoje seria o ápice do frio. A previsão do tempo estava certa. Mesmo usando um grosso casaco que descia até os joelhos, meu corpo tremia incontrolavelmente.
O maior problema era, sem dúvida, minhas mãos. O saco de compras que eu segurava estava congelando minha pele, fazendo com que doesse e ficasse sensível. Mesmo assim, eu não conseguia entrar no prédio… minha aparência deve estar patética. Provavelmente, minha mãe teria me repreendido.
Após ficar ali tremendo por um tempo, um segurança saiu e me chamou para entrar. Minhas pernas se moveram por conta própria, como se movidas pela bondade e pelo frio intenso, mas parei depois de alguns passos.
— …….
Hesitei novamente, por hábito. Eu ainda não sabia como lidar com ele, o que dizer. Mesmo hoje, eu não estava preparado o suficiente. Mas…
— Tenho que entregar isso. Ela não me deu para eu ficar com o livro.
Olhei para a sacola de compras que minha mãe havia me dado e murmurei.
Sim. Hoje, eu realmente tinha que entregar isso, acho que é certo entregar para ele. Eu não deveria guardar comigo algo que minha mãe deu para a criança.
Era uma desculpa frágil, na melhor das hipóteses, mas pareceu me encher de um pouco mais de coragem. Estalei os nós dos dedos na mão que segurava a sacola. Levantando a cabeça novamente, finalmente entrei no prédio de apartamentos.
Uma vez dentro do prédio, o resto foi fácil: peguei o elevador direto para a porta do apartamento 3402, mas levei mais um tempo para tocar a campainha. Foi uma sensação diferente daquela que tive quando identifiquei a mulher com a criança. Naquela época, eu não tinha me dado conta de como a porta da frente era pesada e enorme…
Os dedos continuaram a se mover ao redor do botão da campainha, sem conseguir pressioná-la. De repente, com um clique, a porta se abriu. Surpreso, dei um passo para trás e uma figura apareceu pela porta aberta.
— ……!
Ela não era a mesma mulher a quem eu havia dado as flores.
— Ahh! Eu ouvi um barulho… finalmente você chegou, entre.
— O quê?
O rosto da mulher de meia-idade era definitivamente desconhecido. Era um rosto que eu nunca tinha visto antes. Eu estava prestes a verificar o número da porta novamente para ver se tinha parado na casa errada, mas a senhora simplesmente se afastou para o lado, abrindo espaço para mim.
— Por favor, entre.
Sem poder hesitar mais, entrei na casa.
Sentei-me no sofá da sala de estar e olhei em volta. Já haviam se passado cinco anos. Esta era a casa que eu compartilhava com ele, mas estava tão diferente agora que não me parecia familiar. Era tão diferente daquela época que eu me perguntava se eu realmente morei aqui.
O chão da sala estava coberto por um grosso tapete. Havia uma casa de brinquedo instalada perto da janela repleta de livros com imagens que o garoto costumava ler e um pequeno cobertor. Era uma cena que indicava claramente que, nessa casa, havia uma criança. A única coisa que não havia mudado eram as paredes e o sofá.
De repente, lembrei-me da primeira vez que entrei nesta casa, seguindo minha mãe. Naquela época, eu também me sentei neste mesmo lugar. Do outro lado, estava Joo Haewon. Sua expressão na época ainda era vívida em minha memória. Ele estava incrivelmente indiferente e nem sequer me tratou como seu sobrinho: me viu como algo estranho que havia entrado na casa. Esses pensamentos eram evidentes em sua expressão, olhar e tom de voz.
É por isso que alguém tão perspicaz não conseguiu ver imediatamente que eu era ômega. Ele não estava prestando atenção em mim. E a razão pela qual ele não me mandou embora, mesmo sabendo que eu era um ômega, foi semelhante: ele simplesmente não se importava.
Ao lembrar do nosso primeiro encontro aqui, a situação atual parecia ainda mais ridícula. Foi uma situação que nem ele, nem eu, nem ninguém poderia ter imaginado.
— Aqui, tome um pouco de chá para se aquecer.
Enquanto eu estava perdido em pensamentos, a senhora me ofereceu uma xícara de chá. Aceitei a gentileza dela e ela sentou-se à minha frente.
— Eu estava me perguntando quando você viria.
Ela fez isso novamente. Era como se soubesse que eu estava chegando. Não fiquei surpreso; ele provavelmente havia avisado a ela de antemão. Fazia sentido que ele tivesse tomado precauções para o caso de eu aparecer inesperadamente e ter a porta batida na minha cara.
— Ele está dormindo. Este é o horário habitual da soneca. Ele geralmente dorme por cerca de uma hora, então você terá que esperar um pouco.
— … Certo.
Estranhamente, em vez de sentir decepção por não poder ver a criança, senti alívio. Suspirei suavemente e levei a xícara de chá aos lábios.
— Perdão, mas…
A senhora idosa, que estava me observando descongelar meu corpo congelado com o chá quente por um tempo, me interrompeu novamente.
— Você se parece muito com Soohyun. Ele tem o mesmo rosto que o chefe, mas a atmosfera é exatamente a sua.
Fiquei surpreso com suas palavras. Eu me perguntava se ela estava apenas dizendo aquilo ou se sabia do que estava falando.
Quando não consegui esconder minha agitação, ela pediu desculpas, batendo nos lábios como se tivesse cometido um erro.
— Desculpe! Foi um deslize. O chefe pediu para não te surpreender, mas achei tão fascinante e acabei não me segurando…
Ela sabe…. quem eu sou.
De repente, me senti desconfortável. Não me importava com o que os outros pensavam e não queria me importar. Mas era mais fácil falar do que fazer isso.
Um ômega, um homem que pode ter filhos. A maneira como as pessoas olhavam para pessoas como eu era geralmente negativa. Talvez seja paranoia, mas a atenção dela agora parecia uma facada. Eu não gostava disso.
— Ai, eu deveria ter cuidado. Me desculpe, não tive más intenções, só achei fascinante…
Como não disse nada, a senhora estava incerta sobre o que fazer. Ela se desculpou várias vezes, mas meu desconforto não desapareceu. De qualquer forma, mesmo que eu dissesse o que fosse, provavelmente seria incapaz de me libertar desse sentimento, pois era uma paranoia criada por inúmeras experiências. Essa concepção profundamente arraigada pode ser uma doença crônica que terei que carregar para o resto da minha vida, talvez semelhante à depressão.
— Originalmente, havia outra moça aqui. Para onde ela foi?
Fiz uma pergunta deliberadamente para mudar o assunto e a senhora respondeu casualmente.
— Ah, aquela garota? Ela foi embora alguns meses atrás.
— Por quê?
— Bem… talvez eu não devesse dizer isso. Mas, na verdade, ela não saiu. Ela foi expulsa.
— Ela foi expulsa?
— Ugh… Acho que teve algum tipo de problema com o chefe…
As palavras embaçadas foram suficientes para despertar minha curiosidade. O olhar que ela me deu também indicava que ela queria que eu perguntasse mais, então eu continuei.
— Você pode me dizer qual foi o problema?
— Não sei os detalhes….. Ela chorou tanto quando estava arrumando suas coisas para sair… A criança também chorou, implorando para ela não ir embora, mas o chefe não teve pierdade. Na verdade, ele sempre foi um pouco ríspido, mas naquele dia ele estava ainda pior. Tanto com ela quanto com a criança. Foi realmente desagradável de se ver.
— …… Ele chorou muito?
— Sim, chorou. Ele a chamava de ‘tia’, mas…. originalmente, ele a chamava de ‘mamãe’. Mas depois que ela foi repreendida pelo chefe, ele passou a chamá-la de ‘tia’. Na verdade, quando a vi pela primeira vez, pensei que eram mãe e filho de verdade. Fiquei tão surpresa quando descobri que não eram parentes de sangue.
Pelo menos, parece que o carinho que senti entre a criança e a mulher não foi um mal-entendido.
— É difícil se separar de uma criança assim. Ela implorou ao chefe de coração partido para não ir embora, enquanto a criança estava fazendo um escândalo no quarto. Ai, ele foi realmente impiedoso. Mas sei que a menos que algo sério tenha acontecido, ele não teria sido tão cruel.
— …
Acho que entendi porque ele teria sido tão ríspido com a criança e a mulher. Certamente, deve ter uma razão. Provavelmente, foi por minha causa. O ponto de partida da minha segunda tentativa de suicídio foi essa mulher.
Na verdade, essa mulher não me fez nada de errado. Pelo contrário, fui eu quem errou ao interpretar erroneamente o relacionamento entre eles e tentar atingir o coração dela de uma maneira imprópria. Imagino que ele pensou o mesmo.
No entanto, talvez ele tenha expulsado brutalmente a mulher que era como uma mãe para a criança porque ele julgou que ela também poderia ser um gatilho para ele, assim como a faca. Ele a afastou da mesma forma que escondeu a faca: para não chamar mais a atenção, inclusive a minha. Assim, compreendi as ações dolorosas que a senhora mencionou.
Mesmo assim, sua frieza, nascida de sua desconfiança em relação a mim, também machucou a criança…
… Foi amargo.
— A criança…… ainda chora muito?
— Depois que a senhorita foi embora, ele ficou deprimido por um bom tempo. É natural. Como poderia se recuperar tão rápido? Mas ultimamente ele está um pouco melhor, afinal, o chefe tem cuidado mais dele do que antes. Parece que ele prefere o pai mais do que a tia. Ele não chora mais para que o pai o leve para casa.
Enquanto ela falava, uma palavra se destacou como um polegar dolorido em meu ouvido. Deprimido. Não é uma palavra que você esperaria ao ouvir sobre uma criança de apenas quatro anos de idade.
De fato, não era.
— Mas como eu deveria te chamar. Devo chamá-lo pai? Estou tão confusa…
— Me chame do jeito que você se sentir confortável.
— Bem, de qualquer forma, o que estou tentando dizer é que não estou aqui para puxar conversa com o pai do bebê porque estou entediada. Estou aqui porque sinto muita pena dele. Não sei qual é a situação, mas por favor, leve a criança.
— …….
— Eu sei que cuidar de uma criança é difícil. Trabalhei em uma creche por 10 anos. Comparado a isso, essa aqui é moleza, mas ele parece tão triste. Não é órfão e seus pais estão vivos, mas… ele até pediu à professora da creche para o levar para o pai. Ele deve estar se sentido muito sozinho.
Fiquei sem palavras. Era verdade. Ele estava negligenciando seu filho. Estava o negligenciando por minha causa. Minha condição é instável e, por isso, sou a causa da depressão e da solidão do meu próprio filho.
…… é minha culpa.
De repente, minha respiração ficou presa na garganta. Percebi que não deveria ter usado um livro infantil como desculpa. Foi um erro ter vindo despreparado. Eu queria fugir: não conseguia encarar a criança.
Não aguentei e me levantei.
— Desculpe-me, mas tenho que ir agora…!
E foi isso.
Thump.
O som ressoou. Era o som da maçaneta girando. Em seguida, um som lento e agudo como um grito se prendeu em meu tornozelo. Eu virei minha cabeça com dificuldade e, através da fresta entreaberta da porta, pude ver a criança espiando.
Meu corpo inteiro congelou ao ver seus olhos arregalados e cautelosos. Ele não fazia ideia de quem eu era. Eu já havia olhado para ele daquela maneira antes.
— …….
— …….
Quando ela percebeu que eu o estava impedindo de sair, ela rapidamente se aproximou dele.
— Nosso Soohyun acordou? Venha, vamos. Vamos comer um lanche. Vou fazer sanduíche de Tayo, que o Soohyun gosta, e sopa de milho.
Com uma oferta carinhosa da senhora, a criança acenou com a cabeça em silêncio, concordando. No entanto, mesmo aceitando a oferta, ele não estava disposto a sair do quarto, deixando a senhora intrigada.
— Bem, você pode sair e brincar enquanto a tia prepara o lanche. O amigo do papai quer brincar um pouco com Soohyun.
Eu estremeci, sem saber como reagir às palavras repentinamente. A criança manteve sua expressão cautelosa, mas sua reação foi diferente da anterior.
— Papai…… Ele é amigo do papai?
— Sim. Ele é amigo do papai e trouxe um presente para Soohyun. Então, você não vai cumprimentá-lo?
A maneira como fui apresentado como amigo do papai pareceu cativar o coração da criança. Finalmente, ela saiu para a sala.
Ele caminhou lentamente em minha direção. Meu coração começou a bater desconfortavelmente à medida que a distância diminuía.
Eu me perguntava “Que tipo de rosto estava fazendo, com que tipo de olhos estava olhando para ele?”
— Olá…
A criança parou a alguns passos de mim, segurou suas mãos na frente da barriga e curvou-se. Soltei um murmúrio que parecia um suspiro. Fiquei estupefato e sem reação diante da primeira saudação da criança.
Eu estava pensando no que dizer a ele. Imaginei e reimaginei o que diria, por onde começaria e até onde iria. Mas, como um idiota, eu não consegui dizer nada.
A criança piscou os olhos e olhou para a senhora pedindo ajuda. Ela apontou para o assento à minha frente.
— Sente-se ali e espere um pouco. Vou preparar o lanche e trazer rapidinho para você. Soohyun vai esperar quietinho, não é?
A criança assentiu com a cabeça e obedientemente foi para o assento que ela havia indicado. Ao voltar para a cozinha, a senhora me deu uma breve olhada. Era uma cutucada, um convite, uma insistência para que eu conversasse com a criança. Hesitei, depois voltei a me sentar, percebendo que já havia perdido a chance de escapar. Eu não tinha escolha.
— …….
—…….
Por um tempo, a criança e eu ficamos nos olhando em silêncio. A curiosidade do meu filho em relação ao estranho misturada ao meu medo de enfrentar algo difícil criou constrangimento e essa estranheza só se intensificou com o passar do tempo. Eu não tinha a capacidade de reverter essa situação. Fiquei irritado com minha própria natureza introvertida e antissocial.
Apenas depois de muito tempo, eu me lembrei do presente que minha mãe havia preparado. Finalmente, com prazer por ter encontrado algo para conversar com a criança, procurei o saco de compras com pressa, sem perceber que estava logo ao lado dos meus pés.
Quando finalmente a encontrei, peguei o livro de histórias e o estendi a ele. Ele piscou seus grandes olhos para mim e, então, educadamente, pegou-o com as duas mãos.
— Obrigado…
Não consegui dizer mais nada, pois ele abaixou a cabeça em sinal de agradecimento.
A expressão da criança se iluminou quando ele olhou para a capa do livro de histórias que lhe dei. Eu só conseguia olhar para ele confuso enquanto ele abria o livro.
O garoto realmente se parecia muito com ele. A ponto de me fazer pensar que talvez ele estivesse roubando um vislumbre de sua infância em um sonho. Mesmo sem memórias, desde o primeiro momento, eu tive certeza de que era seu filho.
Por outro lado, não havia traços meus em sua aparência. Por causa disso, talvez, eu não pudesse sentir que era real. Não havia sensação de emoção por finalmente encontrar meu filho. Nem mesmo o sentimento de proximidade, apesar de eu estar olhando diretamente para ele.
No entanto… era fascinante.
O menino que estava olhando o livro levantou os olhos e me encarou por um momento. Seu olhar repentino era afiado como uma faca. Fiquei nervoso. Era como se tivesse sido perfurado por algo. A criança começou a mexer os pequenos lábios, como se tivesse algo para dizer. Esperei pelas palavras da criança, mas meu nervosismo apertou minha garganta.
— Você é mesmo amigo do meu pai?
Ele quem finalmente havia quebrado o gelo. Aquela criança era muito melhor do que eu, um idiota que simplesmente apareceu e não conseguiu dizer uma palavra.
Abri a boca, umedecendo meus lábios secos com a língua, mas nenhuma resposta saiu imediatamente. Eu não sabia o que dizer.
Eu não sou amigo do Joo Haewon. Mas se eu disser que não sou, então o que vem depois? O que devo dizer para me apresentar à criança? Devo dizer que moro com o papai e sou a pessoa que te deu à luz?
Tudo parece fácil de responder se você pensar simplificadamente. Basta dizer a verdade. No entanto, o problema se torna complicado quando a situação não é simples. A verdade nem sempre é a resposta para todas as perguntas. Às vezes, o silêncio ou a mentira podem ser a melhor opção. E esse parecia ser o caso agora.
— Eu sou… — espremi minha voz sob o olhar impaciente de uma criança esperando por uma resposta. Mal consegui balbuciar as palavras. Apertei os lábios algumas vezes e, de repente, percebi o quão patético eu era e dei uma risadinha. A criança balançou a cabeça diante da minha risada autodepreciativa. — … Sim.
Como se minha hesitação e preocupação não tivessem importância, eu respondi levemente com uma afirmação. No final, eu escolhi a segurança de uma mentira. Afinal, a criança tinha apenas quatro anos. Eu não tinha ideia de como me explicar para ela e, nem mesmo, para mim mesmo. O maior problema era o medo. Eu estava com muito medo de como a criança reagiria quando descobrisse a verdade e isso me assustava muito.
Desde o início, eu não esperava que a criança ficasse feliz só por me encontrar. Na verdade, havia uma grande possibilidade de que ela se sentisse mais desconfortável e confusa, como me sinto agora.
Mesmo depois de finalmente encontrar o menino, eu não senti emoção ou alegria, apenas um sentimento incongruente. Além disso, não me parece que a existência de uma mãe ômega masculino como eu tenha um impacto positivo na criança. É melhor assim.
…… Não.
São todas desculpas. O que estou fazendo agora nada mais é do que procrastinação. Não porque esteja preocupado com o trauma do meu filho, mas porque quero me desviar dos sentimentos difíceis que estou sentindo agora.
— Entendo…
A criança assentiu com a cabeça. Sua expressão relaxada era uma evidência de que a vigilância em relação a mim estava diminuindo. Parecia que a criança estava me aceitando como um amigo do seu papai sem qualquer suspeita. Afinal, será que uma criança daquela idade poderia suspeitar de algo assim?
Então, a criança começou a examinar cuidadosamente meu rosto. Embora sua desconfiança tenha diminuído, sua curiosidade parecia ter aumentado. Entre os olhos alongados que eram tão parecidos com os do Joo Haewon, suas pupilas negras vasculhavam minhas características faciais com curiosidade. O interesse que a criança mostrava por mim era ingênuo, inofensivo, e por isso não me senti desconfortável.
— É interessante…
Algum tempo depois, a criança soltou um comentário, o que me fez rir novamente. Afinal, suas impressões eram exatamente as mesmas que as minhas.
— Eu sou interessante?
Ele assentiu com a cabeça, seus lábios se alongaram.
— Por quê?
Com alguma expectativa, fiz a pergunta. Talvez a criança também tenha me visto em si mesma, assim como eu vi Haewon nele.
O menino pareceu pensar por um momento e, em seguida, respondeu timidamente, brincando com os dedos.
— Porque você é amigo do papai.
Não era a resposta que eu esperava, mas não fiquei desapontado, apenas intrigado.
… Eu estava apenas surpreso.
— Entendo… na verdade, eu também acho você interessante.
Minha resposta fez com que os olhos da criança se arregalassem. Com o rosto tão parecido com o do papai, ela fez uma expressão que eu nunca havia visto nele antes. Era como se ele estivesse perguntando por que eu o achava interessante. Olhei fixamente para ele, perdido nos meus próprios pensamentos, e falei.
— Porque você se parece muito com o papai. É por isso que é interessante.
— Soohyun, pareço muito com o papai?
— Sim.
— Certo…
A criança balançou suas pernas curtas no ar. Suas bochechas coradas incharam como balões. Ele tentou não demonstrar isso, mas estava satisfeito, como se tivesse sido elogiado. Eu podia sentir a afeição dele pelo pai.
— Gosta de ser igual ao papai?
— Sim.
A criança respondeu timidamente, corando.
— Soohyun gosta muito do papai.
— Não muito…
Dessa vez, ela balançou a cabeça rapidamente. Ela gostava de ser parecida com o papai, mas isso não significava que o amasse tanto assim. A interpretação dessa resposta era complicada como ler um enigma.
— Você não gosta do papai?
A criança balançou a cabeça novamente.
— Então?
— Eu gosto um pouco.
Ela explicou enquanto levantava as duas mãos e as apertava, como se estivesse segurando uma bola de futebol.
— Apenas um pouco.
Então, o que a criança quis dizer é que ela gosta do homem, mas não muito. É como se ela tivesse um afeto do tamanho de uma bola de futebol… Fiquei confuso sobre se esse tamanho era pequeno demais, apropriado ou maior do que eu imaginava.
Mas, mais do que isso, fiquei genuinamente curioso para saber como esse tamanho ambíguo foi determinado.
— Uhhh… entendo… mas por que você só gosta dele assim?
Perguntei cuidadosamente e a criança desviou o olhar para a cozinha, provavelmente checando se a senhora estava ouvindo. Tentei tranquilizá-la com um tom suave.
— Está tudo bem. Pode falar.
— … Se eu falar algo ruim, vou levar uma bronca.
Isso me deixou ainda mais curioso. O que uma criança de quatro anos poderia dizer de ruim?
Seguindo seu olhar em direção à cozinha, eu me inclinei. Então, num sussurro, disse:
— Eu não vou contar a ninguém.
Senti como se estivesse me tornando um vilão enganando uma criança inocente.
O garoto, seduzido por esse disfarce de vilão, hesitou por um longo tempo, mas depois, com os lábios trêmulos, disse:
— O papai…
— Sim?
— … Ele não é legal.
Foi além das minhas expectativas. Eu não podia acreditar que aquilo estava saindo daquela boca pequena.
— …….
Fiquei paralisado, com a boca aberta.
Isso era tão difícil. O que eu deveria fazer? Devo repreendê-la por dizer isso? Ou devo perguntar o que seu pai fez para que você dissesse isso?
Eu estava nervoso para dizer qualquer coisa e, ao ver minha expressão, ele fez beicinho e balançou a cabeça. Seus pequenos ombros caíram de vergonha, e eu senti pena dele e quis confortá-lo.
— … É verdade. — eu queria mostrar empatia. — Seu pai não é legal.
Bem, se for para ser meticuloso, não é uma afirmação incorreta. Joo Haewon é, de fato, uma pessoa desagradável.
— Então o Soohyun sabe.
Minha resposta fez a criança sacudir a cabeça, seus olhos arregalados como se estivessem perguntando por que eu não estava repreendendo-a. Por trás da expressão, havia ansiedade e preocupação. Eu queria apagar tudo isso e, com um olhar sério, elogiei o menino.
— Você sabe falar coisas assim também. Soohyun é muito inteligente.
Então…
— Hee…
A criança riu. Foi uma risada tão bonita que me contagiou, fazendo com que eu começasse a rir também.
E, assim, rimos juntos.
Quando o sol estava se pondo do lado de fora da janela, saí do apartamento com a criança acenando para que eu voltasse.
Logo após pagar o táxi e sair do carro, me arrependi. Deveria tê-lo pedido para me deixar na frente de casa. Eu sempre desço em frente à estação de trem para andar um pouco, em vez de fazer exercício, mas hoje não era o dia para isso.
Puxei o capuz para cima e enfiei as mãos nos bolsos. Com os ombros caídos, comecei a caminhar em direção à casa.
A cada passo, a sacola pendurada no meu pulso balançava e batia nas minhas coxas. Dentro da sacola, havia um livro de histórias. Foi o presente que Soohyun tinha me dado, talvez para comemorar nossa amizade. Disse ser o livro que ele mais gosta. É generoso para um presente recebido no primeiro encontro.
Sim. Eu me tornei amigo da criança. Era isso que ela queria. Ele insistiu que deveríamos ser amigos, então o que mais eu poderia fazer? Eu concordei. No entanto, parecia que não era exatamente por uma intenção pura e, sim, uma estratégia para evitar que eu dissesse alguma coisa ao pai dela. Portanto, eu pude entender que o livro de histórias que ele me deu era uma espécie de suborno para me calar.
Depois de conseguir me tornar seu amigo, ele começou a demonstrar seu afeto por mim. Compartilhou os lanches que a babá preparou e me convidou para entrar em sua sala de jogos.
As informações da minha mãe sobre a falta de interesse da criança por brinquedos não eram verdadeiras. O menino me levou para seu quarto de brinquedos, batendo no chão, pedindo para brincarmos juntos e, em seguida, abriu uma caixa de argila, dizendo que faria comida para mim. Depois disso, suas pequenas mãos não pararam de trabalhar. A criança tirava a argila, amassava, jogava no chão, então enrolava de novo… e eu observei de longe enquanto ela se ocupava com suas criações.
O que ele amassava com muito cuidado era massa com todos os tipos de cores. Joo Haewon também já fez o mesmo. No dia em que o conheci, ele também preparou uma massa para mim. A semelhança não se limitava à aparência, e isso me causou um arrepio. Ele realmente não podia esconder de quem era filho…
Não consigo parar de sorrir quando penso no tempo que passei com ele.
Não houve qualquer problema. Está tudo bem.
Sim, foi um bom começo.
Mesmo que eu não tenha conseguido dizer a ele quem eu era ou mesmo abraçá-lo uma vez……. pelo menos passamos de completos estranhos a amigos. Bem, isso é um grande progresso, certo?
— Amigos… Isso é ótimo.
°
°
Continua…
Tradução: Rize
Revisão: MiMi