• Capítulo 83
Capítulo 83
— Vamos nos sentar primeiro.
Kwon Yuwon, que tinha ficado esse tempo todo encarando Woo Hyunse em silêncio, sentou-se no sofá sem esconder a irritação. Quando Kwon Siyul tentou se sentar ao lado de Woo Hyunse, Kwon Yuwon agarrou seu pulso e o puxou para sentar ao lado dele. Kwon Siyul também achou bom. Não se importava de se sentar ao lado de Kwon Yuwon e segurar sua mão com força.
Woo Hyunse observava de braços cruzados, sem se dar ao trabalho de esconder o descontentamento, mas Kwon Siyul nem sequer olhou em sua direção. Pela primeira vez em muito tempo, os olhos de Kwon Siyul, que tinham estado sombrios todo esse tempo, brilharam um pouco.
— A situação de perigo já foi praticamente resolvida. Kwon Siyul também está seguro. No entanto, ainda há algumas questões a acertar, então seria melhor que vocês dois permanecessem separados até que tudo esteja concluído.
— Então pra onde o Yuwon vai agora? — perguntou Kwon Siyul com urgência, ainda sem soltar a mão de Kwon Yuwon. Park Hae-jeong lançou um olhar a Woo Hyunse antes de falar.
— Temos acomodações separadas preparadas. Não podemos revelar o endereço.
Os ombros de Kwon Siyul se curvaram, desanimados. Kwon Yuwon o consolou, dando tapinhas e envolvendo seus ombros.
Woo Hyunse observava Kwon Siyul atentamente enquanto esfregava a têmpora. Notando o olhar frio, Kwon Yuwon puxou Kwon Siyul para mais perto, como se quisesse escondê-lo atrás de si. Sua antipatia era óbvia. Se Kwon Siyul não estivesse presente na sala, ele talvez tivesse desferido um soco.
— Mas, Kwon Siyul, acho que tem uma coisa que eu preciso ouvir sobre.
— O que é?
— Eu não te falei pra não se encontrar com alfas?
As palavras de Kwon Yuwon, dirigidas a Kwon Siyul sem piscar enquanto encarava Woo Hyunse, não eram para Kwon Siyul. Suas palavras eram destinadas aos ouvidos de Woo Hyunse. Seus feromônios eram ameaçadores como um gato selvagem eriçado, mas, apesar do cheiro assassino, Woo Hyunse não ergueu sequer uma sobrancelha. Só Kwon Siyul, percebendo tardiamente, arquejou de susto e agarrou o ombro de Kwon Yuwon para detê-lo.
— Você não sabe a idade do Siyul? Cadê a sua consciência? Porra, o nosso garoto não é um brinquedinho.
— Kwon Siyul era menor de idade? Não sabia que ele tinha um tutor.
— Porra, agora você…
— É você que não sabe quantos anos Kwon Siyul tem. Se ele é adulto, você devia deixá-lo se virar sozinho, não mantê-lo embrulhado nos seus braços para sempre. Controlador e ainda por cima manipulador.
— Quem é que…?!
Kwon Yuwon se levantou de um salto. Seus olhos diziam que ele queria agarrar aquele desgraçado e espancá-lo até virar papa. Seu punho fortemente cerrado tremia como se de fato fosse desferir um soco. Em resposta, o cheiro de Woo Hyunse também se intensificou, como se liberado de propósito. Era uma guerra invisível. Ameaças e intenção assassina preenchiam o escritório. Não era apenas um cheiro, mas um indicador de derramamento de sangue num futuro próximo.
Nesse confronto intenso, acabou sendo Kwon Siyul quem mais o sentiu. Só Kwon Siyul foi atingido pelos chicotes espinhosos que eles emitiam. Tanto Woo Hyunse quanto Kwon Yuwon deveriam ser dominantes, mas a aura deles parecia forte o bastante para esmagar uma formiga com facilidade.
— …Ugh!
Seu estômago revirou, sua cabeça girou e, por fim, suas entranhas se embrulharam. Quando Kwon Siyul, pálido como um lençol, cobriu a boca, o cheiro cortante de Woo Hyunse se dissipou como que por magia.
Park Hae-jeong, que também tinha empalidecido, embora não tanto quanto Kwon Siyul, estendeu a mão para bloquear Kwon Yuwon. Kwon Yuwon conteve tardiamente seu cheiro e se sentou, ofegante. Embora tivesse escondido os feromônios, seus olhos continuavam tão ferozes quanto antes.
— Quem me ajudou foi o Park Hae-jeong, não você.
— E fui eu quem mandou o Park Hae-jeong.
Park Hae-jeong suspirou de leve. Kwon Siyul teve vontade de suspirar junto com ele.
Foi Park Hae-jeong quem resolveu o confronto tenso. Ele interrompeu a guerra fria entre os dois e relatou em detalhes o que tinha acontecido até então e o que precisava ser feito dali em diante.
Woo Hyunse parecia desinteressado, apoiando o queixo na mão distraidamente, mas, mesmo assim, não tirava os olhos de Kwon Siyul. Seus lábios bem fechados pareciam emburrados, como se estivesse descontente com o fato de Kwon Siyul estar sentado tão perto de Kwon Yuwon, de mãos dadas com firmeza e ouvindo Park Hae-jeong com atenção.
— Se terminamos, vamos indo. Temos um longo caminho pela frente.
Antes que Park Hae-jeong pudesse terminar seu relatório, Woo Hyunse abanou a mão e se levantou. Embora tivesse sido claramente ele a chamá-los ali, tratava Park Hae-jeong e Kwon Yuwon como convidados indesejados. Sua voz e sua expressão estavam tingidas de irritação.
Ao contrário de Kwon Yuwon, que soltou o ar em descrença, Park Hae-jeong se levantou com calma. Parecia bastante acostumado aos caprichos de Woo Hyunse.
— Então nós vamos indo agora.
Vendo Park Hae-jeong fazer uma reverência, Kwon Siyul também se levantou de um salto. Naquele ritmo, talvez tivesse que se separar de Kwon Yuwon de novo sem ter uma conversa adequada sobre tudo que tinham perdido enquanto estavam longe um do outro. Olhando rapidamente de um lado para o outro, sem saber de qual colarinho agarrar, Kwon Siyul estendeu a mão por hábito em direção a Woo Hyunse.
— Hã, a gente não podia pelo menos fazer uma refeição juntos?
Ele não podia simplesmente deixá-los ir assim, sem saber quando tudo aquilo acabaria. Queria alimentá-los pelo menos com uma refeição quente, com sopa. Mesmo que Woo Hyunse dissesse não, ele usaria o dinheiro que tinha guardado em segredo.
— Parece cruel demais mandá-los embora assim.
Kwon Siyul viu que as bochechas antes saudáveis do outro tinham encovado, e seus braços tinham afinado a um punhado. Quanto ele tinha sofrido? Seu nariz ardeu de compaixão. Mesmo que o problema fosse de sua própria autoria, sangue é mais grosso que água, e ver sua aparência maltratada deixou o coração de Kwon Siyul pesado.
Woo Hyunse encarou Kwon Siyul por um momento, depois suspirou baixinho e assentiu. Quando disse que faria uma reserva, o rosto de Kwon Siyul se iluminou. Ele tinha achado que seria recusado, dado o quanto Woo Hyunse parecia descontente.
Sorrindo largo, ele se virou para olhar Kwon Yuwon. Ao contrário do radiante Kwon Siyul, a expressão de Kwon Yuwon não era muito agradável. Ele parecia ter provado bile amarga. Quando seus olhares se encontraram, forçou um sorriso, mas ele não durou muito.
O clima durante a refeição foi bastante rígido. Até uma reunião de negócios teria sido mais cordial. Woo Hyunse e Park Hae-jeong ficaram em silêncio, como se suas bocas servissem apenas para comer, enquanto Kwon Siyul e Kwon Yuwon tagarelavam alegremente. Estavam ocupados tirando a carne do peixe um para o outro e colocando sobre o arroz um do outro.
Kwon Siyul comeu com gosto pela primeira vez. Normalmente deixava metade da tigela de arroz, mas dessa vez limpou o prato sem deixar um único grão. Com Woo Hyunse e Kwon Yuwon competindo para empilhar acompanhamentos em sua colher, não sobrou espaço em seu estômago nem para uma gota d’água.
Ao se despedir de Kwon Yuwon, eles se abraçaram por um longo tempo, assim como tinham feito quando se encontraram. As palavras “A gente não pode voltar pra pensão onde a gente morava?” subiram até sua garganta, mas Kwon Siyul acabou engolindo-as de volta.
No passado, talvez tivesse deixado escapar sem pensar, mas agora conhecia a realidade. Estava claro que ficar ao seu lado só traria dificuldades. Até que tudo estivesse completamente terminado, era certo que Kwon Yuwon ficasse com Park Hae-jeong.
Surpreendentemente, Woo Hyunse assumiu o volante ele mesmo em vez de deixar o guarda-costas levá-los para casa. Kwon Siyul encostou a cabeça na janela, olhando fixamente o perfil de Woo Hyunse. Isso o lembrou do passado, quando costumava roubar olhares do reflexo de Woo Hyunse na janela, com medo de ser pego.
A ponte do nariz, que descia como um escorregador, os lábios, o maxilar, até a bochecha onde Kwon Siyul tinha beijado — nada tinha mudado, e ainda assim, de algum modo, parecia muito distante. Parecia nebuloso, como se estivesse fora de alcance mesmo que ele estendesse a mão em direção ao outro.
— Hyung, e o trabalho?
— Tenho tempo de sobra pra levar o senhor Kwon Siyul pra casa.
Com o estômago cheio, seu corpo ficou lânguido e as pálpebras pesadas. Kwon Siyul se remexeu, afundando-se mais no banco. A voz de Woo Hyunse soava como uma canção de ninar.
— Como você está se sentindo?
— Bem. Estou tão aliviado que o Yuwon está seguro. Eu estava muito preocupado. Até tive um sonho recentemente em que o Yuwon estava deitado num buraco estranho, e quando eu chamei o nome dele, ele de repente se levantou e correu na direção oposta. Foi tão assustador… Estou realmente aliviado.
Kwon Siyul tagarelava como um passarinho. Fazia muito tempo que não falava tanto. Sentia-se muito mais à vontade em comparação a quando estava enfurnado em casa. Acima de tudo, saber que Kwon Yuwon, com quem mais se preocupava, estava seguro tinha tirado um grande peso de sua mente. Não, parecia que dez pesos tinham sido tirados.
— Então valeu a pena trazê-lo.
Woo Hyunse deu uma risadinha. Os olhos de Kwon Siyul, que estavam se fechando, se arregalaram de repente.
— Você o chamou?
— Chamei. A crise tinha acabado, e você parecia sentir falta dele. Insisti que ele viesse na hora quando ele ficou choramingando que era difícil.
Ele sorriu largo, mostrando todos os dentes. Em contraste, Kwon Siyul se sentiu inquieto. Inclinou a cabeça e pressionou com força a boca do estômago. Não sabia dizer se era seu humor, sua cabeça, ou se tinha simplesmente comido demais.
A única coisa clara era que Woo Hyunse, que tinha trazido Kwon Yuwon ali por ele, tinha mostrado que ele estava seguro e até os levado para comer, era a causa de seu desconforto.
Não seja gentil. Não seja atencioso. Já bastava. Esses esforços não eram mais necessários, mas Woo Hyunse sempre ignorava e ultrapassava seus desejos com facilidade. Ele tentava manter vivo o afeto que deveria ser morto e matar o ódio que deveria ser mantido vivo. Kwon Siyul limpou a boca, reprimindo um suspiro que ameaçava escapar.
— …Obrigado, hyung. De verdade. Muito obrigado mesmo.
Por ajudar Kwon Yuwon, e por mostrar que ele estava seguro. Mesmo que não pudesse passar a vida com Woo Hyunse, nunca esqueceria essa gentileza até o dia de sua morte.
— Não precisa de agradecimentos entre nós. É só dizer a palavra a qualquer momento. Eu o trago até você.
Ele deu de ombros e respondeu como se não fosse grande coisa. Esse comportamento, em nada diferente do habitual, pareceu estranho a Kwon Siyul. Parecia que só ele tinha mudado. Como se só ele tivesse pesadelos, só ele estivesse afundando debaixo d’água.
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Continua *ੈ🍸✩‧₊˚
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna