• Capítulo 94
Capítulo 94
Uma semana. Kwon Siyul puxou o cobertor e se levantou. Não conseguia se livrar daquilo completamente, e seu corpo ainda estava pesado, mas sua garganta estava ressecada, então tinha que se mover.
Primeiro, precisava urgentemente encontrar um jeito de se sustentar. Escreveu currículos e os entregou em todos os lugares próximos que contratavam meio período. Ao contrário de antes, quando só recebia recusas, dessa vez recebeu ligações de vários lugares, talvez graças à linha extra de experiência. Ser contratado em qualquer lugar era a prioridade principal, então marcou entrevistas indiscriminadamente.
As opções eram diversas: lojas de conveniência, churrascarias, cafés, lan houses e mais. Entre essas, a churrascaria oferecia o maior salário por hora. Olhando os horários, parecia possível combiná-la com o trabalho no café. Embora não tivesse dívidas a pagar, trabalhar dia e noite parecia melhor em sua situação atual. Se não estivesse fazendo alguma coisa, pensaria constantemente em apenas uma pessoa.
Fazer café pela primeira vez foi desajeitado, e ele queimou o braço carregando braseiros cheios de carvão, mas tudo acabou dando certo. Não só enquanto trabalhava, mas também depois de terminar e voltar para casa, ele conseguia adormecer imediatamente sem ter que lidar com pensamentos perturbadores. No trabalho, ficava ocupado até que, de repente, era hora de ir para casa.
Deixando os dias passarem assim, ele esperava que um dia pudesse olhar para trás e relembrar com calma: “Ah, isso também aconteceu”. Acreditava no ditado de que o tempo cura. Era uma esperança para o futuro que não era muito esperançosa.
Saindo cedo do café, chegou à churrascaria mais cedo que o normal. Durante o horário de descanso, os funcionários descansavam nas mesas ou tiravam sonecas rápidas no colchão estreito dos fundos. Ele os cumprimentou em voz baixa para não incomodar ninguém, e uma funcionária sentada numa cadeira se virou para olhá-lo.
— Siyul, você chegou mais cedo?
— O motorista do ônibus estava com o pé no acelerador hoje. Não pegou nem um sinal vermelho. O café também me liberou mais cedo.
— O café, quer dizer, onde você trabalha de manhã? Nossa, você não está trabalhando demais? Seu rosto já sumiu pela metade. Vai sumir completamente se continuar assim.
A tia da cozinha suspirou, olhando para Kwon Siyul com compaixão. Sem se importar com a preocupação dela, Kwon Siyul sorriu amavelmente.
— Tem que trabalhar duro enquanto ainda sou jovem.
— Pega leve. Saúde em primeiro lugar, afinal. Vem cá. Vamos comer umas tangerinas. Comprei no caminho. São doces e gostosas.
— Sim. Vou me trocar e já venho.
Ele entrou no vestiário, tirou a camisa com cheiro de café e vestiu o uniforme. Já estava folgado, mas parecia que tinha emagrecido mais recentemente, pois as mangas curtas estavam largas e a gola escancarada.
Enquanto comia as tangerinas que a tia dividiu e assistia à TV, ouviu um chamado por ajuda e saiu pela porta dos fundos. Havia várias caixas de mantimentos empilhadas. Enquanto as dividia com outro funcionário, ouviu um “Oh” surpreso e se virou instintivamente.
— Oh.
O mesmo som saiu da boca de Kwon Siyul. A pessoa parada sem jeito no fim do beco parecia familiar. Ele virou a cabeça, mordeu o lábio inferior uma vez e então encontrou o olhar de novo. Sorriu fracamente, assim como tinha feito com a tia. O mundo era pequeno mesmo.
— Olá.
— …Hyung.
Woo Taeju o encarava sem expressão. Ele também parecia surpreso com o encontro inesperado, os olhos bem abertos. Kwon Siyul pensou em simplesmente entrar e fingir que não tinha notado, mas então achou melhor cumprimentá-lo direito, já que provavelmente não se veriam de novo depois que Woo Taeju partisse para estudar no exterior. Kwon Siyul disse a Woo Taeju para esperar um momento e carregou as caixas para dentro.
Woo Taeju, como se tentasse esconder seu desconcerto, esfregou a boca e o queixo com a mão e entrou no beco. Kwon Siyul também vestiu o casaco e saiu da loja. Não havia muito o que conversar, mas eram próximos o bastante para pelo menos perguntar como o outro estava. Embora Kwon Siyul não quisesse se envolver com nada que o lembrasse de Woo Hyunse, parecia mais constrangedor evitar aquilo abertamente.
— Você tem passado bem?
Kwon Siyul perguntou primeiro. Woo Taeju assentiu com a cabeça um tanto sombriamente. A expressão que ele trazia no rosto era tão ambígua que era difícil dizer o que ele estava pensando.
— Hyung, você está trabalhando aqui?
— Sim. Consegui esse emprego recentemente. Aqui e num café.
— Dois empregos? Não é difícil?
— Está tudo bem. Dá pra levar quando você se acostuma.
— Não, e o Woo Hyunse… Hyung, o Woo Hyunse é rico. Ele tem dinheiro suficiente pra viver mesmo se três gerações falissem. Eu não achava que ele fosse esse tipo de pessoa. Ele não está te ajudando em nada?
Woo Taeju franziu a testa, incrédulo. No momento em que o nome atingiu seus ouvidos, os olhos de Kwon Siyul se turvaram. Duas semanas não eram suficientes para se livrar completamente daquilo.
Levaria um ano? Ou muito mais? Assim como quando via Woo Hyunse em seus sonhos e acordava, até ouvir o nome fazia suas entranhas doerem.
Kwon Siyul, prestes a esfregar o peito por hábito, ergueu a mão para coçar a bochecha em vez disso. Como se estivesse sem graça. Como se não fosse nada.
— Eu saí de lá.
— …O quê?
Woo Taeju repetiu num tom atônito. Kwon Siyul ergueu os cantos da boca. No entanto, o sorriso forçado tinha gosto amargo.
— Eu saí daquela casa. Não estou mais em contato com o CEO.
Woo Taeju ficou em silêncio por um momento. Kwon Siyul bateu no chão com a ponta do tênis.
— …Eu não fazia ideia. Depois que quase morri, cortei o contato com aquele lado também.
A voz que finalmente saiu estava rouca. A voz abaixada soava parecida com a de Woo Hyunse. Kwon Siyul evitou deliberadamente olhar para o rosto de Woo Taeju. Inevitavelmente encontraria semelhanças ali também.
Até essa breve troca com Woo Taeju era difícil de suportar para ele. Kwon Siyul descolou as costas da parede em que estava encostado.
— É melhor eu voltar pra dentro. Preciso começar a trabalhar logo.
— Ah, hyung. Aquilo…
Woo Taeju estendeu a mão como se fosse agarrar a manga de Kwon Siyul. Quando Kwon Siyul se virou, Woo Taeju hesitou, depois soltou um longo suspiro e balançou a cabeça.
— Eu só queria dizer, por favor, não deixe de vir à minha festa de aniversário depois. …Vou só fumar rapidinho e já vou.
Prestes a entrar, Kwon Siyul parou. Notou o maço de cigarros saindo do bolso de Woo Taeju. Normalmente não teria dado uma segunda olhada, mas, estranhamente, sentiu vontade de experimentar fumar ali mesmo, naquele instante.
— Posso pegar um também?
Os olhos de Woo Taeju se arregalaram de novo. Depois franziu a testa. Um olhar de desaprovação atravessou seu rosto, como quando um estudante de uniforme resolve pedir um cigarro do nada.
— Ah, eu estava sendo sem-vergonha demais, né? Cigarro está caro hoje em dia…
Kwon Siyul esfregou a nuca como se estivesse sem graça, citando um motivo irrelevante. Woo Taeju abanou as mãos às pressas.
— Não, não, não é sobre o custo. É só que é melhor não começar a fumar, pra começo de conversa.
Em vez de dar um cigarro a Kwon Siyul, Woo Taeju colocou um na própria boca. Achando que era uma recusa educada, os ombros de Kwon Siyul caíram. Mas, depois de acendê-lo e dar uma tragada, Woo Taeju o entregou a Kwon Siyul. Kwon Siyul hesitou por um momento antes de prender o cigarro entre os lábios.
Embora Woo Hyunse nunca fumasse perto dele, havia momentos em que um leve cheiro de tabaco se agarrava ao seu corpo. Enquanto o típico cheiro de cigarro dos outros, que irritava a garganta, era insuportável, o cheiro em Woo Hyunse era na verdade bastante agradável. Era como seu cheiro natural. Uma fragrância adulta. Madura e encorpada ao mesmo tempo.
Tendo visto outros fazerem isso, Kwon Siyul inalou fundo, só para engasgar e tossir com aspereza. A fumaça acre inalada por engano até trouxe lágrimas aos seus olhos. Woo Taeju, sem saber o que fazer, tirou o cigarro da mão de Kwon Siyul.
— Não se force a fumar.
— É só porque é a minha primeira vez, cof. Eu vou me acostumar se continuar fumando.
— Não tem necessidade de se acostumar de propósito. Faz mal pra saúde.
— Mas você fuma.
— Bom, eu já sou um caso perdido.
“Eu não tenho mais jeito.”
Uma voz familiar se sobrepôs à de Woo Taeju. Kwon Siyul desviou rapidamente o olhar, pressionando com firmeza os olhos ardidos com a mão.
Woo Taeju sorriu e levou aos lábios o filtro que Kwon Siyul tinha umedecido. Não pareceu se importar que pudesse estar sujo. Kwon Siyul tossiu para tirar a coceira restante da garganta. Era constrangedor demais pedi-lo de volta depois de ter demonstrado tão claramente sua inexperiência.
— Se não hoje, me liga da próxima vez que quiser fumar. Aí eu te ensino direito. Não fuma sozinho.
O cigarro longo tinha queimado quase até a ponta. Woo Taeju manteve o cigarro agora muito mais curto na boca por um tempo. Quando Kwon Siyul o encarou, ele relutantemente jogou a bituca numa lata vazia usada como cinzeiro.
— Você não acabou de dizer que é melhor não fumar?
— Eu estava usando isso como desculpa pra manter contato com você, hyung.
Ele acrescentou com uma piscadela e um sorriso maroto. Kwon Siyul riu baixinho do tom brincalhão.
Alguém chamou Kwon Siyul lá de dentro, provavelmente porque o horário de descanso estava quase acabando. Kwon Siyul assentiu e se despediu de Woo Taeju. Quando estava prestes a abrir a porta e entrar, se virou ao som de “Hyung”. Woo Taeju hesitou por um momento antes de falar. A brincadeira tinha sumido de seus olhos, que agora guardavam um lampejo de alívio.
— Fico feliz que você esteja bem.
— …
— Até a próxima, hyung. Definitivamente na minha festa de aniversário. Eu ficaria ainda mais feliz se você me contatasse antes disso.
Woo Taeju deixou o beco, fazendo questão de enfatizar suas palavras. Kwon Siyul encarou sem expressão sua figura se afastando. Os ombros largos, o cabelo curto e até o andar firme se pareciam com os de outra pessoa. Embora não conseguisse encarar Woo Taeju diretamente, roubava um olhar para suas costas assim. Só porque ele se parecia com Woo Hyunse.
— Ele diz que eu estou bem… Eu.
Ele murmurou, parado ali de forma bastante distraída. A tia com quem trabalha diz que seu rosto sumiu pela metade, e Woo Taeju, que encontrou hoje, diz que ele está bem. Não fazia ideia de qual afirmação era verdadeira.
Ergueu as duas mãos para cobrir o rosto. Depois de ficar nessa posição por um tempo, baixou as mãos, esfregando o rosto para baixo. Decidiu tomar aquilo como prova de que estava indo bem.
De que, para alguém que tinha partido, estava vivendo bastante decentemente. Inteiro e ileso.
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Continua *ੈ🍸✩‧₊˚
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna