Capítulo 15
Abri meus olhos.
Cores familiares encheram minha visão, oscilantes como ondas lentas. Por um momento, fiquei confuso sobre onde estava, mais precisamente, se estava no passado ou no presente.
O efeito prolongado das drogas e do sono pesava muito em minha cabeça. Como uma lâmpada prestes a falhar, minha consciência se acendia e se apagava lentamente.
Mesmo após abrir os olhos, demorou um tempo considerável para que eu recuperasse totalmente a consciência. E embora eu recuperasse algo de consciência, meu corpo não mostrou sinais de recuperação. Eu não conseguia nem mesmo mover as pontas dos dedos. Era como se meu corpo estivesse ignorando os comandos do meu cérebro, como se tivesse perdido a capacidade de se mover.
Depois que minha visão voltou, foi a vez do meu olfato. Toda vez que eu respirava, sentia o cheiro de algo que se espera encontrar em um hospital.
Depois do olfato, veio a audição. Eu podia ouvir fracamente vozes baixas falando ao longe.
Quando a maioria dos meus sentidos foi restaurada, com exceção da potência motora, minha consciência finalmente ficou completamente limpa. Depois de um tempo, percebi que havia saído do longo túnel da inconsciência e alcançado a realidade.
— Ah…
Forcei minha garganta, e uma voz ofegante saiu dela.
Naquele momento, senti algo se mover não muito longe.
Lentamente, muito lentamente, virei minha cabeça.
A primeira coisa que vi foi uma luz brilhante entrando em minhas pupilas e uma silhueta tênue se movendo em meio a luz. Pisquei algumas vezes e, em seguida, a luz e a silhueta se separaram completamente.
Havia uma janela inundada de luz e alguém em pé na frente dela, olhando para mim.
Era um rosto familiar, como se eu o tivesse visto ontem, embora tenha passado muito tempo. Eu já sabia exatamente quem era aquele homem.
Meu coração se agitou em meu peito ao vê-lo. Controlei minha agitação, esperando que ele não ouvisse meus batimentos cardíacos.
— …….
Fechei a boca para não chamar seu nome sem pensar.
Não tinha certeza como deveria chamá-lo.
Presidente.
Tio.
Sr. Joo Hae-won.
Há muitas maneiras de chamá-lo. Entretanto, cada uma delas tinha seu próprio significado.
Enquanto eu estava inconsciente, tive um sonho. Não, seria mais correto dizer que assisti às minhas lembranças. Tornei-me um membro da plateia em um teatro, assistindo a todas as verdades das minhas lembranças, às vezes rindo, às vezes chorando.
As falsas ilusões em que acreditei por tanto tempo viraram fumaça e o que veio à tona foi a verdade que eu vinha evitando.
Sim, agora eu me lembro de tudo.
O início, o fim e todas as circunstâncias e emoções intermediárias.
Ele se aproximou de mim, que estava incapaz de se mover, e me encarou atentamente, como se estivesse tentando determinar se eu havia recuperado o juízo.
Ele chamou meu nome, como se não pudesse ter certeza só de olhar para mim.
— Lee Soo-ha?
Sua voz também era assim. Estranha, como se eu nunca a tivesse ouvido antes, mas também familiar, como se eu a tivesse ouvido ontem…
— Lee Soo-ha.
Pensei comigo mesmo, diante da voz desesperada que parecia esperar por uma resposta.
O que eu deveria dizer? O que eu deveria fazer? O que eu deveria perguntar?
Todos os tipos de perguntas passaram por minha mente. Estava confuso, sem saber o que priorizar e o que perguntar primeiro.
No fim, eu só pude dizer o seguinte.
— Senti sua falta… Joo Hae-won.
Na verdade, sempre foi assim: mesmo quando amei esse homem, quando odeio esse homem ou quando entrava em desespero… eu sempre senti falta do homem chamado Joo Hae-won, ao ponto de que não pude suportar e fugi para minhas ilusões.
Sua expressão se turvou diante da minha confissão seca. Eu nunca tinha visto isso antes. Soltando um longo suspiro, ele se ajoelhou. Agarrou minha mão e enterrou o rosto nela, parecendo um operário que mal havia recuperado o conforto depois de um dia duro de trabalho, como um pecador penitente.
Olhei fixamente para o pulso que ele segurava. Então, percebi as cicatrizes escondidas em bandagens brancas, para ser mais preciso, as marcas de evasão, o preço do ódio e da desconfiança.
Eu sabia a verdade. A mutilação não é uma solução para o conflito, e a ilusão não pode produzir tranquilidade. O que você realmente precisa é de reconciliação com ele. Eu sabia. Só fingi que não sabia.
Eu queria machucá-lo.
Queria mostrar a ele como minhas feridas eram grandes e profundas.
E não posso negar que ainda me sinto assim. Então, engoli de volta todas as minhas perguntas. Fechei minha boca novamente.
Havia tantas coisas que eu queria perguntar, tantas coisas que eu queria ouvir, mas eu sabia que precisava de mais tempo. Mesmo que minha memória tivesse se recuperado totalmente, minha mente não tinha acompanhado o ritmo.
O ódio que eu sentia por ele ainda estava muito presente. Um ódio tão antigo que havia se endurecido como uma cicatriz.
Era um dia cheio de luz, exatamente como na primeira vez em que o vi, e como quando o reencontrei.
Eu havia finalmente retornado à realidade e saído do rio do esquecimento e da ilusão. Já ele havia chegado ao fim de sua longa e paciente espera, e assim estávamos realmente reunidos.
Mas isso é apenas um pequeno passo. A estrada que vem pela frente, para ele e para mim, é um labirinto sinuoso interminável e eu não sei o que há no final dela. Só espero que seja a reconciliação.
Quero acreditar que chegaremos lá, embora eu não saiba quanto tempo levará.
E que eu acabe encontrando a verdadeira paz em uma realidade sem mentiras……..
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{FIM.}
Tradução: Rize
Revisão: MiMi
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Continua no extra….