• Capítulo 81
Capítulo 81
Não era um sonho. Também não era o álcool fazendo-o ver coisas. Quando seus lábios se entreabriram, um sopro branco subiu como fumaça de cigarro. A vontade de se levantar e fugir lutava ferozmente com o desejo de permanecer sentado ali. Kwon Siyul escolheu o segundo. Sabia que não iria longe nem correndo a toda velocidade, e nem sabia para onde ir.
Woo Hyunse parou bruscamente diante de Kwon Siyul. Kwon Siyul tentou erguer o olhar, mas em vez disso baixou bastante a cabeça. Sentiu o suspiro pesado de Woo Hyunse tocar o topo de sua cabeça. Pareceu pressionar sua nuca ainda mais.
— Senhor Kwon Siyul.
Ele não tinha desculpas. Tinha agido feito bêbado na frente do guarda-costas e parecia determinado a morrer congelado em pleno inverno naquele banco de parque. Seu celular estava desligado, então não havia como contatá-lo nesse meio-tempo.
Woo Hyunse teria ficado preocupado?
Uma mão se aproximou. Com medo de ser agarrado pelo colarinho e erguido, Kwon Siyul fechou os olhos com força. Mas Woo Hyunse simplesmente dobrou os joelhos para se agachar, ficando na altura dos olhos de Kwon Siyul. A mão erguida tocou sua bochecha. Apesar de ter atravessado o parque, o calor da mão ainda permanecia.
— Está frio. Por que você está aqui fora? Devia ter entrado em algum lugar.
O calor do corpo de Woo Hyunse se transferiu através da pele de Kwon Siyul. Suas bochechas, que pareciam prestes a rachar de frio, foram descongelando devagar. Mas não eram as bochechas que estavam esquentando — eram os olhos. Kwon Siyul rapidamente agarrou com força a beirada do banco.
— Vamos voltar, Siyul-ah.
Woo Hyunse sussurrou, virando a cabeça para encontrar o olhar de Kwon Siyul, enquanto colocava as duas mãos nos joelhos frios dele. Aquelas mãos grandes que costumavam abraçá-lo, envolvê-lo e acariciá-lo se sobrepuseram às mãos que ele vira no sonho. Ao ver aquelas mãos que tinham sido estendidas à noiva, e não a ele, não conseguiu mais se segurar.
As lágrimas brotaram e pingaram no chão. Kwon Siyul esfregou com força o nariz e os olhos com as costas da mão.
— Hyung… Hyunse hyung.
Sua voz tremia terrivelmente. Ele estendeu a mão e agarrou a barra do casaco diante de si. Sua boca abriu e fechou várias vezes.
Ele gostava de Woo Hyunse. Gostava tanto que não queria soltá-lo. Queria se agarrar a ele. Mesmo sabendo que não podia mais ficar ao seu lado, sabendo que tinha que recuar não importava o que Woo Hyunse dissesse, seu desejo tinha crescido até o tamanho de seu coração.
— Você não pode não se casar?
Ele ainda estava bêbado, era por isso. Amanhã poderia negar de olhos bem abertos, dizendo que não lembrava de uma única coisa. Kwon Siyul olhou para Woo Hyunse com a ponta do nariz e a região abaixo dos olhos avermelhados. O lábio inferior tremia, e lágrimas mais grossas que flocos de neve escorriam por suas bochechas.
— Não se casa.
— …
— Eu vou te tratar muito melhor do que trato agora. Vou fazer tudo o que você disser, e não vou responder. Vou comer direito e obedecer. Só… fica comigo, hyung, só…
Ele queria dividir uma vida comum com Woo Hyunse — comer juntos quando ele voltasse do trabalho, lavar a louça juntos, sentar no sofá vendo TV e conversando, fazer compras nos dias de folga, cozinhar, adormecer nos braços um do outro na cama. Queria rir de conversas banais, construir memórias e aumentar as coisas que tinham em comum.
Não uma vida em que ficasse se perguntando quando Woo Hyunse voltaria, ou se ele viria até onde Kwon Siyul estava.
— Você não pode simplesmente viver comigo?
Seria um desejo grande demais? Woo Hyunse manteve a boca fechada e permaneceu em silêncio. Cansado de esperar uma resposta, Kwon Siyul apoiou a testa no ombro diante de si. Seus lábios estavam torcidos, como se fosse sorrir ou chorar.
— …Eu só falei bobagem por um momento porque estou bêbado. Bebi mais de três garrafas. Desculpa.
Kwon Siyul se levantou com as pernas bambas. Esfregou as bochechas, limpando as marcas de lágrimas. Nenhuma lágrima nova veio. Olhando para Woo Hyunse, ainda ajoelhado diante do banco, ele sorriu radiante. Era um sorriso tão gentil que, se seus olhos não estivessem vermelhos, ninguém saberia que ele tinha chorado momentos antes.
— Vou esquecer tudo até amanhã. Então não se preocupe muito.
Apoiando-se na embriaguez que lhe restava, foi audacioso por um instante. Kwon Siyul sacudiu a roupa e enfiou as mãos nos bolsos. Woo Hyunse se levantou e puxou à força a mão de Kwon Siyul para fora do bolso, entrelaçando os dedos. Ergueu as mãos firmemente unidas e beijou as costas da mão de Kwon Siyul. Como raízes de árvore agarrando o solo, ele entrelaçou as mãos deles como se nunca fosse soltar.
Kwon Siyul olhou para o floco de neve pousado nos cílios de Woo Hyunse, depois ergueu a cabeça para encarar o vazio. Incontáveis flocos brancos caíam, obscurecendo sua visão. Como não conseguia enxergar através da nevasca, Kwon Siyul optou por fechar os olhos.
— Ugh…
Sua cabeça doía. Kwon Siyul acordou com uma dor de cabeça que parecia um martelo batendo repetidamente em seu crânio. A náusea e a dor gritante em cada articulação lhe diziam que aquela ressaca não era nada comum.
Enquanto se remexia debaixo do cobertor por um tempo, a porta se abriu e Woo Hyunse entrou. Ele trazia uma bandeja.
— Como você está se sentindo?
— …Sinto que estou morrendo.
Kwon Siyul se encolheu, segurando a cabeça com as duas mãos, dizendo que hoje talvez fosse de fato o dia de sua missa de sétimo dia. Sua voz estava tão áspera como se tivesse engolido limalha de ferro. Woo Hyunse pousou a bandeja e se sentou na beira da cama. Massageou com firmeza a nuca de Kwon Siyul enquanto ele estava deitado de bruços. A dor de cabeça de rachar o crânio foi cedendo aos poucos sob o toque que amassava sua cabeça e sua nuca.
— É por isso que eu te falei pra não beber tanto.
— Fazia tempo. É por isso. Eu só fiquei feliz de ver todo mundo.
Quando Kwon Siyul se sentou, encostado na cabeceira, Woo Hyunse lhe ofereceu um copo que tinha trazido. Continha um líquido claro, da cor de chá de cevada. Um gole umedeceu sua língua e garganta com um sabor doce de mel. Como sua garganta estava ressecada de qualquer forma, ele esvaziou o copo de uma vez.
— Quer mais?
— Não, estou bem. Mas e o seu trabalho?
— Vou pro escritório mais tarde.
Kwon Siyul pegou o celular distraidamente. A tela do celular totalmente carregado mostrava números logo depois do horário do almoço. Ele tinha dormido profundamente e por muito tempo, completamente derrubado pelo álcool.
A tela do celular escureceu. Kwon Siyul se assustou mais com o próprio reflexo nela do que com a data. Sua aparência na tela escura estava pior que a de um mendigo que tivesse vagado pelas ruas por três anos.
O cabelo estava desgrenhado, os olhos e o rosto inchados, e os lábios rachados com pele branca descascando. Sem acreditar, ele rapidamente ergueu o braço e cheirou. Felizmente, não havia nenhum cheiro terrível.
Woo Hyunse estava prestes a estender a mão para o cabelo todo emaranhado dele quando…
— Vou me lavar.
— Eu te ajudo a tomar banho.
— Não! Eu quero me lavar sozinho.
Kwon Siyul se apressou em se levantar, detendo Woo Hyunse, que já arregaçava as mangas. Enquanto cambaleava, Woo Hyunse imediatamente estendeu a mão para segurá-lo, insistindo que ele cairia tomando banho naquele estado e que precisava de ajuda. Kwon Siyul recusou categoricamente.
— Eu tenho que fazer isso sozinho agora.
Woo Hyunse hesitou. Então atravessou o quarto a passos largos e agarrou o pulso de Kwon Siyul quando ele estava prestes a fechar a porta do banheiro. Kwon Siyul se virou.
— Você se lembra do que aconteceu ontem?
Kwon Siyul olhou em silêncio nos olhos de Woo Hyunse. Ele parecia procurar algo neles. Mas logo franziu um pouco a testa e sorriu como de costume.
— Não. Nada. Eu causei algum problema ontem?
Ele girou o pulso para se soltar. Coçou a cabeça como se tentasse recuperar as lembranças. Estreitou os olhos e então balançou a cabeça de leve, como se nada lhe viesse à mente.
— Devo ter bebido demais. Não consigo lembrar de nada. Mas eu lembro de ter colocado a gerente num táxi.
— …
O olhar que o seguia era persistente, como se tentasse determinar se era mentira ou verdade. Kwon Siyul empurrou o peito de Woo Hyunse, mandando-o embora antes que seus verdadeiros sentimentos fossem revelados. Woo Hyunse não se moveu um centímetro.
— Hyung, depois que eu me lavar, a gente pode ir comer sopa pra ressaca? Acho que não consigo comer mais nada hoje. Só de pensar… ugh.
Ainda assim, o outro não se movia. Naquele ritmo, ficariam num impasse em frente à porta do banheiro o dia inteiro, que se dane a sopa pra ressaca. Kwon Siyul deixou os braços caírem e fingiu estar o mais lamentável possível.
Implorou dizendo que já se sentia morrendo de ressaca, e perguntou se Woo Hyunse queria tornar tudo mais difícil para ele, dizendo que poderia realmente desmaiar se se esforçasse mais do que aquilo. Só depois desse exagero conseguiu entrar em segurança no banheiro.
Kwon Siyul tirou a roupa e ficou de pé debaixo do chuveiro. A água corrente encharcou seu cabelo, ombros, costas e pernas. Em vez de pegar o xampu, ele encostou a testa na parede por um momento.
Infelizmente, Kwon Siyul se lembrava de tudo com clareza. O sonho no banco, seu comportamento bêbado, o silêncio que se seguiu, e até a testa franzida que parecia dizer que aquilo era incômodo. Foi uma rejeição indireta. Havia coisas neste mundo que podiam substituir respostas sem palavras. Expressões, silêncios e climas faziam exatamente isso.
Ele sabia que sua atuação desajeitada não enganava Woo Hyunse, nem um pouquinho. Ainda assim, Kwon Siyul decidiu fingir que tinha esquecido. Acreditava que, se agisse como se nada tivesse acontecido, Woo Hyunse também fingiria não saber.
* * *
A vida cotidiana de Kwon Siyul voltou a ser como antes. Ele se despedia de Woo Hyunse e o recebia em casa, sentavam-se frente a frente à mesa de jantar para comer, ou de vez em quando saíam para jantar fora. Woo Hyunse segurava um café quente, Kwon Siyul um latte de baunilha gelado, enquanto caminhavam pelo parque, admiravam as árvores de Natal que ainda não tinham sido retiradas e davam as mãos escondidos. Como antes do concerto, Kwon Siyul sorria com frequência e tagarelava sem parar.
No entanto, era pacífico apenas na superfície. Os olhos de Kwon Siyul foram perdendo o brilho gradualmente. Sempre que Woo Hyunse estava por perto, ele se movia, falava e mostrava vitalidade como se um interruptor tivesse sido ligado, mas, quando sozinho, ficava sentado, imóvel, com os olhos abertos, como uma máquina desligada.
°🥂⋆.ೃ🍾࿔*:・°🥂⋆.ೃ🍾࿔*:・
Continua *ੈ🍸✩‧₊˚
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna