• Capítulo 93
Capítulo 93
— Me escuta.
— Me solta.
— Kwon Siyul.
A voz que chamava seu nome era baixa e calma, como quem lida com uma criança particularmente teimosa. Woo Hyunse permanecia inabalável mesmo nesse tipo de situação. Só as emoções de Kwon Siyul estavam descontroladas. Aquela diferença gritante acendeu um fogo no âmago de Kwon Siyul.
―Nós…!
Sua respiração estava difícil. Ele esfregou os olhos com aspereza com a mão livre e olhou para Woo Hyunse. O branco de seus olhos, transbordando de lágrimas, estava vermelho.
— Nós, hyung. Desde o começo, éramos desequilibrados. Quando não há equilíbrio, é inevitável que acabe desabando.
Tanto o amor quanto as circunstâncias. Eles tinham se debatido numa gangorra que acabaria tombando para um lado. O casamento de Woo Hyunse foi apenas um catalisador que veio cedo, mas aquilo teria encontrado seu fim em algum dia futuro.
— Eu não vou gostar mais de você, hyung.
Era mais uma resolução para si mesmo do que palavras destinadas ao outro. Ter gostado dele até agora tinha sido suficiente. As emoções humanas não se cortavam de forma limpa como quem fatia um nabo, mas ele não queria mais sofrer. Woo Hyunse tinha sido como uma droga para ele. Enquanto tomá-la trazia um êxtase momentâneo, a dor que se seguia queimava através de sua carne.
Se era um vício, ele tinha que se libertar dele. Não queria mais sofrer ao lado dele.
Incapaz de encarar Woo Hyunse diretamente, Kwon Siyul virou a cabeça e tentou puxar o braço. Woo Hyunse, que até então não tinha reagido, se recusou a soltar o pulso de Kwon Siyul.
— Não vá.
Aquela frase simples o pegou desprevenido. As lágrimas que ele tinha conseguido conter brotaram de novo. Ele queria desabar ali mesmo, naquele instante. Desejava poder ficar ao lado de Woo Hyunse, nem que fosse como uma planta. Mas não podia. Estava cansado de andar em círculos.
— Solta.
— Esta é a última vez. Não vá.
Seu coração afundou com a palavra “última”. Olhando para trás, Woo Hyunse o tinha detido e segurado muitas vezes. Depois de repetir a mesma coisa tantas vezes, qualquer um, não só Woo Hyunse, teria se cansado.
Kwon Siyul olhou para Woo Hyunse sem expressão, sem mostrar o quanto seu coração tinha afundado. Enquanto o cheiro do outro ainda rolava como ondas distantes do oceano, sua expressão permanecia impassível. Isso significava que ele estava falando sério.
Kwon Siyul segurou a mão de Woo Hyunse com a sua. Ao envolver com a palma o pulso do outro, os dedos se afrouxaram. Só depois que o aperto que parecia algemas foi liberado é que Kwon Siyul baixou a mão. Apesar dos olhos avermelhados e das lágrimas caindo, ele olhou diretamente para Woo Hyunse. Woo Hyunse, que estava prestes a estender a mão mais uma vez, recolheu o braço devagar depois de encontrar o olhar de Kwon Siyul.
— Eu vou.
Ele jogou sobre o ombro a mochila que tinha deixado na entrada, passando por Woo Hyunse. Enfiou os pés nos tênis surrados que tinha separado de antemão e agarrou a maçaneta. Não havia nenhum som vindo de trás dele. Ele hesitou por um momento, querendo ver aquele rosto, mas não olhou para trás.
Kwon Siyul logo abriu a porta e saiu. O fim que ele tinha imaginado por tanto tempo na cabeça pareceu terrivelmente vazio.
Depois de pegar o elevador e deixar o prédio, Kwon Siyul não olhou para trás nem uma vez. Sentindo como se alguém o perseguisse, apressou o passo desnecessariamente. Atravessou a avenida principal, passou pelo ponto de ônibus onde deveria ter parado e só diminuiu o passo quando chegou ao meio da ponte que costumava atravessar com frequência no passado.
Embora não tivesse corrido, estava sem fôlego. Apoiou-se nos joelhos, recuperando a respiração ofegante, depois se endireitou devagar. Os faróis dos carros que atravessavam a via iluminavam os flocos de neve tênues que flutuavam no ar. A previsão do tempo que tinha piscado no painel eletrônico estava certa.
Embora fosse o clima que ele tinha desejado, Kwon Siyul não estava totalmente feliz. Água o cercava, mas aquilo não era uma ilha. Nem era a pequena casa de campo onde tinha ficado sozinho com Woo Hyunse.
Ele achava que se sentiria aliviado depois de sair daquela casa, que seu peito se abriria como se finalmente libertado das cordas que o prendiam, mas, estranhamente, não sentiu nada. Seu interior ainda parecia pesado e abafado.
Não houve despedida.
Ele esperava ouvir pelo menos uma palavra de adeus.
Já se arrependia de não ter olhado para trás no final. Deveria ter gravado sem vergonha em sua memória que expressão Woo Hyunse usava enquanto o via partir. Se Woo Hyunse estivesse de costas, ele deveria ter queimado aquela imagem em sua memória.
Os olhos que o vento frio tinha esfriado começaram a esquentar de novo. Antes que as lágrimas se formassem, ele esfregou com aspereza o nariz e os olhos ardidos com o braço. Então baixou a mão até o peito e o socou com o punho. Embora a boca do estômago parecesse apertada, era seu coração que mais doía. Preocupado de ter batido forte demais, também o esfregou com firmeza com a palma. Mas a dor, parecida com indigestão, não cedia de jeito nenhum.
Kwon Siyul agarrou o parapeito da ponte, depois foi escorregando devagar até o chão. Suas pernas, que tinham caminhado sem parar, agora latejavam. Mas a dor nas pernas era insignificante comparada à de outro lugar.
— …
Sua mão escorregou do parapeito. Ele desabou completamente no chão, com a cabeça baixa. Pressionou as mãos contra as bochechas, que ardiam com o vento açoitante. Embora seu rosto estivesse seco quando saiu da casa de Woo Hyunse e enquanto caminhava até ali, agora estava molhado de novo.
Ele tentou enxugá-lo, mas, sabendo que o ato era completamente inútil, baixou o braço. Flocos de neve e lágrimas caíam em pontos no chão. Os ombros de Kwon Siyul tremiam levemente. Embora prendesse a respiração e cerrasse os lábios, as gotas que se juntavam na ponta de seu nariz e caíam no chão não paravam.
Se ele soubesse que doeria tanto, teria gostado menos dele. Se tivesse dado só um pouquinho menos de seu coração, não teria doído tanto.
Agora ele não tinha para onde ir, ninguém para buscá-lo, ninguém esperando por ele. O som que ele vinha reprimindo explodiu. Kwon Siyul se encolheu e chorou alto como uma criança perdida.
* * *
Depois de ficar sentado ali se sentindo vazio, arrastou-se até a pensão. Não conseguia pensar em nenhum outro lugar adequado para ficar. Na verdade, ele só queria desabar e dormir em qualquer chão.
Felizmente, ele vinha pagando o aluguel para guardar seus pertences. Cansado demais para limpar o chão empoeirado, jogou a mochila num canto do quarto e simplesmente se atirou no chão. Estendeu desajeitadamente o cobertor dobrado, se cobriu e se encolheu.
Embora sua mente estivesse em branco, estranhamente, o sono não vinha com facilidade. Ficou deitado imóvel numa única posição no quarto ainda frio, esperando o sono que não vinha.
Finalmente conseguiu fechar os olhos perto da madrugada. Mas não durou muito. Acordou com o som de barulhos do quarto ao lado, de alguém se preparando para sair. Embora já fosse manhã, a luz lá fora estava fraca. A neve ainda não tinha parado.
— Ah, merda, o tempo está uma porcaria.
Um homem xingou com aspereza do outro lado da parede, que não fornecia isolamento acústico nenhum. Kwon Siyul ergueu com dificuldade as pálpebras pesadas e inchadas e abriu um pouco a janela. Flocos de neve que passavam pela tela cheia de furos derretiam no momento em que tocavam o rosto de Kwon Siyul. Ele tossiu seco por causa do frio e fechou a janela.
Pegou o celular. Depois de hesitar, ligou o aparelho, que tinha desligado. Havia apenas algumas mensagens de spam e nenhum outro contato. Nem mesmo uma chamada perdida.
Embora tivesse afastado e saído por conta própria, não conseguia deixar de relembrar aquelas palavras sobre ser a última vez.
Seu nariz ardeu. Podia ser do vento frio raspando o interior de seu nariz como uma lâmina. Fungou sem necessidade e se enfiou debaixo do cobertor.
Em momentos como esse, seria bom se Kwon Yuwon estivesse ao seu lado. Pelo menos assim ele poderia não pensar em nada enquanto ouvia sermão.
Ainda assim, sabia que pedir ajuda a Kwon Yuwon estava fora de questão. Agora não havia ninguém para ajudá-lo. Era um fardo que teria que carregar sozinho.
Mas até o cérebro precisava de energia para funcionar. Naquele momento, ele não conseguia pensar em nada. Como um animal subitamente abandonado numa vasta planície depois de ter sido enjaulado num curral pequeno e estreito por muitíssimo tempo, Kwon Siyul não conseguia nem se orientar sobre onde estava ou o que deveria fazer em seguida.
Devia estar tudo bem descansar só por um dia.
Só um dia.
Ele estava cansado, esgotado e exausto. Embora não tivesse feito nada, era difícil mover até um dedo. Seu interior parecia vazio. Parecia que tinha derramado toda a sua umidade na noite anterior, na ponte, enquanto caminhava até ali, sem restar nem uma gota.
Sua garganta estava seca. Kwon Siyul engoliu saliva em vez de água e forçou os olhos a se fecharem. Não se importava se o sono viesse ou não. Só queria escapar da realidade.
No primeiro dia, não fez nada. Acordou no meio, matou a sede grosseiramente com água da torneira e voltou a se enfiar debaixo do cobertor. Só quando a manhã virou dia, o dia virou noite, a noite virou madrugada e então voltou a ser manhã é que Kwon Siyul finalmente se levantou grogue da cama. Ridiculamente, estava com fome. Quando estava na casa de Woo Hyunse, até pôr algo na boca tinha sido um suplício.
Aquele era o segundo dia. Kwon Siyul verificou o saldo bancário. Uma quantia grande tinha sido retirada para comprar um presente para Woo Hyunse. Ainda assim, graças às suas economias, tinha o suficiente para viver por alguns dias.
Vestiu de qualquer jeito uma jaqueta acolchoada por cima da roupa e foi a uma loja de conveniência próxima comprar comida. Enquanto pegava a garrafa de água mais barata da seção refrigerada, uma garrafa de bebida familiar chamou sua atenção.
— …
Kwon Siyul mordeu o lábio e agarrou rapidamente a água. Evitou deliberadamente olhar naquela direção. Empurrando de volta as memórias que subiam como uma maré, voltou para a pensão.
Três dias, quatro dias e então cinco dias se passaram assim. Nada aconteceu durante esse tempo. O rosto que aparecia repetidamente em seus sonhos estava ausente da realidade. Nenhuma mensagem, quanto mais ligações.
Kwon Siyul também não entrou em contato. Mas, na calada da noite, quando o sono fugia brevemente por causa dos cochilos excessivos durante o dia, Woo Hyunse invariavelmente lhe vinha à mente. Embora segurasse o celular e abrisse aquele contato, nunca apertou o botão de chamada. Kwon Siyul estava fazendo tudo o que podia para se manter fiel à sua declaração de que não gostaria mais dele.
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Continua *ੈ🍸✩‧₊˚
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna