• Capítulo 87
Capítulo 87
Por sorte ou azar, enquanto o voo foi tranquilo, flocos de neve pesados começaram a bordar o céu assim que eles pisaram na Ilha de Jeju. A previsão do tempo tinha mencionado neve, mas não houve nenhum aviso prévio de que a nevasca seria tão intensa.
Eles tinham ouvido que o tempo na ilha era tão imprevisível quanto mingau fervendo, mas uma tempestade de neve não era algo que esperavam. O clima, que eles achavam que seria mais ameno que o do continente, não mostrou piedade diante da nevasca. No momento em que saíram do aeroporto, o vento cortante arranhou toda a pele exposta.
No entanto, Kwon Siyul não ficou decepcionado. Ele não tinha muita intenção de passear mesmo. A sopa de macarrão com carne e o mar eram todos desculpas. Ele só precisava de tempo para passar com Woo Hyunse. Tempo para acalmar seus sentimentos inquietos e para criar memórias que pudesse relembrar quando um dia pisasse de novo na Ilha de Jeju.
Felizmente, as estradas ainda não estavam congeladas, então chegaram em segurança à casa de campo. Mesmo depois de passar pelo portão principal, ainda dirigiram um bom tempo até a casa aparecer. Era uma casa de campo modesta e bem cuidada. Neve branca tinha se acumulado no telhado marrom-avermelhado, e fumaça branca subia da chaminé acima dele. A cena, em harmonia com a paisagem nevada, parecia uma ilustração fofa de um livro de contos de fadas.
O caseiro da casa, que esperava na entrada, ajudou a levar a bagagem do porta-malas. Não demorou muito, já que eram apenas duas malas.
— Preparei tudo o que o senhor pediu. A lenha está empilhada ali. Se precisar de mais, pode pegar nos fundos. Se precisar de qualquer outra coisa, é só me contatar. Venho na hora.
— Obrigado pelo trabalho.
— Aliás, faz tempo que o senhor não vem. Uns quatro anos? Fazia tanto tempo que não vinha que eu pensei que o antigo dono tivesse se desfeito deste lugar.
O caseiro, com sulcos profundos no rosto, riu com vontade. Kwon Siyul, embrulhado da cabeça aos pés no casaco acolchoado, cachecol e gorro que Woo Hyunse tinha colocado nele, aguçou os ouvidos.
— Eu estava ocupado demais com o trabalho pra vir. Pretendo visitar com mais frequência agora.
— Isso seria bom pra mim. Ah, devo preparar para um churrasco?
— Não, faremos isso na próxima vez.
— Bom, seria difícil grelhar carne lá fora com essa neve, de qualquer forma. Aliás, este jovem… Ele não pode ser seu filho, certo?
A atenção do caseiro se voltou para Kwon Siyul. Kwon Siyul curvou levemente a cabeça. Quando disse “Olá”, o caseiro riu mais uma vez, dizendo que o jovem era incomumente educado para alguém da idade dele.
— Este é meu…
— Eu sou amigo do Hyunse hyung. Muito prazer.
Kwon Siyul interrompeu as palavras de Woo Hyunse. Woo Hyunse olhou para Kwon Siyul sem expressão. Ele pareceu descontente com o termo “amigo”, os lábios pressionados numa linha reta.
— Então eu vou indo. Tenham um bom descanso.
O caseiro, que vinha olhando de relance a reação de Woo Hyunse, se retirou. Kwon Siyul abriu a porta, sentindo o olhar reprovador de Woo Hyunse dirigido às suas costas. O ar quente se precipitou para fora, afastando o frio. As paredes eram em tons quentes, e dava para ouvir o crepitar da lenha queimando na lareira embutida na parede.
— Por que Kwon Siyul é só um amigo?
Woo Hyunse, que tinha entrado atrás dele, envolveu Kwon Siyul em seus braços. Sua voz estava bastante rouca enquanto ele pressionava o queixo no topo da cabeça de Kwon Siyul.
— Seria estranho dizer de repente que somos amantes para alguém que acabei de conhecer, não seria?
— Por quê?
— Bom… porque nós dois somos homens?
— Mesmo Kwon Siyul sendo um ômega?
Como ele poderia esquecer isso? Kwon Siyul também sabia desse fato. Talvez porque seu passado como beta fosse mais longo, ou por algum outro motivo, ele não conseguia declarar com orgulho que era amante de Woo Hyunse diante dos outros. Acima de tudo, recentemente sentia que sua existência tinha encolhido ao tamanho de uma formiga ou de uma minhoca. Deveriam mesmo estar unidos como um “nós”, ainda mais ele ao lado de Woo Hyunse?
— Eu esqueci. Acho que ainda não me adaptei totalmente, já que minha diferenciação foi tardia.
A testa franzida de Woo Hyunse relaxou um pouco com a resposta sorridente de Kwon Siyul. Ele começou a emitir um cheiro fresco como a paisagem nevada lá fora. Kwon Siyul pressionou o polegar entre as sobrancelhas de Woo Hyunse. Preocupado com rugas permanentes se formando ali, a expressão descontente de Woo Hyunse foi gradualmente se suavizando.
— E não faria diferença mesmo se você fosse um beta. Não diga que é só um amigo da próxima vez. Nós não temos esse tipo de relação.
Um braço deslizou por baixo do traseiro de Kwon Siyul. Mesmo sendo erguido de repente no ar, Kwon Siyul não se assustou, e sim envolveu com familiaridade as pernas em volta da cintura de Woo Hyunse. Apesar da diferença de porte, Kwon Siyul era bem pesado com seus músculos sólidos, mas os passos de Woo Hyunse não foram atrapalhados.
Kwon Siyul também não pediu para ser colocado no chão. Eram palavras inúteis que já tinham sido trocadas entre eles várias vezes, palavras que Woo Hyunse jamais atenderia.
Sentando-se no sofá, Woo Hyunse colocou Kwon Siyul sobre suas coxas e envolveu os braços em volta da cintura dele. Ele afundou a cabeça no ombro de Kwon Siyul, depois o abraçou com força e inspirou. Kwon Siyul agora associava esse tipo de comportamento à busca pelo cheiro do outro.
— Você vinha aqui com frequência antes?
Kwon Siyul perguntou enquanto acariciava suavemente o cabelo de Woo Hyunse. Woo Hyunse assentiu levemente enquanto prendia entre os lábios o zíper do casaco acolchoado de Kwon Siyul e o puxava para baixo. Depois de abri-lo até o peito de Kwon Siyul, enterrou o rosto na abertura. Esfregou o nariz proeminente contra as roupas de Kwon Siyul.
— Às vezes. Quando me sentia sufocado.
— Com quem?
— Sozinho.
— Sério?
Era difícil de acreditar. Kwon Siyul conhecia pelo menos fragmentos do histórico amoroso de Woo Hyunse. Pensar que ele tinha um lugar tão bonito e só vinha sozinho a esse lugar.
— Sério. Você é a primeira pessoa que eu trouxe aqui.
— Devo me sentir honrado?
— Suponho que sim. Não pretendo vir aqui com mais ninguém além de você daqui em diante.
De repente, a ferida criada pelo convite de casamento começou a arder. Mesmo já tendo passado muito do estágio de sentir dor. Kwon Siyul cerrou o punho e riu alto. “Haha.”
Woo Hyunse apoiou o queixo no peito de Kwon Siyul como um cachorro grande e ergueu o olhar para ele.
— Você é o único.
Ele estreitou os olhos e exibiu um sorriso leve, como se pedisse carinho. Sem conseguir decepcioná-lo, Kwon Siyul acariciou o cabelo e as orelhas de Woo Hyunse com as duas mãos. Woo Hyunse fechou os olhos por um momento, depois os abriu. Seus olhos brilhavam. O casaco acolchoado já tinha sido completamente retirado a essa altura, e o cachecol e o gorro estavam espalhados no chão.
— Devo te dar isto? Este lugar.
Uma mão grande deslizou por baixo da gola de Kwon Siyul, tocando suas costas nuas. Apesar de a palma ser quente o suficiente, arrepios subiram por sua pele por algum motivo. Quando Kwon Siyul estremeceu e encolheu os ombros, Woo Hyunse o acompanhou, baixando a cabeça. Encostou os lábios na orelha de Kwon Siyul e sussurrou com carinho.
— Vamos vir sempre que você quiser ver o mar. Só nós dois.
Só nós dois.
A palavra “nós” apunhalou Kwon Siyul dolorosamente. Sem saber que expressão poderia estar fazendo, Kwon Siyul abraçou Woo Hyunse com força, bloqueando sua visão. Sua garganta estava embargada, dificultando a fala. Ele entreabriu os lábios depois de hesitar por um momento.
— Na próxima vez. Quando a gente vier de novo na próxima vez… eu aceito.
Depois de mal conseguir terminar suas palavras, enterrou a bochecha no cabelo sedoso de Woo Hyunse. As palavras prometendo um futuro incerto continuavam ardendo nos olhos de Kwon Siyul. A umidade se acumulou nos cantos de seus olhos bem fechados, mas ele não deixou cair.
Embora ainda fosse dia, o mundo lá fora era todo cinzento. A neve não dava sinais de parar. O pinheiro que estava de pé do lado de fora da janela tinha os galhos curvados sob o peso da neve acumulada em cima, e neve branca grudava em um dos lados de seu tronco. Era por causa do vento que soprava com ferocidade.
— A gente não vai conseguir sair assim — comentou Woo Hyunse enquanto olhava pela janela. Kwon Siyul também estava de pé, encostado no parapeito da janela, olhando sem expressão para fora. Os flocos de neve eram grossos, e o vento arranhando o vidro também era agourento. Era o tempo perfeito para virar boneco de neve se saíssem. Mesmo que saíssem de carro, estava claro que ficariam atolados depois de apenas alguns metros.
Parecia que eles teriam que passar o tempo apenas dentro da casa. Kwon Siyul ergueu o olhar para Woo Hyunse depois de observar a neve caindo intensamente. Sua testa estava franzida, como se estivesse descontente por seus planos, feitos antes de virem, terem sido atrapalhados.
— Hyung, vamos beber?
Diante dessa sugestão inesperada, o rosto de Woo Hyunse relaxou instantaneamente. Embora fosse cedo demais para beber, não importava, já que não podiam sair de qualquer forma.
Kwon Siyul deu uma olhada no armário-expositor da sala. Várias garrafas de bebida com rótulos estavam enfileiradas no armário de madeira, grande como uma porta. A maioria eram nomes que ele conhecia dos bares. Havia uma variedade de tipos, incluindo uísque, vodca, rum e até um licor chinês desconhecido.
— Aquilo é só decoração?
— Eu as coloquei ali antes. Mas já? O sol nem se pôs ainda.
— O álcool se importa com dia ou noite?
Fazendo uma afirmação digna de um beberrão apesar de só aguentar três garrafas de soju, Kwon Siyul se virou para o armário. Abriu a porta de vidro e tirou a garrafa colocada mais perto. Devia ser regularmente cuidado, pois não havia um grão de poeira na garrafa de vidro.
Ele segurou a garrafa pesada com as duas mãos e verificou o teor alcoólico. Era bem alto, mas quem liga para teor alcoólico quando se bebe para ficar bêbado?
— Espera. Deixa eu preparar uns petiscos primeiro.
Woo Hyunse arregaçou as mangas. Os petiscos que tinham comprado no supermercado já bastariam, mas não havia motivo para recusar se o outro queria preparar algo. Kwon Siyul se sentou à mesa de jantar, observando sem expressão as costas de Woo Hyunse. Toda vez que ele sacudia levemente a frigideira pesada no ar, os tendões dos antebraços, expostos pelas mangas arregaçadas, se destacavam nitidamente. Aquilo dava vontade em Kwon Siyul de pressioná-los com firmeza com a mão.
— Hyung, você não disse que não gosta de cozinhar?
Parecia que eles já tinham tido uma conversa parecida antes. Ele dissera que comeria se outra pessoa cozinhasse, mas que raramente cozinhava ele mesmo.
— Não é meu hobby.
— Então por que você cozinha pra mim com tanta frequência?
Mingau, massa e outros pratos também. Kwon Siyul apoiou o queixo nos braços cruzados sobre a mesa. O som chiando era agradável de ouvir. Embora seu apetite andasse ruim, talvez por estarem em outro lugar que não em casa, sentiu a boca salivar pela primeira vez em muito tempo.
Woo Hyunse olhou para trás. Kwon Siyul já estava esparramado, lânguido, como se estivesse bêbado.
— Você disse que só sabe fazer ramyun.
— Bom, isso é verdade.
— Então o papel de chef teria que cair sobre mim, não é?
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Continua *ੈ🍸✩‧₊˚
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna