• Capítulo 98
Capítulo 98
Ele recolocou o cigarro entre os dedos e olhou para Kang Jiwon. Seus olhos se estreitaram, e seu olhar ficou sonhador naquele instante, como se ele já estivesse bêbado ou imaginando outra coisa na cabeça.
— O Siyul era originalmente…
As palavras foram abafadas pelo cigarro entre os dentes. Embora ela tivesse perguntado “O quê?”, Woo Hyunse ficou em silêncio por um momento ali. A cinza cinzenta cresceu comprida. Antes que caísse sobre a mesa, ele pegou um guardanapo e bateu a cinza nele.
— É uma coisa que eu nunca pensei que veria — você com o coração partido por um romance fracassado.
— Quando é que eu…
Embora seu rosto estivesse claramente abatido pelo sofrimento emocional, ele insistia em manter as aparências até o fim. Em vez de achar irritante, Kang Jiwon olhou para ele com compaixão, como para uma criança que não entendia os próprios sentimentos e tentava manter o orgulho. O motivo pelo qual Kwon Siyul tinha partido era claro para ela como terceira pessoa, mas parecia que Woo Hyunse ainda não queria admitir.
— Eu já me perguntei algumas vezes: o CEO já amou alguém de verdade, de todo o coração? Ou esse dia algum dia vai chegar?
— Eu já namorei, não já?
— Você realmente acha que aquilo era namorar? Era só brincar de casinha.
Mesmo que ele dissesse que estavam namorando, mesmo que passassem tempo juntos, era difícil chamar de namoro se as emoções não estavam envolvidas. Kang Jiwon começou a se perguntar o que todas aquelas coisas que Woo Hyunse tinha feito até então, aquelas coisas chamadas de “namoro”, realmente eram. Embora fossem rotuladas como namoro, as emoções compartilhadas eram rasas como um riacho.
Algo que você poderia soltar a qualquer momento sem arrependimento, sem se machucar, onde o espaço vazio poderia ser facilmente preenchido de novo.
— Qual é a diferença?
Kang Jiwon cruzou os braços e olhou para Woo Hyunse. Ela não queria trazer à tona acontecimentos passados, mas parecia que precisava dar de colherinha para que ele entendesse nem que fosse um pouco.
— Quando a gente terminou. Você conseguia viver sem mim?
— Sim.
Nem um momento de hesitação. O tempo de se magoar com isso já tinha passado havia muito. Kang Jiwon continuou:
— E quando você terminou com as outras?
— Por que eu não conseguiria seguir em frente?
— Então e o Siyul?
— Claro que…
— Você consegue viver bem sem Kwon Siyul?
Parecia que ele estava prestes a responder “Sim”. Mas, embora seus lábios tenham se entreaberto, nenhum som saiu deles. Parecia entalado em sua garganta ou na ponta da língua. Ele tentou cuspir aquilo várias vezes, mas simplesmente não conseguiu.
— …Consigo.
Ele virou o copo de bebida pela metade e respondeu junto com isso. Sua voz carecia de força. Woo Hyunse mexeu no copo, encarando o recipiente vazio. Como se o rosto de alguém estivesse refletido nele.
— Se você sente que não consegue viver sem eles, pense mais uma vez.
Woo Hyunse encarou sem expressão. Havia um ponto de interrogação flutuando em seus olhos.
— O que isso significa…
Mesmo que Kang Jiwon tivesse colocado o gabarito na frente dele, se ele não conseguia entender, esse era um problema dele. A consultoria terminava ali. Ignorando o olhar dele, que parecia querer perguntar mais, Kang Jiwon colocou a garrafa de bebida de volta no lugar.
* * *
O sono não vinha. Depois de encarar o teto sem expressão, Woo Hyunse percebeu que a manhã tinha chegado quando a luz do amanhecer encheu o quarto. Seguiram-se dias em sequência em que ele se levantava mecanicamente, ia trabalhar, voltava para casa e tentava, sem conseguir, dormir.
Mesmo que bebesse muito, longe de ficar bêbado, ele só acabava com o estômago azedo e uma ressaca. Exercício também não ajudava. Woo Hyunse chegou a conseguir uma receita de pílulas para dormir. Embora adormecesse como quem desmaia, ficava grogue o dia todo e com uma dor de cabeça terrível, então, depois de tomá-las uma vez, enfiou-as numa gaveta.
Memórias vinham à tona não importava para onde ele olhasse. Não havia um lugar que as mãos de Kwon Siyul não tivessem tocado ou onde seus pés não tivessem pisado.
Kwon Siyul se deitava de bruços perto da janela, espalhando peças minúsculas de quebra-cabeça, balançando as pernas enquanto as montava. Quando as coisas não saíam como queria, ocasionalmente franzia as sobrancelhas longas e retas. Mordia o lábio inferior, girando peças diferentes entre os dedos antes de encaixá-las nos vãos. E, quando uma peça se encaixava perfeitamente, sorria tão radiante que ofuscava a própria luz, com os olhos enrugando nos cantos.
Woo Hyunse tinha achado que mudar a disposição dos móveis poderia ajudar, mas não ajudou. Chegou a encomendar sofás e mesas novos, mas mudou de ideia um dia depois. Não queria realmente substituí-los. Inventou desculpas de que ainda estavam utilizáveis.
Achando que poderia ser melhor se não visse sua casa, mudou-se para um hotel. Foi uma escolha um pouco melhor. No espaço novo, conseguia dormir razoavelmente bem. No entanto, isso não durou nem dois dias inteiros. Logo estava de volta à estaca zero. Mesmo que conseguisse cochilar, acordava de repente sentindo um frio particular. Percebendo que ninguém estava apoiado em seu braço estendido, sua sonolência desaparecia instantaneamente.
Ele não conseguia dormir de jeito nenhum. Seus nervos ficavam cada vez mais à flor da pele. Ficava irritado com coisas das quais teria rido antes. Todos ao seu redor perguntavam por que ele tinha ficado tão sensível. Quando indagavam em uníssono se ele sempre tinha sido tão espinhoso, ele muitas vezes não respondia. A única resposta que tinha à mão eram palavrões.
Até com Woo Jihye, a caçula, ele não conseguia falar com gentileza. Ou ignorava suas ligações ou, se atendia, sua primeira pergunta era por que ela tinha ligado desnecessariamente.
— Oppa, você está estranho.
Eles estavam reunidos na casa da família naquele dia. Woo Jihye se aproximou com cautela e fez beicinho enquanto resmungava.
Ele queria ter escapado, mas, sentindo-se culpado por magoar os sentimentos de Woo Jihye, veio apesar do incômodo. Antes de entrar, tinha suprimido seu humor oscilante fumando um cigarro atrás do outro, mas pensar em ver as irmãs Woo fez sua raiva subir de novo.
Era porque ele não tinha conseguido dormir na noite anterior também. Se soubesse, teria tomado pílulas para dormir e dormido de qualquer jeito.
— Eu?
— É. Está acontecendo alguma coisa esses dias?
— Sempre está acontecendo alguma coisa.
Ele estava prestes a beber o café, mas estalou a língua e pousou a xícara. Elas deviam claramente ver sua tez de quem não dorme, e ainda assim a hospitalidade era ruim. Esfregou o rosto, em parte para esconder a testa franzida, e então se lembrou tardiamente de que ele mesmo tinha pedido aquele café.
— Você está doente?
— Não.
— Então…
―Eu não dormi bem ontem, então, quando falei com você, eu estava em mau estado de tanto me revirar. Vou tirar um cochilo rápido. Aí eu fico bem.
Ele olhou para Woo Jihye, tentando não ser grosseiro. Era uma voz que ele tinha tentado tornar gentil, mas os olhos de Woo Jihye se turvaram de insatisfação, como se não tivesse soado assim para ela. Ele não tinha paciência para acalmá-la. Recostou-se na cadeira e fechou os olhos. O sono, claro, não veio naquele momento.
Ele abriu os olhos ao som de passos entrando na sala. Era Woo Gibbeum. Ela disse que tinha mandado seus sobrinhos barulhentos e o marido para o Havaí, onde estavam os sogros.
Embora conseguisse tolerar Woo Jihye, ver o rosto de Woo Gibbeum de repente lhe deu vontade de bater em alguma coisa. Desejava que houvesse um saco de pancadas à sua frente. Ou pelo menos alguém para espancar.
— Aconteceu alguma coisa com você?
— Do que você está falando?
— Aconteceu alguma coisa, seu desgraçado.
— Porra…
Ele normalmente não xinga na frente das irmãs. Os ombros de Woo Jihye se sobressaltaram enquanto ela o encarava de olhos arregalados. Independentemente disso, Woo Hyunse apenas pressionou as pálpebras latejantes com as mãos.
— Não me enche. Fica quieta e vai embora.
— Que é isso? Você está no Rut?
Ele a encarou em silêncio. Se pudesse, queria quebrar aquele pescoço. Era uma intenção assassina que não sentia havia muito tempo. Foi uma sorte que todos os outros ali fossem betas — se uma única pessoa tivesse percebido sua energia, teria se sentado tremendo como um rato. Só Woo Jihye, sensível como uma coelha embora fosse beta, percebeu a aura gélida de Woo Hyunse e agarrou o braço da irmã.
— Não briguem. O papai vai chegar logo.
Woo Gibbeum, que estava prestes a explodir, deu um passo atrás. Woo Hyunse também não queria causar problemas na casa da família. Isso só aumentaria o tempo de sermão.
Logo depois, o patriarca apareceu com uma tosse falsa. Apesar de o secretário Yoon ter dito que ele estava com sintomas de resfriado, sua tez parecia pelo menos mais vigorosa que a de Woo Hyunse. Se ia ficar doente, deveria ter vindo dramaticamente numa cadeira de rodas com soro no braço. Vê-lo parecer mais saudável que ele mesmo revirou o estômago de Woo Hyunse.
— Por que o clima está assim? E por que você está com essa cara?
Ele apontou para Woo Hyunse e inevitavelmente disse alguma coisa. Ele tentou sorrir como de costume, mas seus músculos faciais não deixavam os cantos da boca subirem. Para esconder sua expressão estranha, que não era nem um sorriso nem inexpressiva, fingiu beber o café.
— Não estou me sentindo bem.
— Jovem que não se cuida.
Ele estala a língua em reprovação. Woo Hyunse baixou a cabeça, fingindo não ouvir. Seus nervos estavam concentrados em suprimir a energia que insistia em se erguer com nitidez.
— Bom, eu soube pelo deputado Kim. Você vai se casar este ano, ele disse. Por que eu tenho que ouvir uma boa notícia dessas dele? Seria bom se você me informasse imediatamente. Morar longe de casa fez você perder o juízo.
— …
— A Seohee é realmente uma garota boa e decente. Hoje em dia, os jovens se recusam egoisticamente a ter filhos, mas a Seohee, que Deus a abençoe, diz que vai ter um filho logo depois do casamento. Quando vem um filho, mesmo que você se desvie, é a presença da mãe que traz você de volta.
Diante dessas palavras, Woo Gibbeum apertou com força a mão apoiada na coxa. Sua expressão permaneceu calma. Embora Woo Hyunse visse isso bem à sua frente, ele apenas baixou os olhos em silêncio.
— Se você só a mantiver sob controle, ela vai cuidar sozinha daquela situação do officetel do Yang Hyedong. Todo mundo tem um defeito ou dois, afinal.
Enquanto o sermão continuava, Woo Hyunse pensava em outras coisas. Caso contrário, sentia que poderia se levantar e ir embora imediatamente, mesmo que o patriarca lhe acertasse a nuca com um taco de golfe. Coisas a terminar hoje, questões a resolver esta semana, voltar ao hotel depois de sair dali, imaginar-se deitado na cama e fechando os olhos, e então…
Kwon Siyul.
°🥂⋆.ೃ🍾࿔*:・°🥂⋆.ೃ🍾࿔*:・
Continua *ੈ🍸✩‧₊˚
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna