Capítulo 13
No dia seguinte, Joo Hae-young visitou o hospital.
Depois de entrar discretamente e dar uma olhada em Lee Soo-ha inconsciente, a primeira coisa que Joo Hae-young fez foi transmitir a situação.
Era apenas uma questão de tempo até que o Senador Chung, que estava furioso com a minha falta de educação ao faltar à cerimônia de noivado, unilateralmente e sem me pronunciar, dar um passo à frente e anunciar o rompimento.
O rompimento foi uma história escandalosa para se mastigar e, embora tenham feito o possível para evitar que ela fosse publicada para proteger a imagem do grupo, era difícil impedir o boca a boca. O boca a boca era uma mistura de verdade e mentira que seria consumida como fofoca.
Entretanto, se era possível prever, era possível se preparar. Em poucos dias, um cenário interessante surgiria de ambos os lados. Embora superficialmente nos apontasse como os perpetradores — sexo, drogas, histórico de infidelidade feminina, etc. —, era altamente provável que as falhas da mulher também fossem expostas e a culpa fosse habilmente elaborada para ser colocada em ambos os lados. Quanto mais emocionante for o cenário, melhor, pois o objetivo é enganar o público. A realidade era que, desde que uma pista pudesse ser anexada ao fato de que se originava de uma empresa de valores mobiliários, ela seria solidificada como fato.
De qualquer forma, a separação e seus riscos seriam resolvidos pelo meu pai e isso realmente não me importava. Parecia um bom resultado.
— Meu pai, é claro, ficou furioso, depois de toda a humilhação que sofreu.
— Tenho certeza de que sim.
Fiquei imaginando se dessa vez ele me bateria com um taco de golfe. Se acabasse ali, eu estaria disposto a levar uma surra, mas era improvável.
— Ele disse que ia pegar Lee Soo-ha e daria uma surra nele na sua frente, mas depois mudou de ideia quando descobriu o que tinha acontecido. Ele é um cara legal, de verdade.
— Ele não teria como me chantagear se fizesse algo com Lee Soo-ha.
Para meu pai, Lee Soo-ha era o refém que ele precisava segurar para me sacudir por não estar o ouvindo. Sem ele, ele se sentiria melhor, mas não teria como me controlar.
— Agora você entende? É isso que acontece quando você insiste em fazer algo que não deveria. O que eu lhe disse? Você está cometendo um erro. Achou que estava fazendo o melhor, não é? Mas não. Você o deixou assim.
— Isso faz você se sentir superior?
— Estou lhe dizendo para se controlar.
— Vá se danar. Não estou a fim de ouvir um sermão agora.
— Quando ele acordar, eu o levarei para fora do país, fora do alcance do nosso pai, e cuidarei disso. Você pode esquecer ele e seguir com sua vida. E deixar aquela merda de emprego pra lá.
— Vá a merda.
— Joo Hae-won, ouça sua irmã. Vamos fazer isso.
Ela olhava para mim como se estivesse olhando para algo lamentável. Era como se estivesse debochando. Então eu disse em um tom normal.
— Ele está esperando o meu bebê.
Por um momento, a expressão desapareceu do rosto de Joo Hae-young.
— O quê?
Tinha certeza de que ela ouviu, então não repeti. Apenas balancei a cabeça levemente.
— … Está mentindo, não é?
— Claro que não.
As pupilas de Joo Hae-young se dilatara. Um suspiro escapou de sua boca aberta. Joo Hae-young cambaleou, esfregando a testa como se estivesse se sentindo tonta com o absurdo da notícia.
— Oh meu Deus…
Em pânico, Joo Hae-young ficou sem palavras por um tempo. Era óbvio o que ela diria quando voltasse a si. Então eu a cortei antes mesmo das palavras fluírem.
— Não pretendo abordá-lo, então não fale sobre a cirurgia.
Se Lee Soo-ha não quiser dar à luz, eu não a forçarei. Eu não tinha nenhuma intenção ou desejo de forçá-lo a dar à luz ou mesmo abortar.
Joo Hae-young ficou atônita com minhas palavras e depois pareceu desesperada.
— O que você está dizendo? Que diabos você vai fazer…
Joo Hae-young envolveu o rosto com as mãos e gritou.
— Isso não pode ser… isso não pode estar acontecendo! Meu pai vai… Nosso pai não vai deixar isso acontecer.
Uma criança nascida de Lee Soo-ha seria nada mais que um escândalo para o meu pai, independentemente de suas características. A própria existência de Lee Soo-ha já era um escândalo para meu pai. Era improvável que um homem de sua estatura, que nem mesmo reconhecia os filho de sua filha fora do casamento, aceitasse um neto do ventre do mesmo. Tudo o que o velho queria era uma prole alfa sem qualquer falha.
Mas isso não importava.
— Não. É melhor você deixá-lo em paz.
— Hae-won…
— Estou completamente fora de mim no momento. Se acontecer mais alguma coisa com ele, não sei o que farei.
É totalmente decisão de Lee Soo-ha abortar ou salvar a criança. Se ele quiser se livrar, eu o ajudarei. Mas se ele quiser que essa criança viva, será isso que vai acontecer.
Por enquanto, eu só queria fazer sua vontade.
* * *
Foi somente depois de uma semana de tratamento que Lee Soo-ha recuperou a consciência. Seus olhos estavam abertos, mas ele estava longe de estar normal.
Ele era como um cadáver que apenas respirava. Comportava-se como se não tivessem falado com ele ou não tivesse ouvido. Embora fizéssemos contato visual, ele agia como se não tivesse me vendo e, mesmo quando estava acordado, parecia vagar em pensamentos com os olhos abertos.
A primeira suspeita de Choi era de que ele havia sofrido uma lesão cerebral devido à perda excessiva de sangue, mas, ao contrário de seus temores, o exame revelou um cérebro limpo. A suspeita, então, era de que o problema fosse psicológico.
Choi disse ser necessário estudar os pensamentos e emoções de Lee Soo-ha. Ele recomendou que um psiquiatra qualificado realizasse o acompanhamento. Choi havia estudado psicanálise e era hábil em psicoterapia, mas, antes de tudo, era um médico interno. Um novo psiquiatra foi contratado, conforme a prescrição de Choi, e ele decidiu que a opinião de um psiquiatra era necessária para examinar mais de perto o cérebro de Lee Soo-ha. Após examinar Lee Soo-ha de perto, o diagnóstico do médico não foi diferente de nossas suspeitas.
Transtorno depressivo.
Pensamentos recorrentes suicidas. Planos e tentativas específicas de suicídio. Hipersonia extrema e pouca energia. Perda de apetite e até de peso. Esses eram sintomas típicos de depressão. Sua falta de resposta a mim e a falta de vontade de dialogar eram, na opinião do médico, deficiências cognitivas temporárias causadas por estresse excessivo.
Uma combinação de aconselhamento com um especialista e medicação era a melhor maneira de melhorar sua depressão, mas o problema era que ele não estava disposto a conversar. Naquele momento, a medicação era a única opção. No entanto, precisávamos ter cuidado porque ele estava grávido.
O feto já estava com 12 semanas de gestação. Como Choi já havia dito, ele poderia sofrer um aborto espontâneo. O obstetra especialista também indicava que a probabilidade de um aborto era muito alta. Ainda assim, era apenas uma possibilidade.
Quando o médico apontou o formato do feto no ultrassom e explicou a ele, Lee Soo-ha permaneceu indiferente. Ele nem mesmo parecia perceber que estava esperando um bebê.
Após verificar sua condição, ele foi para a terapia intensiva. Recebeu antidepressivos a base de SSRI que não prejudicaram o feto, injeções de hormônio e injeções de prevenção contra o aborto sob controle rigoroso. Durante todo esse tempo, Choi o observava com frequência.
— Lee Soo-ha, você já considerou ter filhos?
Das muitas vezes que lhe perguntaram, ele só respondeu uma vez.
Foi um pequeno aceno de cabeça.
Foi o suficiente.
* * *
O efeito do tratamento foi lento.
Demorou duas semanas para que Lee Soo-ha conseguisse se alimentar adequadamente.
E…
— Lee Soo-ha.
— …….
Eu falava com a Lee Soo-ha todos os dias.
Mas ele permanecia em silêncio e distante.
Era como se ele não tivesse interesse ou afeição por mim, como se tudo tivesse se esgotado.
Sempre havia um muro invisível ao redor dele. O interior desse muro parecia um mundo separado da realidade. Um mundo no qual ninguém tinha permissão para entrar.
Então eu esperava.
Esperava para que ele me ouvisse, que me olhasse e falasse comigo… que me desse uma chance de pedir desculpas.
Pensei que isso era o melhor que eu poderia fazer.
* * *
Havia um frio no ar.
Era um dia de novembro, quando os longos e persistentes dias de verão haviam desaparecido completamente e o curto outono estava chegando ao fim.
Lee Soo-ha desapareceu.
Sem deixar rastros.
Seu quarto era um dos dois únicos quartos especiais do hospital chamados de Ala 61 e havia apenas um motivo para usá-lo. Segurança. Os guardas de segurança posicionados na entrada da ala verificavam rigorosamente as identidades dos visitantes para controlar o acesso e as câmeras de vigilância cobriam os corredores e os quartos 24 horas por dia, sem pontos cegos.
Além dos médicos e enfermeiros, eu era a única pessoa autorizada a entrar no quarto de Lee Soo-ha. Joo Hae-young entrava e saía ocasionalmente, mas, mais uma vez, ela não podia entrar a menos que eu lhe desse permissão.
Depois que descobriu que Lee Soo-ha estava grávido, Joo Hae-young ficou estranhamente quieta. Ela não me incentivou a mandá-lo para o exterior nem tentou me forçar a abortar o bebê. Como se estivesse curiosa, ela visitou o Dr Choi. Disse a ele que Lee Soo-ha era seu filho e perguntou sobre a condição do feto, mas foi só isso.
O Dr Choi, que conhecia Lee Soo-ha apenas como meu amante, ficou muito surpreso com a revelação de Joo Hae-young. Não é de se admirar. Ele nunca teria adivinhado que o garoto era meu sobrinho.
Ele não acrescentou nenhum sentimento desnecessário sobre meu relacionamento com Lee Soo-ha, mesmo sabendo que nossa situação estava fora do senso comum do mundo. Ele simplesmente manteve sua boca fechada. Não era o tipo de pessoa que falava demais, independentemente de sua ética profissional. Conhecendo ele, Joo Hae-young falou sem se importar muito.
Lee Soo-ha também não reagiu à sua mãe.
Ele não a ouvia e também não me ouvia. Nós não falávamos um com o outro. Nós dois estávamos em uma situação em que não ouvíamos nenhuma pressão ou ameaça um do outro, então, não senti necessidade de afastar Joo Hae-young. Eu não tinha outra opção a não ser desistir. Achei que o motivo da quietude de Joo Hae-young era porque ela estava cansada.
Então, baixei minha guarda.
Assim que notei a ausência de Lee Soo-ha, meu sangue voltou a correr.
A enfermeira e o segurança que o haviam levado para passear tinham desaparecido. Demorou um dia inteiro para encontrá-los. Demorou menos da metade do dia para que um grupo de gangsters com habilidades especiais para interrogar pessoas, os fizesse falar. A enfermeira foi a primeira a falar, se mijando de medo. O nome que saiu de sua boca foi Joo Hae-young.
Era óbvio. Só havia duas pessoas que poderiam ter feito isso: meu pai ou Joo Hae-young. Eu só precisava de uma confirmação.
Fui direto a casa de Joo Hae-young, que me cumprimentou com uma cara séria. Era como se ela já tivesse previsto minha chegada. Sua atitude indiferente alimentou minha raiva.
— O que pensa que está fazendo?
— O que você quer dizer com isso?
Sorri friamente e, de repente, agarrei com uma mão a nuca de Joo Hae-young.
— Você acha que pode fingir ignorância assim que vou apenas acreditar e seguir em frente?
— Não faço ideia do que você está falando.
— Olhe para você, uma idiota. Está me fazendo perder completamente a razão. Se está se perguntando o que um louco pode fazer, é melhor pensar de novo.
De repente, o rosto de Joo Hae-young ficou tenso.
Apertei minha mão em sua nuca e a questionei novamente.
— Onde está Lee Soo-ha?
Joo Hae-young respondeu zombeteiramente, sorrindo fracamente como se percebesse que fingir não funcionou.
— Em algum lugar que você não conhece.
— Parece que estou em condições de aceitar seu jogo de palavras? Diga-me especificamente onde!
— Se eu fosse lhe contar, não teria escondido a criança.
Haha.
Eu caí na gargalhada com a resposta sem vergonha.
— Escondido?
— Sim, eu o escondi. O que mais poderia fazer?
— Não me importa o que você diga, você levou ele sem a minha permissão.
— Ele é meu filho.
— E daí se ele é seu filho?
— Sou a guardiã legal dele. E como guardiã, tenho o dever de cuidar dele, e essa foi a maneira que encontrei de protegê-lo……. Ugh……!
O sangue se destacou ameaçadoramente nas costas da minha mão. Estrangulei com força, e Joo Hae-young arranhou meu braço com as unhas em agonia.
— Joo, Hae-young, você não tem direitos legais. Lee Soo-ha e um órfão sem pais.
— Louco, bastardo! Saia de cima de mim!
— Onde está Lee Soo-ha? Se não quiser me contar, me leve até ele. Agora. Vamos!
— Você não pode encontrá-lo!
— Não. É melhor eu encontrá-lo porque, se eu não o encontrar, você estará com problemas.
— Vá se foder, Joo Haewon! Que tipo de poder você acha que tem? Está contando com o nosso pai novamente? Você deve estar brincando comigo… isso é tudo o que você tem? Acredita mesmo nisso? Que, mesmo com o fim do seu casamento, sua ausência sem permissão, sua reputação… Oh, você já chegou ao fundo do poço! Nosso pai o pendurou pelo pescoço e você acha que a empresa é sua agora? Que nada. Não é tão fácil assim. Olhe direito: você está ferrado!
Ela continuou a divagar, mas sua voz estava instável enquanto cuspia as palavras enquanto era estrangulada. Não podíamos manter uma conversa assim. Retirei minha mão de sua garganta. Meus impulsos violentos ainda estavam furiosos. Até o momento eu ainda tinha algum autocontrole, mas não sabia por quanto tempo mais conseguirei continuar.
Eu sorri. Meu olhar estava fixo no rosto de Joo Hae-young enquanto ela tentava se recompor.
— Mesmo que eu não use nosso pai, é muito fácil para mim ferra com a sua vida, Joo Hae-young. Vou começar contratando alguns capangas habilidosos e mandar eles ferrarem com seu filho legítimo.
Diante de minha ameaça discreta, a expressão de Joo Hae-young rapidamente se transformou em pânico.
— Não se surpreenda. Pensei que você tinha dito que eu era um desgraçado. E um desgraçado tem atitudes ruins.
Ao contrário de Lee Soo-ha, o filho que Joo Hae-young deu à luz e criou era meu sobrinho no verdadeiro sentido da palavra. Joo Hae-young sabia disso, então ela nunca esperou que eu fizesse uma ameaça tão baixa.
— Não, não. Você não pode fazer isso. Você não é tão ruim assim.
Os cantos da sua boca se contraíram levemente para cima e Joo Hae-young fingiu estar calma. Era algo que tinha que ser feito. A leve contração de seus lábios azuis diziam muito sobre sua ansiedade.
— Foi você quem transformou uma pessoa que estava quieta em um monstro.
— Acalme-se.
— Me acalmar?
— Joo Haewon!
— Pela última vez, onde está Lee Soo-ha?
— …….
Seus lábios, que haviam se contraído algumas vezes, se fecharam. Isso, por si só, era uma firme intenção de nunca falar.
Sim, era uma teimosia obstinada que estava além do apaziguamento e das ameaças, e qualquer outra provocação que eu fizesse não surtiria efeito. Olhei para Joo Hae-young e me afastei sem dizer mais nada.
Se ela não abrisse a boca, eu não lhe daria outra escolha a não ser criar uma situação na qual ela teria que abri-la. Se as ameaças verbais não funcionassem, talvez eu tivesse que mostrar até onde estava disposto a ir realmente. Em primeiro lugar, era ridículo esperar que eu, uma pessoa com um senso de moralidade tão superficial que não tinha escrúpulos em dormir com meu próprio sobrinho, me comportasse com dignidade.
— Se eu não o tivesse escondido, nosso pai o teria colocado na mesa de cirurgia!
Joo Hae-young gritou atrás de mim enquanto eu saía pela porta.
— Não bastava tirar o filho, ele queria fazer uma cirurgia para tirá-lo do seu alcance, para usar isso contra você. Ele disse que deveria fazer isso porque você está fora de si. Pensei em fingir que não sabia. Mas será que isso iria funcionar? Como eu poderia deixar isso assim se eu sabia? Foi por isso! Eu o salvei em vez de você, que não consegue entender a situação!
Fiz uma pausa e olhei de volta para Joo Hae-young. Hae-young estava furiosa e terminou sua acusação.
— Seu bastardo estúpido… você realmente achava que nosso pai iria deixar você viver com Lee Soo-ha pelo resto da sua vida? Apesar de Hae-myung e eu termos sido vistos como dois fracassos, ele é um homem que jamais olharia para outra mulher temendo que uma criança bastarda manchasse em sua linhagem. Depois que minha mãe faleceu, só então ele se sentiu aliviado para conhecer uma nova mulher e deu à luz a você. Por que ele te deixaria viver como Lee Soo-ha quando sabia que isso poderia arruinar a reputação da família? Acha mesmo que um homem obcecado por sua linhagem deixaria isso passar? Você nem sequer pode me parar, como acha que iria impedir nosso pai!?
Joo Hae-young, batendo no peito, começa a chorar, mas estava com vergonha de me mostrar suas lágrimas, então imediatamente virou a cabeça e cobriu o rosto.
Com a mão na testa, ela acalmou a respiração, que havia se tornado irregular devido à emoção, antes de falar novamente com uma voz calma.
— Então deixe o garoto em paz. Não estou tentando machucar Lee Soo-ha: estou tentando protegê-lo. Ele não está em seu juízo perfeito agora, e ficar com você pode fazer tudo piorar.
— …….
— Agora você não é de nenhuma ajuda para ele. Em vez disso, só o está prejudicando.
Seu apelo choroso quebrou minha agressividade, que havia atingido um nível febril, e me deixou com uma pesada sensação de impotência.
Enquanto eu estava preocupado com a recuperação de Lee Soo-ha, meu pai estava planejando destruí-lo ainda mais. Talvez ele quisesse transformá-lo em uma ferramenta para lidar comigo. Ou talvez estivesse esperando que eu enjoasse do ômega destruído e esperasse que eu me livrasse de Lee Soo-ha por conta própria.
Joo Hae-young estava certa. Se eu podia perder tão facilmente contra Joo Hae-young, quanto tempo mais eu poderia resistir ao meu pai?
Eu ri do sentimento sórdido de derrota. Até mesmo meu temperamento baixo é um produto decorrente do sangue daquele homem. Eu, que havia ameaçado destruir meu jovem sobrinho usando gângsteres, não poderia julgar o meu pai pela decisão de destruir Lee Soo-ha.
Minha força se esvaiu.
Fiquei estupefato por um momento, refletindo sobre minha derrota.
Voltei para casa tarde da noite, sozinho. Na escuridão, onde não havia luz e apenas um pesado cobertor vermelho, fiquei perdido em meus pensamentos.
A derrota queimava meu coração e a impotência resfriava meu cérebro.
Eu perdi Lee Soo-ha. Foi tão fácil…
Mas o engraçado é que, após perdê-lo, minha ambição de sair e me fortalecer se acendeu. A essa altura, eu estava cheio de vontade de destruir o rinoceronte que me deu uma sensação tão profunda de impotência e derrota e um desejo de recuperá-lo começou a ferver.
A lição que a derrota e a perda me deixaram foi essa.
Eu deveria tê-lo coagido, não negociado.
Em vez de me curvar ao meu pai, eu deveria tê-lo feito me temer.
Essa era a maneira de ganhar com segurança, sem riscos, sem perdas.
Não sei se foi um plano ou um erro, mas o que meu pai e Joo Hae-young feriram foi meu orgulho. Meu temperamento arrogante que não tolera a derrota e não suporta insultos era fortemente enraizado em mim. Se eles achavam que poderiam usar isso a seu favor até o fim, estavam errados. Eu queria despedaçar essa arrogância.
O que eu precisava era poder. Quando você é pisoteado por algo, precisa de poder à altura.
Eu admito: não tinha esse tipo de poder ainda, então teria que obtê-lo.
A essa altura, eu não tinha nada a perder. Os únicos que tinham algo a perder era meu pai e Joo Hae-young e estava claro o que mais importava para eles. Eles haviam ameaçado o que era mais importante para mim e tentado usá-lo contra mim, então eu pegaria o que eles amavam, ameaçaria e usaria contra eles. Iria recuperar Lee Soo-ha. E, para isso, eu usaria todos os meios necessários de agora em diante.
Pagaria humilhação com humilhação.
Os roubaria, pisotearia, sufocaria e perguntaria novamente:
— Onde está Lee Soo-ha?
* * *
Levei um ano para superar o estigma de ser um potro domado, sem habilidade ou motivação. Esse foi o resultado de desempenhar o papel de ser um cão fiel que ouvia o pai. Na verdade, um parasita seria uma descrição melhor: um verme que se prende ao seu hospedeiro, suga os nutrientes e aumenta de tamanho. Cão fiel ou parasita, o objetivo era claro: eu aproveitaria o poder do meu pai e o absorveria lentamente para derrubá-lo. Minha submissão imediata apenas abriria o caminho para meus triunfos posteriores.
A serpente não estava ciente de meu parasitismo. Parecia pensar que eu havia recobrado o juízo após o choque de perder Lee Soo-ha e, por isso, estava disposto a me fortalecer.
Em um ano, ele me convocou para ir à sede do grupo e iniciar minha sucessão com seriedade.
Levei mais dois anos para entrar na sede, assumir o cargo de gerente geral e tomar o controle do escritório de planejamento estratégico que funcionava como a torre de controle. Levou tempo, mas não foi um trabalho árduo. Eu tinha o apoio da pessoa mais poderosa da empresa.
Foi nesse momento que comecei a trabalhar com meu pai e Joo Hae-young.
Quando não se tem muito, é melhor agitar a panela e criar o caos. A primeira coisa que fiz foi prejudicar o valor da marca da Coreia pela qual o velho era tão orgulhoso. A partir daí, projetei o cenário passo a passo.
Os movimentos da serpente nunca deixaram de me surpreender.
Antes que eu pudesse me acomodar, o velho insistiu novamente em meu casamento com a filha do senador Chung que estava concorrendo à presidência, citando a licença da torre de referência. Em vez de aceitar, eu o insultei. No dia seguinte, o velho fez sua estreia na mídia junto com o senador Chung como protagonista de um cenário desagradável de financiamento político ilegal.
No início do dia, eu havia desenvolvido uma amizade com o candidato do partido no poder, Cha Kwon-taek, um dos favoritos para a próxima eleição presidencial e o avisei que Chung estava recebendo grandes somas de dinheiro político do meu pai devido ao rompimento de noivado. Percebendo minhas intenções, o deputado Cha esperou o momento certo e, assim que lhe dei o sinal, ele fez uma exposição contundente. Usando as provas que forneci ao deputado, ele expôs os vínculos de Chung com o chaebol Joo Jae-moon e até incluiu o testemunho do antigo assistente executivo do meu pai, que havia desempenhado um papel crucial na campanha. A questão dos fundos ilegais entre um chaebol e um dos principais candidatos à presidência, que eclodiu no período que antecedeu a eleição presidencial, foi motivo de muita repercussão e burburinhos.
Em seus últimos anos, papai começou a visitar o escritório do promotor: um lugar que ele não visitara em sua juventude. A visão de um homem idoso na fila de fotos do promotor dando desculpas, era divertida. Ele costumava dizer que estava limpo, mesmo que tivesse feito coisas sujas, o que era bastante vergonhoso para um homem com suas convicções. Eu me divertia com a derrota em seu rosto, que sempre foi tão escamoso e duro quanto uma salamandra.
A inação da empresa em relação à questão do financiamento político ilegal foi o mesmo que levar um tiro e, como se isso não bastasse, a disposição da empresa de cooperar com a investigação levou ao anúncio de que estava cancelando o projeto de construção de referência no centro do caso. Meu pai e Joo Hae-young eram, obviamente, os que mais se preocupavam com a rápida queda do preço das ações e com o desmoronamento do valor da marca.
A investigação levou rapidamente a um julgamento. Independentemente do veredicto, foi um golpe mortal para as credenciais de Joo Jae-moon como líder.
Além da questão do financiamento político ilegal, seu tão esperado projeto de construção histórico foi cancelado e meu pai, que envelhecia rapidamente, não conseguiu suportar a pressão dos acionistas por muito tempo e anunciou que deixaria o cargo. Tudo isso era apenas um show. Ele não era um homem velho que morreria facilmente. Eu sabia, mas tive que deixá-lo em paz por enquanto. Ele era um osso duro de roer. De qualquer forma, sua aposentadoria foi uma boa notícia para mim.
Como era de se esperar, Joo Hae-young e eu surgimos como os dois favoritos para substituir Joo Jae-moon. Meu irmão, Joo Hae-myung, nem sequer foi mencionado. Não era de se admirar, pois ele era ganancioso, incompetente e bom em perder dinheiro.
Eu tinha derrotado meu pai. A próxima, seria Joo Hae-young, a pessoa que detinha a identidade do paradeiro de Lee Soo-ha.
Eu realizei o seguinte cenário.
Quando se dirige uma gigante corporativa, há muita sujeira para tirar de baixo do tapete. Antes de a poeira ter baixado sobre a questão dos fundos políticos ilegais, veio à tona o desvio de fundos públicos pelo marido de Joo Hae-young, meu cunhado Kim Sang-hyun, que era o diretor administrativo de logística. Esse foi um sério revés para Joo Hae-young, que estava almejando o cargo mais alto.
Ela já havia percebido que eu era o autor de todo esse cenário e invadiu meu escritório assim que a história foi divulgada.
— O que você está planejando? Até onde você pretende chegar?!
Após perder a paciência, Joo Hae-young jogou minha placa de identificação e gritou.
Sentei-me e observei o desenrolar da cena.
— Eu que lhe pergunto: quanto tempo você vai aguentar?
Há muito tempo havíamos deixado de nos tratar como irmãos.
Com um sorriso rico e preguiçoso no rosto, eu disse zombeteiramente:
— Se você estiver disposta a ir até o fim, eu irei até o fim. Mas se você estiver disposta a encerrar o assunto, eu deixarei passar.
Diante da minha atitude descontraída, o rosto de Joo Hae-young ficou vermelho de raiva.
Observei alegremente, enquanto seus punhos cerrados tremiam. Isso me fez perceber por que os humanos são tão obcecados pelo poder. A emoção de esmagar um adversário é viciante. Por sua própria natureza, a maldade é estimulante, e esse sentimento pode se tornar uma obsessão.
— Se você acha que isso vai me deixar de joelhos, está enganado. Acha que já não tive que enfrentar bastardos desprezíveis como você?
— Então por que veio aqui falar sobre esse assunto?
— Não jogue sujo! Venha até mim se é tão habilidoso!
— Jogar sujo é uma habilidade.
— Joo Haewon!
— Não quero ver você de joelhos, Joo Hae-young. Estou decepcionado por você ainda estar falando sobre esse tipo de coisa quando sabe o que eu quero.
Meu objetivo final permanecia o mesmo.
Tudo estava acabado.
Continuei procurando o paradeiro de Lee Soo-ha, mas ele não estava em lugar nenhum. A única resposta que iria trazer seu paradeiro à tona era o que estava na cabeça dela.
— Você quer negociar comigo? É fáci: traga-me o que eu quero.
Tirei o sorriso do rosto e falei com uma voz fria e gelada. Joo Hae-young respondeu com seu sorriso maligno característico.
— Depois do que você fez, não pretendo te dar nada.
— Sinto muito em ouvir isso. Então será o seu fim. Adeus.
— Agora entendo por que meu pai queria usar a Lee Soo-ha como uma arma. Não se esqueça que ele está em minhas mãos.
Como esperado, Joo Hae-young que foi encurralada, cuspiu uma ameaça desprezível. Eu estava enojado, mas não era tão frágil a ponto de me deixar influenciar por ela.
— Tenho em minhas mãos uma empresa que você está louca para ter. Se eu não conseguir o que quero, você também não conseguirá.
— Você parece tão animado… acha isso divertido?
— Bem, mais ou menos.
— …….
— Se quiser conversar mais, vá buscar o que quero e, assim, eu vou te ouvir.
— Não me trate como uma vadia fácil. Eu nunca perco.
— Está bem. Tente o que quiser. Quanto mais difícil, mais interessante vai ser quando eu passar por cima de você.
Joo Hae-young, que estava de mãos vazias, tentou uma tática semelhante contra mim.
Não demorou muito para que começassem a aparecer artigos sobre a vida pessoal indulgente e as conquistas comerciais fabricadas. As notícias estavam se dirigindo a mim. O cenário que levou ao fim do meu noivado há três anos não passou de um golpe pouco aproveitável.
Em resumo, a história acusava o herdeiro de um dos cinco maiores grupos empresariais da Coreia de ter um histórico com mulheres e de usar drogas ilegais. Além disso, alguém que se dizia um funcionário anônimo testemunhou o abuso de poder do sucessor. A notícia dizia que ele interceptava as conquistas dos membros da equipe e abusava verbalmente deles. Havia também um discurso sobre como convidava mulheres para o seu escritório para fazer sexo com elas enquanto estava trabalhando. Era o tipo de fofoca que deveria ter sido usada como enredo de um filme pornô.
De qualquer forma, todas as pistas que descreviam a pessoa em questão apontavam explicitamente para mim. Infelizmente para ela, esse nível de fofoca não foi fatal ou mesmo eficaz contra mim. Na verdade, teria sido melhor se o conteúdo tivesse sido baseado em fatos. ‘O lixo que dormiu com o próprio sobrinho, que era 10 anos mais novo do que ele e o engravidou.’ Essa notícia teria atraído muito mais atenção.
Com a reunião de acionistas se aproximando, comecei a mexer os pauzinhos quanto a a contabilidade fraudulenta da Biologics. Obviamente, o CEO da BioLogics era Joo Hae-young. Eu disse a Joo Hae-young que ela tinha uma carta na manga e até expliquei gentilmente como e quando ela poderia usar esse trunfo.
Dois dias antes da reunião de acionistas, recebi uma ligação dela.
Em uma voz rouca e exausta, ela me disse.
[Você não quer ver seu filho?]
Era uma isca que não pude deixar de morder.
* * *
Era um menino.
Ele tinha um rosto que qualquer um poderia ver que era meu filho. Então, assim que vi a criança cheguei a conclusão que ele era mesmo minha cria. Eu nem precisei fazer um DNA para ter certeza porque, à primeira vista, ele era um filho completamente perfeito meu e de Lee Soo-ha.
— Diga olá.
A mulher, que cuidava dele como mãe desde o nascimento deu-lhe um tapinha nas costas e o acalmou. A criança, que estava agindo estranhamente o tempo todo, levantou a cabeça e gaguejou uma pequena saudação.
Não fiquei impressionado com isso. Era simplesmente maravilhoso.
O fato de ele ter nascido sem qualquer sequela e conseguir vê-lo assim… vê-lo pela primeira vez e ainda assim ter certeza que ele era meu sangue era algo único.
A criança era muito tímida, e até mesmo sua personalidade calma e reservada parecia se assemelhar à de Lee Soo-ha. O único problema era que a criança acreditava firmemente que aquela era sua mãe. A criança insistia em não ir a lugar algum sem a mulher. Decidi levar a criança para o meu apartamento e contratar a babá para morar em uma casa separada nas proximidades. Achei que, se não conseguisse me livrar dela imediatamente, teria de morar com ela, o que não era uma má ideia, pois precisava de alguém para cuidar do menino enquanto eu trabalhava.
No primeiro dia em que o trouxe para casa, dei-lhe uma advertência severa.
— Você pode fazer o que quiser, mas, de agora em diante, não pode chamar ninguém de mamãe. Entendeu?
A “pessoa” a que eu me referia era, obviamente, a mulher que havia sido sua babá. A criança assentiu com a cabeça, chorando com medo diante da minha firmeza. A mulher também não conseguia esconder sua decepção. Mas é claro que eu não precisava saber disso.
A vida com a criança não era ruim. Em parte porque eu ficava em casa por um período relativamente curto do dia e, também, porque o garoto era bastante quieto, como se nem estivesse lá, assim como o Lee Soo-ha, de muito tempo atrás.
Mas não demorou muito para as coisas começarem a dar errado.
A mulher em questão era o problema. Mesmo quando foi avisada de seu erro, ela falava sobre o carinho que nutria pela criança, chorando pelo filho que havia criado. Ela continuava tentando desempenhar o papel de mãe e até tentou desempenhar o papel de esposa.
Era um fim de semana. A mulher entrou em minha casa inesperadamente e, como se isso não bastasse, entrou em meu quarto e me acordou. Assim que abri os olhos, vi o rosto da mulher e senti uma sensação indescritível de desagrado. Eu ri friamente quando a mulher me chamou cheia de constrangimento para tomar o café da manhã.
— Como devo interpretar esse comportamento absurdo quando ele nem sequer está no contrato?
Horário padrão das nove às seis nos dias de semana. A totalidade do meu contrato de trabalho com ela era para lhe pagar o dinheiro extra que ela tinha direito se tivesse que cuidar de mais crianças. Não havia nada no contrato que dissesse que ela poderia entrar em minha casa nos fins de semana sem minha permissão ou cozinhar minhas refeições. Em resumo, ela estava sendo presunçosa.
Ela se encolheu quando eu disse isso. Parecia que havia finalmente percebido seu erro.
— Desculpe, é que eu…… e é fim de semana, então pensei em lhe trazer uma refeição…….
— Não ultrapasse os limites e permaneça seguindo seu cargo para que eu possa ser educado com você.
Eu a interrompi friamente e ela ficou perdida em seus pensamentos. Enquanto ela choramingava como uma pessoa de coração partido, percebi que o mesmo problema poderia ocorrer novamente. Os problemas têm uma maneira de voltar para assombrar se você não os cortar pela raiz. Senti a necessidade de tirá-la completamente da minha vida. Eu deveria tê-la separado do meu filho desde o início e não tê-lo deixado com ela em primeiro lugar.
No dia seguinte, assim que cheguei ao trabalho, pedi à minha assistente que começasse a procurar um novo lugar.
Ao olhar as casas que o corretor de imóveis me mostrou, pensei novamente em Lee Soo-ha. Levei Lee Soo-ha em minha cabeça para todos os cantos da casa pensando se ele ficaria feliz. Era uma casa onde eu gostaria de viver com ele. Eu queria que ele gostasse dela.
O garoto era teimoso e não queria se separar de sua falsa mãe. Quando estava quieto, era muito fofo, mas quando era teimoso, era simplesmente irritante. Eu não era particularmente apegado a ele e não queria passar muito tempo acalmando seu choro e sua agitação.
Por fim, deixei-o naquele apartamento e me mudei sozinho para minha mansão recém-adquirida.
Para separá-lo gradualmente da mãe, o matriculei em uma creche administrada pela fundação da empresa e uma nova pessoa foi enviada para cuidar dele durante metade do dia.
Ainda assim, o paradeiro de Lee Soo-ha permaneceu um mistério.
* * *
A assembleia geral extraordinária de acionistas convocada devido à renúncia do gerente geral foi concluída com a nomeação de um novo CEO para o cargo. O Presidente do grupo acabara de ser notícia devido a acusações de financiamento político ilegal e seu genro estava em maus lençóis graças ao desvio de fundos públicos. A opinião geral dos acionistas era de que a empresa precisava ficar de olho na opinião pública nesse momento. Joo Hae-young ficou frustrada, mas não teve escolha a não ser concordar com essa sugestão.
Com a posição de seu marido reduzida, Joo Hae-young procurou se recuperar comprando agressivamente ações para transformar sua empresa, a Biologics, em uma peça importante para o grupo — e era ninguém mesmo que o meu pai que estava financiando a compra.
Não fiquei surpreso. Assim como Joo Hae-young, meu pai se tornou vingativo após descobrir que fui eu quem divulgou a história sobre o financiamento político ilegal.
A melhor defesa é o ataque. Essa era a minha teoria.
Respondi ao ataque cancelando o projeto Proxima no qual o grupo estava trabalhando com a Biologics. Ao contrário de sua antiga reputação na Coreia, a empresa agora estava classificada apenas em terceiro lugar no setor. Para restaurar sua glória, Joo Hae-young estava confiando na efetividade do projeto Próxima, de desenvolvimento global, na descoberta de medicamentos.
Esse projeto, que se arrastou por oito longos anos, infelizmente acabou escorregando na fase de aprovação (NDA). Obviamente, houve uma intervenção ativa por parte da empresa. O fracasso do projeto, que custou uma fortuna, teve um impacto enorme. Artigos diários de críticas e condolências foram abundantes, o valor da empresa caiu e os acionistas apontaram o dedo para a diretora da empresa, Joo Hye-young. Como resultado, a posição já precária de Joo Hae-young foi abalada.
E não parou por aí. Se eu apenas a cortasse desajeitadamente, ela sempre cresceria de volta. Neste ponto eu estava planejando arrancá-la pela raiz. Ela nem mesmo tentaria subir se agarrando nas paredes.
Mobilizei a equipe jurídica da sede e localizei a conta bancária de meio trilhão de dólares do meu pai em seu nome. Era o produto de anos de trabalho árduo. Essa conta era a carta na manga do velho para comprar as ações que eram o trabalho de sua vida.
O velho, que havia se deteriorado rapidamente após o fracasso do seu projeto há muito desejado, fixou os olhos cinzentos em um tom opaco e soltou uma risada tossida.
— Vamos lá, você tem duas escolhas. Uma e deixar tudo o que você construiu escorregar pelo ralo. A outra é proteger o que você ainda tem.
Até mesmo um tigre desdentado tem algum orgulho. E esse tipo de teimosia só piora quando a chicotada é muito forte. Um chicote é sempre mais eficaz ao ter uma isca saborosa.
Eu lhe dei uma escolha. Passar o resto de seus dias apodrecendo em escritórios de promotores e tribunais, ou finalmente colocar os pés no arranha-céu que levava seu nome, aquilo que ele sempre quis. A ganância brilhou nos olhos do velho, como se eu tivesse lhe oferecido uma boa isca. Era uma ganância que ele não abandonaria até o momento em que entrasse em seu túmulo.
Naturalmente, o velho escolheu a segunda opção. O triunfo esperado. Afinal de contas, eu ainda era o sucessor perfeito para ele.
A sucessão aconteceu rapidamente depois disso.
Assim que me tornei o maior acionista da empresa e assumi o controle, emiti um aviso convocando uma assembleia de acionistas.
Naquela noite, procurei Joo Hae-young, que estava completamente derrotada, e dei a ela uma chance, assim como havia dado ao nosso pai.
— Você tem dois caminhos, Joo Hae-young. Pode ser completamente destruída, ou manter o que você tem e prosperar no futuro.
Isso não era apaziguamento: era coerção. Era uma proposta, mas também uma ameaça.
Joo Hae-young cerrou os dentes, como se quisesse me estrangular na mesma hora. Apreciando a expressão em seu rosto, finalmente disse.
— Não vou lhe perguntar duas vezes.
— …….
— Onde está Lee Soo-ha?
Quatro anos.
Haviam se passado quatro anos.
* * *
Contrariando as expectativas de que ele estava no exterior, o local onde Joo Hae-young colocou Lee Soo-ha — ou melhor, o escondeu — foi uma instalação médica localizada nas montanhas de Goseong-gun, Gangwon-do. A rigor, seria mais correto chamá-lo de “centro de detenção ilegal disfarçado de hospital psiquiátrico”. As instalações, o sistema e, além disso, a equipe médica eram todos muito mal organizados para serem chamados de hospital. A única garantia era que, desde que pagassem, eles cederiam suas instalações, independentemente da condição do paciente e de ele dar ou não seu consentimento.
Em um dos minúsculos quartos da maldita instalação, Lee Soo-ha foi trancado sob o estranho nome de Kim Myung-won.
— Ele estava em mau estado quando chegou. Bem… a maioria dos pacientes que chegam aqui chegam assim. O responsável que trouxe o paciente disse que ele sofria de depressão crônica e nos pediu para não testá-lo e apenas para continuar prescrevendo inibidores porque ele era um ômega.
Isso foi há quatro anos. Lá estava Lee Soo-ha, com aquela aparência inalterada, bem na minha frente. Finalmente.
O tão esperado encontro. Eu havia suportado quatro anos com o único propósito de chegar a esse momento. No entanto, quando chegou a hora, não consegui me aproximar mais. Eu só podia observá-lo do lado de fora da porta, via uma pequena janela de vidro.
— É constrangedor dizer isso, mas, na verdade, é neste tipo de lugar que até mesmo as pessoas mais sãs enlouquecem. Ele está trancado em um lugar como este, sem tratamento adequado, então não há como melhorar. Na verdade, só está piorando cada vez mais.
— … Como ele piorou, especificamente?
— Muitas coisas, mas as mais óbvias são os problemas de memória e os delírios. Ele não consegue se lembrar de pessoas, coisas, situações, etc. Mas não há danos cerebrais, portanto, é apenas um problema aqui e ali.
Nesse momento, o médico de jaleco bateu com os dedos no meu peito e piscou o olho direito.
— Se quer minha opinião, eu acho que ele está forçando sua memória a esvaziar. Se eu tivesse que dar um nome a isso, chamaria de distúrbio psicogênico da memória. Mas não para por aí: ele coloca ilusões nesses lugares vazios, hm…… por exemplo, há um prédio atrás desse prédio que é antigo e usado como depósito e ele acredita que queimam corpos lá. Ele acha que um dia será levado para lá e queimado também.
— …….
— O problema é que quando tentamos corrigir à força seus delírios, o paciente se tornou extremamente agressivo……. Na verdade, ele teve várias tentativas de se mutilar desde que chegou aqui, sendo que metade delas aconteceu após se consultar comigo. Então, depois que ele faz isso, ele esquece. É como se seu cérebro reiniciasse.
Ele continuou explicando que agora Lee Soo-ha se via como um órfão sem dinheiro, sem casa, e acreditava que um dia seria queimado até a morte aqui. Ele se prendeu a uma ilusão lamentável que ele parecia considerar reconfortante.
Essa amnésia e delírios pareciam agir como uma espécie de mecanismo de defesa, de modo que, quando ele falhava, Lee Soo-ha não conseguia lidar com o estresse e se mutilava.
Seu médico acrescentou uma explicação tardia, afirmando que esse era o motivo pelo qual ele havia desencorajado minha abordagem. O homem não sabia qual seria o meu efeito sobre Lee Soo-ha. Para Lee Soo-ha, que tem medo de recuperar seu senso de realidade e memória, eu, que o conheço tão bem, poderia ser um fator de risco para piorar sua condição.
— Então você sabia que ele estava piorando, mas simplesmente o deixou assim?
— Não. Na verdade, o responsável por ele não quer o tratamento, então o que posso fazer? Tenho que fazer o que me mandam e casos como esse não são fáceis de tratar.
O comportamento de Joo Hae-young ao esconder Lee Soo-ha de mim foi enquadrado como proteção para ela, mas o que era realmente? Aquilo não era nada mais do que abandono.
Quando o encontrei depois de quatro anos, sua condição era literalmente devastadora. Estava além da raiva.
Se Joo Hae-young não o tivesse roubado, se meu pai não tivesse tentado tocá-lo, ele não estaria assim porque eu jamais o teria deixado sozinho.
Quatro anos foi muito tempo para mim.
Para Lee Soo-ha, provavelmente foi ainda mais.
Enquanto eu estava trabalhando com meu pai e Joo Hae-young com meus truques sujos, ele estava construindo uma parede protetora de esquecimento e ilusões.
Eu não esperava que ele estivesse em boa forma, mas também não achei que estaria tão ruim. Eu não esperava ser recebido com alegria, mas não imaginei que ia sentir meu coração doer quando visse Lee Soo-ha pela primeira vez depois de tanto tempo… Eu realmente não esperava por isso.
Passei a mão pelo rosto. Uma forte dor de cabeça se espalhou rapidamente. O arrependimento de que eu deveria tê-lo encontrado antes veio como uma onda gigante.
Então, como se estivesse ciente do meu olhar, ele se virou para mim. Nossos olhos se fixaram uns no outro através da janela retangular de vidro transparente.
Fiquei tenso.
Ele piscou lentamente e, em seguida, inclinou ligeiramente a cabeça em sinal de dúvida. Ainda não havia nada naqueles olhos sacarinos. Eu não conseguia ler nenhuma emoção neles.
Então percebi: eu sou a existência que ele apagou.
Senti o mundo girar. Eu queria rir, queria gritar, mas algo parecido com desespero pesava sobre mim — um peso que eu não conseguia suportar.
Fiquei olhando para ele por mais um tempo, impotente.
Lee Soo-ha havia se esquecido de mim.
Lee Soo-ha havia perdido tudo.
— Então, o que vamos fazer agora?
Eu não tinha intenção de deixar o desespero tomar conta. Eu só precisava encontrá-lo. Por enquanto, isso era suficiente para mim.
Foi-me dado um período de carência, pois o médico responsável achou que não seria razoável que eu o levasse imediatamente. Nesse meio tempo, ele trocou seu inibidor por um antidepressivo, a meu pedido.
A mudança repentina provavelmente causaria estresse em Lee Soo-ha. O estresse era um veneno altamente letal para ele. Lee Soo-ha tinha até desenvolvido o terrível hábito de se mutilar quando surgia um estresse incontrolável.
O médico que estava cuidando dele me disse para ter cuidado para não perturbar seus mecanismos de defesa. Era melhor abrir sua mente com cuidado, como se estivesse lidando com um pedaço de vidro que podia ser facilmente quebrado. Não devíamos ensinar a Lee Soo-ha a realidade de sua condição atual, mas ajudá-lo a tomar consciência dela e aceitá-la naturalmente.
A primeira e mais importante prioridade era criar um ambiente em que ele se sentisse seguro. E um ambiente estável significava uma configuração com a qual ele poderia conviver.
Esperei o momento de vê-lo novamente, enquanto pedia relatórios diários para seu médico. Felizmente, os antidepressivos pareciam desempenhar um papel eficaz na melhora de seu humor.
Demorou um mês para que isso acontecesse. Foi um mês que pareceu mais longo do que os últimos quatro anos. Somente após passar por esse período tedioso e doloroso é que pude trazer Lee Soo-ha para minha casa.
* * *
Ele entrou nervoso na sala iluminada pelo sol com uma expressão nervosa no rosto. Ele me encarou cautelosamente, como se nunca tivesse me visto antes, e eu o encarei silenciosamente, como se aquela fosse a primeira vez que nos víamos.
Até que Lee Soo-ha finalmente abriu a boca.
— Quem é você?
Movido pela emoção eu me aproximei e perguntei.
— Quem você acha que eu sou?
Com isso, Lee Soo-ha pensou com cautela.
Então ele me definiu.
— Um estranho.
Um estranho…….
Eu ri. Engolindo com força a refutação que chegou a ponta da minha língua.
Havia tanta coisa que eu queria dizer, mas eu sabia que não podia. Não ainda. Embora Lee Soo-ha estivesse diante de mim, eu não representava nada para Lee Soo-ha.
Eu o fiz assim. Fiz ele me apagar. Para que pudesse suportar a realidade.
— Sim.
Decidi me tornar um ator em seu mundo de delírios, porque essa era a única maneira de entrar em seu mundo, um mundo no qual eu não tinha permissão para entrar.
Portanto, se Lee Soo-ha acha que sou um estranho para ele, então…
— Então é assim que vai ser.
Sim, eu serei um estranho.
Vou fazer isso.
— Saiba apenas que cabe a você decidir quem eu serei no futuro.
Não me importo com o que você pensa de mim. Serei apenas quem você quiser que eu seja, da forma que for. Se esse for o castigo que você me impôs, vou aceitá-lo com carinho.
Era meu papel esperar.
Vou esperar.
Até que você queria saber sobre mim.
Até que você me pergunte.
E até que me dê uma chance de ser perdoado.
°
°
Continua…
Tradução: Rize
Revisão: MiMi