• Capítulo 91
Capítulo 91
Ele olhou tranquilamente ao redor do andar e se dirigiu à seção de sapatos masculinos. Se fosse para uso próprio, teria vasculhado o mercado, mas essa compra era um presente. Para Woo Hyunse.
Ele tinha pesquisado na internet quais marcas poderiam ser boas, mas aquele shopping não tinha as marcas que tinha em mente. Encomendar pela internet demoraria muito, então Kwon Siyul entrou na loja de aparência mais cara entre as que estavam à vista.
— Bem-vindo. Está procurando algum sapato em particular?
Ah, Kwon Siyul hesitou. Embora já tivesse vindo acompanhando Woo Hyunse antes, de algum modo se sentia constrangido tentando escolher e comprar algo sozinho num lugar daqueles. Olhou de relance para o guarda-costas rondando à distância, depois de volta para o funcionário.
— Eu não entendo muito de sapatos. É para presente.
— Ah, entendi. Então, o tamanho…?
— 300.
— Tamanho 300 geralmente é sob medida… Um momento. Vamos mostrar os modelos que temos nesse tamanho agora. Se preferir um modelo diferente, pode encomendar. A entrega leva cerca de uma semana.
— Só me mostre os modelos que vocês têm aqui.
O funcionário confirmou e verificou o estoque antes de trazer um catálogo para Kwon Siyul folhear. Entre as muitas páginas, havia apenas alguns sapatos que serviam no número de Woo Hyunse.
Que formato tinham os sapatos que ele tinha sujado? Não os tinha observado de perto, então a imagem em sua memória era vaga. Em vez disso, Kwon Siyul se lembrou dos outros sapatos na sapateira de Woo Hyunse. Longe de serem wingtips, eram todos pretos ou marrom-escuros. Todos discretos e simples.
A maioria eram sapatos comuns que não pareciam particularmente caros à primeira vista. Não só os sapatos, mas as camisas, gravatas e até as abotoaduras eram absolutamente simples.
Ainda assim, quando Woo Hyunse usava tudo isso junto, ele brilhava como se estivesse sob um holofote. Era realmente uma coisa peculiar.
Entre as poucas opções, havia um sapato que parecia um pouco semelhante ao que Woo Hyunse costumava usar. Kwon Siyul apontou a página com o dedo.
— Por favor, me mostre este.
— Certamente. Um momento.
Enquanto o funcionário ia buscar os sapatos, Kwon Siyul se sentou e folheou o catálogo de novo. Embora já tivesse se decidido, olhando de novo, este parecia bom, e aquele também não parecia ruim. Considerou chamar o guarda-costas para perguntar de que design Woo Hyunse gostava, mas decidiu não incomodar alguém tão distante e fechou o catálogo, abandonando quaisquer pensamentos remanescentes.
O funcionário voltou rapidamente segurando uma caixa grande. De pé diante de Kwon Siyul, abriu a tampa para revelar os sapatos cuidadosamente dispostos dentro. Como era de se esperar de sapatos novos, reluziam sob a luz.
Kwon Siyul tirou um sapato como se estivesse enfeitiçado. Chegou a tocar a sola. Era do tamanho de um navio de guerra, cobrindo facilmente toda a palma da sua mão. Nada em Woo Hyunse era pequeno. Sua altura, ombros, peito, mãos e até os pés eram todos maiores que a vida. Pensando bem, até seu celular, apesar de ser o maior modelo da linha, parecia um brinquedo de criança na mão de Woo Hyunse.
— …
Ele se perdeu em pensamentos por um momento ali. Kwon Siyul voltou à realidade e recolocou o sapato na caixa.
— Vou levar estes.
— Gostaria de embrulho para presente?
— Sim.
— Há uma taxa extra pelo embrulho. Tudo bem?
— Sim. Por favor, embrulhe bonito. O mais bonito possível.
— Claro. Farei o meu melhor.
O funcionário pegou o papel de embrulho e o cortou com habilidade. Quando terminou, ficou bastante apresentável como presente.
— Gostaria de parcelar?
Kwon Siyul abriu a carteira e hesitou por um momento. Havia dois cartões dentro. Um tinha sido dado por Woo Hyunse para usar, e o outro estava em seu próprio nome, feito quando abriu sua conta-salário. Depois de mexer nos dois cartões, puxou um.
— Não. Vou pagar à vista.
Era o cartão do próprio Kwon Siyul. Uma quantia grande foi cobrada de uma só vez. Metade do saldo da conta se foi depois dessa cobrança, mas ele não se importou. Era para isso que ele tinha economizado, afinal.
Ele saiu do shopping carregando a sacola. Depois de andar alguns passos, sentou-se num banco próximo. O peso em sua mão era pesado. Embora sempre tivesse conseguido carregar esse peso com facilidade, tinha se acostumado ao conforto e à leveza enquanto estava com Woo Hyunse. Até o menor desconforto o lembrava da pessoa que sempre tinha garantido que ele estivesse confortável.
Kwon Siyul fechou os olhos por um momento, depois olhou ao redor depois de organizar os pensamentos. Como esperado, o guarda-costas estava parado por perto. Ele caminhou até ele com a sacola.
— Por favor, me leve para casa.
Ônibus, metrô, táxi — tudo isso era incômodo demais. Kwon Siyul fez o pedido de forma um tanto sem cerimônia. O guarda respondeu com um curto “Sim” e abriu caminho. Kwon Siyul balançou a cabeça quando ele se ofereceu para carregar a sacola. Embora tivesse pedido uma carona porque o peso de meros sapatos era pesado, afinal aquilo era um presente para Woo Hyunse, e ele não queria que fosse tocado pelas mãos de outra pessoa, nem por um instante.
Kwon Siyul entrou no banco de trás do carro estacionado e se encostou no encosto. Apesar de estar de estômago vazio a manhã toda e já ter passado muito do horário do almoço, não estava com fome. Parecia ter comido bem o bastante na Ilha de Jeju.
Embora fosse uma tarde de dia útil, as ruas estavam completamente engarrafadas. A julgar pelo som crescente de sirenes de ambulância, parecia haver um acidente de trânsito por perto. No carro parado, Kwon Siyul olhava sem expressão pela janela. Não estava nevando. O dia estava claro e limpo.
Pela primeira vez, Kwon Siyul não gostou daquele tipo de clima. Desejava um dia nublado e cinzento com neve pesada.
Ele lançou o olhar ao longe. Um grande painel eletrônico num prédio exibia a previsão do tempo. O texto passava rápido, dizendo que ficaria limpo durante o dia, mas que neve cairia em várias áreas a partir do fim da tarde. Satisfeito por o tempo pelo menos vir a se tornar o que ele queria, Kwon Siyul exibiu um sorriso leve no rosto.
A via congestionada não dava sinais de liberar. Embora o silêncio não fosse constrangedor, Kwon Siyul puxou a gola, sentindo-se sufocado de novo. Isso não tinha acontecido na ilha, mas, desde o momento em que pisou no continente, parecia que algo estava entalado em seu esôfago e em sua traqueia. Estava lentamente apertando seu pescoço. Antes que sua respiração fosse cortada, ele abriu a boca como se soltasse o ar.
— Você gosta de jogos?
O guarda-costas olhou de relance para Kwon Siyul pelo retrovisor. Kwon Siyul não olhava para a frente. Com o olhar fixo do lado de fora da janela, continuou falando como num monólogo.
— Não particularmente.
— Eu gosto muito de jogos. Meu irmão me comprou um console, mas eu fico tonto jogando nele, então prefiro jogos de celular. Mais do que jogos de caçar monstros, eu gosto dos antigos, como Tetris ou Bubble Bobble.
Apenas a voz de Kwon Siyul ecoava suavemente no carro. Kwon Siyul não se importou com o silêncio do guarda.
— Entre esses, eu gosto mais dos jogos de blocos. Quando você junta três blocos do mesmo formato, eles estouram. Depois de jogar um tempo, eu consigo dizer de cara se vou passar de fase ou não, sabe?
De tanto jogar, Kwon Siyul conseguia dizer só pela composição dos blocos se teria sucesso ou não. Como o jogo tinha um número limitado de vidas, se parecesse impossível, ele atualizava a tela para mudar o arranjo dos blocos. Até sentir que conseguiria passar. Depois disso, geralmente tinha sucesso.
— Mas…
O carro andou. Kwon Siyul não fazia ideia se o guarda o estava escutando ou não. Estava tudo bem mesmo sem um ouvinte. Mesmo que fosse como falar com uma parede, o ponto era pôr para fora as palavras engarrafadas por dentro.
— Por que eu não consegui reconhecer dessa vez?
Seria porque não era um quebra-cabeça? Porque não era um jogo que ele já tinha jogado antes? Desde o momento em que Kwon Siyul viu seu rosto, ouviu sua voz, desde o nosso primeiro encontro, ele nunca deveria ter olhado para trás. Não deveria ter pedido ajuda. Deveria ter recusado todas as coincidências e inevitabilidades que os uniram.
Se ele tivesse fugido sabendo o quanto o mundo e as pessoas eram assustadores, não teria chegado tão longe. Não deveria ter feito essa jornada. Deveria ter vivido sem saber.
— Era um jogo perdido desde o começo.
Sua voz se apagou. Kwon Siyul apoiou a cabeça no banco e colocou a sacola que estava ao seu lado sobre o colo. Mesmo apenas uma caixa parecia pesada o bastante para deixar suas coxas roxas. Não era tanto o peso físico, mas a pressão de seu significado.
— E eu, sem saber disso…
Kwon Siyul voltou impensadamente ao jogo.
— Sem saber que, por mais blocos que eu quebrasse, eu nunca conseguiria passar para o próximo nível.
Ele desviou o olhar para os próprios pés. Estavam escondidos dentro de tênis. Estes também eram sapatos novos que Woo Hyunse tinha comprado para ele. Sobre eles, Kwon Siyul imaginou os chinelos fechados que tinha usado brevemente na Ilha de Jeju.
Dizendo que ele não devia sentir frio, Woo Hyunse tinha segurado seus pés gelados com as mãos quentes e os colocado nos chinelos. Não apenas um pé, mas os dois. Usando os sapatos que ele lhe tinha calçado, Kwon Siyul agora tinha que se preparar para caminhar sozinho. E tinha que calçar sapatos em Woo Hyunse também. Para que pudéssemos caminhar como você e eu, não como nós.
O guarda-costas não disse nada. Kwon Siyul também ficou em silêncio. Havia muito a fazer quando voltasse. Já estava se sentindo um pouco cansado.
Ele tinha pensado inicialmente que teria muita coisa para organizar, já que tinha morado ali por um tempo, mas, ao ir passando por tudo, a maior parte acabou sendo coisas que tinha recebido de Woo Hyunse. Não, não seria exagero dizer que era tudo. Roupas, roupas íntimas, outras necessidades e até aparelhos eletrônicos — tudo comprado por Woo Hyunse e dado a ele.
Dentre essas coisas, Kwon Siyul separou os itens que originalmente lhe pertenciam. Um moletom velho, um celular com a tela rachada, uma mochila com as alças gastas e um par de tênis que ele costumava cuidar bem, mas que agora pareciam particularmente surrados. Comparados ao que Woo Hyunse tinha lhe dado, pareciam absolutamente maltrapilhos.
Depois de jogar fora sua escova de dentes do banheiro, toda a organização estava feita. Vergonhosamente, levou menos tempo do que comer uma refeição, apesar de sua determinação inicial. Embora parecesse que tinha ficado por um bom tempo, durante aquele período tinha vivido cercado de coisas que Woo Hyunse tinha providenciado, sem nada que pudesse chamar de seu.
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Continua *ੈ🍸✩‧₊˚
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna