Capítulo 05
Caminhei perto da estação e parei em uma floricultura.
— Como gostaria das flores?
— Pode fazer como preferir.
— Para quem você vai dar?
— Uma mulher.
— Oh, é um presente para sua amante? Vou fazer algo bem bonito.
Sem saber nada sobre flores, respondi de modo grosseiro e fui recompensado com um grande buquê de flores. Saí com o buquê nos braços e peguei meu telefone celular.
— 010…….
Completando calmamente o número de onze dígitos, recitei o número que tinha gravado em meu cérebro ruim. Ao verificar o número inserido na tela e pressionar o botão de chamada, ouvir o som de espera.
Tumm… Tumm…
Em seguida, o som foi cortado. E.
[Alo?]
A voz da mulher surgiu.
Como esperado, a mulher não era Joo Hae-young, que eu conheci ontem à tarde. Mesmo considerando o som através do celular, a voz parecia completamente diferente. A pessoa que atendeu o telefone era obviamente outra pessoa.
Mantive os olhos fixados na placa da floricultura de onde acabara de sair e abrira boca com indiferença.
— Olá. Gostaria de entregar flores a pedido do CEO Joo. Estou ligando para verificar o endereço.
A mentira fluiu de maneira tão natural que eu até fiquei surpreso.
Juro que não pensei em fazer isso até sair de casa. Eu ia apenas dar uma caminhada, ir a um café, matar o tempo. Mas, como uma dica, uma floricultura de repente se destacou e o plano veio até mim. Foi bastante espontâneo e impulsivo. No entanto, era surpreendente que as palavras saíssem suavemente sem qualquer tremor, hesitação ou culpa.
Sou esse tipo de pessoa tão descarada?
[Oh, sério?]
Sua voz estava cheia de emoção. Felizmente, ela não parecia ter notado minha mentira. A mulher me deu o endereço sem pensar duas vezes.
Foi fácil.
Os cantos da minha boca subiram.
*
Olhei inexpressivamente para o prédio alto.
Era definitivamente a primeira vez que via esse edifício, mas me parecia estranhamente familiar. Eu já estive neste lugar antes?
……Não, não, claro que não.
Costumava ter estes sentimentos estranhos e inexplicáveis que não conseguia explicar logicamente.
Edifício A- Apartamento: 3402.
Fiz meu caminho até a entrada principal do prédio, lembrando da direção que a mulher havia apontado. Nesse momento, uma moça apareceu. Foi fácil entrar. Apanhei o elevador para o 34º andar. Havia apenas dois apartamentos por andar e, assim que desci do elevador, pude ver meu destino. Fiz uma pausa na porta, recitei as falas que tinha preparado em minha cabeça e toquei a campainha do apartamento.
Ding-dong.
Um som alto veio. Posteriormente, uma voz de mulher misturada com sons eletrônicos saiu do interfone instalado na parede ao lado da porta de entrada.
— Quem é?
Inclinei-me ligeiramente e falei no interfone.
— Entrega.
— Espere um minuto.
Foi muito fácil.
A mulher não parecia muito cautelosa, vendo que ela acreditava cegamente em tudo que eu dizia.
Logo a porta da frente foi aberta. Levantei os cantos da boca e estendi o buquê que estava segurando para a mulher.
— Olá, o Sr. Joo Hae-won as enviou.
Não sabia o nome da mulher, então não tive escolha a não ser falar o nome dele. Com as flores expostas, examinei cuidadosamente a expressão da mulher. O rosto dela, que parecia um tanto surpresa com o buquê, se iluminou visivelmente ao ouvir o nome do homem. A emoção que eu havia sentido ao telefone se refletia agora no rosto dela.
— Oh, meu Deus…
A mulher aparentemente ficou encantada com o presente. Ao ponto de me arrepender de ter mentido.
Eu tinha certeza de duas coisas.
Uma delas era que foi essa mulher quem ligou para ele de madrugada.
A outra é que essa mulher deve ter tido mais sentimentos do que um simples gostar de um homem chamado Ju Hae-won.
Em outras palavras, as flores eram a escolha certa para abrir o coração de uma mulher.
Era possível ver uma parte da sala por cima pelo ombro da mulher que estava emocionada com as flores em seus braços. Escutei um som fraco. Haviam vozes, canções e sons engraçados que só seriam ouvidos em programas infantis. Inclinei um pouco a cabeça, procurando uma lacuna que me permitisse ver o interior. O sorriso da mulher endureceu levemente, como se ela finalmente tivesse se dado conta dos meus olhos curiosos.
— Obrigado pela entrega. Então…
A mulher agarrou a maçaneta e tentou puxar a porta para dentro. Bloqueei a porta com um pé. A mulher vacilou e tremeu de surpresa com o que eu havia feito. Estalei língua para dentro e coloquei um sorriso falso no rosto para tranquilizar a mulher.
— Posso tomar um copo d’água?
— Água?
A mulher reagiu com trepidação aberta. Eu entendi. Também reagiria assim.
Eu arqueei minhas sobrancelhas e fingi estar constrangido.
— Sinto muito. Estou com muita sede, minha garganta está extremamente seca.
— Hm… eu já volto.
Eventualmente, a mulher não pôde recusar o meu pedido e foi buscar água. Que pessoa simpática, ela poderia simplesmente ter recusado. Sua bondade desencadeou minha culpa. Mas o que poderia fazer? Eu já tinha mentido.
Olhei para a sapateira com o pé bloqueando a porta. Vi alguns sapatos que uma mulher usaria e um par de tênis amarelo de criança menor que caberiam na palma da minha mão.
Olhando para os tênis, levantei a cabeça de repente com o olhar que senti de repente. Dentro do curto corredor que ligava a porta da frente e a sala de estar, vi uma criança escondida atrás da parede, mostrando apenas o rosto.
Assim que vi a criança…
Assim que eu o vi, soube. Era o filho dele.
— …
— …
A criança estava me observando atentamente com seus grandes olhos cheios de curiosidade. Eu fiz o mesmo. Encarei o rosto da criança, que se assemelhava ao rosto dele.
— O que você está fazendo aí, Soohyun? Eu disse para você se sentar em uma cadeira enquanto come seu lanche.
A mulher com um copo d’água da mão repreendeu afetuosamente a criança. Como resultado, o menino desapareceu completamente atrás da parede.
— Por favor, beba.
Peguei o copo que a mulher ofereceu, bebi a água, devolvi e disse com uma voz sorridente.
— Ele é muito bonito mesmo sendo tão jovem.
A mulher respondeu alegremente ao elogio à criança, baixando a guarda na hora.
— Sim. Talvez seja porque ele se parece muito com o pai.
~~~
A confirmação chegou tão facilmente.
Mas por que estou curioso sobre isso? E para que serve essa confirmação? Era apenas um desejo de conhecer, então fui movido por um impulso. Graças a ela, descobri tudo o que queria saber.
Agora, o que devo fazer? Tenho que reavaliar minha situação.
Eu acreditava que ele tinha me comprado para ter um filho comigo, um ômega. Mas estava errado. Sim, eu não estava destinado a ser semeado, porque meu corpo não podia desenvolver tal papel. E ele já tinha um filho. Além disso, havia uma mulher que deu à luz a criança.
Então o que eu sou?
Eu sou… eu sou um ômega.
Um ômega que não pode ser semeado por alfa, ou seja……
— Uma prostituta.
Como se aceitasse, peguei as palavras que passaram por minha mente e as coloquei na língua.
Prostituta… uma prostituta……. Isso não soa como um roteiro de filme pornô de terceira categoria?
Mas, ironicamente, o palpite era plausível.
Alfas e ômegas são otimizados para reprodução, mas também dizem que são bons para o sexo. De fato, fazemos amor com freqüência e, embora houvesse vários propósitos em nosso sexo, eu assumi que o maior deles era copular com o objetivo da concepção. Ele provavelmente estava apenas se divertindo. Se não era para reprodução, então o que era? Sexo para obter prazer?
Sim, acho que sim.
Sou uma ferramenta sexual. Isso faz sentido.
Tudo bem. As coisas agora eram diferentes, mas nada mudou realmente. Apenas o objetivo da relação. Não importa se ele tem um filho e uma mulher. Se eu puder ser útil para ele, é o suficiente. Enquanto meu corpo tiver alguma utilidade eu não serei descartado. Eu não esperava nada em primeiro lugar, então não havia necessidade de ficar desapontado.
No entanto, uma nova pergunta veio à mente.
Pode-se estimar que existem três razões pelas quais um ômega não possui órgãos reprodutivos. Nascido sem ele, removido cirurgicamente ou degradado por meio de medicação.
Mas não importa o quanto eu pensasse sobre isso, nada fazia sentido. Se eu tivesse uma deformidade congênita, a instituição onde eu estava antes não poderia me considerar uma mercadoria. Este corpo teria sido incinerado. Fazia mais sentido dizer que meus órgãos reprodutivos desapareceram devido a fatores adquiridos. Isso é o que o médico pensava.
Uma droga hormonal sem eficácia. O remédio que tomava há um ano, era mesmo uma droga hormonal?
“Aquele bastardo te meteu nessa confusão.”
A voz da mulher chamada Joo Hae-young passou pela minha mente. Como se fosse a resposta à minha pergunta.
— Ha ha….
Depois de muito pensar, a conclusão a que cheguei foi tão desastrosa que parei de rir. Mas era estranho. O rosto refletido na janela do carro estava terrivelmente distorto.
Eu ri, mas o reflexo na janela do carro parecia estar chorando.
— Sim. Ele era um verdadeiro filho da puta, um bastardo.
Neste momento, finalmente compreendi porque a mulher disse isso.
~~~
De acordo com as regras que havia estabelecido, cheguei em casa antes das 18 horas e comi o jantar preparado pela empregada. Como sempre, a ajudante trouxe um copo com água e o remédio.
Peguei o remédio na minha frente e o coloquei na frente dos olhos. A mulher me lançou um olhar desconfiado por eu ter feito algo estranho.
Perguntei à ajudante enquanto olhava para o remédio.
— Você sabe que remédio é esse?
— Eu sei que é uma droga hormonal.
— Isso mesmo. Isso é o que eu sei também.
— Algum problema?
— Sim.
Peguei o comprimido que estava segurando entre os dedos e joguei no ar. Bam! O remédio que atingiu a geladeira se desfez em pedaços e se espalhou em todas as direções.
A mulher fez um som estrangulado de espanto.
— Ei, o que você está fazendo……!
Eu sorri quando olhei para ela. E falei claramente.
— Porque? Eu não quero tomá-lo.
Neguei intensamente. Toda aquela situação me deixou enjoado. Claro, ainda era muito cedo para tirar conclusões precipitadas. Podem ser realmente hormônios. Mas e daí? Não importa. Mesmo que usasse isso, seria inútil.
Ele tinha outra mulher.
Já tinha um filho.
Eu sou…
…… Eu não sou nada.
Qualquer coisa que não traga nenhum benefício será descartado algum dia.
— Se o chefe descobrir……!
— Diga…. Não me importa. Não ligo se ele ficar com raiva. Oh, talvez ele possa me expulsar agora.
A mulher ficou atordoada e parecia sem palavras quando eu me levantei.
* * *
Nos dois dias seguintes, dormi sempre que pude. O sono que eu havia perdido por quase um mês pareceu me atingir de uma só vez.
Durante o sono, tive vários sonhos. Os sonhos que pareciam mais pesadelos eram muito nítidos, a ponto de eu não saber dizer se eram reais ou não. Por isso, mesmo após acordar, costumava me sentir sobrecarregado com a situação e as emoções que havia experimentado nos sonhos por muito tempo. E na maioria das vezes, essas emoções tinham características negativas.
Tristeza, raiva, dor, saudade. Coisas assim.
É ele quem me dá essa sensação. Para ser mais exato, o homem chamado Joo Hae-won que sempre aparece nos meus sonhos.
Ele me engana em meus sonhos. Em alguns, estou morrendo, ressentido com ele. Vendo-me quase morto, ele se arrepende. Fico feliz em vê-lo arrependido. O sonho se repete uma e outra vez.
Ele sabia. Ele sabia de tudo……
Mesmo após acordar, fui dominado por emoções persistentes e falei sobre coisas sem sentido com uma voz nebulosa.
— Ele sabia…….
De repente… senti como se estivesse enlouquecendo. O desejo de quebrar e rasgar algo era extremamente forte. Estava sufocado e sem fôlego.
Joguei de lado o cobertor e sai da cama. O lugar estava escuro e quieto. Ao contrário das emoções intensas que queimavam em meu estômago, meu corpo se movia lentamente, com um humor difuso e persistente.
Quando abri a porta e saí para a sala de estar, vi a empregada enrolada no sofá, dormindo. Ela vinha me observando de perto todos os dias, desde que me recusei a tomar a medicação e joguei fora os comprimidos. Mesmo quando eu estava dormindo, sabia que ela abriria a porta de tempos em tempos para verificar o meu estado. Não sei se era porque ela estava preocupada de que eu fizesse algo estranho novamente, ou porque ele tinha a ordenado.
Olhei atentamente para a mulher que parecia ter adormecido antes de me dirigir para a porta da frente. Não, na verdade, eu ia, mas parei.
— ……
Não sei por que, mas meu olhar se dirigiu instintivamente para a cozinha. Caminhei naquela direção como se estivesse possuído. Enquanto piscava meus olhos ainda atordoados em frente à pia, abri a gaveta menor do canto, uma que ninguém notaria a menos que olhasse de perto. Ali, encontrei um conjunto de facas de vários tamanhos. Levantei a menor delas, uma faca de frutas, e após olhar cuidadosamente, coloquei a lâmina contra a cicatriz em meu pulso esquerdo.
Murmurei em voz baixa.
— Encaixa perfeitamente.
Click.
Ouvi o som da maçaneta.
Era o mesmo som de quando se insere uma chave no buraco da fechadura para destrancar.
* * *
Foi no dia em que ele voltou.
A empregada me informou que ele iria jantar em casa. Eu assenti com a cabeça sem qualquer emoção. Ultimamente, mesmo quando estou totalmente acordado, minha mente permanece vazia.
Mesmo dormindo todas as noites, sempre tinha pesadelos, então não conseguia me sentir nem um pouco revigorado. A sensação de exaustão só aumentava a cada dia. Era como se a minha mente estivesse afundado em um pântano sem fundo.
Tomar café da manhã, dormir, me levantar, almoçar, dormir novamente……. Quando acordava exausto do sono, saia da cama e olhava pela janela, atordoado, tentando matar o tempo.
— O chefe disse que vai voltar em breve.
A voz da mulher me tirou do meu estado de sonolência, voltando aos meus sentidos. Verifiquei meu relógio e balancei a cabeça.
— Ah, já é tarde.
Já eram 18h. Era verão, então os dias eram longos e o sol ainda brilhava. Por isso, não percebi a hora passar.
Eu me arrastei até o banheiro.
Primeiro, abri a água fria da banheira, saí para o lavabo, pisei na prateleira do armário de baixo e coloquei a mão no vão entre o teto e o espelho. A faca de frutas estava na minha mão. Encontrei-a na madrugada de alguns dias atrás e a escondi.
Desci com a faca na mão e me olhei no espelho.
Meu reflexo no espelho estava sorrindo. Era um sorriso mesquinho e feio.
Alguém sussurrou para mim.
Lá vamos nós novamente.
— Eu sei.
Acho que agora eu sei com certeza o que ele pensa de mim e por que eu não perguntei ou não quis perguntar.
Porque eu não quero ouvir. Porque não quero me decepcionar. Porque eu não queria acreditar.
Se você me dissesse que eu era apenas uma ferramenta, eu ficaria desapontado; se me dissesse que me ama, eu teria acreditado. Não seria bom de qualquer forma. Por isso, optei por não ouvir.
Por sorte, nunca confiei nele.
Mas, infelizmente, acho que o amo.
Talvez eu tenha secretamente alimentado estranhas expectativas, e dito a mim mesmo que eu era especial para ele, que sua razão para me manter por perto era o afeto. Mas isso foi um erro.
Não há como negar o ódio e a raiva que se sucederam, e que a causa desses sentimentos é a presença da criança e da mulher.
O ódio se transformou em um monstro que sussurrava para mim.
Vingança.
A raiva deu força aos meus impulsos destrutivos.
Você já sabe como.
A banheira estava cheia de água. Entrei ainda vestido na água, deitei e recostei a cabeça na beirada da banheira.
De repente, percebi o que era a cicatriz em meu pulso esquerdo.
Eu fiz isso.
Sim, eu já fiz isso antes.
Por isso não tenho medo. Tudo é mais difícil da primeira vez, depois fica fácil.
Como um louco, coloquei a lâmina no meu pulso esquerdo. E sem hesitar, deslizei a faca pela carne macia.
— Oh….
Como esperado, dói. Mas me sinto aliviado.
Uma vez só não foi suficiente. Então, eu passei a lâmina no mesmo local outra vez, cortando o mesmo ponto. Mergulhei a mão com um fluxo de sangue constante na água fria. O sangue se espalhou na água como uma onda vermelha. Senti minha força vital escoar para fora do meu corpo.
Lentamente fechei meus olhos, feliz por estar por está perdendo a consciência.
Bum!
Um estrondo soou em meus ouvidos já embaçados. Foi um som violento que abalou a consciência que estava se perdendo.
O que é? De repente, meu corpo foi puxado para cima.
— Lee Soo-ha!
Minhas pálpebras pesadas se contorceram e se abriram, enquanto meus olhos seguiram a voz áspera. Minha visão estava turva, mas pude ver claramente o homem.
— Como você pôde……! Por que diabos!?
Desespero e raiva podiam ser lidos em sua expressão distorcida.
Haha.
Fiquei em êxtase, como nos meus sonhos. Minha risada o deixou sem fôlego. Colocando a mão ensanguentada em seu rosto, eu ri o mais forte que pude.
— ……porque eu odeio você.
Eu o odeio. A ponto de querer me despedaçar e mostrar a ele.
— Me diz por quê. Por favor, você quer me deixar louco!
— Na verdade, eu… Eu sei de tudo. Sei que você vai me abandonar de novo.
— Eu não vou.
— Você está mentindo
Você é esse tipo de pessoa. Um homem cruel que finge estar apaixonado e acaba enganando e jogando a pessoa no inferno. Como eu sei? Eu já passei por isso.
— Você teria me jogado fora em algum momento.
Aqueles que não são escolhidos, acabam sendo abandonados. Pensando bem, eu sempre fui do tipo que seria descartado. Então você com certeza teria me jogado fora algum dia.
Não. Ele já me abandonou uma vez. Escolher outra pessoa em si foi um ato de me abandonar.
— Eu te disse. Eu quero que você seja infeliz por minha causa……
Ah, de novo. Uma sensação desconhecida de déjà vu que muitas vezes me assombrava tomou conta de mim. Talvez… não, eu definitivamente já disse isso antes. Exatamente igual hoje.
Quando percebi isso, uma alucinação auditiva soou em minha cabeça.
Crack!
Foi o mesmo barulho que ouvi quando encontrei a faca de frutas na cozinha de madrugada. Acho que sei qual é a identidade do som agora.
Era o som de algo sendo aberto. A fechadura da sala, onde as memórias dolorosas estavam confinadas, foi completamente destrancada.
E agora a porta estava aberta.
Uma enxurrada de memórias enchera minha cabeça. Assim, meu presente fictício diminuiu e o passado real, o que eu realmente experimentei, começou a voltar à tona.
As memórias mudaram a partir do ponto em que acreditei que fosse a primeira vez.
Na verdade, a instalação em que estive trancado por tanto tempo não era um antro de tráfico humano. Era um hospital para doentes mentais.
Eu sou…
Eu sou um homem doente.
Um idiota que tentou suicídio após ser ferido pela pessoa amada. Um psicopata que não suportava a solidão e, por isso, apagou suas memórias e as mascarou com delírios. Um cadáver que tinha murchado e estava apenas respirando.
Ele não era um homem benevolente que conhecia e estava disposto a me abraçar apesar das minhas falhas. Ele era um homem cruel que me machucou, me quebrou. Um mentiroso que fingiu me amar, mas que acabou escolhendo outra pessoa.
E ele também é…
— É por sua causa que eu me tornei assim……
O homem que eu amava.
— Foi tudo por causa do meu tio……
Ele também era meu tio.
— Ha ha ha…!
Ri como um louco, sacudindo os ombros.
A realidade de repente desabou drasticamente sobre mim. Minhas emoções se tornaram tão complexas quanto as memórias que começaram a se entrelaçar. Ódio e saudade, alegria e desespero se mesclavam em minha mente.
O sorriso grotesco gradualmente se transformou em um choro triste.
Sim. Todas as configurações e histórias atuais que afirmei serem verdadeiras até agora eram falsas. Não passava de uma ficção criada pela ilusão.
A realidade é esta, totalmente despedaçada.
Uma imaginação criada para evitar ter expectativas sobre ele.
Uma luta para não amá-lo.
Defesas que eu criei para não me machucar novamente.
Era o meu MacGuffin.
°
°
Continua…
Tradução: Rize
Revisão: MiMi