• Capítulo 92
Capítulo 92
Ele colocou a mochila perto da entrada. Embora pequena, estava estufada como se fosse estourar. Kwon Siyul olhou na direção do escritório. Por um momento, sentiu vontade de levar o convite de casamento consigo. Mas de que adiantaria levar algo sem nem uma data decente escrita? Ele esperava que Woo Hyunse lhe entregasse pessoalmente mais tarde. Usando isso como desculpa para vê-lo pelo menos mais duas vezes.
Kwon Siyul tirou a caixa da sacola e a colocou na mesa da sala. Como tinha pedido cuidado especial, tinham até amarrado uma fita vermelha em cima da caixa. Estava perfeita como presente para Woo Hyunse. Ele esperava que o outro gostasse.
O plano era simples. Dar o presente, expressar sua gratidão por tudo e se despedir daquela casa e de Woo Hyunse. Simples e limpo. Embora Woo Hyunse pudesse tentar mantê-lo ali como antes, estranhamente, ele tinha certeza de que essa possibilidade era baixa.
Ele não já tinha feito isso algumas vezes? Kwon Siyul sabia que Woo Hyunse não era do tipo que repetia o mesmo ato duas vezes, muito menos segurar alguém que dissesse querer ir embora.
Kwon Siyul se sentou no sofá e esperou sem fim. Havia vários alertas de mensagem e chamadas em seu celular, mas ele os ignorou completamente. Também não ligou a TV. De vez em quando, olhava ao redor, gravando na mente o espaço onde tinha ficado.
Havia memórias grudadas em cada canto daquela casa. A mesa de jantar, a pia, a janela grande da sala, o sofá em que se sentava e até o tapete no chão. Woo Hyunse tinha sorrido, cozinhado, abraçado ele e, devagar, tinha caminhado com ele em cima de seus pés, como se ninasse uma criança.
“Eu não estou pesado?”
“De jeito nenhum.”
“Você está mentindo.”
“É verdade.”
Kwon Siyul nunca tinha se permitido um comportamento tão infantil nem mesmo no orfanato. Às vezes, na volta da escola, tinha observado às escondidas adultos caminhando com crianças menores que ele sobre os pés no parquinho. Mesmo quando tentava descer, Woo Hyunse abraçava sua cintura, dizendo para ficar mais um pouco.
— …
Os dias tinham ficado um pouco mais longos desde o solstício de inverno. Mas isso não significava que a noite não viria. O pôr do sol passou, o crepúsculo se assentou, e cortinas negras como breu foram estendidas sobre as janelas. Kwon Siyul não acendeu as luzes. Ele cochilou brevemente enquanto esperava.
Acordou sobressaltado com o som do teclado numérico sendo pressionado. A porta se abriu com o som mecânico conhecido. O cheiro que ele tinha sentido tantas vezes, mas do qual nunca se cansara, entrou com força. Ele já não tinha mais curiosidade sobre o nome da colônia. O cheiro corporal de Woo Hyunse era seu perfume.
— Por que você não está atendendo o telefone?
Pular os cumprimentos e ir direto ao ponto — típico de Woo Hyunse. Kwon Siyul sorriu levemente, lembrando de suas primeiras conversas por telefone. Era estranho que conseguisse sorrir apesar de sua cabeça estar cheia do que precisava fazer agora.
Vendo que Kwon Siyul tinha se levantado, Woo Hyunse acendeu as luzes da sala. Olhou para Kwon Siyul, depois notou a mochila a seus pés e franziu ligeiramente a testa. Virou a cabeça para Kwon Siyul como se exigisse uma explicação sobre por que ela estava ali.
— Hyung — chamou Kwon Siyul, empurrando o presente da mesa em sua direção. — Este é um presente pra você. Eu devia ter te dado antes, mas estou dando agora.
— Assim, de repente? Meu aniversário passou faz um tempo, e só o seu carinho já me basta, Kwon Siyul.
— Eu coloquei meu carinho nele também. Então, por favor, abra logo.
Kwon Siyul insistiu de novo. Woo Hyunse se aproximou com relutância e se sentou no sofá. Olhou alternadamente para Kwon Siyul e para o presente com uma expressão desconfiada no rosto. Quando ele insistiu para que abrisse logo, o outro desembrulhou devagar. Ao levantar a tampa da caixa, sua expressão endureceu sutilmente.
— …Sapatos?
— Eu estraguei seus sapatos antes, lembra? Eu queria comprar exatamente os mesmos, mas não estavam disponíveis na Coreia. Então comprei algo parecido.
— Por que agora?
— Quer que eu os calce em você?
Woo Hyunse encarou Kwon Siyul com atenção, como se tentasse discernir sua intenção. Mantendo o sorriso nos lábios, ele se ajoelhou sobre um joelho diante de Woo Hyunse. Tirou um sapato da caixa, segurou o pé de Woo Hyunse e o deslizou para dentro com delicadeza. Enfiando os dedos no calcanhar, ajudou o pé dele a entrar completamente no sapato, seu pé grande desaparecendo lá dentro.
Então Kwon Siyul tirou o outro e o calçou nele também. Embora não fossem tão luxuosos quanto o primeiro par que ele tinha visto, o design limpo caía bem em Woo Hyunse.
— Hyung.
Colocando a mão sobre o joelho diante de si, ergueu o olhar para Woo Hyunse. Kwon Siyul gravou em sua memória os olhos escuros e os traços dele. Era um pouco decepcionante ver seu rosto desprovido de alegria ou mesmo de um sorriso formal apesar de ter recebido o presente.
— Obrigado por tudo até agora.
Woo Hyunse se levantou bruscamente. Seu olhar de cima era frio. Até seu cheiro ficou cortante como um vento de inverno. Kwon Siyul se ergueu de sua posição ajoelhada e o encarou com calma.
— Eu vou embora agora.
— Embora?
Kwon Siyul apenas assentiu com a cabeça. Era o que ele deveria ter feito quando viu Woo Hyunse no concerto, no momento em que soube de seu casamento. Gostando da sensação de ser abraçado, ele tinha ficado ao lado de Woo Hyunse, inventando várias desculpas e enganando até a si mesmo. Tinha arrastado aquilo por tempo demais. Era hora de acertar as coisas.
— Quem disse que você podia?
Num piscar de olhos, uma mão grande agarrou seu colarinho e o puxou para perto. Seu nariz se enrugou como o de uma fera mostrando as presas. Seria mentira dizer que ele não estava com medo, mas, comparado ao primeiro encontro deles, em que tinha chorado todas as lágrimas, ele não estava realmente assustado agora. Mesmo que Woo Hyunse o estrangulasse até a morte ali mesmo, o medo não seria a emoção que ele sentiria.
Os dias em que a morte era a coisa mais aterrorizante tinham passado. Kwon Siyul tinha aprendido dessa vez que havia coisas no mundo mais assustadoras que isso.
— Como você disse, eu fiquei em casa até agora. Não fui a lugar nenhum, só fiquei ao seu lado. Agora é a sua vez de me ouvir.
Com os calcanhares erguidos, mesmo enquanto sufocava, Kwon Siyul disse suas palavras com clareza. Embora não tivesse preparado um discurso de antemão, as frases fluíram com suavidade, como se tivessem fervido em sua mente por muito tempo.
— Você viajou e deu um presente só pra dizer isso? Eu não achava que você fosse desse tipo, Kwon Siyul, mas você é bom em brincar com as pessoas. Fingir que está tudo bem, dar esperança e depois derrubar no chão.
— Não. Eu nunca brinquei com você, hyung. Eu sempre fui sincero. Nessa viagem, antes dela e até agora, eu não fui nada além de sincero.
— …
A mão que agarrava seu colarinho foi perdendo a força aos poucos. Ele tossiu com aspereza e cobriu o pescoço. A mão de Woo Hyunse, que tinha se erguido para verificá-lo, se fechou num punho e voltou a descer.
— Então por quê.
— …
— Acho que já te disse antes. Me diz se você precisa de uma casa, um prédio ou um carro. Eu posso te dar qualquer coisa. Me diz, por que você está fazendo isso?
— Eu não preciso de nada disso. Só tem uma coisa que eu quero. Eu quero parar agora.
— Você disse que gostava de mim.
— Isso não tem nada a ver.
— Ou é por causa do casamento?
Ele fechou a boca. O peito de Woo Hyunse inchou e depois murchou como um balão.
— Só por causa disso.
— Só?
Kwon Siyul arregalou os olhos. Não era só isso para ele. Era um acontecimento significativo em que uma nova família legalmente ligada a Woo Hyunse estava sendo criada. Alguém como ele, um órfão, estava fazendo com outra pessoa algo com que ele nunca poderia sequer sonhar estando com Woo Hyunse.
Seus olhos estavam quentes. Kwon Siyul cerrou os punhos e cravou as unhas nas palmas. Felizmente, nenhuma lágrima escorreu quando ele as cravou até arder. Em vez das lágrimas que empurrou para baixo dos olhos, saiu um riso oco.
— Casamento é só isso pra você, hyung? Não é pra mim. Não pode ser.
— É assim que todo mundo vive. Namorando de um jeito, casando de outro. Eles pegam tudo o que podem e fingem não saber, então por que você não pode fazer isso, Siyul?
— Eu não quero viver assim.
— Então eu devo cancelar o noivado?
Não houve resposta. Ele nem fez o gesto formal de pedir tempo. Apenas olhou para ele em silêncio. Ele sabia que, por mais que rezasse, Woo Hyunse nunca cancelaria o noivado, mas as palavras que ele mesmo tinha proferido viraram uma faca e cortaram dolorosamente seu peito, como o convite de casamento que ele tinha aberto por acidente tinha arranhado seus dedos.
Kwon Siyul encarou Woo Hyunse sem expressão. Mesmo sem querer saber, conseguia enxergar o significado dos sentimentos do outro e quanto peso tinham. Woo Hyunse era pesado para ele, às vezes até mais que a gravidade. Mas não era o mesmo para Woo Hyunse.
No mínimo, ele era mais leve do que o peso que carregava. Ou talvez fosse leve como uma pluma. Quantos relacionamentos e términos subsequentes ele tinha tido? Ele poderia ser apenas mais uma pessoa naquela lista, a ser riscada com uma linha vermelha.
As lágrimas finalmente transbordaram de seus olhos. Cruzaram suas bochechas, se acumularam no queixo e então pingaram.
Woo Hyunse agarrou o pulso de Kwon Siyul enquanto ele enxugava as lágrimas com a manga. Kwon Siyul se desvencilhou com toda a força.
— Então este é o fim pra nós.
Enxugando bruscamente as lágrimas que continuavam a escorrer apesar de seus esforços, Kwon Siyul o fuzilou com o olhar, os vasos sanguíneos nítidos nos olhos. O cheiro de Woo Hyunse o inundou — uma mistura complexa de intenção assassina, raiva, a frustração de não poder feri-lo e uma paciência precária. Kwon Siyul não se encolheu nem recuou como costumava fazer.
Woo Hyunse afrouxou a gola da camisa, que estava sem gravata. Incapaz de acalmar suas emoções com facilidade, baixou a cabeça, suspirou fundo como se tentasse afundar o chão e esfregou o espaço entre as sobrancelhas com o polegar e o indicador.
— Pense de novo.
— Acabou.
— Eu não terminei.
— Eu terminei.
Kwon Siyul deu um passo. No segundo passo, Woo Hyunse agarrou seu pulso. Torcer o braço, tentar se desvencilhar — nada funcionou.
°🥂⋆.ೃ🍾࿔*:・°🥂⋆.ೃ🍾࿔*:・
Continua *ੈ🍸✩‧₊˚
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna