Capítulo 06
— Espero que meu tio se arrependa. Quero que você seja infeliz por minha causa.
Cinco anos atrás, Lee Soo-ha, encharcado de sangue, sorriu e me amaldiçoou.
— Eu te disse. Quero que você seja infeliz por minha causa.
E cinco anos depois, ele zombou de mim da mesma forma que fez.
Funcionou como ele disse.
Depois de tudo, me arrependi e agora continuo infeliz.
* * *
Merda.
Por hábito, procurei um cigarro dentro no bolso da camisa, próximo ao meu peito. Quando percebi o que estava fazendo, soltei um palavrão. Ao cruzar meus braços sobre o peito, uma mancha de sangue na manga me chamou a atenção. Foi uma mancha causada por abraçar o corpo encharcado de sangue do Soo-ha. Olhei para a mancha vermelha com descrença e sorri, percebendo que não era a primeira vez que algo assim acontecia.
Não posso acreditar que estou passando por isso de novo.
Arrependimento, raiva, angústia. Sentimentos desagradáveis corriam através do meu corpo. Emoções intensas que não podiam ser minimizadas nem mesmo pelo barulho do meu riso autodepreciativo. Faz muito tempo desde que fiquei tão esgotado emocionalmente.
Eu odiava esse tipo de coisa. Detestava estar numa situação onde estava fora do meu controle, sendo influenciado pelo meio. No entanto, quando eu estava envolvido com Lee Soo-ha, sempre ficava assim.
Quem você está tentando culpar?
Como antes, a culpa foi novamente minha.
Há muito tempo, minha negligência foi a responsável por uma lâmina deixar uma cicatriz terrível no pulso do Lee Soo-ha. E agora, por culpa da minha breve negligência, outra lâmina cortou seu pulso novamente.
Teria sido melhor se eu tivesse decidido voltar para casa imediatamente quando recebi o relatório de que algo estava errado. Eu deveria ter perguntado sobre o que estava errado e o porquê. Em vez disso, escolhi deixar a administração com a minha assistente e me encontrar com o cliente. E aqui estamos nós.
Depois de um tempo, a porta do quarto do hospital foi aberta e Choi apareceu. Ele tem servido como médico de Lee Soo-ha desde seus dias de faculdade.
Com um rosto tão cansado quanto o meu, ele balançou a cabeça em direção ao interior do quarto do hospital.
— Entre.
Eu fui direto para dentro.
Na cama do quarto do hospital, Lee Soo-ha dormia tranquilamente, sem qualquer mancha de sangue. Eu perguntei ao Sr. Choi enquanto olhava para o pulso enfaixado.
— Qual é a condição dele?
— Está tudo bem.
— Não trate isso tão casualmente. Seja mais preciso.
Choi finalmente acrescentou uma explicação após suspirar por um longo tempo diante da minha resposta sensível.
— O corte não foi profundo. Artérias, nervos e tendões estão todos intactos e as suturas estão limpas. Você o encontrou rápido, então ele não perdeu muito sangue porque você agiu rapidamente.
O relatório positivo pareceu entorpecer um pouco meus nervos à flor da pele.
— O problema é que ele tentou novamente, o que significa que está psicologicamente comprometido. Ele voltará à razão rapidamente, mas não posso garantir que não haverá efeitos posteriores. Além disso, ele poderá se meter em problemas novamente, assim como fez agora.
— …….
— O que aconteceu?
— Ele jogou fora os remédios e ficou sem eles por vários dias.
Um dos três medicamentos que ele tomava todos os dias era de hormônios, mas dois eram, na verdade, antidepressivos. Se não tomasse, a condição de Lee Soo-ha pioraria visivelmente. A cuidadora também sabia que dois comprimidos eram antidepressivos. Foi por isso que ela me contatou às pressas quando ele jogou fora o remédio.
Choi estalou a língua, entendendo a situação com aquela breve explicação.
— Como ele conseguiu jogar fora os remédios?
Choi conhecia a situação geral enquanto servia como médico de Lee Soo-ha. Cinco anos atrás o responsável por Soo-ha, que tentou suicídio cortando os pulsos, era ninguém mesmos que Choi. Ele tinha direito de fazer tal pergunta.
— Estive fora a trabalho.
— Mas e a cuidadora?
— Ele disse de repente que não ia tomar os remédios, o que ela podia fazer quanto a isso?
Lee Soo-ha reagia com sensibilidade à coerção da mulher. A coerção tinha que ser feita somente por mim, dentro dos parâmetros de aceitação de Soo-ha. Esse foi o cenário que ele mesmo criou. Quando esse mundo imaginário entrava em colapso, ele revelava uma agressividade extrema e cometia automutilação, como agora.
— Deve haver uma razão para ter despertado isso.
Eu tinha um palpite.
No voo de volta, recebi um relatório de suas atividades nos últimos dias e descobri que ele visitou a casa onde morávamos juntos. Ele deve ter conhecido a mulher e visto a criança. Não é difícil imaginar que delírios ele possa ter criado ao ver isso. Não achei que houvesse razão alguma para ele ir lá, já que não se lembrava de nada.
— Acho que ele ficou chateado por eu estar ocupado e tê-lo deixado sozinho.
Quando respondi sem sinceridade, Choi suspirou pesadamente.
— Vocês brigaram?
— Brigar? Não… isso é mais como um protesto.
Por acaso, ele fez isso a tempo do meu retorno, como se tivesse cronometrado a hora exata da minha chegada. Foi uma estratégia para foder com a minha mente e saber suas intenções fez eu me sentir ainda pior.
— Você sabe o que ele costuma dizer…….
Choi olhou para mim com olhos cansados e balançou a cabeça. No entanto, como que para suavizar a atmosfera, ele acrescentou algumas risadas e uma piada boba.
— Falando sério, você não acha que a sua personalidade piorou muito depois que você deixou de ser um playboy e começou a destruir cartões de visita corporativos?
— Bem, não foi sempre assim?
— Você era rude, mas não era tão arrogante como é agora. O presidente sempre diz que não se pode negar o sangue. Você deve ter puxado isso dele, eu suponho.
— Assim você me ofende.
— Mas eu tô te elogiando.
Foi então que…
Crrrrr.
A porta do quarto do hospital foi aberta sem aviso. Virei a cabeça atrás com Choi, que olhou para a porta surpreso. O som parecia incomum e, como esperado, não era outra pessoa senão Joo Haeyoung que estava parada na porta.
É a mãe de Lee Soo-ha.
Mas meu sangue também corria em suas veias.
— Você está aqui.
Choi se curvou primeiro para cumprimentá-la. Como resposta, Joo Haeyoung abriu a boca com um rosto inexpressivo.
— Há quanto tempo, Sr. Choi. Lamento nos encontrarmos nessas circunstâncias novamente. Preciso falar com Haewon. Pode nos dar licença?
Era uma ordem disfarçada de pedido. No que diz respeito à arrogância, ela era tão ruim quanto eu. Como disse Choi, não se pode negar o sangue.
Choi olhou para mim. Eu balancei a cabeça. Choi, que captou a mensagem, saiu obedientemente do quarto do hospital. Joo Hae-young, que estava esperando calmamente que o homem saísse, veio até mim assim que a porta foi fechada. E então.
Pow!
Ela me deu um tapa na cara com toda a sua força.
Mas não foi surpresa. Na verdade, era bem o esperado. Joo Haeyoung rangeu os dentes enquanto lançava um olhar de desprezo para mim.
— Eu disse a você para deixá-lo em paz. E agora, como você se sente ao se dar conta que arrastou esse garoto insano para perto de você e eventualmente o fez ele ficar assim de novo, seu filho da puta.
— Bem. Me sinto sujo o suficiente.
— Você é realmente um ser humano?
— Você mesma acabou de dizer que eu sou um filho da puta.
— Não brinque com as minhas palavras.
— Bom, quero dizer… eu sou realmente filho da puta. Admita.
— Como você pode ser tão descarado?
— Existe algum motivo para eu me curvar. Bem, eu acho que não.
Eu sabia que só estava adicionando combustível ao temperamento explosivo de Joo Haeyoung, mas o que podia fazer? Era verdade. Não havia necessidade de me desculpar como ela queria.
Como esperado, Joo Haeyoung não aguentou e levantou a mão mais uma vez. Eu agarrei seu pulso para bloqueá-la antes que ela me acertasse na bochecha de novo.
— Uma vez é o suficiente.
— Me solte!
— Não se esforce demais. Nós já conhecemos a porra do temperamento um do outro, então não tente ultrapassar o limite.
— Está falando sério!?
— Fale baixo, o garoto está dormindo.
Quando apontei para a cama com um aceno de cabeça, Joo Hae-young verificou a aparência de Soo-ha.
Ela era esse tipo de pessoa.
Ela teria provavelmente ouvido falar sobre a tentativa de suicídio através da ajudante que plantou na minha casa e veio correndo. Contudo, a primeira coisa que ela fez não foi perguntar ou tentar descobrir sobre a condição de Lee Soo-ha. Seu primeiro instinto foi me culpar. Eu não tinha nenhuma intenção de repreendê-la por sua indiferença. Quanto mais indiferente Joo Hae-young fosse para Sooha, mais vantajoso seria para mim. Mas, naquele momento, seu nível de indiferença com o próprio filho me incomodou.
— Me solte.
Joo Hae-young balançou o braço que foi pego por mim. Com isso, eu a deixei ir.
Joo Hae-young sentou-se numa cadeira perto da janela do quarto de hospital, fechou os olhos e cobriu a testa com a mão. Ela parecia estar tentando acalmar sua raiva. Não iria ganhar nada jogando contra mim. Mas, mesmo sabendo disso, ela não conseguia suportar sua personalidade tempestuosa e acabava me enfrentando.
Um silêncio profundo em contraste com a agitação de pouco tempo atrás envolveu o quarto.
Sentei-me em frente a ela e olhei para a paisagem escurecida do lado de fora da janela.
Há muito tempo, lembrei-me de que Lee Soo-ha descrevia a visão noturna como uma tumba de luz. Achei bem sentimental, não percebendo que era uma pista para seu estado mental instável. Eu deveria ter notado a sensibilidade pessimista de relacionar tal coisa ao símbolo de um túmulo.
— Como o garoto está?
Como se estivesse mais calma, Joo Hae-young começou a falar com uma voz tranquila.
— Como você pode ver, está tudo bem.
— Quando ele acordar, mande-o de volta para a casa de repouso. Não incomode mais esse garoto desequilibrado.
Até parece.
Olhei para ela e soltei uma risada.
— Qual é o sentido de falar bobagens que não vão funcionar? Se você pretende me ofender com isso, desista. Porque você não vai conseguir nada.
— Por favor! Pare de ser louco. O garoto não lembrava de nada, e mesmo assim fez isso de novo. Imagina como vai ser quando ele lembrar de tudo?
— Tenho certeza de que já disse isso antes. Não há nada que uma pessoa não possa fazer se estiver decidido.
— Pessoas normais não fazem nada que prejudiquem sua família.
— Digamos que eu não sou normal.
— Você vai realmente até o fim…!
— Honestamente, é um pouco embaraçoso. Afinal, eu e Soo-ha fazermos parte da mesma família.
Ele era filho ilegítimo da minha irmã. Portanto, tecnicamente Soo-ha era meu sobrinho, mas eu não dei muita importância a isso. Uma pessoa que você nem sabia que existia e só descobriu há cerca de cinco anos dá para considerar como ‘família’? É inevitavelmente embaraçoso defini-lo dessa maneira. Então, tenho certeza de que nunca houve um momento em que pensei nele como um parente e teria provavelmente sido o mesmo para Joo Hae-young.
— Além disso, você sabe que não tem o direito de interferir na vida de Lee Soo-ha.
Joo Hae-young vacilou diante das palavras.
Trabalhei por quatro anos para conseguir fazer Joo Hae-young e renunciar a todos os direitos que tinha sobre Lee Soo-ha. No final, Joo Hae-young caiu na persuasão e escolheu sua aparência física e sua autoridade ao invés de Lee Soo-ha. Seria problemático tentar agir como uma mãe novamente depois disso.
— Eu sou a mãe dele.
Eu ri friamente do absurdo dito.
— O que você está falando?
Foi Joo Hae-young quem colocou Lee Soo-ha em um hospital psiquiátrico. Ela alegou ser um ato de proteção, mas nada mais era do que um ato de detenção. Durante o tempo em que ele esteve preso lá sozinho, seu estado mental deteriorou-se além do controle. Não venha aqui e finja que está preocupada.
Se isso fosse tudo o que ela tinha feito, eu estaria disposto a lhe dar um desconto. Mas Hae-young, que acreditava firmemente que ele só estava ligado a mim – seu tio, porque ser um ômega, forçou Soo-ha a se submeter a uma operação para remover seu útero enquanto ele estava incapacitado de tomar decisões. Ele foi induzido a pensar que aquilo nos beneficiaria.
Eu admito. É minha culpa que a mente de Lee Soo-ha não seja normal. No entanto, foi devido a Joo Hae-young que seu corpo enfrentava problemas.
— Em troca de preservar sua posição, acho que você concordou em entregar Lee Soo-ha para mim e desistir completamente de todos os seus direitos sobre ele. Agora você vai arrumar problemas se tentar fingir agir como uma mãe. Não ultrapasse seu limite Joo Hae-young
Com o meu comentário, o rosto de Joo Hae-young se distorceu por um instante. Foi um sentimento de humilhação que se espalhou densamente por todo seu rosto.
Joo Hae-young não tinha nenhum direito sobre Lee Soo-ha. Porque eu fiz assim. Foi Joo Hae-young quem respondeu à demanda de vendê-lo completamente para mim, em vez de proteger seu título de guardiã e família.
— Vou te dizer mais uma vez, evite ser presunçosa. Não pense que eu não sei que você quebrou sua promessa e foi ver Soo-ha.
— …Soo-ha disse isso?
— Acha mesmo que eu não iria descobrir?
As saídas de Lee Soo-ha são sempre acompanhadas por um guarda-costas. Era mais para prevenção do que para controle. Era para proteger o garoto mentalmente instável.
Se o controle fosse o único objetivo, um método mais eficiente teria sido usado. Eu poderia tê-lo trancado. Mas esse método teria um efeito positivo em Soo-ha? De jeito nenhum. Quando encontrei Lee Soo-ha preso em um hospital psiquiátrico, sua condição era excepcionalmente pior.
O que era necessário para melhorar a condição de Lee Soo-ha e a sua relação comigo era proteção. E o que era necessário para proteção não era coerção ou interferência, mas paciência, vigilância e moderação.
— Eu tento não interferir, mas é bom agir sabendo das consequências.
Joo Hae-young, que foi pega de surpresa, fechou a boca com uma expressão frustrada. O silêncio invadiu novamente o quarto.
Joo Hae-young, que estava olhando pela janela em silêncio por um longo tempo, murmurou em uma voz cheia de arrependimento.
— Eu não deveria ter deixado esse garoto com você.
Já ouvi isso outra vez, há muito tempo.
— Concordo.
Quando prontamente expressei minha intenção de concordar com ela, Joo Hae-young abriu um sorriso um tanto depreciativo.
Há muito tempo atrás, foi ninguém menos que Joo Hae-young quem me deu Lee Soo-ha. Não foi intencional, mas ela acabou agindo como uma cafetina. Tenho certeza de que ela não pensou que as coisas iriam acabar assim. Mesmo que fossem alfa e ômega, ela nunca poderia imaginar que seu irmão e seu filho acabariam se relacionando. Foi uma decisão descuidada tomada por Joo Hae-young que era uma beta e não entendia o temperamento de um alfa. Na verdade eu também ignorei esse ponto.
Mesmo que Joo Hae-young não soubesse, eu deveria saber assim que o vi: que iria me apaixonar profundamente por Lee Soo-ha.
Mas na época eu não me dei conta.
Um sobrinho, jovem. Isso já não era motivo suficiente para eu não me apaixonar por Lee Soo-ha? O freio moral é a rédea mais útil para controlar os impulsos carnais. Bem, eu pensei assim.
Mas não foi. Minha convicção não passava de presunção. O orgulho me pegou desprevenido. Fui pega de surpresa e acabei caindo nisso. Mesmo tendo me apaixonado, não admiti e falhei devido a minha arrogância.
Eu me arrependi e ainda estou infeliz com isso.
Lancei meu olhar para o túmulo de luz e, no longo silêncio trazido pela noite, comecei a refletir sobre o passado.
°
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Continua…
Tradução: Rize
Revisão: MiMi