• Capítulo 80
Capítulo 80
— O CEO… estava sendo óbvio?
Kwon Siyul não tinha percebido isso. Sempre que se encontravam, geralmente era numa loja de conveniência bem longe do bar e, mesmo quando Woo Hyunse ia ao bar, conversava mais com os outros do que com Kwon Siyul. Kwon Siyul tinha dado um basta a qualquer mão dada escondida ou toque sutil. Com medo de que os outros percebessem, tinha até recusado com firmeza as ofertas de Woo Hyunse de ir buscá-lo enquanto moravam juntos.
— É. Ele só olhava pra você. Desde o momento em que entrava no bar, nunca tirava os olhos de você.
Era mesmo? Kwon Siyul tinha tomado tanto cuidado para não fazer contato visual que não fazia ideia de que Woo Hyunse o observava. As orelhas esquentaram. O peito também deu uma pontada ao mesmo tempo, doendo como se fosse pressionado por algo sem ponta.
— Fiquei com um pouco de inveja.
— De mim?
— Ele nunca me olhou daquele jeito.
Os olhos da gerente ficaram distantes, como se relembrasse o passado. Embora curioso sobre como exatamente Woo Hyunse o olhava, Kwon Siyul foi lembrado mais uma vez de que os dois já tinham sido mais próximos do que isso. Uma dor surda subia e descia em seu peito.
— O CEO Woo é realmente frio, sabe.
Kwon Siyul não podia concordar com isso. Woo Hyunse era caloroso. Caloroso demais, na verdade, a ponto de ser um problema. Enquanto sua mente gritava que ele devia ir embora, houve incontáveis vezes em que ele sucumbiu àquele calor e se aninhou nos braços de Woo Hyunse.
— Ele mantém a educação, mas é só isso. Por mais que eu quisesse, não conseguia ir além disso. O que eu queria dar e receber era amor, mas, por mais que eu desse, nada voltava dele.
Emoções unilaterais acabam pendendo para um lado, como uma gangorra. O que acontecia com os sentimentos que voavam pelo ar, ficando leves por não serem recebidos? Não se espalhavam como grãos não colhidos?
— Não estou falando de coisas materiais, mas emocionais.
A gerente apontou para o vazio escuro com a mão que segurava o cigarro, como se Woo Hyunse estivesse bem ali. O olhar de Kwon Siyul seguiu a mão antes de voltar para a gerente.
— O tipo de coisa que diferencia se eu estou dentro ou fora dos limites daquela pessoa.
Dando uma última tragada, a gerente virou o corpo. Descartou a bituca e riu com amargura, dizendo que estava falando bobagem. Perguntando-se se ainda haveria sentimentos remanescentes, Kwon Siyul ficou olhando fixamente, o que fez a gerente franzir a testa e adivinhar seus pensamentos.
— Que foi? Parece que eu ainda tenho sentimentos por ele?
— Um pouco…?
Ao ouvir a resposta sincera, a gerente fez uma careta de nojo e esfregou o próprio braço com vigor. Disse que não era isso que significava ter sentimentos remanescentes, que tudo o que restava entre eles era boa vontade suficiente para cantar no casamento um do outro, então Kwon Siyul não precisava se preocupar. Achando graça das próprias palavras, a gerente logo riu e acariciou a bochecha pálida de Kwon Siyul.
— Não importa como eu olhe, você é muito mais precioso. Você é caloroso, Siyul. Gentil, dedicado e fofo. O Woo Hyunse anda por aí fazendo todo tipo de coisa ruim, mas teve sorte de ter encontrado você em algum lugar.
Deviam ser palavras vazias. Se alguém fosse comparar os dois, Kwon Siyul não chegava nem aos pés de Woo Hyunse. Por um golpe de sorte, estava ao lado dele agora, mas nem isso duraria muito mais. Era como uma vela se consumindo, já mostrando o fundo.
Quando lhe disseram para voltar para dentro, Kwon Siyul fez a gerente entrar primeiro. Por algum motivo, ele não queria entrar. Kwon Siyul ficou parado ali, sem expressão, antes de se sentar devagar.
Como tinha esquecido o casaco, o vento frio se infiltrava pela nuca dele. Kwon Siyul encolheu o pescoço como uma tartaruga, mas não entrou de imediato. Era um frio conhecido. Ele conseguia suportar. Provavelmente, mesmo que saísse da casa de Woo Hyunse, a situação não seria muito diferente. Um frio suportável, uma solidão suportável. Uma… saudade suportável.
— …O que eu queria dar e receber era amor…
A voz da gerente, remoendo lembranças do passado, parecia distante, como um rádio cheio de chiado. Ela tinha dado amor ou recebido? Quanto mais ele refletia, mais fundo caía num labirinto. O peso das emoções que de repente o inundavam parecia enorme. Embora invisível, parecia pressioná-lo, achatando-o contra o chão.
Ele mal tocou na comida e só bebeu muito. Relutante em se despedir depois da primeira rodada, inevitavelmente seguiu para a segunda. Sabia que o novo guarda-costas espreitava não muito longe, demonstrando insatisfação, mas fingiu não ver. Queria ficar fora o máximo possível.
A bebedeira se dispersou depois da segunda rodada. Ele queria sugerir uma terceira, mas não podia prender à força quem tinha que trabalhar no dia seguinte.
A gerente, que estava relativamente sóbria entre eles, colocou cada funcionário num táxi e os mandou para casa. Yang Hye-na, fraca para bebida, já tinha desaparecido depois de declarar derrota na primeira rodada. Quando a gerente tentou mandar Kwon Siyul para casa também, ele balançou a cabeça. Ainda não queria voltar.
Depois de garantir à gerente que ficaria bem e se despedir dela, Kwon Siyul passou por um parque, supostamente para ficar sóbrio. Talvez por ter excedido muito sua capacidade de beber, ele desabou de lado no banco assim que se sentou.
O guarda-costas, que em algum momento tinha se aproximado, informou que era hora de voltar, mas Kwon Siyul insistiu em descansar mais um pouco, causando problemas. Ameaçou com os olhos esbugalhados que, se o levassem agora, seria sequestro e ele gritaria a plenos pulmões. O guarda-costas não teve outra escolha a não ser recuar, deixando Kwon Siyul sozinho.
Kwon Siyul se esticou inteiro no banco, sorrindo enquanto comemorava a vitória. Não parava de rir. Como alguém com um furo no pulmão, fazia sons sibilantes, mas, percebendo que não havia ninguém por perto, foi diminuindo a risada aos poucos.
Logo se encolheu feito uma larva, curvando as costas. Ao mudar de posição, a barra da jaqueta acolchoada escorregou para debaixo do banco e tocou o chão. Com medo de que a neve meio derretida e a sujeira manchassem a roupa, ele agitou as mãos rapidamente para agarrar a barra.
Era uma jaqueta acolchoada de um branco ofuscante. Preciosa, ao contrário do banco velho ou do seu eu bêbado. Quando Kwon Siyul balançou a cabeça, dizendo que branco suja fácil, Woo Hyunse o vestiu pessoalmente, dizendo que compraria uma nova todos os dias se fosse preciso.
No dia em que Kwon Siyul rolou sobre a jaqueta acolchoada em vez de um cobertor no bar, Woo Hyunse lhe comprou uma nova, como se quisesse provar o que dizia. Quantos casacos já não ocupavam espaço num canto do armário daquele jeito?
De algum modo, a ponte do nariz ardeu. Kwon Siyul fungou e esfregou os olhos.
— …quero.
Quero vê-lo. Mesmo vagando lá fora sem querer vê-lo, dizem que palavras de bêbado são pensamentos de sóbrio, e seus verdadeiros sentimentos rastejaram para fora pelos lábios sem serem chamados. Como se punisse a boca por falar à vontade, ele mordeu o lábio inferior dolorosamente com os dentes de cima.
Não seria tão ruim morrer congelado assim. A morte costumava ser a coisa mais assustadora do mundo, mas, ultimamente, esse ranking tinha mudado. Kwon Siyul tinha mais medo de Woo Hyunse do que da morte. Mais precisamente, tinha pavor de que Woo Hyunse lhe desse as costas friamente e o ignorasse.
Como é que, quanto mais se gosta de alguém, quanto mais o coração vai em direção a essa pessoa, mais aterrorizante ela se torna, mais até do que fantasmas ou a morte?
Ele só pretendia fechar os olhos por um momento, mas adormeceu. Woo Hyunse apareceu em seu sonho fragmentado. Com o sorriso radiante que um dia mostrara a Kwon Siyul, estendia a mão para alguém. Uma linda mulher num vestido de noiva branco puro sorria de volta e pegava a mão dele.
Kwon Siyul estava sentado numa cadeira gasta, longe do local do casamento, assistindo à cerimônia enfeitada com flores frescas. Era um casamento lindo, sem um único defeito, por mais que se olhasse de perto. Todos aplaudiam e assobiavam, abençoando o futuro brilhante do casal.
Só o lugar onde Kwon Siyul estava sentado ficava na sombra. Ele não conseguia fechar os olhos, mesmo querendo, e não conseguia se levantar, mesmo querendo, com os pés pregados no chão. Permanecia rígido, como se não fosse um convidado, mas uma decoração colocada ali sem pensar no casamento.
Ele queria gritar por socorro, mas, embora a boca se abrisse, nenhum som saía, e ele mal conseguia respirar. Embora fosse primavera, com pétalas de flores esvoaçando, o vento que arranhava a pele de Kwon Siyul era um vento norte, frio e cortante.
Não.
Por favor.
Por favor…
Com um arquejo, Kwon Siyul abriu os olhos de repente. O coração batia violentamente, e as pupilas negras estavam dilatadas como luas cheias. A visão oscilava, e ele moveu os olhos de um lado para o outro, examinando os arredores.
Era o parque. Lembrou-se tardiamente de ter se deitado no banco, dizendo que ia descansar só um pouquinho.
O álcool tinha aquecido seu corpo, deixando-o alheio ao frio. Depois de se encolher bem, ele se sentou, fungando enquanto o vento cortante invadia suas roupas. O ar, que estava limpo momentos antes, agora estava cheio de flocos de neve grossos e rodopiantes. A neve tinha se acumulado aqui e ali no chão frio, como bolinhas de algodão espalhadas.
Ele tirou o celular do bolso para ver quanto tempo tinha dormido. Mas o aparelho não respondia, mesmo tocado repetidas vezes. Quando apertou o botão de ligar, só o indicador de bateria fraca piscou.
Olhou em volta. O guarda-costas, que sempre ficava por perto, não estava em lugar nenhum. Talvez, enojado com o comportamento bêbado de Kwon Siyul antes de ele adormecer, tivesse desistido e ido embora. Kwon Siyul queria pegar um celular emprestado de alguém se houvesse alguém por perto, mas, fosse pelo tempo gelado ou pelo horário avançado, o parque com sua fileira de postes de luz estava vazio, sem nem uma formiga passando.
Pensando que devia passar numa loja de conveniência, estava prestes a se levantar, apoiando a mão no banco, quando ouviu passos se aproximando ao longe. Limpou o nariz vermelho com as costas da mão e virou a cabeça naquela direção. Através da neve que caía, pôde ver uma figura grande e uma longa sombra projetada pela luz fraca do poste, ambas familiares a seus olhos.
Será que ainda não estava sóbrio? Esfregou os olhos e olhou de novo. Os passos que vinham direto em sua direção não mostravam sinais de hesitação. A cada passo mais perto, flocos de neve brancos e grossos se agarravam a ombros que pareciam nunca ter conhecido a palavra “encolher”. Agarravam-se também ao casaco longo e grosso e ao cabelo, negro como tinta.
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Continua *ੈ🍸✩‧₊˚
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna