• Capítulo 97
Capítulo 97
Era um dia excepcionalmente frio com neve pesada, como se o fim do inverno tivesse ciúmes da primavera que se aproximava. As ruas tinham estado lotadas de carros até tarde da noite, mas, quando o bar começou a fechar as portas, tinha ficado muito mais silencioso. De vez em quando, carros que não aguentaram as condições se amontoavam lamentavelmente pelas calçadas.
Os táxis ainda estariam rodando? Se não, talvez tivessem que passar a noite no bar. Esses incidentes aconteciam com frequência suficiente para que tivessem montado um pequeno quarto atrás do vestiário. Isso também tinha sido ideia de Woo Hyunse. Ele disse que os funcionários não deviam se esforçar para ir para casa com mau tempo e deviam descansar confortavelmente no estabelecimento. Era difícil dizer se era ato de um empregador perverso ou consideração gentil de sua parte.
Os outros funcionários tinham sido mandados para casa às pressas antes que a neve se acumulasse até a altura dos joelhos. Caso algum cliente aparecesse, Kang Jiwon estava sozinho de guarda no bar.
Enquanto se espreguiçava e se levantava com um gemido, ouviu o tilintar do sino. Eles ainda não tinham virado a placa de “Fechado”. Quem quer que estivesse enfrentando aquela neve pesada para vir ali devia ser e tanto um beberrão. Esperando vender nem que fosse mais uma dose, Kang Jiwon colocou seu sorriso profissional.
— Bem-vindo… Ai, meu Deus.
Ele não conseguiu terminar direito o cumprimento e cobriu a boca com a mão. Um homem com um porte parecido com o de uma porta, tanto em tamanho quanto em altura, entrou, olhando ao redor do bar vazio. Kang Jiwon conseguia dizer quem era só pela sombra. Um físico daqueles não era comum. Mesmo entre as pessoas que Kang Jiwon conhecia, aquelas com aquela altura e porte podiam ser contadas numa mão.
Mas sua aparência não era a habitual de Woo Hyunse. O homem que sempre mantinha um traje perfeito com paletó e colete agora estava desalinhado. vaquinha
Usava apenas uma camisa sem gravata, e os botões de punho que uniam as mangas não estavam em lugar nenhum, como se tivessem sido vendidos em algum canto. A gola estava bem aberta, quase revelando a clavícula, e seu cabelo parecia completamente desarrumado, caindo bagunçado sobre a testa.
Ainda assim, Woo Hyunse continuava sendo Woo Hyunse. Surpresa com aquela aparência inesperada, a voz de Kang Jiwon subiu no final.
— Senhor CEO?
— O expediente acabou?
— Bom… Eu estava prestes a fechar. Gostaria de uma bebida?
Ele apenas assentiu com a cabeça sem dizer uma palavra. Kang Jiwon ofereceu um assento a Woo Hyunse, que estava parado como uma pedra, e foi para trás do balcão. Embora não fosse bartender, sabia fazer a maioria dos coquetéis. Além disso, Woo Hyunse preferia bebidas puras às elaboradas, então não deveria ser problema.
— Só temos petiscos básicos. A cozinha está fechada.
— Não importa.
— O de sempre?
— Sim.
Sua voz soava lânguida. Ele estaria passando por um cio? Olhando de relance sua tez, não havia calor perceptível. Kang Jiwon fingiu não notar e pegou uma garrafa de bebida enquanto observava Woo Hyunse o tempo todo.
Depois de mandar Kwon Siyul embora, Woo Hyunse vinha rondando dia sim, dia não, como se tivesse esquecido algo ali, mas em algum momento suas visitas foram ficando cada vez menos frequentes. Kang Jiwon tinha achado que eles estavam se encontrando em outro lugar, mas aquela aparição repentina era inesperada.
Algo significativo devia ter acontecido.
— Aliás, o que o traz aqui? Você veio mesmo só pra beber?
Ela perguntou com malícia. Woo Hyunse umedeceu os lábios com a bebida e a pousou. Sob a luz, estava claro que seu rosto tinha se deteriorado significativamente em comparação a antes. Ele parecia não dormir havia dias. Sua pele, antes lisa, estava áspera, e o cansaço estava profundamente marcado sob os olhos.
Seus olhos, cheios de preocupação, pareciam lamentáveis. Se Woo Hyunse se aproximasse de alguém buscando conforto, mesmo que tivessem assuntos urgentes, adiariam seus compromissos, se sentariam ao seu lado e ofereceriam uma palavra desajeitada de consolo para ajudá-lo a se sentir melhor.
— Que outro motivo existe pra vir a um bar?
Ela também tinha sido uma vítima enganada por aquele exterior reluzente. Dizer “vítima” talvez fosse um pouco exagerado, já que ela não perdeu nada. Maneiras excelentes, uma atitude gentil — Woo Hyunse era o namorado perfeito de manual. Ela nunca sentiu falta de nada materialmente.
Materialmente.
— Eu perguntei porque não parecia que você tinha só dado uma passada. Anda difícil te ver ultimamente. Você costumava vir com mais frequência.
Ele foi até descarado o bastante para contatá-la depois que terminaram, sugerindo que ela administrasse o bar. Na época, aquilo tinha deixado Kang Jiwon irritada. Se Woo Hyunse tivesse nem que fosse um resquício de sentimento por ela, não a teria contatado com tanta casualidade, como um velho colega de classe.
Mas Kang Jiwon era alguém que valorizava a realidade e a razão acima das emoções. A raiva passou rápido e, como já estava pesquisando sobre abrir o próprio negócio depois de sair da empresa, ela prontamente aceitou a oferta dele.
— Eu?
— Quando o Siyul estava aqui.
Girando lentamente o copo na mão, Woo Hyunse ergueu o olhar. Uma luz voltou a seus olhos antes apagados.
— Era assim?
— Eu achei que a soleira do nosso bar ia se gastar naquela época. Você não parava de atravessá-la. Estava tentando nos fazer reformar?
Os lábios de Woo Hyunse se curvaram num sorriso leve com a piada de Kang Jiwon. Mas logo se desfez. Woo Hyunse era alguém que andava por aí sempre com um sorriso no rosto. Para uma pessoa cujo sorriso era sua expressão neutra, hoje ele nem sequer erguia os cantos da boca.
— Eu não acho que eu tenha realmente entrado no bar.
— Mas vocês se encontravam por perto, não é? Naquela loja de conveniência ali. Vocês dois eram tão próximos, conversando sobre algo tão interessante.
Aquela loja de conveniência, bem longe dali, era o ponto de encontro de Woo Hyunse e Kwon Siyul. Como era na direção oposta ao seu caminho para casa, os outros talvez não soubessem, mas ela costumava ir a pé até lá comprar cigarros, como forma de já resolver seu exercício diário.
Kang Jiwon os tinha visto ali. Não era estranho que conhecidos se encontrassem e conversassem depois do trabalho. Além disso, Kwon Siyul não era alguém que Woo Hyunse tinha levado para lá?
Poderia ter sido isso, mas a densidade do ar entre eles era sutilmente diferente. O tronco de Woo Hyunse estava consistentemente inclinado na direção de Kwon Siyul. Até os dedos dos pés. Seu olhar sobre Kwon Siyul era relaxado e nunca o deixava. Uma pessoa que não tocaria em nada em que outros tivessem posto a boca bebia sem hesitação da bebida de Kwon Siyul.
Ela nunca tinha visto Woo Hyunse assim antes. Mesmo tendo namorado com ele uma vez. Será que ela sabia que ele podia olhar para alguém com aqueles olhos, que era capaz de apoiar o queixo na mão e se concentrar tão intensamente numa única pessoa? Ele não era do tipo cujos olhos permaneciam secos, olhando para as pessoas como se fossem objetos mesmo cara a cara?
Não era o tipo de situação em que Kang Jiwon pudesse se aproximar deles, então ela voltou em silêncio. Tinha testemunhado aquilo mais algumas vezes depois disso, então já tinha adivinhado que tipo de relação eles tinham mesmo antes de Kwon Siyul deixar o bar.
— Você viu isso?
— Como eu poderia não ver?
Woo Hyunse era gentil, mas simultaneamente indiferente. Ele daria todo o resto, mas mantinha seu afeto bem amarrado, sem deixar nem uma migalha cair de seu ser. Qualquer emoção além de simpatia era uma palavra inexistente para Woo Hyunse. No começo, ela tinha achado que era só com ela, mas, depois de observar seus relacionamentos passageiros de lado, percebeu que era simplesmente a natureza dele. Ele era como algodão-doce recém-fiado por fora, mas absolutamente frio por dentro.
— Você brigou com o Siyul?
— …
Não houve resposta. Ele apenas continuou virando as bebidas. Ele não estaria bebendo tanto por causa de uma simples briga.
— Vocês terminaram?
Assim que Kang Jiwon acertou na mosca, Woo Hyunse pousou o copo com aspereza. O baque alto ressoou pela loja vazia. As veias e tendões da mão que segurava o copo saltaram como se seu dono estivesse enfurecido.
Apesar da atitude ameaçadora, Kang Jiwon zombou com um “Ha”. O estado de Woo Hyunse era engraçado. Ele não tinha passado por incontáveis términos antes e ainda assim dormia tranquilamente e tocava seu trabalho normalmente?
— Não me diga que você levou um pé na bunda?
— Para com isso.
— Você levou um pé na bunda.
Kang Jiwon sorriu, franzindo os olhos como se achasse aquilo delicioso. Em contraste, as sobrancelhas de Woo Hyunse estavam profundamente franzidas. Temendo que ele pudesse quebrar o copo de tanto apertá-lo, Kang Jiwon rapidamente o tomou dele. Serviu mais bebida nele e o devolveu.
— Que tipo de erro enorme você cometeu?
— Eu não fiz nada de errado.
— Pensa bem. O Siyul é um bom garoto. Ele não é do tipo que vai embora sem motivo.
— …
Mesmo quando argumentavam com ele, ele mantinha a boca fechada, exercendo seu direito de permanecer calado. Então inclinou a cabeça para trás e soltou um longo suspiro. Remexeu nas roupas e tirou um cigarro. Embora fumar no bar fosse proibido, considerando que o expediente tinha acabado e o quanto ele devia estar perturbado, Kang Jiwon deixou passar. O jeito como ele sugava a fumaça, encovando as bochechas, parecendo ansioso e inquieto em vez de relaxado como antes, mexeu com seu coração.
— …Casamento é um problema tão grande assim?
— Casamento? Você vai se casar, senhor?
— Vou.
— Você é louco.
As palavras escaparam antes que ela pudesse contê-las. Embora tivesse coberto os lábios dizendo que foi um engano, seus pensamentos não tinham mudado. Claro que Kwon Siyul tinha motivo de sobra para ir embora.
— Quantas pessoas ficariam ao lado de alguém de quem gostam que vai se casar? Mesmo que lhes oferecessem uma fortuna.
— Por quê? Ela também tem um amante, e ela até comprou um officetel pra esse amante. Ele vai viver só como uma peça de exibição. Onde é que existe gente que casa por amor puro hoje em dia?
— Você não pode achar que todo mundo é como você, senhor. E o Siyul também não é.
Woo Hyunse riu seco. Havia convicção em sua crença de que não poderia ser assim.
— Gerente Kang, você não sabe o quanto o Siyul gosta de dinheiro. O que o Siyul costumava fazer…
Woo Hyunse aproveitou aquele momento para fazer uma pausa nas palavras e molhar os lábios com álcool.
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Continua *ੈ🍸✩‧₊˚
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna