Capítulo 14
Estou sentado em um teatro.
O filme que está sendo exibido é sobre minhas memórias.
Uma infância que começou com a ausência da minha mãe. Uma adolescência que terminou com o suicídio do meu pai.
Minhas lembranças entre essas duas fases estava repleta de desprezo, repulsa e rejeição por parte dos outros.
Quando meu pai estava bêbado, ele costumava me dizer coisas como essas:
‘Por que você nasceu assim? Você nasceu com uma vida tão barata que merece ser ignorada.’
Ele me culpava por minha condição deplorável de não ter amigos de verdade e ser submetido a todo tipo de violência. Ele disse que a culpa era minha por ter nascido um ômega masculino e que era assim que as coisas deveriam ser.
‘Você não é uma mulher! O que um ômega masculino pode fazer no mundo hoje em dia? Encontrar uma boa garota, conseguir um bom emprego e ganhar muito dinheiro? Tudo o que eles podem fazer é abrir as pernas para outro cara e dar à luz. Você não consegue nem desempenhar o papel de um homem direito. A vida de um ômega masculino é ser usado como substituto de mulher.’
Sempre que ele dizia isso, eu fingia que não o estava ouvindo… até que um dia, eu revidei com uma careta.
‘Foi meu pai quem me deu essa vida de merda.’
Foi o dia em que percebi que ele havia estourado os meus fundos para a faculdade.
Na verdade, eu estava farto do meu pai. Ele vivia uma vida imersa no mundo dos investimentos, perseguindo a vã esperança de ficar rico quando ele nem mesmo tinha capacidade para isso. Não há como gostar da vida de um perdedor que não tem talento para ganhar dinheiro, mas que dá seus bens como garantia a todos os tipos de pessoas e aposta em jogos de azar.
Eu odiava o cheiro de álcool e cigarro em seu corpo e odiava suas lamentações, que eram sempre as mesmas.
A realidade é que as pessoas com dinheiro, mesmo os ômegas, vivem bem. Quando pensava nisso, minha vida difícil também se deveu ao meu pai, que não tinha condições de me criar, mas não teve escolha a não ser me ter e me criar como um mendigo.
Eu sabia que alguém estava depositando dinheiro em sua conta bancária ocasionalmente. À primeira vista, os números eram significativos, mas alguém havia roubado tudo. E esse alguém era o meu pai.
Eu não tinha noção de nada e achava que a única maneira de sair do fundo do poço era estudar, então estudei. Fiz o máximo que pude. Dizem que o trabalho árduo nunca nos trai, e eles estavam certos. Todas as universidades para as quais me inscrevi reconheceram meu trabalho árduo. Fui aceito. Aquelas duas cartas me fizeram sentir como se eu pudesse respirar pela primeira vez na vida, mas meu pai estragou tudo. Minhas acusações eram justificadas.
Muitas vezes ele cantarolava uma música sobre morrermos juntos, então, naturalmente, presumi que um dia ele acenderia um briquete em meu quarto de solteiro enquanto eu dormia. Eu estava errado. No dia seguinte às minhas acusações, ele se enforcou, como se estivesse se vingando. Ele simplesmente foi embora sozinho.
Talvez por isso eu não tenha sentido nada quando vi seu cadáver feio. Não, eu não estava bem com isso. Eu estava enojado, então decidi que se eu fosse morrer, não morreria daquele jeito.
Curiosamente, depois que meu pai se foi, descobri que tinha uma mãe e depois um tio.
Sim, meu tio…
O homem indiferente, às vezes carinhoso, que me deu a ilusão de que eu era amado por ele. Esse era meu tio. Como eu era tolo… enquanto pensava ser amado por ele, eu fui extremamente feliz.
Na escola, meu apelido entre os colegas era’ o cadáver’. Não um zumbi, apenas um cadáver com olhos abertos. Eu não tinha expressão, nem som, nem vida. Quando me chamavam assim, eu também sentia que parecia um cadáver.
Mas não quando estava com ele… quando eu estava com ele, eu não era um cadáver que não sentia nada. Eu comia bem, dormia bem, ria muito, conversava e estava mais vivo do que nunca. A atenção que ele me dava era alimento para a minha felicidade.
Não tinha como eu não gostar dele. Não era só porque ele era um alfa. Era porque ele não me considerava um ser sem valor. Ele me disse que eu era lindo, que podia fazer qualquer coisa, e disse isso de uma forma que me fez chorar. Eu estava intoxicado por essa afeição e carinho recém-descobertos.
Mas foi apenas uma felicidade momentânea.
Eu achava que ele me amava. Pensei que ele me desejava.
Mas veja o que aconteceu no final: ele escolheu outra pessoa.
Disse que não era um casamento por amor, mas eu não entendia por que ele faria isso. E ele não me fez entender. Ele apenas me forçou a aceitar, sem desculpas plausíveis.
O método que escolhi para me convencer de sua escolha foi a autodepreciação: O problema é que eu sou seu sobrinho. Que sou um ômega que não pode ter filhos, e que era por isso que ele havia me abandonado…
No fim das contas, meu pai estava certo. Minha situação de merda sempre foi minha culpa, e pensar nisso fazia sentido.
Mesmo que eu não conseguisse aceitar isso.
A sequência de lembranças finalmente me atingiu naquele dia.
21 de setembro, o dia de seu noivado.
Enchi a banheira de água, entrei nela e liguei para ele. Quando ele atendeu ao telefone, eu ri, o amaldiçoei, e então, enquanto desejava que ele fosse infeliz, cortei meus pulsos.
A lâmina cortou minha pele. Apesar da dor, eu sorri. Ri porque me senti muito bem ao imaginá-lo encontrando meu cadáver e se arrependendo das suas escolhas.
Na verdade, eu sempre imaginava minha própria morte desde muito tempo atrás. Para mim, a morte não era uma imagem pessimista. Eu a via como uma maneira de ter um longo descanso. Mas ainda assim, a razão pela qual eu estava vivendo era, simplesmente, porque não tinha coragem de tentar o suicídio. Então, secretamente, eu invejava meu pai por ter se enforcado.
Meu medo era a solidão. A solidão que vem com o fato de não ter ninguém ao seu lado no mundo. É como um laço que se aperta apenas o suficiente para evitar que você morra e, por isso, sempre senti que estava sendo estrangulado. Até que eu o conheci.
Ele me tirou de um período infernal de solidão. Ou pelo menos eu achava isso. Pensei que havia finalmente encontrado um santuário para repousar……. Mas não. A solidão não fora embora, estava apenas presa dentro do meu peito. Ela sempre esteve presente e, quando ele me abandonou, ela me engoliu novamente.
Me Senti como se tivesse sido mandado de volta ao inferno. Gostaria de não ter conhecido o que era a felicidade. Agora que eu sabia, odiava aquele inferno ainda mais.
Então, cortei meus pulsos. Para ficar tão confortável quanto meu pai e fazer com que ele se arrependesse. Eu ria, cortava, esfaqueava e fechava os olhos. Essa era minha situação: uma vida em que você sempre tem uma arma apontada para você, mas nunca consegue puxar o gatilho. Bastava uma dose de coragem para disparar. E ele forneceu a motivação para que essa coragem se manifestasse.
Mas, no final das contas, minha tentativa acabou fracassando.
Eu estava vivo.
Vivendo novamente.
Dizem que morrer é tão difícil quanto viver. E, realmente, não foi fácil.
Mas foi só isso. Eu estava praticamente morto antes de cortar meus pulsos. Meu corpo estava vivo e respirando, mas minha mente estava morta, então meus olhos estavam abertos, mas eu não via nada. Meus ouvidos estavam bons, mas eu não ouvia nada. Eu não tinha forças para continuar com meu ressentimento nem energia para lamentar, então simplesmente me afastei de tudo.
As consequências dessa cegueira para a realidade foram devastadoras.
Meu filho foi tirado de mim, meu corpo foi destruído e fui internado em um hospital psiquiátrico.
Uma criança que eu não sabia que tinha foi subitamente retirada de meu ventre e eu não sabia que ela havia sido roubada de mim. Eu não sabia que estava preso.
Passei muito tempo como um cadáver, com meus olhos abertos.
Até que um dia, de repente, despertei sem razão aparente.
Quando tomei consciência de toda a realidade que se abateu sobre mim, gritei como um louco, contorcendo-me em uma dor insuportável. Sem ferramentas para perfurar meus pulsos, eu me estrangulei e o médico amarrou meus membros e me sedou. Minha mente caiu de volta ao reino da inconsciência.
Enquanto eu estava deitado em um estupor drogado, a imagem dele passou diante de meus olhos. Eu me perguntava.
Será que ele se arrependeu?
Será que ele ficou infeliz por eu ter ido embora?
Eu esperava que sim, mas não tinha certeza, e isso me deixou ainda mais louco.
Assim que recuperei o juízo, implorei ao médico que me deixasse sair. Eu queria vê-lo, queria saber se ele sentia minha falta, se estava arrependido. Mas o médico balançou a cabeça. Implorei para que ele me deixasse fazer uma ligação telefônica, mas nem isso funcionou.
Tive mais alguns lampejos de consciência da minha situação e, sempre que possível, eu tentava me matar. Eles ficavam apavorados e me forçavam a dormir com a ajuda drogas e, depois, eu acordava atordoado, como se nada tivesse acontecido.
Aos poucos, fui me dando conta.
Ah… estou preso aqui e nem mesmo morrer está mais sob meu controle.
Não posso mais vê-lo.
… Mesmo que eu o chame.
Eu deveria ter ficado acordado até o fim. Eu deveria ter continuado a respirar como um cadáver acordado e me tornado um cadáver de verdade.
Quando acordei, a solidão que eu tanto temia abriu sua boca escancarada e me engoliu por inteiro. A solidão venenosa acendeu meu desejo e ódio por ele.
Alguns dias eu o culpava pelo que eu havia me tornado. Em outros dias, eu chorava por ele e era atormentado pela percepção de que não podia vê-lo mais. Os sentimentos intensos, que não eram aliviados em nada pelo meu comportamento autodestrutivo, tornaram-se um peso insuportável que me sobrecarregou com o tempo.
Eu odiava me sentir vivo. Meu coração estava vazio, rachado, e minha mente era dura como pedra. Eu queria fugir desse espaço branco que me cercava e de minha longa e difícil batalha contra a solidão. Mas ninguém me deixava fugir. Ninguém me ajudaria. No final, só restava o fato de que eu estava sozinho e esse fato me destruiu.
Precisava de um lugar para me esconder. A partir de então, criei um mundo de fantasia e, sempre que me sentia sufocado, escapava para ele. Era uma fuga confortável. Não havia nada lá. Não havia ele, nem criança, nem mãe, nem pai.
A mentira despreocupada crescia sem parar. Assim como a solidão me corroía, a mentira corroía minha realidade e logo eu havia sido totalmente absorvido por ela.
Com o passar do tempo, os devaneios tomaram uma forma mais detalhada.
Antes que eu percebesse, eu era um órfão pobre e benevolente que havia sido sequestrado quando criança e criado como gado. Eu não conhecia uma única pessoa no mundo e não tinha memória. Minha vida terminaria um dia no incinerador atrás das instalações. Mas um dia, a vida do pobre coitado mudou de repente.
Pela primeira vez em minha vida, saí da instalação, entrei em um carro e fui levado até uma estranha mansão, onde conheci um homem.
A aparência sobrenatural do homem, banhada em luz, evocava um inexplicável sentimento de rejeição. Tolo o suficiente para não perceber a identidade do homem, perguntei-lhe com cautela.
‘Quem é você?’
O homem respondeu à minha pergunta com outra pergunta.
‘Quem você acha que eu sou?’
No filme, eu nunca reconheci o homem. Mas agora, com todas as minhas lembranças de volta, sei quem ele é.
Sussurrei para mim mesmo.
— Joo Hae-won…
Ele perguntou novamente. O homem em minha memória, incapaz de ouvir minha voz na realidade.
‘Que tipo de pessoa você pensa que eu sou?’
Eu murmurei para mim mesmo.
A pessoa que eu amava.
Que havia me machucado.
O homem que me fez viver em uma fantasia.
°
°
Continua…
Tradução: Rize
Revisão: MiMi