• Capítulo 86
Capítulo 86
— Os documentos?
Kwon Siyul acordou de um cochilo, assustado com o som do telefone tocando. Atendeu depressa, e era Woo Hyunse pedindo que ele levasse ao escritório alguns documentos que tinha esquecido em casa para uma reunião à noite.
— Você almoçou?
— Almoço…
Depois de olhar o relógio, Kwon Siyul percebeu que já tinha passado muito da hora do almoço. Não estava particularmente com fome e, desde que acordara de manhã, tudo o que tinha consumido era um gole d’água. Ia mentir e dizer que tinha comido, mas se conteve. Ele descobriria de qualquer forma quando se vissem. Kwon Siyul balançou de leve a cabeça, mesmo sabendo que o outro não podia vê-lo.
— Não, ainda não. Acabei de acordar.
— Perfeito. Eu também não comi. Vamos comer juntos.
— Tá. Onde estão os documentos?
— Na segunda gaveta da mesa do escritório. Vou mandar alguém.
— Eu posso ir sozinho.
Kwon Siyul sabia que conseguiria encontrar com o celular se ele só lhe desse o endereço. Estava pensando em aproveitar e dar uma caminhada, mas Woo Hyunse riu e disse para ele vir confortavelmente. Sabendo que não tinha o direito de recusar, disse obedientemente “Tá” e desligou.
— Escritório.
O escritório era um espaço desconhecido para Kwon Siyul. Era onde Woo Hyunse muitas vezes ia trabalhar e, embora não fosse trancado como o quarto proibido do Barba Azul, Kwon Siyul nunca tinha posto os pés lá dentro. Um dos motivos era que, sempre que o vislumbrava de fora, os livros que preenchiam um dos lados pareciam ser de um tipo desconhecido para ele.
Pensando que devia reunir os documentos antes que a pessoa que Woo Hyunse enviaria chegasse, Kwon Siyul se dirigiu ao escritório. A maçaneta girou com facilidade, com um clique.
O ar seco o recebeu primeiro. A sala estava escura como o começo da noite, mas um feixe espesso de luz atravessava o centro. Poeira dançava naquela luz.
O cheiro de Woo Hyunse pairava levemente no ar. Kwon Siyul respirou fundo, saboreando a fragrância de Woo Hyunse como se a filtrasse para dentro. Percebendo de repente o que estava fazendo, abriu os olhos com um sorriso amargo no rosto.
Uma estante enorme ocupava uma parede inteira. Uma poltrona reclinável, uma mesa baixa feita de vidro grosso e um abajur de pé de haste longa pareciam perfeitos para uma leitura confortável.
A estante bem organizada tinha alguns vãos aqui e ali, e Kwon Siyul notou uma pilha de livros sobre a mesa. A julgar pelos marcadores para fora, pareciam ser os livros que estavam sendo lidos no momento.
Kwon Siyul deu uma olhada displicente na estante e se aproximou da mesa. A mesa, posicionada em frente à janela, estava arrumada com um PC all-in-one, teclado e mouse, todos alinhados em ângulos precisos, refletindo a personalidade de seu dono.
Com cuidado, ele passou a mão pela mesa e se sentou na cadeira. Seus pés não tocavam o chão, talvez porque a cadeira estivesse ajustada à altura de Woo Hyunse. Pensou em ajustá-la, mas desistiu, não querendo deixar nenhum vestígio de sua visita.
Na verdade, também não havia muito o que ver sobre a mesa. Apenas algumas pastas espalhadas e um envelope lacrado. Estranhamente, ao contrário das pastas bem arrumadas, o envelope estava precariamente equilibrado na beirada da mesa, como se fosse cair na lixeira.
— A segunda gaveta…
Ao se inclinar, ele esbarrou sem querer no envelope. Preocupado que pudesse cair, estendeu rapidamente a mão para pegá-lo. Foi então que notou o endereço do remetente carimbado em cima. A palavra “Casamento” se destacava em letras particularmente grossas. Ele desejou desesperadamente ter lido errado, mas, cruelmente, as letras impressas no papel permaneciam as mesmas.
Antes que pudesse processar seus pensamentos, se viu abrindo o envelope. Sua mão segurando o envelope tremia levemente. Atrapalhou-se várias vezes tentando desatar o cordão enrolado no botão por causa das mãos trêmulas. Mesmo depois de finalmente conseguir desatá-lo, hesitou em abrir imediatamente. Não queria ver. Ao mesmo tempo, queria desesperadamente ver.
Não.
Não era para ele ver. Mesmo que olhasse, a realidade não mudaria. Kwon Siyul respirou fundo. Aquela era uma caixa que não devia ser aberta. Era óbvio o que sairia se ele a abrisse. Soltou o ar devagar e pousou o envelope. Decidindo sair de lá de uma vez, levantou-se bruscamente da cadeira. Na pressa, nem pensou em amarrar de volta o cordão que tinha desatado.
— Ah…
Ao se levantar, ele enganchou sem querer a ponta do envelope. O envelope, bastante grosso, caiu no chão com a boca escancarada. Ele estendeu as mãos freneticamente para pegá-lo, mas não conseguiu agarrar um único papel. Papéis do tamanho de cartões-postais caíram no chão como folhas de outono.
Ajoelhando-se às pressas no chão para recolher os papéis, ele cortou o dedo indicador numa borda afiada. O corte era fundo e longo, na diagonal. Ele estremeceu e puxou a mão, mas a dor ardida, como se uma serra tivesse raspado sua pele, já tinha começado. Sangue vermelho vivo começou a brotar em gotas em seu dedo e depois escorreu.
Kwon Siyul levou rapidamente a parte ferida à boca. Sabia que devia tomar cuidado para não manchar os papéis com seu sangue.
Antes que percebesse, o cheiro remanescente de Woo Hyunse e o cheiro de papel seco tinham desaparecido, deixando apenas o odor metálico e acre em sua língua e nariz. Kwon Siyul olhou para os papéis com o dedo na boca. Eram cartões bonitos. Havia várias cores. As letras em relevo dourado eram elegantes, e a qualidade do papel era luxuosa.
Não eram apenas um ou dois convites de casamento. Eram amostras enviadas por fornecedores. A folha A4 que tinha caído do envelope tinha impresso “Checklist do Casamento”.
— …
Kwon Siyul pegou um dos convites com a mão não ferida. Era impresso de forma bonita demais para passar sem abrir. Era um convite com papel verde-escuro sobreposto a um fundo branco, com inglês bordado em papel prateado. Kwon Siyul leu em silêncio a mensagem dentro, palavra por palavra.
“Nós dois, na presença de nossos queridos convidados,
Estamos prestes a dar fruto ao amor que cultivamos
Enquanto nos encarávamos por um longo tempo.
Se você abençoar este começo,
Nós o guardaremos como nossa maior felicidade.
Por favor, venha e ilumine o lugar
Onde avançaremos de você e eu para nós.”
Nós.
Com alguém que não sou eu.
Aquela palavra se gravou em seus olhos mais que qualquer outra. O ar seco do escritório ficou úmido. A água começou a subir de seus dedos dos pés e logo o submergiu até abaixo do nariz. A superfície da água que vinha lambendo logo abaixo subiu gradualmente. Mesmo erguendo a cabeça, suas orelhas, narinas e olhos acabaram afundando. Por mais que tentasse empurrar ar para os pulmões inflando o peito, não conseguia respirar direito.
Será que ele tinha querido que ele visse isso, e por isso mandou que fosse ao escritório?
A esclera branquíssima de seus olhos ficou avermelhada. Mesmo com a boca aberta, não entrava ar suficiente. Parecia que alguém apertava sua garganta, aplicando pressão lentamente e bloqueando sua via aérea.
De você e eu, para nós.
Ou de nós para você e eu.
Kwon Siyul encarou sem expressão o teto alto e distante. Sua visão embaçou, depois clareou, depois embaçou de novo. Suas têmporas estavam quentes e úmidas, mas ele não se deu ao trabalho de enxugá-las.
Algo se aproximava com passos firmes daquele lugar escuro. Tão perto que ele teria que encará-lo por mais que evitasse, se escondesse ou virasse as costas.
* * *
— Hyung, vamos viajar?
— Viajar?
Woo Hyunse se virou. Kwon Siyul assentiu, sentado numa cadeira da mesa de jantar. Tinham acabado de comer. Como não tinha apetite, Kwon Siyul só tinha beliscado a comida como um passarinho. Woo Hyunse tinha se mudado para o lado dele e o alimentado pessoalmente com uma colher. Assim, ele tinha conseguido esvaziar metade de uma tigela de arroz.
— Pra Ilha de Jeju. Eu nunca fui lá.
— As pessoas não costumam ir pra lá em excursão escolar?
— Eu fui pra Gyeongju.
A Ilha de Jeju tinha sido uma candidata, mas Gyeongju foi escolhida por questões de orçamento. Como ele tinha ficado decepcionado depois de ter ficado empolgado por finalmente andar de avião. Tinha prometido ir à Ilha de Jeju com Kwon Yuwon depois, mas eles adiavam sempre por causa das agendas cheias, e ele nunca tinha ido. Só a olhava com olhos invejosos sempre que aparecia na TV.
— E que tal o exterior? Se você quer ver o mar, as Maldivas ou o Havaí também seriam legais.
— A Ilha de Jeju basta. Eu também quero comer sopa de macarrão com carne… A gente não pode comer sopa de macarrão com carne se for pra outro lugar, né?
Woo Hyunse olhou para Kwon Siyul em silêncio. Era um olhar investigativo. Kwon Siyul escondeu o dedo cortado dentro do punho, fingindo indiferença. Suor se formou em suas palmas, com medo de que feromônios contendo seus verdadeiros sentimentos vazassem sem que percebesse.
Fazia tempo que ele não expressava vontade de comer alguma coisa, se nada mais. Pareceu uma desculpa bastante boa, pois Woo Hyunse, depois de observá-lo por um tempo, desviou o olhar e deu permissão de bom grado.
— Eu tenho uma casa de campo em Jeju. Vou mandar prepará-la.
— Uma casa de campo?
Woo Hyunse deu de ombros levemente diante da pergunta de olhos arregalados de Kwon Siyul. Como se uma casa de campo fosse algo que toda casa tivesse, como uma máquina de lavar ou uma geladeira.
— Tenho. Uma em Yangju, uma em Jeju.
— Você é rico mesmo, hyung.
— O bastante pra te sustentar a vida toda mesmo se o negócio falir, Kwon Siyul.
— Uau, isso é reconfortante.
— Então não pense em ir pra lugar nenhum e fique grudado do meu lado.
Woo Hyunse beijou a testa de Kwon Siyul com um estalo. Kwon Siyul sorriu fracamente. Suas entranhas já não borbulhavam como água com gás sempre que o outro o beijava, mas Woo Hyunse não percebeu a diferença.
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Continua *ੈ🍸✩‧₊˚
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna