• Capítulo 95
Capítulo 95
A churrascaria fechava às 2 da manhã. Kwon Siyul pegou um ônibus da madrugada e se sentou num assento vazio. Pretendia apenas fechar os olhos por um instante, mas caiu num sono leve até que o motorista o acordou no último ponto. Esfregando os olhos, desceu do ônibus.
Do ponto de ônibus, subiu uma ladeira e virou num beco mais estreito para chegar à pensão onde estava hospedado no momento. Kwon Siyul arrastou seu corpo pesado como chumbo morro acima. Sendo madrugada, os arredores estavam silenciosos, com pouca luz escapando dos prédios. Até os postes estavam fracos, deixando a rua muito mais escura que o normal.
Agora era hora de entrar no beco. Ele caminhou ao longo de paredes cobertas de grafites toscos e marcas deixadas por adesivos de agiotas que tinham sido colados e removidos. No beco escuro como breu, apenas a placa da velha pensão emitia uma luz fraca e brilhante.
Enquanto entrava, Kwon Siyul de repente parou onde estava. Uma silhueta grande estava encostada na parede ao lado da pensão.
O cigarro brilhou num carmesim profundo antes de esmaecer quando o homem o tirou dos lábios. Fumaça pálida se seguiu, dissipando-se no ar. O cheiro familiar de cigarro, o cheiro corporal familiar. Não podia ser mais ninguém. Woo Hyunse não fez nenhuma tentativa de esconder o fato de que tinha vindo ali.
O sono desapareceu quase instantaneamente. Kwon Siyul nunca tinha pensado, nem uma vez, que Woo Hyunse estaria ali, que viria procurá-lo. Ele tinha sonhado em encontrá-lo por acaso ou esbarrar nele, mas era só um sonho, uma esperança vã no fim das contas.
Talvez estivesse vendo coisas por causa do cansaço. Kwon Siyul pressionou as pálpebras com firmeza e ergueu os olhos de novo.
Woo Hyunse continuava ali. Ao avistar Kwon Siyul, jogou o cigarro, ainda bem longo, numa lata próxima. Kwon Siyul, como tinha feito com Woo Taeju, baixou o olhar para o chão e continuou andando. Queria passar fingindo não conhecê-lo. No fundo, queria correr ladeira abaixo e se esconder até Woo Hyunse desaparecer, mas sabia que seria pego se tentasse fugir agora.
— Vamos conversar.
Foi pouco antes de Kwon Siyul passar por Woo Hyunse. Ele deveria tê-lo ignorado e continuado andando, mas seus pés grudaram no chão por conta própria, mesmo que o outro ainda não tivesse feito qualquer movimento para tocá-lo.
— Nós não temos nada pra conversar.
Ele manteve o volume da voz baixo, caso outros pudessem ouvir. O portão de ferro enferrujado rangeu quando ele o abriu. Só precisava passar o corpo pela abertura.
— Não vai demorar.
Havia muitas desculpas para recusá-lo. Podia alegar estar cansado, dizer que não queria vê-lo, ou afastá-lo com firmeza dizendo que não havia nada a discutir. Mas nada disso saiu da boca de Kwon Siyul. As palavras que tinham subido até a ponta de sua língua recuaram quando ele inalou o cheiro familiar e forte.
— …O que você quer dizer?
— Aqui não.
— Não. Fala aqui mesmo. Você disse que não vai demorar.
Woo Hyunse olhou para ele com atenção. Encontrando seu olhar brevemente, Woo Hyunse esfregou o queixo e a boca com a mão grande, tentando compor a expressão.
O cheiro de cigarro estava mais forte que antes. O contorno vago de seu rosto na luz parecia mais afiado que antes. O mais notável de tudo era um arranhão longo em sua maçã do rosto. Parecia que algo o tinha raspado, deixando um hematoma esverdeado ao redor.
Ele o tinha deixado exposto sem nem colocar um curativo. Kwon Siyul queria perguntar por que ele estava machucado e queria se oferecer para tratá-lo. Mas engoliu as palavras junto com a saliva. Eles não eram mais próximos o bastante para que ele perguntasse ou sugerisse tais coisas à vontade.
Woo Hyunse não falou imediatamente, deixando o momento se arrastar entre eles. Kwon Siyul simplesmente encarava o chão, agarrando a alça da bolsa. Desejava que aquilo acabasse logo. Não era só porque estava cansado. A presença tangível e o cheiro de Woo Hyunse estavam dominando Kwon Siyul naquele momento.
A luz da placa da pensão piscou. Parecia que dez minutos tinham passado. Na realidade, provavelmente foi menos de um ou dois minutos.
— Se você não tem nada a dizer…
―Se muda.
Justo quando Kwon Siyul, incapaz de esperar mais, começou a falar, Woo Hyunse foi direto ao ponto. Kwon Siyul, que vinha evitando contato visual, olhou diretamente para ele pela primeira vez.
— O quê?
— Eu disse, se muda.
— Por quê?
— Eu encontrei um lugar perto da estação. Vai ser mais conveniente pra você se deslocar do que aqui.
Embora Kwon Siyul tivesse perguntado de novo claramente sem entender, Woo Hyunse continuou falando como se mal tivesse ouvido a resposta de Kwon Siyul.
— Eu não quero.
— Por quê? Até um semiporão seria melhor que este lugar.
— Onde eu moro não é mais da sua conta, hyung… Senhor CEO. Não se preocupe com isso.
— Eu só estou arrumando um quarto pra você. Eu não vou te incomodar, Kwon Siyul. Também não vou aparecer.
— …
— Só até você se estabelecer.
— Por quê? Por que ir tão longe?
— …
— Não há necessidade disso.
Eles tinham acabado agora. Woo Hyunse tinha dito com a própria boca que era a última vez, então não deveria ter vindo procurá-lo assim. Kwon Siyul duvida que o outro tenha qualquer ideia de quanta determinação ele teve que reunir para se arrancar dali e partir.
Não havia sentido em continuar conversando. Ele virou o corpo para entrar. Se ao menos não tivesse ouvido aquele nome pronunciado como um sussurro para si mesmo.
— Kwon Yuwon.
Os passos de Kwon Siyul vacilaram. Ele tinha deliberadamente não informado Kwon Yuwon de que tinha saído da casa de Woo Hyunse, seguindo a instrução de evitar contato até que fosse seguro. Talvez tivesse em parte confiado em Woo Hyunse. Mesmo que ele saísse, pensava que, como pessoa responsável, Woo Hyunse não teria abandonado Kwon Yuwon tão rapidamente.
— Porque você precisa de um lugar seguro para ficar até que as coisas sejam resolvidas. Nenhum outro motivo.
— Mas da última vez aquela pessoa disse que já estava seguro…
— Ainda não.
Se fosse só ele sozinho não importaria, mas com Kwon Yuwon envolvido a situação mudava. Eles poderiam ficar numa pensão juntos, mas, por razões de segurança, era muito melhor ir para a casa que Woo Hyunse já tinha preparado de antemão.
Por outro lado, ele também estava desconfiado. Não conseguia entender de jeito nenhum por que Woo Hyunse estava sendo tão bom com ele. O bar em que costumava trabalhar também era administrado pela ex-amante de Woo Hyunse, então deveria considerar um hábito do outro cuidar e zelar por conexões passadas?
Ou ele estava usando Kwon Yuwon como desculpa para tentar mantê-lo por perto de novo?
Ele quase balançou a cabeça. Não podia ser. Woo Hyunse não era do tipo que diz casualmente que é a última vez, e ele também não queria alimentar uma esperança tão vã.
— Vou pensar.
— Você precisa de tempo?
Ele não conseguiu impedir o passado de voltar à mera menção daquelas palavras. O rio fluindo suavemente, a brisa fresca de outono, a conversa que tinham compartilhado sentados lado a lado. Kwon Siyul apertou os olhos e então os abriu como se para espantar as memórias.
— Sim.
Ele queria ir embora agora. Sentia-se tão cansado que poderia desabar a qualquer momento. A exaustão física era secundária. Apenas ficar de pé sobre os próprios pés ao lado de Woo Hyunse estava corroendo sua mente em pedaços enormes.
E então, aparentemente só com suas palavras, Woo Hyunse deteve Kwon Siyul. Kwon Siyul se virou, agarrando a porta de ferro.
— Reduz para um emprego.
Como ele sabia disso? Talvez Woo Taeju tivesse corrido para contar. Embora ele dissesse que não entraria em contato, laços de sangue não se rompiam tão facilmente, então sua relação com Woo Hyunse provavelmente não tinha sido cortada assim tão simplesmente.
— Se você está com pouco dinheiro, é só dizer. Se está difícil, eu posso…
— Eu gosto do trabalho que estou fazendo agora. Não é tão difícil, e dá pra levar.
Ele engoliu as palavras de que não era pelo dinheiro. Não queria revelar que, sempre que ficava sozinho, Woo Hyunse lhe vinha à mente, fazendo com que ele levasse o corpo ao limite para não pensar nele.
— Eu vou entrar.
Não havia mais nada a que se agarrar agora. Kwon Siyul cruzou a soleira. Fechou a porta de ferro e passou pelo balcão em direção ao corredor estreito. O quarto no fim era onde Kwon Siyul estava hospedado.
Sem atravessar o corredor bagunçado, Kwon Siyul ficou parado ali sem expressão. Embora estivesse cansado o bastante para desmaiar, seus ouvidos estavam atentos, verificando a situação lá fora. Se houvesse até mesmo um leve cheiro de fumaça de cigarro, se estivesse misturado com nem que fosse um traço de seu cheiro, ele queria inalá-lo fundo.
Mas nenhum cheiro veio. Estava limpo, como se deliberadamente apagado. Logo, o som de passos veio por cima da parede e entrou no corredor. O ritmo era firme, sem qualquer hesitação em partir. Kwon Siyul não se moveu até que aquele som tivesse desaparecido completamente.
Por fim, entrou no quarto. Jogou a bolsa descuidadamente num canto do quarto e foi para o banheiro. Seu rosto estava refletido no espelho. Felizmente, ele não tinha chorado. Seus olhos não estavam marejados, nem o branco dos olhos estava vermelho. Mas seu rosto parecia uma enorme bagunça.
Parecia um balão inflado ao limite, como se fosse estourar se tocado nem que fosse de leve, ou como nuvens escuras e inchadas prestes a desabar. Bochechas encovadas, olhos fundos. Não era só um aspecto criado pelo cansaço.
— Ele disse que eu estava com boa aparência.
Ele não parecia nada disso. Seu peito parecia apertado e abafado. Ele bateu na área dolorida com a palma e então olhou de volta para o espelho. Havia manchas por todo o espelho que não saíam por mais que ele esfregasse. Sabendo que não sairiam, ainda assim as esfregou desnecessariamente com o punho da manga. Era como se aquelas manchas estivessem grudadas em seu rosto, em seus olhos e em seu coração.
Por mais que esfregasse, as manchas permaneciam no lugar. Kwon Siyul desistiu do esforço inútil e baixou o braço. Agachou-se e abriu a torneira. A água escorreu para a pia.
Gotas como chuva caíram sobre ela, plic. Com a desculpa de que era porque o banheiro era pequeno e se enchia rapidamente de umidade — de que eram gotas de água se formando no teto e caindo —, Kwon Siyul esfregou os olhos como se fosse o espelho que estivesse limpando momentos antes. Mas, ainda assim, as manchas não se apagavam por mais que tentasse.
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Continua *ੈ🍸✩‧₊˚
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna