• Capítulo 78
Capítulo 78
O sol se pôs cedo por causa do inverno. Kwon Siyul ficou fora até o anoitecer antes de voltar para casa. Suspirou fundo, encostando a testa na porta da frente e ficando ali, sentado, por um tempo. Só depois que o guarda-costas pigarreou para apressá-lo é que ele entrou em casa, relutante.
O ar lá dentro estava frio. Kwon Siyul começou a ligar o aquecimento, mas hesitou e baixou a mão. Não queria fazer aquilo. Tudo parecia tão incômodo para ele naquele momento. Só queria ficar sentado sem pensar em nada, dormir, e às vezes até abrir os olhos o irritava. Ultimamente, ele ficava na cama todas as manhãs, independentemente de Woo Hyunse já ter saído para o trabalho, só saindo do quarto depois de ouvir a porta da frente se fechar.
Kwon Siyul se lavou às pressas e voltou para o quarto, deitando-se na cama. Mesmo debaixo das cobertas, não havia calor. Ainda assim, recusou-se teimosamente a ligar o aquecimento e se encolheu onde estava. Talvez por ter andado muito depois de tanto tempo, as pálpebras pesavam e o corpo inteiro parecia afundar na cama.
Ele cochilou brevemente, mas abriu os olhos grogues com um barulho conhecido. O som da porta da frente se abrindo era pesado. Embora soubesse que Woo Hyunse tinha visto seus sapatos e percebido que ele estava em casa, Kwon Siyul não queria sair abanando o rabo como antes. Fechou os olhos, fingindo não ter ouvido nada. No entanto, a presença de outra pessoa o impedia de adormecer.
Enquanto se revirava, ele se sobressaltou com o som da porta do quarto se abrindo e rapidamente se virou para a parede. Embora tivesse desistido e estivesse ficando na casa de Woo Hyunse, queria evitar ao máximo encontrar o dono da casa.
Uma sombra caiu sobre o travesseiro dele. Woo Hyunse vinha suspirando com mais frequência ultimamente. Será que o trabalho estava difícil? Kwon Siyul não entendia por que Woo Hyunse suspirava tão pesadamente, mesmo ele tendo prometido ficar quieto em casa. Talvez, pelo contrário, fosse justamente por ele estar enfurnado em casa, sem nenhuma consideração. Devia ter ido embora por conta própria, mas tinha desistido cedo e estava rolando feito poeira na casa dos outros.
Será que a testa dele estaria franzida? Ele costumava pressionar os dedos nas rugas para alisá-las. Até agora, as pontas dos dedos formigavam de vontade de fazer isso.
Um lado da cama afundou pesadamente. Apesar do significado óbvio por trás de Kwon Siyul ter virado as costas, Woo Hyunse ignorou a rebelião silenciosa e estendeu a mão para acariciar o cabelo dele. A mão era quente. No corpo de Kwon Siyul, que tinha continuado frio mesmo enterrado sob o cobertor, o calor permanecia apenas onde a mão de Woo Hyunse tinha tocado.
— E o jantar?
Ele perguntou como se soubesse muito bem que Kwon Siyul estava acordado. O dia inteiro, Kwon Siyul só tinha tomado um copo de café da máquina e comido um kimbap triangular de loja de conveniência. Não tinha apetite nem queria comer nada, mas se forçou a comer alguma coisa pelo bem do guarda-costas que o seguia por aí, sem querer que ele se metesse em problemas. Mesmo assim, deixou mais da metade.
Kwon Siyul desejou que Woo Hyunse achasse que ele estava dormindo e fosse embora, mas, em vez disso, ele continuou mexendo no cabelo e no rosto de Kwon Siyul. Se afastasse a mão, revelaria que estava acordado, mas, se não afastasse, o toque persistente continuaria a irritá-lo ainda mais. Kwon Siyul fechou os olhos com força antes de agarrar a mão de Woo Hyunse e afastá-la.
— Eu não estou com fo…
Antes que pudesse terminar a frase, seu estômago roncou alto. Kwon Siyul apertou a barriga, ressentido, como se tentasse silenciar o barulho que tinha estragado o clima. Apesar do aperto firme, ela roncou de novo, como que por pirraça. Na escuridão, as bochechas de Kwon Siyul coraram.
— Vem. Eu comprei uma marmita.
— Não quero comer. Não estou com fome mesmo. Meu estômago só está fazendo barulho.
— Não seja teimoso.
— Eu não quero…
— Vou precisar te amarrar e te dar comida na boca?
Woo Hyunse era do tipo que cumpria o que dizia. Kwon Siyul tinha aprendido isso na pele. Como não podia de jeito nenhum acabar com os pulsos amarrados na cama e uma colher enfiada na boca, Kwon Siyul se levantou devagar. O ar fora do cobertor estava muito mais frio. Ele tremeu, os ombros estremecendo.
Woo Hyunse cobriu Kwon Siyul com o cobertor. Depois de embrulhá-lo bem até a frente, Woo Hyunse se levantou. Mandando Kwon Siyul esperar, ele aumentou a temperatura do aquecimento no máximo antes de sair.
Woo Hyunse logo voltou com uma bandeja nas mãos. Uma grande marmita foi colocada na mesa redonda. Quando ele abriu a tampa, acompanhamentos luxuosos estavam cuidadosamente arrumados nos compartimentos. Havia abalone grelhado na manteiga, bulgogi com cogumelos shiitake e cenouras salteados, arroz misturado com arroz preto, sopa de algas cheia de mexilhões, e o compartimento de baixo estava repleto de frutas da estação e sobremesas doces.
Era uma refeição que podia estimular o apetite tanto pela visão quanto pelo cheiro. No entanto, Kwon Siyul encarava sem expressão o banquete diante de si, como se fosse um modelo de vitrine. Embora o estômago tivesse roncado, indicando que ele de fato estava com fome, a visão da comida reluzente não despertava seu apetite.
— Não posso simplesmente não comer?
Parecia que não conseguiria digerir de qualquer forma. Kwon Siyul hesitou, mantendo as mãos dentro do cobertor. Woo Hyunse observou a birra dele em silêncio e, de repente, ergueu Kwon Siyul, com cobertor e tudo, e o sentou entre as pernas.
Woo Hyunse pegou arroz pessoalmente e colocou os acompanhamentos por cima. Como se alimentasse uma criança enjoada para comer, levou com cuidado uma colherada à boca de Kwon Siyul.
Lembrando-se da ameaça de ser amarrado e alimentado à força, Kwon Siyul entreabriu os lábios. A colherada arredondada de arroz entrou em sua boca. Ele mastigou devagar, mas parecia que grãos de areia rolavam na língua, tornando difícil engolir qualquer coisa.
— Está comendo direitinho.
O arroz bem compactado no recipiente foi se esvaziando devagar. Os acompanhamentos diminuíam aos poucos. Kwon Siyul se forçava a mastigar e engolir os grãos de arroz secos.
Se ao menos ele não fosse tão gentil.
Se tivesse sido frio, Kwon Siyul poderia ter aceitado, mesmo que ficasse triste.
Se o tivesse afastado com dureza, Kwon Siyul poderia tê-lo xingado e esquecido, mesmo chorando.
O calor do corpo de Woo Hyunse era mais quente que o cobertor. Como qualquer um que só tivesse vivido em lugares frios e então encontrasse uma fogueira quente, Kwon Siyul não queria sair daquele abraço.
Por que Woo Hyunse não era tão sem coração quanto o seu cheiro?
Por que continuava levando calor à vida invernal de Kwon Siyul?
A garganta estava apertada, mas a colher continuava vindo. Até todo o arroz acabar, Kwon Siyul não moveu um dedo. Ficou sentado obedientemente entre as pernas de Woo Hyunse, engolindo cada colherada que lhe davam. E, com elas, engoliu suas emoções.
No fim, ele teve indigestão. O rosto ficou pálido e respirar se tornou difícil. Só depois de se agarrar ao vaso e vomitar ele se sentiu melhor. Apesar de tê-lo alimentado à força, Woo Hyunse não mostrou nenhum sinal de remorso enquanto dava tapinhas firmes nas costas de Kwon Siyul e até lhe dava um banho quente.
Exausto, Kwon Siyul se deitou na cama. Woo Hyunse se deitou com ele, abraçando-o por trás. Em vez de mandá-lo embora, Kwon Siyul mexeu os dedos dos pés. O quarto estava quente o bastante para ficar confortável sozinho, mas ele não queria perder o calor do corpo de Woo Hyunse.
Seus sentimentos eram de fato conflitantes. Não queria ficar junto, mas detestava ainda mais se separar. Não sabia como definir essas emoções.
De repente, lembrou-se da conversa que tivera com o guarda-costas no parque. Kwon Siyul estava de frente para a parede. Não olhar para o rosto de Woo Hyunse lhe deu coragem para perguntar.
— …Sua noiva. Que tipo de pessoa ela é?
A mão de Woo Hyunse, que brincava com a de Kwon Siyul, parou abruptamente. Ele se apoiou um pouco e olhou para Kwon Siyul. Kwon Siyul continuava com o olhar fixo na parede.
— Por que quer saber?
— Estou curioso. Já que você vai se casar com ela…
Woo Hyunse voltou a apoiar a cabeça no travesseiro. Puxou Kwon Siyul para mais perto e enterrou os lábios em sua nuca. Enquanto subia beijando a linha do pescoço de Kwon Siyul, Kwon Siyul contorceu os ombros. Diferente de antes, não riu dizendo que fazia cócegas.
— Não sei.
— Mas ela é a pessoa com quem você vai se casar.
— Não tem necessidade de saber.
— Você quer dizer pra mim?
— Pra mim também.
— Não é indiferença demais com a sua futura esposa?
— Saber o nome e onde ela trabalha é o suficiente.
Ele parecia descontente com o interesse de Kwon Siyul. Ainda assim, Kwon Siyul não conseguia parar de perguntar. Estava curioso sobre como Woo Hyunse via aquela pessoa. Se havia o menor afeto.
— Ouvi dizer que ela é advogada.
— Quem te disse isso?
— Ouvi por aí. Que ela é gentil e boa no que faz.
— …
— E é bonita, pelo que vi.
Woo Hyunse ergueu a cabeça de novo. Apoiou-se no cotovelo, descansando a cabeça na mão. As bochechas de Kwon Siyul ardiam sob o olhar intenso dele.
— O que é que o Kwon Siyul quer ouvir?
— Só estou curioso, só isso.
Woo Hyunse fez um som pensativo e fez cócegas na bochecha de Kwon Siyul com as pontas dos dedos. Kwon Siyul quis afastá-lo, mas aguentou, pensando que aquilo poderia levar a uma resposta.
— O nome é In Seohee. Advogada no Escritório de Advocacia Yusong e Ômega Dominante. Ela também tem um amante e deu um officetel a essa pessoa como presente de casamento. Concordamos em não interferir na vida privada um do outro.
Ele falava como se descrevesse uma desconhecida com quem nunca tivesse sequer roçado a manga, não sua noiva. Não havia um traço de afeto em sua voz. Kwon Siyul sentiu outra onda de autodesprezo por sentir alívio com isso.
Mesmo assim, isso não mudava o fato de que alguém novo ocuparia um lugar ao lado de Woo Hyunse, mas ele se agarrava a uma esperança inútil. Pelo menos Woo Hyunse não parecia ter nenhum afeto por aquela pessoa.
— Então não se preocupe com isso. Você só fica aqui, do jeito que está agora. Na nossa casa.
Esperar Woo Hyunse voltar do trabalho, perguntando-se quando Woo Hyunse, que tinha construído um ninho com a esposa, voltaria para casa, aquecendo a entrada como um cachorro. Ainda se consolando com todas as ilusões que alguém na posição de amante poderia ter, acreditando que o coração de Woo Hyunse era dele.
— Kwon Yuwon ainda está vivo e bem. Isso vai acabar logo.
Kwon Siyul, que estava virado para a parede, virou a cabeça pela primeira vez. Woo Hyunse segurou a bochecha de Kwon Siyul com a palma. Beijou os lábios de Kwon Siyul, mas não aprofundou o beijo.
— Quando?
— Logo.
Ele não sabia o momento exato. Mas Kwon Siyul sentia que o fim daquela farsa ridícula não estava longe. Um leve sorriso começou a surgir, mas seus lábios se torceram imperceptivelmente antes de voltarem à posição original.
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Continua *ੈ🍸✩‧₊˚
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna