• Capítulo 96
Capítulo 96
Ele ouviu uma porta se fechando. O som do elevador chegando se infiltrou pela fresta da porta, seguido pelo barulho mecânico pesado se afastando. Woo Hyunse ficou ali imóvel, se perguntando se ele poderia voltar a subir, atento a qualquer batida na porta ou som de botões sendo pressionados.
O tempo passou, mas não houve sinal de retorno. Seu pescoço ficou rígido, e ele baixou a cabeça devagar. Foi então que notou os sapatos novos em seus pés. Kwon Siyul tinha se ajoelhado e os calçado nele pessoalmente, alegando que era um presente. Talvez por serem novos, até ficar parado fazia seus pés e tornozelos latejarem insuportavelmente.
Ele tirou os sapatos e desabou no sofá, afundando no encosto. Seus olhos pareciam secos, então ele os fechou. A luz perfurava dolorosamente suas pálpebras.
— Droga… — xingou, erguendo o braço para cobrir os olhos. Na escuridão, as costas de Kwon Siyul tremeluziam. Ele sempre tinha sido pequeno, mas hoje parecia ainda menor. Sua cabeça, ombros, até sua nuca e costas. Parecia que, se ele o agarrasse, ele se desfaria como um castelo de areia sendo comido pelas ondas.
“Esta é a última vez. Não vá.”
Que expressão Kwon Siyul tinha quando se virou diante daquelas palavras? Ele se lembrava de que era um olhar determinado. Havia uma resolução em seus olhos de cortar aquela relação não importava o que acontecesse.
Quantas vezes ele o tinha detido? Confinando-o, perseguindo-o, ignorando seus pedidos chorosos para ser solto, observando cada movimento seu como um stalker malicioso. Ele poderia ter feito a mesma coisa de novo. Se ao menos não tivesse visto aqueles olhos. Mesmo que o segurasse, parecia que ele iria definhar ou quebrar o próprio pescoço pequeno de passarinho e morrer. Como ele poderia permitir que isso acontecesse? Não havia mais justificativa para detê-lo.
“Eu vou embora.”
Uma voz desprovida de sentimentos remanescentes ou afeto. Um riso autodepreciativo escapou de sua boca. Achando algo engraçado, Woo Hyunse riu por um tempo, os ombros sacudindo, antes de finalmente se acalmar com um suspiro profundo.
Ele já tinha ficado tão obcecado por alguém antes?
Olhando para trás, era pura loucura. Que emoções grandiosas ele poderia ter sentido por um órfão, um garoto que costumava vender drogas? Devia estar fora de si. Precisava cair em si. Tinha que enterrar aqueles dias enfeitiçados do passado e voltar à realidade.
Nem era tão sério assim desde o começo. Era para ser leve, algo com que brincar e descartar quando enjoasse. Existe um ditado sobre relacionamentos sazonais por um motivo. Na verdade, ele nunca tinha sofrido ao terminar com parceiros anteriores. Kwon Siyul não era diferente deles.
Tinha acabado.
O outro tinha soltado, e ele tinha recolhido a mão também.
Era só isso.
Ele baixou o braço e olhou para o teto. Sua mão encontrou um maço de cigarros no bolso. Tirou um e o colocou na boca. Quando Kwon Siyul estava por perto, ele evitava fumar conscientemente. Talvez por isso o maço, aberto já fazia um bom tempo, ainda estivesse pesado.
— …Estou cansado.
Ele o acendeu e deu uma tragada profunda. Depois de encher os pulmões de fumaça, soltou o ar devagar. Embora fosse o cigarro que ele sempre fumava, o cheiro se espalhando pela casa parecia estranho, como vestígios deixados por um completo desconhecido.
Nada tinha mudado. O vazio era um sentimento que se poderia ter até ao tirar um vaso de planta de casa. O dia seguinte não foi diferente, exceto por não conseguir dormir por causa da casa estranhamente silenciosa parecer esquisita. Acordou de manhã, encarou sem expressão o espaço vazio ao seu lado por um momento, e então se levantou.
Lavou-se e entrou na cozinha, abrindo a geladeira por hábito antes de fechá-la de novo. Não havia mais motivo para fazer café da manhã. Foi ao closet, vestiu a roupa e parou ao escolher uma gravata para o conjunto. Sentindo como se alguém o observasse por trás, virou a cabeça.
“Posso escolher a sua gravata?”
Uma visão fugaz de Kwon Siyul sentado na cadeira, balançando as pernas e olhando para ele, passou. Ele decidiu apenas pegar uma gravata qualquer, afastando a imagem persistente em sua mente. Ergueu a gola da camisa e começou a dar o nó. Mas não conseguiu terminar. Parecia que uma mão de dedos longos e pele excepcionalmente branca estava pousada na gravata.
— …
Ele pendurou a gravata descuidadamente no cabide e saiu do quarto. Chegou à entrada com as chaves do carro. Ao abrir a sapateira, seus olhos pousaram naqueles sapatos largados de qualquer jeito no chão. Sem querer tocá-los, ele os tinha deixado ali — um virado de cabeça para baixo, o outro caído torto.
Desviou rapidamente o olhar e tirou outro par de sapatos. Enquanto os calçava e abria a porta, assim como no closet, ouviu uma voz atrás dele que não deveria estar ali.
Não podia ser.
Ele sabia disso. Ainda assim, sua cabeça se virou automaticamente naquela direção.
“Tenha um bom dia. Dirija com cuidado.”
Com migalhas de torrada no canto da boca, vestindo um pijama folgado, esfregando os olhos sonolentos — era assim que o outro costumava se despedir. Achando adorável, ele envolvia os braços em sua cintura e…
A enxurrada contínua de memórias fez seus olhos latejarem. Ele pressionou os dedos contra a ponte do nariz para espantar a dor de cabeça e olhou para a frente. Abriu a porta da frente e saiu, ignorando a força invisível que insistia em puxá-lo de volta.
O silêncio na casa permanecia inalterado mesmo depois do trabalho. Nem o tique-taque do ponteiro dos segundos, nem os ocasionais sons mecânicos, nem ruídos distantes conseguiam quebrar aquela quietude estranha.
A imobilidade, antes familiar, agora o incomodava. Ele procurou o controle remoto e apertou o botão de ligar. Quando a TV ligou, a luz da tela e o som dos anúncios preencheram cada canto da casa escura.
Convidados de um programa desconhecido caíram na gargalhada. Embora também não fosse do seu gosto, era melhor do que não ouvir nada. Deixando o som ligado, entrou no banheiro. Mesmo depois de terminar de se lavar, o programa de variedades tedioso ainda não tinha acabado. Achando que o noticiário poderia ser melhor que aquilo, mudou de canal.
Ele devia secar o cabelo.
A menos que outra pessoa fizesse isso por ele, era só um incômodo. Sua mão, que vinha esfregando o cabelo com uma toalha, foi parando lentamente. No passado, essas rotinas diárias não tinham sido um problema.
Sentindo-se teimoso, ele se levantou de novo. Pegou o secador, mas foi só até aí que chegou. Não queria ligá-lo. Não era função dele. Ele devia abaixar a cabeça, e outra pessoa devia passar os dedos com delicadeza por seu cabelo e secá-lo para ele.
“Eu não vou gostar mais de você.”
Quem?
Kwon Siyul não vai gostar mais de mim? Como ele deveria ter reagido àquelas palavras? Deveria pelo menos ter abaixado a cabeça e agradecido por ter gostado dele até então? As emoções humanas podiam ser retiradas com tanta facilidade? Se alguém decidisse não gostar de outro a partir de hoje, isso significava que seus sentimentos eram cortados pela metade e jogados fora como lixo daquele dia em diante?
Tudo isso foi fácil para Kwon Siyul?
Houve um som de estalo, de algo quebrando. Olhando para baixo, viu rachaduras profundas no cabo do secador agarrado em sua mão. A borda afiada tinha arranhado sua palma, deixando um ferimento longo. O sangue se acumulou em forma redonda antes de escorrer.
— Hah…
Sentiu-se mais patético por pensar em Kwon Siyul por causa de um incidente tão trivial. Estava sendo um completo idiota. Pousou o secador e foi até a pia. Abriu a torneira e segurou a palma ferida embaixo dela. O sangue diluído foi sugado pelo ralo.
Depois de um tratamento simples, entrou no quarto. Organizou deliberadamente as tarefas de amanhã na mente enquanto se deitava na cama. Embora estivesse claramente cansado, não conseguia adormecer, como se tivesse desenvolvido insônia crônica de repente.
Aquele lugar sempre foi tão espaçoso?
A mesa, o abajur, a cama — o quarto simples continuava o mesmo de sempre, e ainda assim parecia vazio e vasto. Revirando-se, rolou de lado. Havia um travesseiro que tinha perdido o dono. Ele tinha pretendido tirá-lo, mas o deixou ali, usando a vida de trabalho corrida como desculpa para não removê-lo. Sentou-se, pretendendo jogá-lo fora agora, e puxou o travesseiro.
Foi então que descobriu. Um vestígio minúsculo. Um único fio de cabelo fino repousava quieto sobre ele. Era negro como breu e liso, sem um único cacho.
Kwon Siyul tinha cabelo particularmente grosso. Mesmo sendo comprido apenas o bastante para cobrir as orelhas, levava um longo tempo sob ar quente para secar. Era macio como se nunca tivesse sido tingido, e sua cor era como o céu noturno mais escuro e alto. Em contraste, suas orelhas e sua testa que se estendiam abaixo eram brancas como a neve vista numa casa de campo numa ilha, fazendo seu rosto já jovem parecer ainda mais jovem.
Quando seus olhos se encontravam enquanto secava o cabelo dele, ele sorria tão largamente que seus dutos lacrimais quase desapareciam, exalando uma fragrância densa como flores de glicínia em maio. Esfregando a bochecha contra sua palma, sorria como se nada pudesse deixá-lo mais feliz —
Mesmo tendo sorrido assim.
Ele queria jogar o travesseiro fora. Não, queria removê-lo completamente de sua vista. Mas Woo Hyunse apenas segurou o travesseiro, encarando sem fim o fio de cabelo que tinha caído sobre ele.
Ele cerrou o punho até que o ferimento recém-coagulado se abrisse de novo, então lentamente estendeu a mão para pegar o fio de cabelo.
Este mero fio de cabelo, ele poderia simplesmente soprá-lo como se fosse mera poeira.
Woo Hyunse não conseguiu fazer nada, apenas segurar o fio parecido com uma linha na mão. Incapaz de descartá-lo, incapaz de abraçá-lo por completo.
°🥂⋆.ೃ🍾࿔*:・°🥂⋆.ೃ🍾࿔*:・
Continua *ੈ🍸✩‧₊˚
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna