• Capítulo 82
Capítulo 82
Os pesadelos ficaram cada vez mais frequentes, acordando-o no meio da noite. Sonhos parecidos se sucediam como continuações. Num sonho, Kwon Yuwon aparecia morto; noutro, ele assistia ao casamento de Woo Hyunse como um convidado indesejado.
Quando Kwon Siyul acordava ofegante, Woo Hyunse acariciava com delicadeza onde conseguisse alcançar e perguntava gentilmente que sonho ele tinha tido. Cada vez, isso fazia as entranhas de Kwon Siyul ferverem. O Woo Hyunse de seus sonhos, caminhando de mãos dadas com outra pessoa em meio às bênçãos de todos, se sobrepunha ao Woo Hyunse real. Até seu abraço se tornava odioso, o que muitas vezes resultava em Kwon Siyul empurrando-o com força.
“P-Por que você fez isso?”
Ele reclamava, ressentido, mentindo que Woo Hyunse o tinha batido no sonho e dado um tapa em sua bochecha como no primeiro dia. Agarrando-se às roupas dele e derramando lágrimas, gritava que odiava mesmo o hyung, e agia quase como se estivesse tendo um ataque.
Ele nunca revelou que Woo Hyunse o tinha abandonado num lugar frio e escuro. Já tinha sido rejeitado quando implorou desesperadamente que Woo Hyunse não se casasse. Sabendo o quanto essa decisão era firme, sabia que ser sincero só seria tratado como manha infantil.
“É só um sonho.”
Cada vez, Woo Hyunse abraçava Kwon Siyul com força incansavelmente e o consolava. Mesmo enterrado nos braços de Woo Hyunse, Kwon Siyul sentia frio. O gelo que o cortava nos sonhos o perseguia até a realidade, atormentando-o sem trégua.
Fosse pelo sono agitado dos pesadelos infindáveis ou pela falta de apetite, Kwon Siyul murchava como uma planta privada de luz solar. Sua pele, antes branca e rosada, adquiriu um tom pálido e doentio, e seus pulsos afinaram, com os ossos sobressaindo. Suas roupas ficaram mais largas — sem cinto, a calça escorregava e mal se segurava em seus quadris.
“Por que você emagreceu tanto?”
“Estou de dieta. Engordei demais com todos aqueles tônicos que você me fez beber.”
Embora suas emoções oscilassem à noite, Kwon Siyul ficava surpreendentemente calmo pela manhã. Conseguia fingir que tudo estava normal.
Mesmo quando fazia piada, Woo Hyunse não ria junto. A preocupação e a inquietação em seu olhar e na mão que acariciava a bochecha de Kwon Siyul eram inconfundíveis. Kwon Siyul forçava um sorriso. Momentaneamente inseguro sobre se realmente estava sorrindo, ele tocava a própria boca. Ao sentir os cantos dos lábios erguidos, se tranquilizava.
“Eu não estou doente de nada mesmo. É só que é inverno, então não tenho muito apetite.”
Ao ouvir isso, Woo Hyunse imediatamente contratou uma governanta, alguém conhecida pelas habilidades culinárias. Ele já tinha tentado contratar uma antes, mas Kwon Siyul tinha se oposto na época, dizendo que se sentia desconfortável tendo outra pessoa em casa quando estava sozinho, e que estava comendo bem as marmitas, então não havia necessidade de chamar ninguém.
Mas dessa vez Kwon Siyul não se opôs. Não tinha opinião sobre nada do que Woo Hyunse fizesse. Apenas assentia, ou dizia “faça como quiser”, como se nada daquilo lhe dissesse respeito, recuando em silêncio.
Embora por fora sorrisse, reagisse e conversasse longamente, Kwon Siyul estava calado por dentro. Era como uma floresta escura onde a nevasca tinha parado, mas os flocos continuavam rodopiando.
Kwon Siyul observava a si mesmo olhando para Woo Hyunse como quem observa um estranho num filme. Quando estava sozinho, a água subia até logo abaixo de seu queixo. Se não erguesse a cabeça, parecia que até seu nariz submergiria. Suas mãos, pés, pernas e corpo pareciam sem força, como se já estivessem encharcados.
Kwon Siyul estava afundando lentamente. Como o lugar onde se sentava em seus sonhos, numa água escura e fria.
Eles tinham saído para comer algumas vezes, mas era quase sempre para o jantar. Era raro estar num carro durante o dia. Kwon Siyul olhava a paisagem passando pela janela.
Nas ruas da hora do almoço, trabalhadores de escritório em casacos e jaquetas acolchoadas se reuniam em pequenos grupos, passando apressados com café nas mãos. Embora não pudesse saber como se sentiam em relação a voltar ao trabalho, Kwon Siyul os olhava com olhos um pouco invejosos. Pelo menos aqueles com crachás pendurados no pescoço ganhavam dinheiro com as próprias mãos e tinham um lugar para onde voltar.
Um lugar para onde voltar.
Ele esfregou o rosto com as duas mãos. Tinha tido outro pesadelo sem falta naquela madrugada. Embora já devesse estar acostumado a essa altura, talvez por ser um sonho, a adaptação era bem lenta. Acordou encharcado da cabeça aos pés em suor frio.
Era madrugada, ainda não tinha clareado. Tentando não acordar Woo Hyunse, que dormia ao seu lado, foi em silêncio até a sala. Depois de umedecer a garganta ressecada, não teve vontade de voltar ao quarto e se sentou quieto numa cadeira da cozinha. Mesmo apoiando a cabeça na mesa e fechando os olhos, o sono não vinha com facilidade.
Enquanto seguia sem rumo o movimento do ponteiro dos segundos com os olhos, sentiu uma presença atrás de si. Woo Hyunse estava ali de pé, observando-o, embora Kwon Siyul não soubesse desde quando.
“Eu saí quietinho pra não te acordar, hyung.”
Enquanto Kwon Siyul sorria sem jeito, Woo Hyunse se aproximou num passo e o abraçou. Sua bochecha se pressionou contra um peito mais quente que o normal depois do sono.
“Por que você acordou?”
“Só acordei com sede.”
“Outro pesadelo?”
“…”
“Que pesadelos você tem tão frequentemente? Devemos mudar seu jeito de dormir?”
Uma mão grande de repente tocou sua testa. Afastou seu cabelo e esfregou sua bochecha e o lóbulo da orelha. Os olhos de Kwon Siyul tremularam, sonolentos, com o toque gentil. O sono de repente o invadiu. Mas, com medo de que o pesadelo continuasse, ele arregalou os olhos.
Woo Hyunse ergueu Kwon Siyul nos braços como uma criança. Kwon Siyul relaxou o corpo, apoiando-se no peito firme enquanto voltavam para o quarto.
O cobertor subiu até seu pescoço. Woo Hyunse estendeu o braço como travesseiro e deu tapinhas no peito de Kwon Siyul como se ninasse uma criança. Em seu abraço, Kwon Siyul manteve os olhos fechados. Até que a respiração de Woo Hyunse ficasse mais profunda. Apesar da cama macia, do cheiro reconfortante de Woo Hyunse e do toque calmante, o sono não veio facilmente.
— Chegamos.
A voz do guarda-costas acordou Kwon Siyul, que estava meio cochilando. Esfregando os olhos, Kwon Siyul saiu do carro. Seguindo a orientação do guarda-costas, entrou cambaleando no elevador.
Os números do elevador subiram rápido. Sem parar no meio do caminho, disparou até um andar alto. Kwon Siyul caminhou pelo corredor mecanicamente. Não notou a cor das paredes nem o que estava pendurado nelas.
Ao finalmente entrar no escritório, um funcionário ocupado na mesa se levantou. Vendo o guarda-costas atrás de Kwon Siyul, disse “Ah” e o conduziu, dizendo que estavam à espera.
Kwon Siyul não fazia ideia de onde estava nem por que tinha vindo. Ou melhor, não se importava. Só quando a porta se abriu e ele viu a cena lá dentro é que a luz voltou lentamente a seus olhos desfocados.
Sem saber se o que via era real, ou se o pesadelo cruel tinha se transferido para a realidade para atormentá-lo de outra forma, ele esfregou os olhos com força. Só depois de piscar várias vezes conseguiu ver as figuras sentadas no sofá.
Woo Hyunse se levantou primeiro. Mas o olhar de Kwon Siyul foi atraído para a pessoa que saltou à sua frente.
Seu rosto tinha emagrecido tanto, mostrando o quanto ele tinha sofrido longe dos olhos de Kwon Siyul. Seus olhos pareciam mais afiados e ferozes, e as roupas pendiam frouxas como se fossem escorregar. O pulso visível sob a manga era tão ossudo que parecia que ficaria roxo ao menor toque.
Seu cabelo também estava mais comprido. Embora preso de qualquer jeito, como se fosse um incômodo, ele ainda tinha uma aparência deslumbrante. O queixo de Kwon Siyul tremeu com o forte cheiro de laranjas que se espalhava.
— Você…
Sua voz também tremeu. Seus olhos esquentaram, e as lágrimas caíram sem contenção. Ao ver isso, Kwon Yuwon correu até ele e abraçou Kwon Siyul com força.
Foi um abraço sufocante. Kwon Siyul retribuiu com a mesma intensidade. Suas bochechas logo ficaram encharcadas. Ele tentou reprimir os soluços, mas logo enterrou o rosto no ombro de Kwon Yuwon, tremendo enquanto chorava.
— Você, o que aconteceu com você? Aquele desgraçado não te deu comida? Por que você emagreceu tanto?
Kwon Yuwon disparou perguntas como balas, erguendo o rosto de Kwon Siyul sujo de lágrimas e ranho. Apertou as bochechas de Kwon Siyul com as palmas das mãos, depois as beliscou entre o polegar e o indicador como bolinhos de arroz. Encostou as testas dos dois, depois se afastou para examiná-lo com os olhos estreitados. Examinou Kwon Siyul minuciosamente, como quem inspeciona um gatinho que fugiu e acabou de voltar para casa.
A palavra “desgraçado” incomodou Kwon Siyul por um instante, mas ele estava ocupado demais olhando para Kwon Yuwon. Queria perguntar por que Kwon Yuwon também tinha emagrecido tanto, e o que ele tinha andado fazendo, mas não conseguia dizer uma palavra por causa das lágrimas e das fungadas.
Quando abria a boca, só saíam soluços entrecortados. No passado, Kwon Yuwon talvez o tivesse repreendido por chorar como uma menina, mas, considerando quanto tempo tinham ficado separados, os olhos de Kwon Yuwon também estavam vermelhos como os de Kwon Siyul.
— Eu te avisei. Você emagrece fácil demais se pula refeições, então precisa fazer três refeições por dia sem falta. Que isso? Você está só pele e osso. Ei, você aí, não deu comida pra ele?
Kwon Yuwon fuzilou Woo Hyunse com o olhar. Kwon Siyul balançou a cabeça com vigor. Queria explicar sobre os tônicos, as marmitas e até a governanta que tinham sido providenciados em abundância, mas o choro era o problema. Em vez de palavras, Kwon Siyul esfregou os olhos molhados por todo o ombro de Kwon Yuwon.
Sem conseguir assistir por mais tempo, Woo Hyunse atravessou a sala a passos largos e separou os dois, que estavam grudados. Puxou Kwon Siyul para o seu lado e enxugou com cuidado o rosto molhado dele com um lenço. Park Hae-jeong, que estava sentado no sofá esperando uma chance de intervir, virou o rosto como se não quisesse testemunhar tal cena.
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Continua *ੈ🍸✩‧₊˚
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna